Mostrar mensagens com a etiqueta 1954. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1954. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dia 30 DE JUNHO DE 2015


A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS (1954)

Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e o próprio realizador Richard Brooks escreveram o argumento, segundo um conto de F. Scott Fitzgerald, inicialmente publicado no “The Saturday Evening Post” (1931), e posteriormente integrado na antologia "Babylon Revisited". O conto é bastante mais curto e seco que o filme, que o inunda com prolongamentos por vezes um pouco melodramáticos em demasia, mas diga-se em abono da verdade que o resultado final é bastante interessante e, sobretudo, não anda muito longe do universo do autor de “O Grande Gatsby”, povoado por “Belos e Malditos” a evoluir na “Era do Jazz”, quer habitem a América do pós I Guerra Mundial, os “loucos anos 20”, ou sobrevivam durante a Grande Depressão, em Paris, por exemplo, onde decorre a acção do conto (e obviamente do filme dele retirado). Houve quem chamasse a esta a “Geração Perdida” (Lost Generation). A designação é atribuída a Gertrude Stein, mas quem a vulgarizou foi Ernest Hemingway nalgumas obras suas. O termo caracteriza uma geração de intelectuais, escritores, artistas, músicos, que viveram em Paris, mas também noutros locais da Europa, durante o lapso de tempo que mediou entre o fim da I Guerra Mundial e a eclosão da Grande Depressão (1918-1929). Muitos são os nomes que se lhe encontram associados - este foi um período fértil em criação literária e artística de vanguarda -, mas os que mais são citados, entre os norte-americanos, são Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Sherwood Anderson, Waldo Peirce, John Dos Passos e T. S. Eliot. Irlandês, James Joyce fez igualmente parte deste grupo, sendo o romance “Ulisses” considerado uma das peças fundamentais deste período. Deve, no entanto, dizer-se que os escritores que melhor encarnaram esse tempo, terão sido Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Eles foram a essência dessa era onde o jazz floresceu e marcou o ritmo.
"Babylon Revisited", o conto, fala-nos do regresso a Paris do americano Charles Wills, alguns anos depois de ter abandonado a capital francesa, onde passara uma longa temporada. Como o título denuncia, ele vem “revisitar Babilónia”. Charles volta a Paris para rever a filha, Vicki, que ali deixara em casa de uma cunhada, com a ideia de a levar consigo. Mas Marion Ellswirth, irmã da sua falecida mulher, Helen Ellswirth, não parece muito virada para satisfazer esse desejo, dada a vida anterior de Charles, um daqueles jovens entregues aos prazeres da vida, às festas sucessivas, à vida nocturna, à boémia, às drogas e ao alcoolismo. Uma vida que terá levado, de alguma forma, à morte de Helen e à atitude hostil de Marion. O conto não vai muito mais além e terá sido necessária alguma imaginação para os argumentistas do filme recriarem um longo flashbach (que ocupa quase todo filme) onde se recuperam os tempos passados em Paris por Charles e Helen, numa altura em que a cidade era essa Babilónia, onde Charles (e os amigos) eram “uma espécie de realeza quase infalível, rodeados por uma espécie de magia”. Eram tempos de ociosidade, de viver a vida perigosamente, alegremente, ou como se diz no conto, de perceber “como o vício e a dissipação se desenvolviam numa escala quase absolutamente infantil (…), reconhecendo rapidamente o significado da palavra "dissipar": dissipar-se no ar ténue, converter alguma coisa em nada”. Charles recorda ainda, no conto, como “se entregavam notas de mil francos a uma orquestra para tocar um tema, ou notas de cem francos oferecidas a um porteiro para chamar um táxi”.


O filme distende o conto, cria uma intriga anterior a este regresso de Charles Wills (Van Johnson) a Paris, desenvolve a história de amor e os conflitos com a mulher, Helen Ellswirth (Elizabeth Taylor), a má relação com a cunhada Marion Ellswirth (Donna Reed) é explicada por uma prévia paixão desta por Charles, não correspondida, estabelece uma curiosa paternidade para as irmãs, com a aparição de James Ellswirth (Walter Pidgeon), uma das figuras mais boémias, que estende a ociosidade ao jogo e à bebida, e demonstra uma “compreensão” total quanto ao estilo de vida de Helen. No filme, estas personagens mostram possuir uma lucidez invulgar, mas de acordo com as suas pretensões intelectuais. Eles sabem-se “perdidos”, náufragos de um tempo que consomem sem o perceberem, mas têm plena consciência da sua incapacidade de mudança. A certa altura, Helen afirma que talvez “seja tempo de crescer”, ao que Charles responde que “é muito tarde para crescer!” Os romances que tenta escrever continuam a ser recusados pelas editoras, no que o conto se revela muito próximo de alguns aspectos autobiográficos do próprio F. Scott Fitzgerald. Na verdade, os biógrafos do escritor associam este conto do também autor de “Este Lado do Paraíso” às reacções que manteve com a cunhada Rosalind e o marido Newman Smith, com algumas anotações relativas à sua filha "Scottie". Helen, no conto, poderá ter alguma equivalência à mulher do próprio Fitzgerald, Zelda. Rosalind nunca terá perdoado ao escritor a vida de dissolução e de irresponsabilidade frívola que, segundo ela, terá conduzido Zelda aos problemas mentais que a colocaram num hospício na Suíça. De resto, Rosalind e Newman acabaram mesmo por tomar conta de “Scottie”, julgando o pai irresponsável para a educar.
Passado entre Paris e Cannes, Mónaco e a Cote d’Azur, “A Última Vez que Vi Paris” peca um pouco por um certo melodramatismo a roçar o piegas, sobretudo para o final, mas vale como retrato de uma época e pela realização eficaz e segura de Richard Brooks (um cineasta com grande queda para adaptar grandes clássicos da literatura mundial – são dele “Os Irmãos Karamazov”, partindo de Dostoiévski, “Gata em Telhado de Zinco Quente” e “Corações na Penumbra”, ambos segundo Tennessee Williams, ou, entre outros, “Lord Jim”, adaptação de Joseph Conrad). Não deverá esquecer-se a canção que funciona como tema desta obra e que muito contribuiu igualmente para o seu sucesso internacional. Curiosamente, não é uma criação original para este filme, surgiu em 1941, no filme “Lady Be Good”, com Ann Sothern, e foi inspirada composição assinada por uma dupla que fez furor na música (e nos musicais) norte-americana, Jerome Kern e Oscar Hammerstein II. Em 1942, ganhou o Oscar para Melhor Canção e no filme de 1954 o tema foi cantado por Odette Myrtil. 
Ao nível da representação, Elizabeth Taylor e Van Johnson fazem a sua última aparição conjunta num título da MGM, mas deve dizer-se, apesar do enorme êxito que o filme conheceu junto das plateias mundiais, dando muito a ganhar à produtora (a MGM fala em quase um milhão de dólares de lucro), que não é dos melhores trabalhos de nenhum deles. Elizabeth Taylor passa por um dos seus mais deslumbrantes momentos, quanto a beleza e elegância, mas em muitos outros filmes ela terá feito explodir de forma mais convincente o seu talento. Walter Pidgeon terá a composição mais divertida, enquanto Donna Reed, Eva Gabor, Kurt Kasznar, George Dolenz ou Sandy Descher cumprem. Curiosa a estreia de Roger Moore em Hollywood, como galã sedutor irresistível. 

A ÚLTIMA VEZ QUE VI PARIS
Título original: The Last Time I Saw Paris
Realização: Richard Brooks (EUA, 1954); Argumento: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Richard Brooks, segundo conto de F. Scott Fitzgerald ("Babylon Revisited"); Produção: Jack Cummings; Música: Conrad Salinger; Fotografia (cor): Joseph Ruttenberg;  Montagem: John D. Dunning; Direcção artística: Randall Duell, Cedric Gibbons; Decoração: Jack D. Moore, Edwin B. Willis; Guarda-roupa: Helen Rose; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, William Tuttle; Direcção de Produção: William Kaplan; Assistente de realização: William Shanks; Som: Wesley C. Miller, Conrad Kahn, Alexander Kelly Jr., Kendrick Kinney, Finn Ulback; Efeitos especiais: A. Arnold Gillespie; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Elizabeth Taylor (Helen Ellswirth), Van Johnson (Charles Wills), Walter Pidgeon (James Ellswirth), Donna Reed (Marion Ellswirth), Eva Gabor (Lorraine Quarl), Kurt Kasznar (Maurice), George Dolenz (Claude Matine), Roger Moore (Paul), Sandy Descher (Vicki), Celia Lovsky (Mama), Peter Leeds, John Doucette, Odette Myrtil, Jacqueline Allen, Max Barwyn, Peter Bourne, Tim Cagney, Ann Codee, Harry Cody, Louise Colombet, Gene Coogan, Albert D'Arno, John Damler, Marcel De la Brosse, Josette Deegan, Jean Del Val, Paul Dubov, Arthur Dulac, Norman Dupont, Richard Emory, John Charles Farrow, Gilda Fontana, Mary Ann Hawkins, Jean Heremans, Louis Mercier, Matt Moore, Leonidas Ossetynski, Manuel París, Danik Patisson, Tao Porchon,Paul Power, Fay Roope, Joe Rubino, Loulette Sablon, Dick Simmons, Angela Stevens, Lomax Study, Luis Urbina, Maya Van Horn, Bruno VeSota, Steve Wayne, etc. Duração: 116 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): CineDigital; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 10 de Janeiro de 1956.


ELIZABETH TAYLOR (1932 - 2011)
Elizabeth Rosemond Taylor nasceu a 27 de Fevereiro de 1932, em Hampstead, Londres, Inglaterra, e viria a falecer a 23 de Março de 2011, em Los Angeles, Califórnia, EUA, vítima de problemas cardíacos. Os pais eram americanos, Francis Leen Taylor e Sara Viola Rosemond Warmbrodt, oriundos de St. Louis, Missouri, e foram para Londres abrir uma galeria de arte. A mãe era actriz, actividade que abandonou depois de casada, e Elizabeth viveu em Londres até aos 7 anos, quando a família regressou aos EUA, a Los Angeles, para fugir à guerra. Um amigo, ao descobrir a beleza da jovem, aconselhou-a a fazer um teste na Universal Pictures, onde foi logo contratada e se estreou aos 10 anos, em “O Rei das Vitaminas” (1942). Pouco depois, passou para a MGM, lançando-se numa carreira que fez dela uma das maiores vedetas de sempre do cinema mundial. Depois de várias obras onde se apresentava como adolescente (entre elas, algumas ao lado da inseparável Lassie), filmes como “Rapsódia” (1954), “O Belo Brummell” (1954), “A Última Vez Que Vi Paris” (1954) ou “A Senda dos Elefantes” (1954) prepararam a escalada. Com 20 anos, era considerada uma das mais fulgurantes belezas de Hollywood, como o demonstrou numa obra-prima de George Stevens, “Um Lugar ao Sol” (1951). Depois interpretou “O Gigante” (1956), ao lado de Rock Hudson e de James Dean, prosseguindo num crescendo de sucessos, como “A Árvore da Vida” (1957), “Gata em Telhado de Zinco Quente” (1958), “Bruscamente no Verão Passado” (1959), “O Número do Amor” (1960), “Cleópatra” (1963), “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1966), entre muitos outros. Foi Oscar da Academia para Melhor Actriz em 1961, por “Butterfield 8” e em 1967, por “Who's Afraid of Virginia Woolf?”. Conquistou inúmeros prémios e condecorações. Possui uma estrela no “Walk of Fame”, em 6336, Hollywood Boulevard. Vida sentimental tumultuosa, com sete casamentos, um deles bisado: Conrad Hilton Jr. (1950 - 1951), Michael Wilding (1952 - 1957), Michael Todd (1957 - 1958), Eddie Fisher (1959 - 1964), Richard Burton (1964 - 1974), Richard Burton (1975 - 1976) John Warner (1976 - 1982) Larry Fortensky (1991 - 1996).


Filmografia:

1942: There’s One Born Every Minute (O Rei das Vitaminas), de Harold Young; 1943: Lassie Come Home (O Regresso), de Fred M. Wilcox; 1944: Jane Eyre (A Paixão de Jane Eyre), de Robert Stevenson; The White Cliffs of Dover (As Rochas Brancas de Dover), de Clarence Brown; National Velvet (A Nobreza Corre nas Veias), de Clarence Brown; 1946: Courage of Lassie ou Blue Sierra (A Coragem de Lassie), de Fred M. Wilcox; 1947: Life with Father (A Culpa é do Papá), de Michael Curtiz; Cynthia: The Rich, Full Life ou The Rich Full Life (Cynthia, Feliz Amanhecer), de Robert Z. Leonard; 1948: A Day with Judy (Travessuras de Júlia), de Richard Thorpe; Julia Misbehaves (A Professora de Rumba), de Jack Conway; 1949: Little Women (Mulherzinhas), de Mervyn LeRoy; Conspirator (Traidor), de Victor Saville; 1950: The Big Hangover (A Verdade não se Diz), de Norman Krasna; Father of the Bride (O Pai da Noiva), de Vincente Minnelli; 1951: Father’s Little Dividend (O Pai é Avô), de Vincente Minnelli; A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol), de George Stevens; Quo Vadis (Quo Vadis), de Mervyn LeRoy; Calaway Went Thataway (Esperto Contra Esperto), de Norman Panama e Melvin Frank (não creditada); 1952: Love Is Better Than Ever ou The Light Fantastic (O Melhor é Casar), de Stanley Donen; Ivanhoe ou Sir Walter Scott’s Ivanhoe (Ivanhoe, o Vingador do Rei), de Richard Thorpe; 1953: The Girl Who Had Everything (Paixão Perigosa), de Richard Thorpe; 1954: Rhapsody (Rapsódia), de Charles Vidor; 1954: Elephant Walk (A Senda dos Elefantes), de William Dieterle; Beau Brummell (O Belo Brummell), de Curtis Bernhardt; 1954: The Last Time I Saw Paris (A Última Vez que Vi Paris), de Richard Brooks; 1956: Giant (O Gigante), de George Stevens; 1957: Raintree County (A Árvore da Vida), de Edward Dmytryk; 1958: Cat on a Hot Tin Roof (Gata em Telhado de Zinco Quente), de Richard Brooks; 1959: Suddenly, Last Summer (Bruscamente no Verão Passado), de Joseph L. Mankiewicz; 1960: Butterfield 8 (O Número do Amor), de Daniel Mann; 1963: Cleopatra (Cleopatra), de Joseph L. Mankiewicz; 1963: The V.I.P.s ou International Hotel (Hotel Internacional)), de Anthony Asquith; 1964: The Night of Iguana (A Noite de Iguana), de John Huston; 1965: The Sandpiper (Adeus Ilusões), de Vincente Minnelli; 1966: Who’s Afraid of Virginia Woolf? (Quem Tem Medo de Virginia Woolf?), de Mike Nichols; 1967: The Taming of the Shrew (A Fera Amansada), de Franco Zeffirelli; Doctor Faustus (Doctor Fausto), de Richard Burton e Neville Coghill; Reflections in a Golden Eye (Reflexos num Olho Dourado), de John Huston; The Comedians (Os Comediantes), de Peter Glenville; 1968: Boom! (Choque), de Joseph Losey; Secret Ceremony (Cerimónia Secreta), de Joseph Losey; 1969: Anne of the Thousand Days ou Anne of a Thousand Days), de Charles Jarrott; 1970: The Only Game in Town (Quando o Jogo É o Amor), de George Stevens; 1972: X, Y & Zee and Co. (X, Y e Z), de Brian G. Hutton ; Under Milk Wood, de Andrew Sinclair; Hammersmith Is Out (A Engrenagem), de Peter Ustinov; 1973: Divorce His, Divorce Hers (Divórcio), de Waris Huss\ein (telefilme); Night Watch (A Noite dos Mil Olhos), de Brian G. Hutton; Ash Wednesday (Porque Morre o Nosso Amor?), de Larry Peerce; 1974: The Driver’s Seat ou Psychotic (O Outono da Vida), de Giuseppe Patroni Griffi; That Entertainment (Isto é Espectáculo)), de Jack Haley Jr.; 1976: The Blue Bird (O Pássaro Azul), de George Cukor; Victory at Entebbe (Vitória em Entebbe), de Marvin Chomsky (telefilme); 1977: A Little Night Music (Música Numa Noite de Verão), de Harold Prince; 1978: Return Engagement, de Harold Prince (telefilme); 1979: Winter Kills (Pela Mira da Espingarda), de William Richert; 1980: The Mirror Crack’d (Espelho Quebrado), de Guy Hamilton; 1981: General Hospital (série de TV); 1983: Between Friends ou Nobody Makes Me Cry, de Deborah Shapiro (telefilme); 1984: All My Children (série de TV); Hotel (série de TV); 1985: Malice in Wonderland ou The Rumor Mill Louella Parsons (telefilme); 1985: North and South (Norte e Sul) (série de TV); 1986: There Must Be a Pony, de Marguerite Sydney (telefilme); 1987: Poker Alice, de Alice Moffit (telefilme); 1988: Il Giovane Toscanini (A Vida do Jovem Toscanini), de Franco Zeffirelli; 1989: Sweet Bird of Youth, de Alexandra Del Lago (telefilme); 1992: Captain Planet and the Planeteers Épisode A Formula for Hate) (série de TV); The Simpsons (Os Simpsons) (série de TV); 1994: The Flinstones (Os Flintstones) (série de TV); 1996: The Nanny, de Fran Drescher; 2001: These Old Broads, de Beryl Mason; 2003: God, the Devil and Bob (série de TV). 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

DIA 17 DE FEVEREIRO DE 2015


O OURO DE NÁPOLES (1954)

 “L'Oro di Napoli” é um filme em episódios, género que teve alguns cultores entre as décadas de 50 e 70 do século XX, com realização de Vittorio De Sica, que vinha da sua época de ouro, profundamente neo-realista, com “Ladrões de Bicicletas” (1948), “O Milagre de Milão” (1951), “Humberto D” (1952) ou “Estação Terminus” (1953), e antes de dirigir “O Tecto” (1956) ou “Duas Mulheres” (1960). Digamos que “O Ouro de Nápoles” estabelece a transição entre o neo-realismo puro e a época de um neo-realismo róseo, com algumas comédias de fundo social, mas sem a grandeza das obras primitivas. O registo é igualmente uma mescla de realismo social e de comédia de costumes, com um argumento de Cesare Zavattini, Giuseppe Marotta, Vittorio De Sica, partindo de contos do escritor Giuseppe Marotta, numa produção conjunta de dois dos maiores produtores italianos que se cimentavam no terreno por esta altura, Dino De Laurentiis e Carlo Ponti.
São seis os episódios do filme, cada um deles interpretado por um grande actor ou actriz de momento: “Il guappo” (Totó), “Pizze a credito” (Sophia Loren), “Il funeralino” (Teresa De Vita, esta a única actriz pouco conhecida, pois só interpretou dois filmes, ambos de Vittorio De Sica), “I giocatori” (Vittorio De Sica), “Teresa” (Silvana Mangano) e “Il professore” (Eduardo De Filippo). Casting magnífico para cada uma das personagens e cada uma das situações.
Falando de cada episódio, o inicial, com Totó, é o mais hilariante e talvez o de mais imediata metáfora social. Saverio Petrillo (Totó) tem uma família, mulher e filhos, que alimenta com a sua frágil profissão de “Pazzariello”, uma criação do século XVII que sobreviveu nos hábitos napolitanos até meados dos anos 50 (e que, ao que julgamos, ainda persiste como elemento de folclore urbano, mas agora como entretenimento). O “Pazzariello” veste-se a preceito, empunha um bastão dourado, e passeia-se pelas ruas de Nápoles publicitando uma qualquer loja de alimentos ou tasca. Vai recitando slogans, cantando, dançando, distribuindo chistes, e a melhor ilustração deste antigo costume é mesmo este episódio de “O Ouro de Nápoles”, admiravelmente interpretado por Antonio de Curtis, mais conhecido por Totó. Este o aspecto etnográfico mais interessante de “Il guappo”. Mas outros há a referir. Quando Gennaro, um amigo, fica viúvo, Saverio e família recolhem-no em sua casa, para não se sentir sozinho nesses dias. Mas esses dias estendem-se por dez anos, e Gennaro torna-se um prepotente e violento opressor da família, e a sua auréola de poder começa mesmo a fascinar os miúdos que se distanciam da cobardia do pai que só se revolta na sombra. Mas, um dia, Gennaro sente-se mal, um médico diagnostica-lhe precipitadamente um enfarte e, perante a fraqueza do indesejável inquilino, Saverio expulsa-o de casa. Infelizmente, o diagnóstico tinha sido mesmo precipitado, e Gennaro regressa, mas desta feita encontra a família unida. Contra a ditadura do mais forte, a união dos oprimidos resulta sempre, parece ser a mensagem do episódio, excelente na descrição de ambientes, de personagens, e na forma como os intérpretes vivem a história.


Em “Pizza a Credito” mantém-se o tom satírico. Sofia (Sophia Loren) e o seu marido Rosario (Giacomo Furia) têm uma venda de pizza numa ruela de Nápoles. Venda a crédito. A impetuosa Sofia não se satisfaz apenas com o amor do seu sócio, e tem por fora uma aventura que lhe vai causar alguns problemas. Num desses encontros com o amante, perde um valioso anel que o marido lhe havia oferecido, e resolve explicar o sucedido com o facto de o ter deixado cair no interior de alguma pizza. Marido e mulher percorrem os compradores de pizza dessa manhã chuvosa, o que os leva a casa de Don Peppino (Stoppa), que acaba de perder a mulher. A situação acaba por se recompor com alguma habilidade pelo meio, e o sketch resulta não só divertido como um bom retrato de costumes napolitanos.
O conde Prospero (Vittorio De Sica) é o protagonista de “I Giocatori”, pequena história de um jogador compulsivo que perde todo o seu património no jogo. Como a mulher já não lhe dá dinheiro, nem permite que ninguém o abasteça para as suas contínuas fugas, vê-se na contingência de jogar com um miúdo, Gennarino (admiravelmente interpretado por Pierino Bilancioni), filho do porteiro, com o qual perde sem remissão.


“Teresa” permite a Silvana Mangano uma interpretação magnífica, na figura de uma prostituta que é resgatada por Don Nicola (Erno Crisa) que casa com ela como auto-punição pelo facto de uma jovem se ter suicidado por sua causa. A descoberta deixa-a furiosa e só no seu quarto, o que a leva a fugir de casa, reconsiderando depois…
Como em quase todos os episódios do filme, existem personagens fortes que permitem aos actores desempenhos brilhantes. É o que também acontece em “Il Professore”, onde Eduardo De Filippo é um tal Don Ersilio Miccio, conselheiro de todos os moradores do bairro, a troco de umas quantas liras. Os vizinhos reclamam contra a tirania do conde Alfonso Maria di Sant’Agata dei Fornai (Crosio), que, ao sair de casa de carro, obriga todos os dias os moradores a mudarem a habitual disposição dos seus pertences que se estendem pela rua. O “professor” aconselha-os a organizarem uma sonora praga colectiva.
O episódio "Funeralino" apresenta um tom totalmente diverso dos anteriores, onde, com maior ou menor felicidade, impera o humor. Este é dramático, segue o trajecto de um carro funerário pelas ruas e avenidas da cidade, com a mãe, amigos e algumas crianças a acompanharem o cortejo fúnebre de uma criança. Não há quase intriga, dir-se-ia um documentário, com apenas uma pausa para o momento em que a mãe se comove ao distribuir caramelos pelas crianças que seguem o funeral. Aquando da apresentação do filme no Festival de Cannes, este episódio foi retirado, e recolocado posteriormente.


Curiosamente, este, como alguns outros títulos deste período, parece anunciar uma mudança de percurso no interior do neo-realismo. “O Ouro de Nápoles” continua crítico em relação à sociedade italiana, mas opta por um registo de humor e sátira que o tornam mais apetecível como espectáculo e entretenimento. Na altura, isso foi visto como uma espécie de traição ao projecto inicial, mesmo de algum retrocesso artístico e cinematográfico. Hoje em dia, não será assim quanto a muitas obras que se atreveram a procuram novas fórmulas de aproximação da realidade e novas linguagens. O episódio "Funeralino" pode mesmo antecipar algumas ideias mais tarde desenvolvidas por Antonioni. Por outro lado, este é definitivamente um filme de actores, onde Vittorio De Sica se mostra um director de invulgar sensibilidade, criando personagens inesquecíveis, proporcionando a Silvana Mangano e Sophia Loren trabalhos notáveis, bem assim como a Totò, Eduardo De Filipo e ao próprio De Sica. A própria Teresa De Vita, que só interpretou este filme e uma outra comédia do mesmo De Sica, “Il Giudizio Universale”, de 1961, oferece momentos memoráveis nessa contida e rigorosa interpretação de uma mãe em sofrimento. Um belo rosto que o cinema perdeu cedo (a actriz só viria a falecer em 2013).

O OURO DE NÁPOLES
Título original: L'Oro di Napoli (original title)
Realização: Vittorio De Sica (Itália, 1954); Argumento: Cesare Zavattini, Vittorio De Sica, Giuseppe Marotta, segundo novelas deste último; Produção: Dino De Laurentiis, Marcello Girosi, Carlo Ponti; Música: Alessandro Cicognini; Fotografia (cor): Carlo Montuori; Montagem: Eraldo Da Roma; Design de produção: Gastone Medin; Decoração: Ferdinando Ruffo; Guarda-roupa: Pia Marchesi; Direcção de Produção: Nino Misiano, Roberto Moretti; Assistentes de realização: Luisa Alessandri, Franco Montemurro; Som: Aldo Calpini, Biagio Fiorelli, Bruno Moreal; Efeitos visuais: Pablo Mariano Picabea (versão restaurada); Companhias de produção: Carlo Ponti Cinematografica, Dino de Laurentiis Cinematografica (Ponti-De Laurentiis); Intérpretes: episódio "Teresa" - Silvana Mangano (Teresa), Erno Crisa  (Don Nicola), Ubaldo Maestri (Don Ubaldo); episódio "Pizze a credito" - Sophia Loren (Sofia), Paolo Stoppa (Don Peppino), Giacomo Furia (Rosario), Alberto Farnese (Alfredo), Tecla Scarano (amigo de Peppino), Tartaro Pasquale , Roberto De Simone (Umberto Scognamiglio), Gigi Reder (amigo de Peppino), Rosetta Dei; episódio "Il professore"- Eduardo De Filippo (Don Ersilio Miccio) Tina Pica (Velha), Gianni Crosio (Alfonso Maria di Sant'Agata dei Fornai), Nino Imparato (Gennaro); episódio "I giocatori" - Vittorio De Sica (Conde Prospero B.), Mario Passante (Giovanni), Irene Montaldo (Countess B.); episódio "Il guappo" - Totò (Don Saverio Petrillo), Lianella Carell (Carolina), Pierino Bilancioni (Gennarino), Lars Borgström (Federico), Agostino Salvietti (Gennaro Esposito), Pasquale Cennamo (Don Carmine Savarone), Nino Vingelli; episódio "Funeralino"- Teresa De Vita (mãe). Duração: 134 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Estevez; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 3 de Novembro de 1955.


SILVANA MANGANO (1930-1989)
A eleição de Miss Itália que aconteceu em 1947 tornou-se num acontecimento mítico. No ano anterior, a futura Silvana Pampanini ficará em segundo lugar num concurso ganho por Rossana Martini. Esta passaria despercebida como actriz, e a primeira seria uma das deusas do cinema italiano das décadas de 40 e 50. Mas em 47, o caso fiou mais fino. Silvana Mangano e Eleonora Rossi Drago estiveram entre as concorrentes, e o troféu foi ganho por Lucia Bose. Gianna Maria Canale ficou em segundo, e Gina Lollobrigida em terceiro. Sophia Loren seria Miss Italia em 1950. Não se pode dizer que este concurso de beleza não tivesse tido uma importância decisiva na história do cinema italiano.
Silvana Mangano, que nascera a 21 de Abril de 1930, em Roma, e viria a falecer em Madrid, em 16 de Dezembro de 1989, vítima de cancro, foi, no entanto, descoberta para o cinema, em pequenos papéis, em 1945, num filme de René Chanas, “Le Jugement Dernier”, continuando depois em obras de Mario Costa, Alberto Lattuada, Duilio Coletti, entre outros, até se afirmar definitivamente em “Riso Amaro (Arroz Amargo), de Giuseppe de Santis, em 1949. Conta-se que concorreu ao casting do filme, em vestimenta aprimorada e bem maquilhada, não despertando então nenhum interesse no realizador que, dias depois, se viria a cruzar com ela na Via Veneto, em Roma, com um vestuário de dia a dia e um rosto ao natural, e cabelos encharcados pela chuva, e logo ali ficou traçado o seu destino. Tinha 19 anos.

Filha de um siciliano, condutor de comboios, e de uma inglesa, estudou dança com Jia Ruskaya e trabalhou como modelo para o estilista francês Georges Armenkov. Decide partir para França a fim de trabalhar como modelo na Maison Mascetti e foi precisamente em França que se estreia no cinema, como já vimos. Em 1946, foi eleita "Miss Roma" e entrou posteriormente na eleição de Miss Itália. Segue um curso de declamação teatral, onde conheceu Marcelo Mastroianni, seu primeiro namorado e com quem trabalharia muito pouco a partir daí, dados os ciúmes do seu marido, o produtor Dino De Laurentiis, com quem casou nesse mesmo ano de 1949. O filme de Giuseppe de Santis foi um sucesso imenso, e muito ficou a dever ao talento, à beleza e às curvas da sua protagonista. Rapidamente se tornou um sex symbol do cinema italiano, numa altura em que imperavam as sex symbols naquela cinematografia (relembrem-se as Miss Itália atrás citadas, todas elas explodindo nos ecrãs com fragor). No início dos anos 50, títulos como “Anna”, de Alberto Lattuada (1951), “O Ouro de Nápoles” de Vittorio De Sica ou “Mambo”, de Robert Rossen (ambos de 1954) transformaram-na numa vedeta internacional, que a carreira futura, bem aconselhada por Dino de Laurentiis, iria confirmar plenamente. Foi gradualmente abandonando personagens moldadas pelo físico e entregando-se a personagens mais complexas, sendo dirigida por alguns dos maiores directores do seu tempo: René Clément, Mario Monicelli, Mario Camerini, Martin Ritt, Vittorio De Sica, Dino Risi, Marco Ferreri, Franco Zeffirelli, Tinto Brass, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Luigi Comencini. Em 1960, Federico Fellini começou por a escolher para interpretar, ao lado de Marcello Mastroianni, “La Dolce Vita”, mas De Laurentiis, ciumento, não permitiu que ela aceitasse a personagem depois criada por Anouk Aimée. Separou-se de De Laurentiis em 1988, com quem teve quatro filhos: Veronica, Raffaella (futura produtora), Federico e Francesca. Afastou-se do cinema, descontente com a sua imagem, passou a viver em Madrid, padecendo de um cancro no estomago, sofrendo de insónias e de depressão, e nunca esquecendo a morte do filho Frederico que, aos 25 anos (em 1981), faleceu vítima de uma acidente de aviação no Alasca. Ainda surgiu em “Duna” (1984), de David Lynch, a pedido de sua filha Raffaella, produtora do filme, e ao lado de Marcello Mastroianni, no filme de Nikita Mikhalkov, “Olhos Negros” (1987). Morreu em casa da filha Francesca, em 16 de Dezembro de 1989, na capital de Espanha, onde se entreteve a fazer tapeçaria nos últimos anos de vida. Reconciliada com De Laurentiis e Mastroianni, seus maiores amigos.
Entregaram-lhe os maiores prémios do cinema italiano: o David di Donatello, o Nastro d'Argento, ou o do Sindicado dos Jornalistas Italianos de Cinema. Nunca se impôs nos EUA, como outras suas conterrâneas, Sophia Loren ou Anna Magnani, que lograram Oscars.  


Filmografia
Com actriz: 1945: Le Jugement Dernier, de René Chanas; 1946: L'Elisir d'Amore (O Elixir do Amor), de Mario Costa; 1947: Il Delitto di Giovanni Episcopo, de Alberto Lattuada; 1948: Gli Uomini sono Nemici (Lisboa, Encruzilhada de Paixões), de Ettore Giannini; 1949: Il Lupo della Sila (O Lobo da Calábria), de Duilio Coletti; Cagliostro ou Gli Spadaccini della Serenissima ou Black Magic (Cagliostro), de Gregory Ratoff e Orson Welles; Riso amaro (Arroz Amargo), de Giuseppe de Santis; 1950: Il Brigante Musolino (Não Matei!), de Mario Camerini; 1951: Anna (Ana), de Alberto Lattuada; 1953: Il Più Comico Spettacolo del Mondo (O Mais Cómico Espectáculo do Mundo), de Mario Mattoli (não creditada); 1954: Mambo (Mambo), de Robert Rossen; 1954: Ulisses (Ulisses), de Mario Camerini; 1954: L'Oro di Napoli (O Ouro de Nápoles), de Vittorio de Sica (episódio "Teresa"); 1956: Uomini e Lupi (Homens e Lobos), de Giuseppe de Santis e Leopoldo Savona; 1957: La Diga sul Pacifico ou This Angry Age, de René Clement; 1958: La Tempesta, de Alberto Lattuada; 1959: La Grande Guerra (A Grande Guerra) de Mario Monicelli; 1960: Jovanka e le Altre (Jovanka e as Outras), de Martin Ritt; 1961: Crimen (Crime), de Mario Camerini; 1961: Il Giudizio Universale (O Último Julgamento), de Vittorio De Sica; 1961: Barabba (Barrabás),de Richard Fleischer; 1963: Il Processo di Verona, de Carlo Lizzani; 1964: La Mia Signora (A Minha Senhora), de Mauro Bolognini, Tinto Brass e Luigi Comencini (episódios "L'Uccellino", "L'Automobile", "I Miei Cari", “Eritrea"); Il Disco Volante,  de Tinto Brass; 1966: Io, io, io... e gli altri (Eu, Eu, Eu... e os Outros), de Alessandro Blasetti; 1967: Scusi, lei è Favorevole o Contrario? (Como casar a nossa filha?), de Alberto Sordi; Le Streghe (A Magia da Mulher), de Mauro Bolognini, Vittorio De Sica, Pier Paolo Pasolini, Franco Rossi e Luchino Visconti (episódios "La Strega Bruciata Viva", "Senso civico" e "La Terra vista dalla Luna"); 1967: Édipo re (Édipo Rei), de Pier Paolo Pasolini; 1968: Capriccio all'Italiana - episódios “La Bambinaia”, de Mario Monicelli, “Perché?”, de Mauro Bolognini e “Viaggio di Lavoro”, de Pino Zac; 1968: Teorema (Teorema), de Pier Paolo Pasolini; 1971: Scipione detto anche l'africano (Cipião Dito o Africano), de Luigi Magni; 1971: Morte a Venezia (Morte em Veneza), de Luchino Visconti; 1971: Il Decameron (Decameron), de Pier Paolo Pasolini (não creditada); 1972: D'Amore si Muore de Carlo Carunchio; 1972: Lo Scopone Scientifico (O Jogo da Fortuna e do Azar), de Luigi Comencini; 1972: Ludwig (Luís da Baviera), de Luchino Visconti; 1974: Gruppo di Famiglia in un Interno (Violência e Paixão), de Luchino Visconti; 1984: Dune (Duna), de David Lynch; 1987: Oci Ciornie (Olhos Negros), de Nikita Mikhalkov.


SOPHIA LOREN (1934 - )
“Nascida” num concurso de beleza, “Miss Itália 1950”, Sofia Loren consegue em três ou quatro décadas de carreira no cinema, tornar-se na actriz mais premiada de sempre do cinema italiano, uma cinematografia onde abundam as grandes actrizes e as grandes vedetas. Sofia Villani Scicolone, também conhecida por Sofia Lazzaro, Sofia Scicolone e finalmente Sophia Loren, nasceu a 20 de Setembro de 1934, em Roma. Ainda muito jovem transferiu-se com a família para o município de Pozzuoli, em Nápoles, onde viveu uma adolescência difícil. O pai, o engenheiro Riccardo Scicolone, abandonou a mãe de Sofia, Romilda Villani, uma professora de piano, sem se casar com ela, apesar de lhe ter feito duas filhas, Sofia e a irmã mais nova, Maria Scicolone. 1950 marca uma data importante na sua carreira. Concorre a Miss Itália, fica em segundo ou quarto lugar (as fontes divergem!), mas é considerada Miss Elegância. Os focos centram-se nela. Ainda com o nome de Sophia Scicolone estreia-se no cinema, como figurante e em pequenos papéis, em obras muito desiguais, onde no entanto são notados os seus seios nus, nalguns deles. No ano seguinte, passa a assinar como Sophia Lazzaro e faz fotonovelas. Só em 1953 aparece como Sophia Loren. Durante a rodagem de “Africa sotto i Mari” (Abismos Africanos), de Giovanni Roccardi, em 1952, é “descoberta” pelo produtor Carlo Ponti, que assina com ela um contrato de sete anos e a lança em obras de outra dimensão, como “L'Oro di Napoli” (O Ouro de Nápoles), de Vittorio De Sica. Casam em 1957, uma união que dura até 1962, data em que o casamento é considerado nulo pelas autoridades, pois Carlo Ponti não se tinha divorciado legalmente de um antigo casamento. Voltam a casar em 1966, e estão juntos até 2007, data da morte de Ponti, 22 anos mais velho que Sophia Loren. Tiveram dois filhos, Carlo e Edoardo. Foi cunhada de Romano Mussolini, filho de Benito Mussolini. 


Entre 1957 e 1961 instala-se em Hollywood, onde roda sob a direcção de cineastas como Jean Negulesco, Stanley Kramer, Henry Hathaway, Delbert Mann, Carol Reed, George Cukor, Melville Shavelson, Sidney Lumet, Michael Curtiz ou Chalie Chaplin, ao lado de actores como Cary Grant, Frank Sinatra, John Wayne, Anthony Perkins, William Holden, Trevor Howard, Marlon Brando, Anthony Quinn, George Sanders, Peter Sellers, Clark Gable, John Gavin ou Charlton Heston. Em 1962, recebe o Oscar de Melhor Actriz pelo filme “Duas Mulheres”, que também lhe valeu o prémio de Melhor Actriz no Festival de Cannes. A partir daí continua a trabalhar com grandes realizadores, como Vittorio De Sica, para quem ela era a sua actriz fetiche, Federico Fellini, Ettore Scola, Robert Altman, Lina Wertmüller, entre outros. Construiu uma sólida carreira, que se prolonga até hoje, apesar de quase ter abandonado o cinema no final da década de 70. Daí até ao presente, surge num ou outro filme e nalguns telefilmes, mas vai aparecendo regularmente em festivais e outras manifestações sociais sobretudo ligadas ao cinema. Existe uma estrela no Hollywood Walk of Fame, em Los Angeles, com o seu nome. Encontra-se frente ao nº 7050, em Hollywood Boulevard. Ganhou um Oscar, além de 57 outros prémios de grande relevo internacional, e mais 27 nomeações.


Filmografia
Como actriz / sob o nome de Sophia Scicolone: 1950: Il Voto, de Mario Bonnard; Totòtarzan (Totó Tarzan), de Mario Mattoli; Le Sei Moglie di Barbablù (Totó e o Barba Azul), de Carlo Ludovico Bragaglia; 1950: Io sono il Capataz (O Capataz Sou Eu), de Giorgio Simonelli; Cuori sul mare, de Giorgio Bianchi; Luci del Varietà, de Federico Fellini e Alberto Lattuada; 1951: Quo Vadis (Quo Vadis), de Mervyn LeRoy; Il Padrone del Vapore, de Mario Mattoli; Milano Miliardaria, de Marcello Marchesi, Marino Girolami e Vittorio Metz; Il mago per Forza, de Marcello Marchesi, Marino Girolami e Vittorio Metz; Lebbra Bianca, de Enzo Trapano; Anna (Ana), de Alberto Lattuada; 1952: È Arrivato l'Accordatore, de Duilio Coletti; 
- Sob o nome de Sophia Lazzaro: 1951: Era lui...si, si (O Rei dos Pândegos) de Vittorio Metz, Marino Girolami e Marcello Marchesi; Il sogno di Zorro (O Neto do Zorro), de Mario Soldati; La tratta delle bianche, de Luigi Comencini; 1953: La Favorita, de Cesare Barlacchi; 
- Sob o nome de Sophia Loren: 1953: La Domenica della Buona Gente, de Anton Giulio Majano;  Africa sotto i Mari (Abismos Africanos), de Giovanni Roccardi; 1953: Due notti con Cleopatra (A Rival de Cleópatra), de Mario Mattoli; Aïda (Aida), de Clemente Fracassi; Ci Troviamo in Galleria (A Bela Napolitana), de Mauro Bolognini; 1954: Tempi Nostri (Os Nossos Tempos), de Alessandro Blasetti (episódio "La macchina fotografica"); L'Oro di Napoli (O Ouro de Nápoles), de Vittorio De Sica (episódio "Pizze a credito"); Un Giorno in Pretura (No Banco dos  Réus), de Steno; Attila (Átila), de Pietro Francisi; Peccato che sia una Canaglia (Que Pena Seres Vigarista!), de Alessandro Blasetti; Carosello Napoletano (Carrocel Napolitano), de Ettore Giannini; Pellegrini d'amore (O Que Faz o Amor), de Andrea Forzano; Miseria e nobiltà (Totó Rico e Pobre), de Mario Mattoli;  1955: La Donna del Fiume (A Rapariga do Rio Pó) de Mario Soldati; 1955: Il Segno di Venere (O Signo de Vénus), de Dino Risi; La Bella Mugnaia (A Bela Moleira), de Mario Camerini; Pane, amore, e... (Pão, Amor e...) de Dino Risi; 1956: La Fortuna di Essere Donna (A Sorte de Ser Mulher), de Alessandro Blasetti; 1957: Boy on a Dolphin (A Lenda da Estátua Nua), de Stanley Kramer; The Pride and the Passion (Orgulho e Paixão), de Stanley Kramer; Legend of the Lost (A Cidade Perdida), de Henry Hathaway; 1958: Desire Under the Elms (Desejo Sob os Ulmeiros), de Delbert Mann; The Key (A Chave), de Carol Reed; Black Orchid (Orquídea Negra), de Martin Ritt; Houseboat (Quase nos Teus Braços) de Melville Shavelson; 1959: That Kind of Woman (Uma Certa Mulher) de Sidney Lumet; 1960: Heller in Pink Tights (Agarrem Essa Loira), de George Cukor; A Breath of Scandal (Escândalo na Corte), de Michael Curtiz; It Started in Naples (Aconteceu em Nápoles), de Melville Shavelson; The Millionairess (A Milionária) de Anthony Asquith; 1960: La Ciociara (Duas Mulheres), de Vittorio De Sica; 1961: Le Cid (El Cid), de Anthony Mann; Madame Sans-Gêne (Madame Sans-Gêne), de Christian-Jaque; 1961: Boccace 70 (Boccaccio '70), de Federico Fellini, Mario Monicelli, Luchino Visconti, Vittorio De Sica (épisode “La Riffa”, de Vittorio De Sica); 1962: Le Couteau dans la Plaie (A Fronteira da Noite), de Anatole Litvak; 1962: I Sequestrati di Altona (Os Sequestrados de Altona) de Vittorio De Sica; 1963: Ieri, oggi, domani (Ontem, Hoje e Amanhã) de Vittorio De Sica; 1964: The Fall of the Roman Empire (A Queda do Império Romano), de Anthony Mann; Matrimonio all'italiana (Matrimónio à Italiana), de Vittorio De Sica; 1965: Opération Crossbow (Operação V-2), de Michael Anderson; Lady L (Lady L), de Peter Ustinov; La Comtesse de Hong-Kong (A Countess from Hong Kong), de Charles Chaplin; 1966: Judith (Judith), de Daniel Mann; Arabesque (Arabesco), de Stanley Donen; 1967: C'era una Volta...( Felizes Para Sempre), de Francesco Rosi; Questi Fantasmi (Dois à Italiana), de Renato Castellani; 1968: Sophia: A self-portrait documentaire, de Mel Stuart e Robert Abel; 1970: I Girasoli (O Último Adeus) de Vittorio De Sica; 1971: La Moglie del Prete (A Mulher do Padre), de Dino Risi; La Mortadela (Mortadela), de Mario Monicelli; 1972: Bianco, Rosso e... (O Pecado) de Alberto Lattuada; Man of La Mancha (O Homem da Mancha), de Arthur Hiller; 1974: Il Viaggio (A Viagem), de Vittorio De Sica; Verdict (Veredicto), de  André Cayatte; Brief Encounter (Breve Encontro), de Lina Wertmüller (TV); 1975: La Pupa del Gangster, de Giorgio Capitani; 1977: The Cassandra Crossing (Cassandra Crossing), de George Pan Cosmatos; Una Giornata Particolare (Um Dia Inesquecível) de Ettore Scola; 1978: Angela (Angela: O Amor Impossível), de Boris Sagal; Fatto di sangue fra due uomini per causa di una vedova - si sospettano moventi politici (Pacto de Sangue), de Lina Wertmuller; Brass Target (O Grande Golpe do Ouro), de John Hough; 1979: Firepower (A Ferro e Fogo), de Michael Winner; 1980: Sophia Loren: Her Own Story (TV); 1984: Qualcosa di Biondo (TV);  1986: Courage (TV); 1988: Mamã Lúcia (TV); 1989: La Ciociara (TV); 1990: Sabato, Domenica e Lunedì, de Lina Wertmüller; 1994: Prêt-à-Porter (Prêt-à-Porter), de Robert Altman; 1995: Grumpier Old Men (Como Pescar Uma Italiana Sem Partir a Cana), de Howard Deutch; 1997: Soleil, de Roger Hanin; 2001: Francesca e Nunziata de Lina Wertmüller (TV); 2002: Between Strangers (Entre Estranhos) de Edoardo Ponti: 2004: Peperoni ripieni e pesci in faccia, de Lina Wertmüller; 2004: Lives of the Saints, de Jerry Ciccoritti (TV); 2009: Nine (Nove), de Rob Marshall; 2010: La mia casa è piena di specchi, de Vittorio Sindoni (TV); 2014: La Voce Umana, de Edoardo Ponti (curta-metragem).