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sexta-feira, 29 de maio de 2015

9 DE JUNHO DE 2015


BELINDA, A ESCRAVA DO SILÊNCIO (1948)

Elmer Blaney Harris escreveu a peça de teatro que está na origem deste filme de Jean Negulesco. A peça parece ter sido inspirada em acontecimentos reais, ocorridos em Fortune Bridge, na Ilha do Príncipe Eduardo, onde o escritor tinha uma residência de verão. Elmer Blaney Harris, juntamente com Allen Vincent e Irma von Cube escreveram o argumento do filme, que teve um certo sucesso crítico aquando da sua estreia, apesar de o tema ser considerado “um veneno” de bilheteira.
Grande parte desse sucesso deve-se ao seu elenco, onde sobressai uma magnífica Jane Wyman, no papel de uma jovem surda-muda que atravessa momentos dramáticos na sua existência, mas que está bem acompanhada pelo restante elenco e inclusive pelos responsáveis técnicos. Se não, vejamos as nomeações para Oscars que recebeu nesse ano: Melhor Filme, Melhor Realizador (Jean Negulesco), Melhor Actor (Lew Ayres), Melhor Actor secundário (Charles Bickford), Melhor Actriz secundária (Agnes Moorehead), Melhor Argumento Adaptado, Melhor Fotografia (a preto e branco), Melhor Montagem, Melhor Som, Melhor Música, Melhor Direcção Artística (a preto e branco). Só Jane Wyman acabaria por ver reconhecido o seu talento, mas as 12 nomeações não deixam de ser significativas. Nos Globos de Ouro de 1949, Jane Wyman voltou a ganhar, mas “Johnny Belinda” seria igualmente consagrado como Melhor Filme do ano (juntamente com The Treasure of the Sierra Madre, de John Huston).
Este é um dos títulos de que guardo grata recordação dos meus tempos de criança, quando o vi pela primeira vez. No início da década de 50, Jane Wyman era uma das actrizes da minha particular estima, o que nunca esqueci. Esta recuperação é um tributo óbvio a essa memória. Presentemente é fácil reconhecer, todavia, que o filme justifica uma ampla atenção, mas está, quanto à sua realização, uns pontos abaixo de algumas obras deste mesmo período, dirigidas por cineastas com um outro elã (que não este relativo cinzentismo de Jean Negulesco). O que nos recoloca na ideia essencial: um filme interessante, é certo, um drama a resvalar para o melodrama, eficazmente contado e bem condimentado tecnicamente, mas uma obra impar fundamentalmente pelos actores que a interpretam, com Jane Wyman num desempenho absolutamente soberbo de contenção, de sobriedade, num papel que facilmente deslizaria para o rodriguinho fácil e o estereótipo. Uma contenção que iria manter ao receber o Oscar, proferindo o que se julga o mais curto discurso de aceitação da estatueta: "Ganhei este prémio mantendo a boca fechada e acho que vou fazê-lo novamente".


Inteiramente filmado na costa da Califórnia, EUA, a história “passa-se” todavia na ilha de Cape Breton, na Nova Escócia, uma província atlântica do Canadá, pouco tempo depois de terminada a II Guerra Mundial. Numa pequena aldeia de pescadores, vive Belinda McDonald (Jane Wyman), surda-muda, filha de Black McDonald (Charles Bickford), pai rude e vigoroso, dedicado ao trabalho e excessivamente protector e áspero na forma de tratamento. Em casa vive ainda a tia Aggie McDonald (Agnes Moorehead), que de alguma forma procura atenuar o ambiente. Belinda irá cruzar o seu destino com dois homens, Locky McCormick (Stephen McNally), que a irá violar numa noite de bebedeira, e um médico, o Dr Robert Richardson (Lew Ayres) que se interessa pelo seu caso, a ensina a comunicar, e acaba por ser acusado de ser o pai da criança que nasce da violação. Dizer mais do que isto, iria quebrar o interesse do desenlace da obra, mas por aqui se percebe já o tom melodramático do entrecho. Mas será muito justo, sublinhar ainda o trabalho de uma actriz, não nomeada, mas particularmente talentosa e que aqui tem igualmente um belíssimo trabalho: Jan Sterling, a jovem secretária do Dr Robert Richardson, por quem está apaixonada, e que acaba por se casar com Locky McCormick.
Casada com Ronald Reagan, que seria futuramente Presidente dos EUA, era Jane Wyman. Consta que o casamente se rompeu durante a rodagem de “Johnny Belinda” (divorciaram-se ainda em 1948), aparentemente por causa de uma paixão sua para com o seu par, Lew Ayres, mas este relacionamento não teve longa duração. De qualquer forma, Jane Wyman é a única ex-mulher de um Presidente dos EUA a ter recebido um Oscar. Depois deste período de grande relevo na carreira da actriz, esta só voltaria a ser muito popular, já na televisão, décadas depois, como um dos rostos da série “Falcon Crest”.

BELINDA, A ESCRAVA DO SILÊNCIO
Título original: Johnny Belinda
Realização: Jean Negulesco (EUA, 1948); Argumento: Irmgard VonCube, Allen Vincent, segundo peça teatral de Elmer Harris; Produção: Jerry Wald; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Ted D. McCord; Montagem: David Weisbart; Direcção artística: Robert M. Haas; Guarda-roupa: Milo Anderson, Marie Blanchard, Patricia Davidson, Eugene Joseff, Frank Ricci; Decoração: William Wallace; Maquilhagem: Perc Westmore, Betty Delmont, Frank McCoy; Direcção de Produção: Frank Mattison; Assistentes de realização: Mel Dellar, Lee White; Departamento de arte: Harry Goldman, Frederick Kuhn; Som: Charles Lang; Efeitos especiais: Edwin B. DuPar, William C. McGann; Companhia de produção: Warner Bros.; Intérpretes: Jane Wyman (Belinda McDonald), Lew Ayres (Dr. Robert Richardson), Charles Bickford (Black MacDonald), Agnes Moorehead (Aggie MacDonald), Stephen McNally (Locky McCormick), Jan Sterling (Stella McCormick), Rosalind Ivan (Mrs. Poggety), Dan Seymour, Mabel Paige, Ida Moore, Alan Napier, Barbara Bates, Monte Blue, James Craven, Franklyn Farnum, Creighton Hale, Jonathan Hale, Holmes Herbert, Charles Horvath, Douglas Kennedy, Blayney Lewis, Alice MacKenzie, Ray Montgomery, 'Snub' Pollard, Jeff Richards, Richard Walsh, Joan Winfield, Ian Wolfe, Frederick Worlock, etc. Duração: 102 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 9 de Janeiro de 1950.


JANE WYMAN (1917-2007)
De Jane Wyman tenho a boa recordação de a ver, no início da década de 50, era eu criança, em três filmes que não mais esqueci: “O Despertar”, “Belinda, a Escrava do Silêncio” e “O Véu Azul”, todos eles de uma emoção galopante que a actriz dominava brilhantemente. Manter fidelidade a paixões de adolescente parece-me de bom-tom, sobretudo depois de revisitadas as obras em questão e verificadas algumas das virtudes. 
Sarah Jane Mayfield era o seu nome de baptismo, com nascimento anunciado n o dia 5 de Janeiro de 1917, em St. Joseph, Missouri, EUA. Viria a falecer, com 90 anos, no dia 10 de Setembro de 2007, em Palm Springs, California, EUA, devido a complicações causadas por diabetes e artrites. Com os pais separados, Gladys Hope Christian e Manning Jefferies Mayfield, e órfã de pai aos oito anos, foi adoptada por uma família, e passou a assinar Jane Faulks. Tentou sem êxito por essa altura a carreira de actriz. Aos 15 anos, apareceu num número de dança, numa coreografia de Busby Berkeley, em “Toureiro à Força”. Passou pela Universidade do Missouri, em 1932, lançou-se depois numa carreira de cantora de rádio, mudando o nome para Jane Durrell. Apareceu em muitos filmes como simples figurante e, em 1936, assinou um contracto com a Warner Bros., passando a chamar-se Jane Wyman. Por essa altura, apareceu ao lado do seu futuro marido, Ronald Reagan, em “O Diabo São os Rapazes” (1938) e “Um Miúdo dos Diabos” (1940). Na década de 40, especializou-se em papéis de comédias e melodramas, como “Farrapo Humano” (1945), “O Despertar” (1946) (nomeação para o Oscar),“Belinda, a Escrava do Silêncio” (1948) (Oscar e Globo), “Pânico nos Bastidores” (1950), “A Sorte Bate à Porta” (1951), “The Story of Will Rogers” (1952) “Algemas de Cristal”(1950), “Só Para Ti” (1952), “O Véu Azul” (1951) (nova nomeação e segundo Globo), “Sublime Expiação” (1954) (quarta nomeação),   “Vida da Minha Vida” (1953), “Orgulho Contra Orgulho” (1955), “Tudo o Que o Céu Permite” (1955) ou “Milagre à Chuva” (1956). Dedicou-se muito intensamente à televisão, sobretudo em “Jane Wyman Presents The Fireside Theatre” (1955), nomeada por duas vezes como Melhor Actriz em série dramática (57 e 59), e algumas décadas depois, nos anos 80, na série “Falcon Crest”, novamente nomeada para um Globo de Ouro (1983) e vencedora do Globo em 1984. Nos anos 90, retirou-se para o seu Rancho Mirage, na Califórnia, tendo falecido com 90 anos, na sua casa de Palm Springs, em 2007. No Hollywood Walk of Fame, Jane Wyman possui duas estrelas, uma referente a cinema, junto ao nº6600 do Hollywood Boulevard, outra relativa a televisão, cerca do nº 1600 de Vine Street. Casada (e divorciada) cinco vezes, duas delas com o mesmo hmem: Ernest Eugene Wyman (1933 – 1935), Myron Futterman (1937 - 1938), Ronald Reagan (1940 - 1948), Fred Karger (1952 - 1954), Fred Karge (1961 - 1965).


Filmografia
Como actriz /cinema: 1932: The Kid from Spain (Toureiro à Força), de  Leo McCarey; 1933: Gold Diggers of 1933 (Orgia Dourada), de Mervyn LeRoy; Elmer, the Great, de Mervyn LeRoy; 1934: College Rhythm, de Norman Taurog; Harold Teen, de Murray Roth; 1935: Broadway Hostess, de Frank McDonald; Stolen Harmony, de Alfred L. Werker; George White's 1935 Scandals, de George White, Harry Lachman, James Tinling; All the King's Horses, de Frank Tuttle; Rumba, de Marion Gering; 1936: Cain and Mabel (Caim e Mabel), de Lloyd Bacon; King of Burlesque, de Sidney Lanfield; Freshman Love, de William C. McGann; Anything Goes, de  Lewis Milestone; Bengal Tiger (O Tigre de Bengala), de Louis King; 1936: The Sunday Round-Up (curta-metragem); My Man Godfrey (Doidos Milionários), de Gregory La Cava; Gold Diggers of 1937 (Revista Maravilhosa de 1937), de Lloyd Bacon; Polo Joe (O Campeão de Polo), de William C. McGann; Here Comes Carter, de  William Clemens; Stage Struck, de  Busby Berkeley; 1937: The King and the Chorus Girl (O Rei e a Corista), de Mervyn LeRoy; Smart Blonde, de Frank McDonald; Ready, Willing and Able, de Ray Enright; Slim, de  Ray Enright; Little Pioneer (curta-metragem); Over the Goal, de  Noel M. Smith, Mr. Dodd Takes the Air, de Alfred E. Green; Public Wedding, de Nick Grinde; The Singing Marine, de Ray Enright; 1938: The Crowd Roars (A Multidão Vibra), de Jean Daumery; Brother Rat (O Diabo São os Rapazes), de William Keighley; Fouls for Scandals (Escândalos de Amor), de Mervyn LeRoy, Bobby Connolly; He Couldn't Say No, de Lewis Seiler; The Spy Ring, de Joseph H. Lewis;  The Kid from Kokomo (Eu Quero a Mamã!...), de Lewis Seiler; Wide Open Faces (Hotel de Gangsters), de Kurt Neumann; 1939: Tail Spin (Águias de Glória), de Roy Del Ruth; Kid Nightingale, de George Amy; Private Detective, de Noel M. Smith; Torchy Blane.. Playing with Dynamite, de Noel M. Smith; Flight Angels (Anjos na Terra), de Lewis Seiler; 1940: Brother Rat anda Baby (Um Miúdo dos Diabos), de Ray Enright; Alice in Movieland (curta-metragem); 1940: My Love Came Back, de Curtis Bernhardt; Alice in Movieland (curta-metragem); Tugboat Annie Sails Again (Quando uma Mulher é Valente), de  Lewis Seiler; Gambling on the High Seas, de George Amy; An Angel from Texas, de Ray Enright;  1941: You're in the Army Now, de Lewis Seiler; Bad Men of Missouri, de Ray Enright; 1941: Honeymoon for Three (Lua-de-Mel para Três), de Lloyd Bacon; The Body Disappears, de D. Ross Lederman; 1942: My Favorite Spy (O Rei dos Detectives), de Tay Garnett; Larceny, Inc (Não Vale a Pena Roubar), de Lloyd Bacon; Footlight Serenade (Serenata da Alegria) de Gregory Ratoff; 1943: Princess O'Rourke (Sua Alteza Quer Casar), de Norman Krasna; 1944: The Doughgirls (O Hotel da Barafunda), de James V. Kern; Make Your Own Bed, de Peter Godfrey; Crime by Night, de William Clemens; Hollywood Canteen (Sonho em Hollywood), de Delmer Daves; 1945: The Lost Weekend (Farrapo Humano) de Billy Wilder; One More Tomorrow (Quero-te), de Peter Godfrey; 1946: The Yearling (O Despertar), de Clarence Brown; Night and Day (Fantasia Dourada), de Michael Curtiz; 1947: Cheyenne (Feras Sangrentas), de Raoul Walsh; Magic Town (A Cidade Mágica), de William A. Wellman; 1948: Johnny Belinda (Belinda, a Escrava do Silênio), de Jean Negulesco; 1949: A Kiss in the Dark (Um Beijo no Escuro), de Delmer Daves; It's a Great Feeling (Mademoiselle Fifi), de David Butler; 1949: The Lady Takes a Sailor (Até Parece Mentira), de Michael Curtiz; 1950: Stage Fright (Pânico nos Bastidores), de Alfred Hitchcock; The Glass Menagerie (Algemas de Cristal), de Irving Rapper; 1951: Three Guys Named Mike (Uma Noiva Para Três), de Charles Walters; The Blue Veil (O Véu Azul), de Curtis Bernhardt; Thea Screen Director (curta-matragem); 1951: Starlift (O Teu Amor e Uma Cabana), de  Roy Del Ruth; Here Comes the Groom (A Sorte Bate à Porta), de Frank Capra; 1952: Just for You (Só Para Ti), de Elliott Nugent; The Story of Will Rogers, de Michael Curtiz; 1953: Let's Do It Again (A Meia-Noite do Amor), de Alexander Hall; 1953: So Big (Vida da Minha Vida), de Robert Wise; Three Lives, de Edward Dmytryk (curta-metragem); 1954: Magnificent Obsession (Sublime Expiação), de Douglas Sirk; 1955: All That Heaven Allows (Tudo o Que o Céu Permite), de Douglas Sirk; 1955: Oil Town ou Lady Gallant (Orgulho Contra Orgulho), de Robert Parrish; 1956: Miracle in the Rain (Milagre à Chuva), de Rudolph Maté; 1959: Holiday for Lovers (Namorados em Férias), de Henry Levin; 1960: Pollyanna (Pollyanna), de David Swift; 1962: Bon Voyage! (Viagem a Paris), de James Neilson; 1969: How to Commit Marriage (Casamento à Americana), de Norman Panama; 1987: Happy 100th Birthday Hollywood (documentário TV); 1996: Wild Bill: Hollywood Maverick (documentário); 1998: Off the Menu: The Last Days of Chasen's (documentário); 2002: The Making of 'Far From Heaven' (documentário TV).

Como actriz /televisão: 1954: Summer Playhouse; 1955: General Electric Theater; 1955-1958: Jane Wyman Presents The Fireside Theatre; 1958 e 1962: Wagon Train; 1959: Lux Playhouse; 1960: Checkmate; 1960: Westinghouse Desilu Playhouse; 1961: The Investigators; 1964 e 1967: Insight; 1966: Bob Hope Presents the Chrysler Theatre; 1968: The Red Skelton Show; My Three Sons; 1971: The Failing of Raymond; 1972: The Sixthe Sense; 1972-1973: The Bold Ones: The New Doctors; 1973: Amanda Fallon; 1974: Owen Marshall: Counselor at Law; 1979: The Incredible Journey of Doctor Meg Laurel; 1980: The Love Boat; Charlie's Angels; 1981-1990: Falcon Crest; 1993: Dr. Quinn, Medicine Woman.

3 DE JUNHO DE 2015


A DAMA DE XANGAI (1948)

Depois de “O Mundo a Seus Pés” e “O 4º Mandamento”, que muitos consideram os títulos mais pessoais de Orson Welles, outra das suas obras mais significativas é “A Dama de Xangai”, rodada em 1948 para a Columbia Pictures. Diz a lenda, e as informações do próprio Welles, que este policial, retirado de um romance menor de Sherwood King ("If I Die Before I Wake"), se concretizou porque o cineasta precisava de 25.000 dólares para ajudar a montar um espectáculo musical na Broadway, "A Volta ao Mundo em 80 Dias", e os conseguiu parcialmente. Como o espectáculo não se chegou a estrear, Welles perdeu essa soma e ficou em dívida para com o produtor Harry Cohn, o homem forte da Columbia. Para pagar a dívida, aceitou adaptar esta obra que seria interpretada por Rita Hayworth, vedeta número um da Columbia e, nessa altura, ainda mulher de Orson Welles, apesar de, por esses dias, correr já o processo de divórcio.
História, portanto, complexa a da génese deste filme, mais uma obra maldita no percurso de um cineasta genial, que considera só ter completado três ou quatro filmes - todos os outros acabaram adulterados por produtores que o não compreendiam e não toleravam com bons olhos as suas experiências estilísticas e a morosidade da montagem. Diga-se, em boa verdade, que não devia ser fácil trabalhar com Welles. Ele próprio o confessa, quando afirma em várias entrevistas suas, que para si uma montagem nunca está terminada. De uma maneira ou de outra, “The Lady from Shanghai” foi mais um filme que se estreou depois de ter sofrido uma montagem imposta pelo produtor, e sobretudo depois de lhe terem colado uma banda sonora “estranha” - que não é a original, portanto - e que exasperava particularmente o realizador, que a considerava música para aventuras de Pluto ou filmes da casa Disney.
Mas vamos ao início da história. Os tumultuosos amores de Welles e Rita Hayworth atravessavam um mau momento, com processo em tribunal e tudo. Mas, a actriz amava ainda Welles e este nunca deixou de se sentir apaixonado por ela. A frase final desta obra dir-se-ia que se adapta por inteiro a este romance mal resolvido. Harry Cohn, o produtor, que durante anos procurou afastar a sua vedeta de estimação das garras desse “intelectual fatídico”, achou nessa altura que seria certamente muito comercial juntar publicamente o casal litigante num policial. E fez tudo para reunir Welles e Rita Hayworth nesta obra. Welles começou por convocar a imprensa e levá-la a assistir a um crime de lesa imagem da diva: perante os fotógrafos, Rita Hayworth aceitou cortar o seu belo cabelo, que surgiria curto e louro em “The Lady from Shanghai”.
Depois, alugou o iate de Errol Flynn, que o pilota por vezes, sem que ele apareça nas imagens, e partiu para os mares do Sul, Acapulco e Sausalito, onde filmou durante várias semanas sem dar novas ao estúdio. Quando chegou a Holywood, com as bobines debaixo do braço, montou o filme e mostrou-o numa ante-estreia para previsão da recepção do público. Os resultados foram catastróficos - ninguém percebera a história, nem o próprio Harry Cohn, que ofereceu um prémio a quem lha contasse direita. Mas Harry Cohn, apesar de tudo, tinha algum respeito por Welles, que lhe pagava na mesma moeda. Welles compreendia o papel dos produtores, mesmo daqueles que não percebiam nada de cinema, como era o declarado caso de Harry Cohn. Já agora, um à parte divertido: conta-se que quando Harry Cohn morreu, o seu enterro foi muito concorrido, o que Billy Wilder explicava, com a ironia que lhe era peculiar: "Acontece, sempre que se dá ao povo aquilo que ele tem vontade de ver..."
Mas no caso de Rita Hayworth, o povo não gostava de a ver transformada e por terra na derradeira sequência. Mulher fatal, sim, mas, mesmo assim, "deusa do amor", mito romântico de uma Hollywood que se afeiçoara à imagem de fábrica de sonhos. Welles, no entanto, filmara a sua amada com verdadeiro amor na objectiva. Basta reter alguns planos admiráveis por onde evolui com a leveza de uma sombra branca e a sensualidade refreada de uma felina pronta a atacar.
A história é realmente um pouco complexa, mas não é nela que se encontra o verdadeiro interesse e significado do filme. A Orson Welles, vindo da traumatizante experiência de “It's All True”, obra abortada entre o México e o Brasil, interessavam sobretudo as personagens que se confrontam, o clima que se cria, as inovações técnicas e narrativas que ia introduzindo no cinema. Esta história de tubarões que se entredevoram quando o cheiro do sangue encharca as águas do oceano era uma história que tinha muito a ver consigo. Ele próprio lhe introduz anotações obviamente pessoais, como a referência a Fortaleza, e a própria metáfora dos tubarões.
Resumindo e concluindo, que quando se começa a falar de Orson Welles a tendência é para não parar mais, “A Dama de Xangai" acaba por ser um dos mais sentidos e sinceros filmes de Welles, uma das obras onde põe mais de si próprio, onde algumas das suas obsessões mais constantes, como os temas da culpabilidade e da falsidade, melhor encontram ressonância e explanação.
Um filme com imagens absorventes de criatividade, de vigor, de brilho, uma das mais fulgurantes aventuras do cinema que se queria moderno e inventivo. Apaixonado pela estética da distanciação de Bertolt Brecht, que considerava o teatro chinês aquele que melhor concretizava essa intenção, não será de estranhar que as derradeiras sequências desta obra decorram precisamente durante uma representação de teatro chinês - será aí que se descobrirá o verdadeiro culpado, culpado que será justiçado numa admirável sequência de espelhos múltiplos, onde a realidade se deforma, multiplica e estilhaça.  

A DAMA DE XANGAI
Título original: The Lady from Shanghai
Realização: Orson Welles  (EUA); Argumento: Orson Welles, William Castle, Charles Lederer  e Fletcher Markle (os três últimos não creditados), segundo romance de Sherwood King  (If I Die Before I Wake); Música Original: Heinz Roemheld  e ainda Doris Fisher e Allan Roberts  (canção "Please Don't Kiss Me") (não creditados); Fotografia (P/b): Charles Lawton Jr., Rudolph Maté   (não creditado), Joseph Walker (não creditado); Montagem: Viola Lawrence; Direcção artística: Sturges Carne, Stephen Goosson; Decoração: Wilbur Menefee, Herman N. Schoenbrun; Guarda Roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistentes de realização: Sam Nelson; Realizador da Segunda unidade: William Castle; Som: Lodge Cunningham; Efeitos Especiais: Lawrence W. Butler; Produção: William Castle, Harry Cohn, Orson Welles, Richard Wilson; Intérpretes: Rita Hayworth (Elsa "Rosalie" Bannister), Orson Welles (Michael O'Hara), Everett Sloane (Arthur Bannister), Glenn Anders (George Grisby), Ted de Corsia (Sidney Broome), Erskine Sanford (Juiz), Gus Schilling (Goldie), Carl Frank (Procurador Público, Galloway), Louis Merrill (Jake), Evelyn Ellis (Bessie), Harry Shannon (Taxista), William Alland, Jessie Arnold, Jack Baxley, Steve Benton, Vernon Cansino, Doris Chan, George Chirello, Wong Show Chong, Edward Coke, Peter Cusanelli, Al Eben, Edythe Elliott, John Elliott, Keenan Elliott, Joseph Granby, Robert Gray, Alvin Hammer, Maynard Holmes, Tiny Jones, Byron Kane, Milton Kibbee, Preston Lee, Grace Lem, Billy Louie, Charles Meakin, Philip Morris, Sam Nelson, Mary Newton, Joseph Palmer, Edward Peil Sr., Gerald Pierce, Joe Recht, Mabel Smaney, Harry Strang, Norman Thomson, Philip Van Zandt, Dorothy Vaughan, Richard Wilson, Artarne Wong, Jean Wong, etc. Rodagem: nos Estúdios da Columbia e exteriores no México, San Francisco, a bordo de "Zacca", o iate de Errol Flynn; Duração: 87 minutos; Estreia: Abril de 1948 em Inglaterra e Maio de 1948 nos EUA;;  Distribuição Internacional: Columbia Pictures; Distribuição em Portugal: Radio Filmes (Portugal);Edição vídeo: Costa do Castelo.


RITA HAYWORTH (1918 - 1987)
Rita Hayworth, de nome de baptismo Margarita Carmen Cansino, nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, a 17 de Outubro de 1918 e faleceu na mesma cidade, a 14 de Maio de 1987. De ascendência hispano-irlandesa, era filha do dançarino de flamengo Eduardo Cansino, natural de Castilleja de la Cuesta, e de Volga Hayworth, chefes de uma famosa família de dançarinos ciganos espanhóis. O avô, Antonio Cansino, era o maior expoente de Dança Clássica Espanhola, com uma escola de dança em Madrid que era mundialmente famosa. Aos três anos e meio, Margarita Cansino começou a ter aulas de dança, de que não gostava muito. Frequentou igualmente aulas de dança no Carnegie Hall, sob a instrução de seu tio Angel Cansino. Aos oito anos a família mudou-se para Hollywood, onde criaram a sua própria escola de dança. Começou a dançar integrada nos "The Dancing Cansinos", ainda sem idade para actuar na Califórnia, lança-se na cidade de Tijuana, actuando no “Foreign Club” e no “Caliente Club”, onde viria a ser descoberta, em 1935, pelo director da Fox Film, Winfield Sheehan. Nesta produtora, fez um teste e foi contratada por seis meses, sob o nome de Rita Cansino. Apareceu em pequenos papéis, em cinco filmes, mas o produtor executivo da Fox, Darryl F. Zanuck desinteressou-se dela e não renovou o contrato. Em 1937, com 18 anos, casou-se com seu empresário, Edward Judson, que lhe conseguiu alguns trabalhos em filmes independentes e posteriormente na Columbia Pictures, onde Harry Cohn assinou um contrato de longa duração. Começou a interpretar pequenos papéis e passou então a chamar-se Rita Hayworth, adoptando o nome de solteira da mãe. Depois de uns tempos hesitantes, em 1939, Howard Hawks dirige-a em “Only Angels Have Wings”, ao lado de Cary Grant e Jean Arthur, e ascendeu ao estrelato rapidamente, sobretudo depois de aparecer em “Susan and God” (1940), de George Cukor, e em “Blood and Sand” (1941), de Rouben Mamoulian. Com “Gilda”, de 1964, dirigido por Charles Vidor, atinge a maior celebridade. Casada com Orson Welles, em 1943, este dirige-a em “The Lady from Shanghai” (1948), que causou polémica, pois o realizador obrigou-a a cortar o cabelo e a pintá-lo de louro. Teve ainda alguns outros sucessos, como “Pal Joey” (1957), de George Sidney, ao lado de Frank Sinatra e Kim Novak. Continuou a trabalhar até inícios dos anos 70, já muito abalada pela doença de Alzheimer, que só viria a ser diagnostica em 1980. Para lá de Edward C. Judson (1937- 1942) e Orson Welles (1943-1948), foi casada ainda com o príncipe Aly Khan (1949-1953), o cantor Dick Haymes (1953-1955) e, finalmente, com o produtor James Hill (1958-1961). Morreu em casa da filha Yasmin, em Nova Iorque, e está sepultada no Cemitério de Holy Cross, em Culver City, na Califórnia, EUA. Foi uma das maiores star de Hollywood e um sex symbol que não se limitava a exibir o seu físico esplendoroso: era uma actriz completa, talentosa e sedutora.


Filmografia:
A) Como figurante ou como Rita Cansino: 1926: La Fiesta (curta-metragem); 1934: Cruz Diablo ou The Devil's Cross, de Fernando de Fuentes; 1935: Paddy O'Day (A Pequena Irlandesa), de Lewis Seiler; In Caliente (Sangue Ardente), de Lloyd Bacon; Under the Pampas Moon (Amor de Gaúcho), de James Tinling; Dante's Inferno (O Inferno de Dante), de Harry Lachman; Charlie Chan in Egypt (Charlie Chan no Egipto), de Louis King; Piernas de seda, de John Boland, Enrique de Rosas e Miguel de Zárraga; Hi, Gaucho!, de Thomas Atkins; Professional Soldier (Soldado Profissional), de Tay Garnett;1936: Meet Nero Wolfe (O Mistério Desvendado), de Herbert J. Biberman; Dancing Pirate (O Pirata Bailarino), de Lloyd Corrigan; Human Cargo (Repórteres Rivais), de Allan Dwan; Rebellion, de Lynn Shores; 1937: Hit the Saddle (Os Três Mosqueteiros do Oeste), de Mack V. Wright; Old Louisiana, de Irvin Willat; Life Begins with Love (Milionário a Dias), de Ray McCarey; Trouble in Texas (O Herói do Texas), de Robert N. Bradbury;
B) Como Rita Hayworth: 1937: Criminal of the Air (Contrabandistas do Ar), de Charles C. Coleman; Girls Can Play, de Lambert Hillyer; Paid to Dance (Paga para Dançar), de Charles C. Coleman; The Game That Kills (O Jogo que Mata), de Ross Lederman; The Shadow (A Sombra Negra), de Charles C. Coleman; 1938: Who Killed Gail Preston?, de Leon Barsha; The Renegade Ranger, de David Howard; Juvenile Court (Mocidade em Perigo), de D. Ross Lederman; Convicted, de Leon Barsha; There's Always a Woman (És uma Doida!...), de Alexander Hall; 1939: Special Inspector, de Leon Barsha; Homicide Bureau (Investigação Criminal), de Charles C. Coleman; The Lone Wolf Spy Hunt (Ladrão Dentro da Lei), de Peter Godfrey; Only Angels Have Wings (Paraíso Infernal), de Howard Hawks; 1940: Susan and God (As Teorias de Susana), de George Cukor; Blondie on a Budget (Os Ciúmes de Blondie), de Frank R. Strayer; Music in My Heart (Mais Forte que a Lei), de Joseph Santley; The Lady in Question (Acusada. Levante-; e!), de Charles Vidor; Angels over Broadway (Salvo da Morte), de Lee Garmes e Ben Hecht; 1941: Blood and Sand (Sangue e Arena), de Rouben Mamoulian; 1941: You’ll Never Get Rich (Nunca serás Rico), de Sidney Lanfield; The Strawberry Blonde (Uma Loira com Açucar), de Raoul Walsh; Affectionately Yours (Volta para Mim), de Lloyd Bacon; 1942: You Were Never Lovelier (Nunca Estiveste tão Linda), de William A. Seiter; My Gal Sal (Namorada), de Irving Cummings; Tales of Manhattan (Seis Destinos), de Julien Duvivier; 1944: Cover Girl (Modelos), de Charles Vidor; 1946: Gilda (Gilda), de Charles Vidor; Tonight and Every Night (Esta Noite e Sempre), de Victor Saville; 1947: Down to Earth (A Deusa Desceu à Terra), de Alexander Hall; 1948: The Loves of Carmen (Amores de Carmen), de Charles Vidor; The Lady From Shanghai (A Dama de Xangai), de Orson Welles; 1952: Affair in Trinidad (Calypso, a Feiticeira da Ilha), de Vincent Sherman; 1953: Miss Sadie Thompson (Chuva), de Curtis Bernhardt; Salomé (Salomé), de William Dieterle; 1957: Pal Joey (O Querido Joey), de George Sidney; Fire Down Below (Fogo dos Tropicos), de Robert Parrish; 1958: Separate Tables (Vidas Separadas), de Delbert Mann; 1959: They Came to Cordura (Os Heróis de Cordura), de Robert Rossen; 1959: The Story On Page One (Drama na Primeira Página), de Clifford Odets; 1962: The Happy Thieves (Os Alegres Ladrões), de George Marshall; 1964: Circus World (O Mundo do Circo), de Henry Hathaway; 1965: The Money Trap (A Tentação do Dinheiro, de Burt Kennedy; 1966: The Poppy is also a Flower (A Papoila também é uma Flor), de Terence Young; 1967: L'Avventuriero (O Marinheiro), de Terence Young; 1968: I bastardi (O Bastardo), de Duccio Tessari; 1971: The Naked Zoo, de William Grefe; 1971: Sur la Route de Salina, de Georges Lautner; 1972: The Wrath of God (A Cólera de Deus), de Ralph Nelson.


quarta-feira, 8 de abril de 2015

7 DE ABRIL DE 2015


QUANDO DANÇO CONTIGO (1948)

Sendo especialmente festivo, pois de trata de um musical, este é um dos filmes que, não sendo uma reconstituição histórica de episódios da vida de Cristo, mais vezes surge por altura da Páscoa, sobretudo nos ecrãs das televisões de todo mundo. “Easter Parade”, cuja tradução literal seria "Parada de Páscoa", ganhou em Portugal um  título bastante diferente, “Quando Danço Contigo”. Certamente por se ter estreado em Outubro… Mas, como estão já a adivinhar, há relações muito fortes com a Páscoa, ainda que este seja um filme norte-americano, e se refira a tradições e costumes algo diferentes dos nossos. Mas até por isso é interessante ver, ou rever, esta obra-prima do musical, que permite curiosas comparações no comportamento das sociedades.
Datado de 1948, foi uma das múltiplas produções de Arthur Freed para a Metro Goldwyn Mayer. Arthur Freed nasceu em 1894 e viria a falecer em 1973. Iniciou a sua carreira como autor de algumas canções para musicais e para espectáculos de vaudeville e de music-hall, tendo sido descoberto e lançado na Metro Goldwyn Mayer pela mão do produtor Irving Thalberg no período de consolidação do cinema sonoro, em fins da década de 20, princípio dos anos 30. Em 1939, como produtor associado de “O Feiticeiro de Oz”, alcançou um grande sucesso, o que lhe permitiu, a partir daí, passar a controlar toda a produção de musicais da M.G.M. Sendo uma personalidade decisiva na história do musical norte-americano, assinou um fabuloso conjunto de obras, entre 1939, data de “Babes in Armes”, até finais da década de 50. Um dos seus colaboradores mais regulares foi Vincente Minnelli, mas com Arthur Freed trabalharam, no entanto, quase todos os grandes nomes do musical desse período glorioso: Busby Berkeley, Stanley Donen, Gene Kelly, Michael Kidd, George Sidney...


Para lá da produção de “Easter Parade”, Arthur Freed foi ainda o produtor de muitas outras obras-primas do musical, como “Serenata à Chuva” e “Um Dia em Nova Iorque”, ambos da dupla Stanley Donen e Gene Kelly, “Um Americano em Paris”, “Não Como a Nossa Casa” e “A Lenda dos Beijos Perdidos” (Brigadoon), todos de Vincent Minnelli, “Meias de Seda”, de Rouben Mamoulian, ou “O Barco das Ilusões”, de George Sidney, e tantas e tantas outras obras que fizeram da MGM o farol de referência obrigatória neste género, durante um largo período de completa hegemonia. Durante grande parte das décadas de 30, 40 e 50, quando se falava de musical, falava-se da MGM, e falava-se forçosamente de Arthur Freed.
“Easter Parade” esteve inicialmente para ser dirigido por Vincente Minnelli, com um elenco composto por Gene Kelly, Judy Garland e Cyd Charisse. Alguns dias antes do início das filmagens, Arthur Freed escreveu a Minnelli uma carta dizendo-lhe que o psiquiatra de Judy Garland aconselhava que não fosse ele, Minnelli, marido de Judy Garland, a dirigi-la mais uma vez, depois das dificuldades surgidas durante as filmagens de “The Pirate”. Minnelli acedeu, foi substituído por Charles Walters, mas as peripécias não ficariam por aqui como iremos ver. Gene Kelly, por seu lado, parte uma clavícula durante um jogo de futebol americano, e tem igualmente de ser substituído por Fred Astaire que, entretanto, convalescia de dois anos de interregno no seu trabalho e teve de se empenhar a fundo por forma a conseguir uma "performance" digna do seu passado. Finalmente, Cyd Charisse, vítima de uma inflamação num dos tendões das suas fabulosas pernas, dá também o seu lugar a Ann Miller. Muita contrariedade junta para no final resultar num sucesso.
A intriga de “Quando Danço Contigo” relembra obviamente "Pigmalião", de Bernard Shaw, que posteriormente serviria de base a “My Fair Lady”: Don Hewes (Fred Astaire), ferido no seu orgulho por ter sido abandonado pela sua "partenaire" habitual, Nadine Hale (Ann Miller), promete e cumpre: é capaz de fazer de uma qualquer coristazinha uma grande bailarina. A coristazinha escolhida pelo acaso é Hannah Brown (Judy Garland), o que ajudou muito. Tudo se passa entre a Parada da Páscoa de um ano, e a Parada da Páscoa do ano seguinte, havendo pelo meio diversos números de magnífica qualidade musical, com canções de Irving Berlin e coreografia de Robert Alton.


A partitura musical “Easter Parade” é da responsabilidade de Johnny Green e Roger Edens, e com ela a dupla ganhou o Oscar do ano. As canções trazem a assinatura de um mestre incontestável, Irving Berling. Temas como “Easter Parade”,  “It Only Happens When I Dance With You” ou “I Want to go Back to Michigan”, bailados como “Shaking the Blues Away”, na voz de Ann Miller, “Beautiful Faces”, “A Couple of Swells”, o fabuloso dueto entre Fred Astaire e Judy Garland,  ou “Steppin' out With my Baby”, com o prodigioso bailado ao ralenti de Fred Astaire, são momentos a reter na história do cinema e do musical.
A história de “Quando Danço Contigo” é da autoria de Frances Goodrich e Albert Hackett, acompanhados depois por Sidney Sheldon na escrita do guião. A fotografia, num fabuloso Technicolor, é assinada por um mestre, Harry Stradling, que realça o brilho da direcção artística de Cedric Gibbons e Jack Martin Smith, bem assim como os cenários de Edwin B. Willis e Arthur Krams. Um filme admirável e uma partitura musical de profunda inspiração.

QUANDO DANÇO CONTIGO
Título original: Easter Parade
Realização: Charles Walters (EUA, 1948); Argumento: Frances Goodrich, Albert Hackett, Sidney Sheldon, Guy Bolton; Produção: Arthur Freed, Roger Edens; Música Original: Johnny Green, Roger Edens, Conrad Salinger (este não creditado); Fotografia (cor): Harry Stradling Sr.; Montagem: Albert Akst; Direcção artística: Cedric Gibbons, Jack Martin Smith; Decoração: Edwin B. Willis; Guarda-roupa:  Irene, Valles; Maquilhagem: Jack Dawn, Sydney Guilaroff, Dorothy Ponedel; Coreografia: Fred Astaire, Charles Walters (não creditados); Direcção de Produção: Al Shenberg; Assistentes de realização: Carl 'Major' Roup, Wallace Worsley Jr.; Departamento de arte: Arthur Krams; Som: Douglas Shearer, James Brock; Efeitos especiais: Warren Newcombe; Companhias de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Judy Garland (Hannah Brown), Fred Astaire (Don Hewes), Peter Lawford (Jonathan Harrow III), Ann Miller (Nadine Hale), Jules Munshin (François), Clinton Sundberg (Mike), Richard Beavers (Cantor "The Girl on the Magazine Cover"), John Albright, Lola Albright, Shirley Ballard, Jimmy Bates, Hal Bell, Margaret Bert, Ralph Brooks, Peter Chong,  Jimmie Dodd, Dolores Donlon, Patricia Edwards, Harry Fox, Sig Frohlich, Sam Harris, Hector and His Pals, Shep Houghton, Bob Jellison, Doris Kemper, Gail Langford, Joi Lansing, Jeni Le Gon, Harold Miller, Ralph Sanford, Dee Turnell, Benay Venuta, Johnny Walsh, Wilson Wood, etc. Duração: 107  minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/ 6 anos; Data de estreia em Portugal: 18 de Outubro de 1949.


JUDY GARLAND (1922 – 1969)
Judy Garland nasceu com o nome de Frances Ethel Gumm, a 10 de Junho de 1922, em Grand Rapids, Minnesota, nos EUA, e viria a falecer muito jovem ainda, aos 47 anos, em Chelsea, Londres, Inglaterra, a 22 de Junho de 1969. Desde muito nova que se entregou ao espectáculo, os pais eram artistas de variedades e cantores, Francis Avent "Frank" Gumm (1886-1935) e Ethel Marion Milne (1893-1953), e formou com duas outras irmãs mais velhas, Mary Jane "Suzy" Gumm (1915-64) e Dorothy Virginia "Jimmie" Gumm (1917-77), um trio a que deram o nome “The Sisters Gumm”, que, depois de muitos espectáculos de teatro de “vaudeville”, se estreou no cinema, em 1929, em “Revue Big”. A última aparição de “The Sisters Gumm” no ecrã surgiu em 1935, em “La Fiesta de Santa Barbara”, uma curta-metragem musical. Passaram então a chamar-se “The Garland Sisters”, dado que Gumm não era nome que soasse bem. Mas o trio não durou muito. Suzanne Garland casou, abandonou a carreira, e também Frances Ethel Gumm foi substituída por Judy Garland. "Judy", como homenagem a uma popular canção de Hoagy Carmichael, e Garland, aí as explicações fiam mais fino e há várias, para todos os gostos, desde uma influência da personagem de Carole Lombard (Lily Garland), até um elogio recebido por telegrama da actriz Judith Anderson, onde se referia a palavra "Garland" (grinalda). É já como Judy Garland que assina o seu primeiro contrato a solo com a MGM. Estávamos em 1935, ela tinha treze, catorze anos, 1,64 m de altura, o pai morrera pouco antes, vítima de meningite, e a “Babe”, como era chamada pelos familiares e amigos, logo passou a “filha da MGM”, onde dominava Louis Mayer, que tinha por hábito alimentar-se sexualmente de muitas das suas actrizes.
A seu lado, tinha as “vedetas” da casa, entre as quais Ava Gardner, Lana Turner ou Elizabeth Taylor, e Garland não era o que se pode chamar o “glamour” em pessoa, a uma primeira vista. Na sua idade, não era nem carne nem peixe, e Louis B. Mayer, uma vez recusados os avanços, ao que consta, referia-se a ela como a "pequena corcunda". Mas a popularidade da jovem actriz era muita, sobretudo desde que cantara “You Made Me Love You”, no aniversário de Clark Gable, e posteriormente no “All-Star Extravaganza Broadway Melody”, de 1938, desta feita perante a fotografia do actor. A MGM inventou então a parelha Judy Garland - Mickey Rooney, que apareceu numa série de musicais para adolescentes. A primeira longa-metragem com eles como protagonistas data de 1940, “Babes in Arms”, a que se seguiram mais oito. Mas foi “O Feiticeiro de Oz”, de 1939, que marcaria para sempre a sua carreira e a tornaria imortal, sobretudo através do êxito sem precedentes que foi a sua interpretação do clássico tema “Over the Rainbow”.

Rapidamente Judy Garland se torna dependente de medicamentos e drogas, de álcool e tabaco. Afirma-se que Louis Mayer, “para melhor rentabilizar os serviços da jovem” lhe administrava anfetaminas para a estimular e, depois, barbitúricos para que dormisse “quando já não era necessária”.
A sua vida torna-se um carrossel com altos e baixos cíclicos. Profissionalmente, é uma das mais celebradas vedetas dessas décadas de ouro do musical, aparecendo nalguns dos grandes filmes que assinalaram o género. Mas, em simultâneo, a dependência torna-se uma constante, as crises multiplicavam-se, com tentativas de suicídio regulares, e os seus efeitos sobre o trabalho também, com atrasos e ausências a filmagens. Começou várias obras que não terminou, sendo despedida e substituída por outra actriz. Particularmente, a sua vida sentimental era instável. Casou com David Rose (1941-1944), com o cineasta Vincente Minnelli (1945-1951), de cuja ligação nasceu Liza Minnelli, Sidney Luft (1952-1965), Mark Herron (1965-1967), e Mickey Deans (1969), que a encontrou morta na banheira do seu apartamento, num hotel da capital inglesa.
Em 1999, o “American Film Institute”, numa sondagem entre os seus membros, colocou-a em oitavo lugar, entre as dez maiores estrelas femininas da história do cinema americano. Desde a sua morte, cujo enterro foi acompanhado por mais de 22 mil pessoas, que é um ícone da história do cinema e do espectáculo.

Filmografia:

Como actriz: 1929: The Big Revue; 1930: Bubbles; The Wedding of Jack and Jill; A Holiday in Storyland; 1935: La Fiesta de Santa Barbara, de Louis Lewyn (com “Garland Sisters” ou “The Three Gumm Sisters”); 1936: Every Sunday Afternoon, de F. Feist (curta-metragem); Pigskin Parade (Diabruras de Estudantes), de David Butler; 1937: Broadway Melody of 1938 (Maravilhas de 1938), de Roy Del Ruth; Thoroughbreds Don't Cry (Nasceu um Gentleman), de A. E. Green; 1938: Everybody Sing (Todos Cantam), de Edwin L. Marin; Listen, Darling (Dois Garotos Endiabrados), de Edwin L. Marin; Love Finds Andy Hardy (Andy Hardy Apaixona-se), de George B. Seitz; 1939: The Wizard of Oz (O Feiticeiro de Oz), de Victor Fleming; 1939: Babes in Arms (De Braço Dado), de Busby Berkeley; 1940: Strike up the Band (O Rei da Alegria), de Busby Berkeley; 1940: Little Nellie Kelly (Um Amor de Rapariga), de Norman Taurog; Andy Hardy Meets Debutante (Prosápias de Andy Hardy), de George B. Seitz; If I Forget You (sem indicação de realizador); 1941: Ziegfeld Girl (Sonhos de Estrelas), de Robert Z. Leonard; Life Begins for Andy Hardy (Andy Hardy Começa a Vida), de George B. Seitz; Babes on Broadway (Primavera da Vida), de Busby Berkeley; 1942: For Me and My Gal (O Prémio do Teu Amor), de Busby Berkeley; 1943: Presenting Lily Mars (Caminho da Glória), de Norman Taurog; Girl Crazy (Doidinho Por Saias), de Norman Taurog e Busby Berkeley; Thousands Cherr (Sonhos de Estrelas), de George Sidney; 1944: Meet me in St-Louis (Não Há Como a Nossa Casa), de Vincente Minnelli; 1945: The Clock (A Hora da Saudade), de Vincente Minnelli; 1946: The Harvey Girls (A Batalha do Pó de Arroz), de George Sidney; Ziegfeld Follies (As Mil Apoteoses de Ziegfeld), de Vincente Minnelli; Till the Clouds Roll by (Até as Nuvens Passarem), de Richard Whorf; 1948: The Pirate (O Pirata dos Meus Sonhos), de Vincente Minnelli; Easter Parade (Quando Danço Contigo), de Charles Walters; Words and Music (Os Reis do Espectáculo), de Norman Taurog; 1949: In the Good Old Summertime, de Robert Z. Leonard; 1950: Summer Stock (Festa no Campo), de Charles Walters; 1954: A Star is Born (Assim Nasce Uma Estrela), de George Cukor; 1960: Pepe (Pepe), de George Sidney (só voz); 1961: Judgment at Nuremberg (O Julgamento de Nuremberga), de Stanley Kramer; 1962: Gay Purree (Que Gatinha… Renhaunhau, de Abe Levitow (só voz); 1963: A Child is Waiting, de John Cassavetes; 1963: I Could Go On Singing ou The Lonely Stage (Triunfo Amargo), de Ronald Neame.