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domingo, 12 de julho de 2015

15 DE JULHODE 2015


NOSSA SENHORA DE PARIS (1956)

“Nossa Senhora de Paris” é um dos romances mais célebres de Victor Hugo. Por isso mesmo o cinema e a televisão se terão interessado tantas vezes por esta obra. Entre as várias adaptações, há algumas a merecerem ser recordadas: uma ainda muda, de 1923, dirigida por Wallace Worsley, com Lon Chaney e Patsy Ruth Miller, interessante; uma outra, de fim da década de 30 (1939), de William Dieterle, com a extraordinária interpretação de Charles Laughton, e uma boa presença de Maureen O'Hara; esta de que nos ocupamos agora, de 1956, assinada por Jean Delannoy, com Anthony Quinn e Gina Lollobrigida; um telefilme (que desconhecemos) de Peter Medak, com Mandy Patinkin, Richard Harris, Salma Hayek (1997); e ainda uma versão em animação, proveniente dos estúdios Disney, de 1996, realizada por Gary Trousdale e Kirk Wise, com vozes de Demi Moore, Jason Alexander, Tom Hulce, entre outros. Infelizmente não há uma obra-prima a sobressair, e a melhor versão, apesar de muito suavizada por se destinar a um público jovem, é a animação Disney. Há, todavia, um registo vídeo de um espectáculo teatral, um musical francês, que é bastante bom. “Notre-Dame de Paris” (1999) tem libreto de Luc Plamondon, música de Riccardo Cocciante, direcção de Gilles Amado e um elenco comandado por Hélène Ségara, Daniel Lavoie e Bruno Pelletier. Par quem gosta de musicais recomenda-se.
Infelizmente, o livro de Victor Hugo não tem sido muito respeitado, por várias razões. Uma delas porque tentam alterar o seu final, acabando quase sempre num happy end que não existe na obra literária, outra porque no romance surgem personagens nada simpáticas ligadas à igreja, e que normalmente são destorcidas para não ferir susceptibilidades. Depois, esta história da bela e do monstro, na sua versão de Esmeralda, a cigana, e Quasímodo, o corcunda de Notre-Dame, deixava (será que ainda deixa?) muitos amargos de boca. Quase todas as versões suavizaram a intriga e as personagens, e esta de Jean Delannoy ainda terá sido aquela que mais escrúpulos terá tido na sua adaptação.
Mas Jean Delannoy também não fez jus ao original donde partiu, sobretudo pela forma académica como colocou em imagens as palavras do mestre francês.  Delannoy assinou alguns títulos interessantes, nos anos 40 e 50. “Regresso Eterno” (1943), “Sinfonia Pastoral” (1946), “O Segredo de Mayerling” (1949) e “Deus Precisa dos Homens” (1950) são alguns dos seus filmes mais interessantes, até chegar a “Maria Antonieta” e “Nossa Senhora de Paris” (ambos de 1956). Depois haverá sobretudo a sublinhar duas adaptações de Simenon, com o grande Jean Gabin como inspector Maigret, “O Inspector Maigret” (1959) e “O Senhor Barão” (1960). Mas Jean Delannoy, como Jean Paul Le Chanois (que nos anos 50 também nos ofereceu uma muito académica versão de “Os Miseráveis”) são os bombos da festa da “nouvelle vague” que vê neste cinema esclerosado os símbolos do “cinema de Papa” que eles tanto odeiam, com alguma razão, e com maior veemência para se tornarem notados enquanto chefes de fila de uma nova corrente, que têm de destruir o que para trás fica para construir uma nova ordem sobre as ruínas da anterior.


Voltando a “Nossa Senhora de Paris”, não se poderá dizer que seja um grande filme, apesar de se notar a vontade de adaptar escrupulosamente o romance, com as devidas reduções que um caso destes sempre impõe. Mas os cenários são demasiados visíveis, a encenação estridente, o artificialismo da reconstrução histórica evidente. Há demasiado estúdio, mesmo quando é a verdadeira Notre-Dame que está presente. O argumento, que tem a garantia de dois nomes, Jean Aurenche e Jacques Prévert, sobretudo o deste último, funciona relativamente, mas necessitava de uma outra amplitude de concepção. Os intérpretes são bons, Anthony Quinn compõe um Quasimodo que se encaixa como uma luva no seu físico e na sua fisionomia, Gina Lollobrigida é a mais bonita Esmeralda da história, Alain Cuny é uma presença misteriosa e maléfica que peca talvez por uma certa monotonia de composição, é há a curiosidade de se verem aparições curtas de poetas e escritores como Robert Hirsch ou Boris Vian.
No seu cômputo geral, “Notre-Dame de Paris” vê-se sobretudo pela obra donde parte e pela interpretação do duo protagonista. De resto, uma superprodução muito em moda nesta altura (meados dos anos 50), pomposa e pouco convincente.

NOSSA SENHORA DE PARIS
Título original: Notre-Dame de Paris
Realização: Jean Delannoy (França, Itália, 1956); Argumento: Jean Aurenche, Jacques Prévert, (Ben Hecht, não creditado), segundo romance de Victor Hugo; Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim; Música: Georges Auric; Fotografia (cor):  Michel Kelber; Montagem: Henri Taverna; Design de produção: René Renoux; Guarda-roupa: Georges K. Benda; Maquilhagem: Louis Bonnemaison, Georges Klein, Huguette LaLaurette, Jean Lalaurette; Coreografia: Léonide Massine; Direcção de Produção: Ludmilla Goulian, Paul Laffargue; Assistentes de realização: Joseph Drimal, Alain Kaminker, Pierre Zimmer; Departamento de arte: Maurice Barnathan; Som: Jacques Carrère; Efeitos especiais: Gérard Cogan; Companhias de produção: Panitalia, Paris Film Productions; Intérpretes: Gina Lollobrigida (Esmeralda), Anthony Quinn (Quasimodo), Jean Danet (Phoebus de Chateaupers), Alain Cuny (Claude Frollo), Robert Hirsch (Pierre Gringoire), Danielle Dumont (Fleur de Lys), Philippe Clay (Clopin Trouillefou), Maurice Sarfati (Jehan Frollo), Jean Tissier (Louis XI), Valentine Tessier (Aloyse de Gondelaurier), Jacques Hilling (Mestre Charmolue), Jacques Dufilho (Guillaume Rousseau), Roger Blin (Mathias Hungadi), Marianne Oswald, Roland Bailly, Piéral, Camille Guérini, Damia, Robert Lombard, Albert Rémy, Hubert de Lapparent, Boris Vian (O Cardela),  Georges Douking, Paul Bonifas, Madeleine Barbulée, Albert Michel, Daniel Emilfork, Doudou Babet, Raymond Bailly, Edmond Beauchamp, Robert Blome, Philippe Chauveau, Arielle Coigney, Yvonne Constant, Christine Darvel, José Davilla, Hugues de Bagratide, Germaine Delbat, Jenny Doria, Van Doude, Jean-Pierre Dréan, Pierre Duverger, Pierre Fresnay (narrador), Claude Ivry, Dominique Marcas, Jean Martin, Franck Maurice, Robert Rietty, María Riquelme, Louisette Rousseau, Nadine Tallier, Jean Thielment, Françoise Vallery; Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Estevez; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 19 de Abril de 1957.


GINA LOLLOBRIGIDA (1927 - ?)
Luigina Lollobrigida nasceu em Subiaco, Itália, a 4 de Julho de 1927, contando presentemente 87 anos de idade. Filha de um fabricante de móveis, com três irmãs (Giuliana, Maria e Fernanda), Luigina Lollobrigida passou a juventude na aldeia natal. Durante a II Guerra Mundial, o negócio da família foi destruído durante um bombardeamento e resolveram todos mudar-se para Roma, onde a jovem Lollo (como passaria a ser conhecida depois de famosa) estudou arte, pintura e escultura, a sua primeira vocação. Por essa altura começou igualmente a fazer-se notar como modelo, figurante de filmes e participante em concursos de beleza. Em 1947, ficou em terceiro lugar no concurso de Miss Itália. Nesse ano, Lucia Bosé ganhou, Gianna Maria Canale ficou em segundo lugar, Eleonora Rossi Drago foi desqualificada por ser casada e mãe, e Lollobrigida teve um forte impulso na sua carreira com esta participação. Consta que o célebre milionário norte-americano Howard Hughes a viu e voou de Hollywood para Itália, querendo levá-la para os EUA, mas sem resultados. Permaneceu no seu país e em 1949 casou com um médico esloveno, Milko Škofič, de quem viria a ter um filho, Andrea Milko, acabando por se divorciar em 1971.
Howard Hughes não desarmou e levou-a mesmo a Hollywood, em 1950, instalando-a no Town House de Wilshire Boulevard, mas a experiência não vingou, pois Lollobrigida na altura falava mal o inglês, além de se “sentir continuamente vigiada” pelo milionário. Em Itália, de novo, trabalhou com realizadores como Luigi Zampa e Alberto Lattuada e chamou definitivamente a atenção mundial em grandes sucessos de bilheteira, como “Pan, Amor y Fantasía”, de Luigi Comencini, ao lado de Vittorio de Sica, ou “Fanfan la Tulipe”, de Christian-Jacque, tedo como parceiro Gerard Philipe. Hollywood haveria de chegar e de forma fulgurante, em “Beat the Devil”, de John Huston, num elenco com Humphrey Bogart e Jennifer Jones (1953). Passou a ser considerada “a mulher mais bela do mundo” (que era também título de um filme, com que ganhou o primeiro David de Donatello, instituído nesse ano pela Academia de Cinema Italiana). É o seu período de ouro no cinema internacional, com interpretações em obras de grande projecção junto das plateias mundiais: “Trapézio” (1956), “Nossa Senhora de Paris”, “Salomão e a Rainha do Sabá”, Never So Few, “A Lei”, Cuando llegue septiembre (com o qual ganhou um Globo de Ouro), Strange Bedfellows “Vénus Imperial” (novo David de Donatello), “Mulher de Palha”, “Hotel Paradiso”, “Cervantes”, “Boa Noite, Senhora Campbell” (terceiro David de Donatello). Em 1972, participou na série televisiva As Aventuras de Pinocho, de Luigi Comencini, mas a sua aura começou a diminuir. Afastou-se tanto do cinema como da televisão, e dedicou-se à fotografia e à escultura. Realizou dois documentários de curta-metragem, “Le Filippine” e “Ritratto di Fidel”, este último com base em entrevistas pessoais com Fidel Castro. Fotografou, entre outras personalidades, Paul Newman, Audrey Hepburn, Salvador Dalí e a selecção de futebol da RFA. Em 1973, publicou um álbum, “Italia Mia”. Ainda regressou à televisão, em 1984, em excelente forma física, dançando a tarantela, em “Falcon Crest”, com que foi nomeada para um Globo de Ouro. Em 1996, foi-lhe atribuído um David de Donatello pela sua carreira dedicada ao cinema. Dez anos depois, voltaria a ser distinguida. Em Outubro de 1999, Gina Lollobrigida foi nomeada Embaixadora de Boa Vontade da ONU para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Nos últimos anos, tem sido notícia, por um roubo de jóias, uma tentativa falhada de casamento com um empresário espanhol que a procurou aldrabar, e por algumas entrevistas explosivas (“toda a minha vida tive demasiados amantes”).


Filmografia
Como actriz / cinema: 1946: Aquila Nera (Águia Negra), de Riccardo Freda; Lucia di Lammermoor, de Piero Ballerini; 1947: L'Elisir d'Amore (O Elixir do Amor), de Mario Costa; Il Delitto di Giovanni Episcopo (A História do Meu Crime), de Alberto Lattuada; Il Segreto di Don Giovanni (O Segredo de D. João), de Camillo Mastrocinque; A Man About the House (A Casa da Cobiça), de Leslie Arliss; 1948: Follie per l'Opera (Folias na Ópera), de Mario Costa; Pagliacci (Os Palhaços), de Mario Costa; 1949: Campane a Martelo (Toque a Rebate), de Luigi Zampa; La Sposa non può Attendere (A Minha Noiva Não Pode Esperar), de Gianni Franciolini; 1950: Miss Italia (Miss Itália), de Duilio Coletti; Cuori senza fronteire (A Linha Branca), de Luigi Zampa; Alina (Alina, uma Mulher Contrabandista), de Giorgio Pàstina; Vita da Cani (Vida de Cão), de Mario Monicelli e Steno; 1951: La Città si Difende (A Cidade Defende-se), de Pietro Germi; Enrico Caruso (Enrico Caruso), de Giacomo Gentilomo; A Tale of Five Cities, de Romolo Marcellini (Rome, com Lollobrigida), Emil E. Reinert (Paris), Wolfgang Staudte (Berlin), Montgomery Tully (London), Géza von Cziffra (Vienna) e Irma von Cube; Achtung! Banditi!, de Carlo Lizzani; Amor non ho... però... però (Amor de Gina), de Giorgio Bianchi; 1952: Moglie per una Notte, de Mario Camerin; Fanfan la Tulipe, de Christian-Jaque;Altri tempi - Zibaldone n. 1 (Outros Tempos), de Alessandro Blasetti; Les Belles de Nuit ou Le belle della notte (O Vagabundo dos Sonhos), de René Clair; 1953: Le Infedeli (Paineis da Vida), de Mario Monicelli e Steno; La Provinciale (A Provinciana), de Mario Soldati; Pane, Amore e Fantasia (Pão Amor e Fantasia), de Luigi Comencini; Beat the Devil (O Tesouro de África), de John Huston; 1954: Le Grand Jeu (A Grande Ilusão), de Robert Siodmak; Il maestro di Don Giovanni A Espada e a Mulher), de Milton Krims; La Romana (A Bela Romana), de Luigi Zampa; Pane, amore e gelosia (Pão, Amor e Ciúmes), de Luigi Comencini; 1955: La Donna più Bella del Mondo Amais Bela do Mundo), de Robert Z. Leonard; 1956: Trapeze (Trapézio), de Carol Reed; 1957: Notre Dame de Paris (Nossa Senhora de Paris), de Jean Delannoy; 1958: Anna di Brooklyn (Ana de Brooklin), de Vittorio De Sica e Carlo Lastricati; 1959: La Legge (A Lei), de Jules Dassin; Solomon and Sheba (Salomão e a Rainha do Sabá), de King Vidor; Never So Few (Quando Explodem as Paixões), de John Sturges; 1961: Go Naked in the World (Perdida pelo Mundo), de Ranald MacDougall; Come September (Idílio em Setembro), de Robert Mulligan; 1962: La Bellezza di Ippolita, de Giancarlo Zagni; Venere Imperiale (Vénus Imperial), de Jean Delannoy; 1963: Mare Matto, de Renato Castellani; 1964: Woman of Straw (Mulher de Palha), de Basil Dearden; 1965: Le Bambole (Quatro Casos de Amor), de Mauro Bolognini ("Monsignor Cupido", com Lollobrigida), Luigi Comencini ("Il Trattato di Eugenetica"), Dino Risi ("La Telefonata"), Franco Rossi ("La Minestra"); Strange Bedfellows (Quarto Para Dois), de Melvin Frank; 1966: Io, io, io... e Gli Altri (Eu, Eu, Eu …e os Outros), de Alessandro Blasetti; Hotel Paradiso (Hotel Paraíso), de Peter Glenville; Les Sultans, de Jean Delannoy; Le Piacevoli Notti Notti (Noites de Outro Tempos), de Armando Crispino e Luciano Lucignani; 1967: Cervantes, de Vincent Sherman; La Morte ha Fatto l'Uovo, de Giulio Questi; 1968: The Private Navy of Sgt. O'Farrell (Cerveja para Todos), de Frank Tashlin; Stuntman (Os Duplos do Crime), de Marcello Baldi; Un Bellissimo Novembre (Um Belíssimo Novembro, de Mauro Bolognini; 1968: Buona Sera, Mrs. Campbell (Boa Noite Senhora Campbell), de Melvin Frank; 1971: Bad Man's River (Vamos Ter Sarilho), de Eugenio Martín; 1972: King, Queen, Knave, de Jerzy Skolimowski; 1973: No Encontré Rosas para mi Madre (Rosas Vermelhas), de Rovira-Beleta; 1995: Les Cent et une Nuits de Simon Cinéma, de Agnès Varda; 1997: XXL, de Ariel Zeitoun.
Televisão: 1972: Le avventure di Pinocchio, de Luigi Comencini; 1984: Falcon Crest; 1985: Deceptions, de Robert Chenault e Melville Shavelson; 1986: The Love Boat; 1988: La Romana, de Giuseppe Patroni Griffi; 1996: Una donna in fuga, de Roberto Rocco.

Como realizadora: 1972: Le Filippine e Ritratto di Fidel (curtas metragens documentais).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

DIA 10 DE FEVEREIRO DE 2015


E DEUS… CRIOU A MULHER (1956)

Roger Vadim não pertencia ao grupo dos “Cahiers du Cinema” que reclamou para si a criação da “Nouvelle Vague”, em finais da década de 50 do século XX, mas a verdade é que se há filme que tenha lançado um novo movimento em França, em 1956, esse filme foi "Et Dieu... Créa la Femme". Por variadíssimas razões: um jovem realizador que não tem atrás de si nenhuma experiência a não ser como argumentista, uma produção bastante diferente da dos habituais estúdios franceses da época, uma realização muito mais livre e espontânea, rodada em grande parte em exteriores (e interiores) naturais (na Riviera francesa, sobretudo em La Ponche e Saint-Tropez), uma atenção muito especial a personagens jovens, com comportamentos que se desviavam muito dos padrões tradicionais, actores quase desconhecidos (Brigite Bardot tinha atrás de si uma carreira de figurante e de secundária até 1956, o mesmo se podendo dizer de Jean-Louis Trintignant), sobretudo sem as técnicas de representação do então chamado “cinema de papa”. Pode, portanto, dizer-se que se não está incluída no lote das películas que os puristas da “Nouvelle Vague” advogam, será certamente um excelente exemplo prévio do que se anunciava. Com a agravante de o seu êxito comercial e de crítica muito ter contribuído para abrir caminho às obras de Truffaut, Godard, Rivette, Chabrol, e tantos outros. De resto, nenhuma linha ideológica unia estes cineastas, e a sua atenção inicial virou-se sobretudo para os mesmos temas de Vadim: os jovens, a sua rebeldia perante a sociedade onde cresciam, perante a hipocrisia de um stato quo bem instalado que não quer perder as regalias de que usufrui. Jovens que descobrem uma sexualidade livre, que rompem com tabus, que expõem o corpo e o desejo, que querem viver perigosamente. Veja-se o caso de Juliete Hardy (Brigitte Bardot), a protagonista de “E Deus… criou a Mulher”, quando lhe perguntam porque dispara contra garrafas: “Adoro disparar. É excitante”.


Numa zona piscatória de St. Tropez, Juliete Hardy, uma órfã com cerca de dezoito anos, é empregada numa tabacaria, e vive sob a custódia de uma família que a adoptou, retirando-a do orfanato. Juliete é temperamental, rebelde, de sangue quente e de sexualidade à flor da pele. Não será de estranhar que todos se virem quando passa, sobretudo montada na sua bicicleta e com uma roupa colado ao corpo, desenhando-lhe as formas e deixando adivinhar o desejo inquieto. Eric Carradine (Curd Jurgens), um homem de meia-idade e bem instalado nos negócios dos estaleiros, não esconde as intenções, nem ela lhe esconde o corpo, quando este a visita, e a encontra a tomar banhos de sol, nua. Mas Antoine Tardieu (Christian Marquand) também a deseja, com intenções igualmente pouco recomendáveis. Quando a postura de Juliete começa a dar brado na comunidade e as vozes se levantam, os pais adoptivos querem devolvê-la ao orfanato. Para impedir esse desenlace, Michel Tardieu (Jean-Louis Trintignant), o generoso e algo ingénuo irmão mais novo de Antoine, oferece-se para casar com Juliete. O que acontece, com consequências dramáticas.


Nos anos 50, tudo é escandaloso neste filme. Não que a realidade do dia-a-dia não confirmasse todas as situações e personagens, mas nunca tinham sido apresentadas no cinema imagens com tal crueza. Antes de tudo o mais, a figura de Juliete Hardy, a sua irreverência, a sua ingénua perversidade (parece contraditório, mas não é, está patente e é um dos fascínios desta personagem), o gosto pelo risco, a sedução, o erotismo selvagem e sem regras, tudo isso transtorna as mentes bem pensantes da época. Juliete Hardy é a provocação em andamento, e não foi de estranhar que as Ligas de Decência dos EUA tenham boicotado a obra, pouco depois de terem feito o mesmo ao filme de Elia Kazan “A Voz do Desejo” (Baby Doll), igualmente de 1956. O escândalo ajudou a promover o título, que rapidamente se tornou um sucesso. Depois, o interesse pouco ortodoxo de um homem de certa idade por uma jovem de dezoito anos não era tema fácil de digerir, nem sequer a forma como Antoine deseja a presa que julga fácil. A ingenuidade de Michel Tardieu e a forma como ela é rapidamente ultrapassada por Juliette será outro motivo de inquietação. Nada no filme se coaduna com os “bons costumes” que as “gentes de bem” pregam (mesmo que muitas vezes os não pratiquem na prática, mas esse é um outro problema: vícios privados, públicas virtudes, é o lema). O que “E Deus…Criou a Mulher” vem pôr a descoberto é precisamente essa duplicidade de olhar e de comportamento. Roger Vadim e a sua vedeta de momento escancaram a hipocrisia da V República Francesa. Juliete Hardy ficará para sempre como o símbolo de uma juventude rebelde e insubmissa. O retrato feminino e francês dos “teddy boys” americanos que eram visíveis em filmes como “Fúria de Viver” (Rebel Without a Cause), “O Selvagem” (The Wild One) ou “Sementes de Violência” (Blackboard Jungle).


De resto, a obra de Vadim apresentava uma espontaneidade de olhar e de escrita que surpreendia e mostrava uma Saint-Tropez que rapidamente se tornaria uma sensação turística por causa dos feitos de BB (o mesmo aconteceria mais tarde na paria de Búzios, no Brasil, que a actriz visitou e que tornou famosa de tal forma que tempos depois se lhe erigiu uma estátua no centro da cidade). Brigitte lançava-se aqui também como cantora, sobretudo com um tema que faria furor: “Dis-moi quelque chose de gentil”.
O filme acaba, de certa forma, por castigar a ousadia da jovem, mas ostentar essa sensualidade de que os homens se aproximam mas não conseguem refrear (é ela sempre que comanda as operações, ainda que nem sempre da melhor maneira) era já de si um elemento perturbador e profundamente “novo”. Para mais numa pouco mais que adolescente. Era um passo importante na emancipação da mulher, sobretudo na assunção de um lugar idêntico ao do homem, num capítulo tão sensível como a sexualidade. 



E DEUS… CRIOU A MULHER
Título original: Et Dieu... Créa la Femme
Realização: Roger Vadim (França, Itália, 1956); Argumento: Roger Vadim, Raoul Lévy; Produção: Raoul Lévy, Ignace Morgenstern; Música: Paul Misraki; Fotografia (cor):  Armand Thirard; Montagem: Victoria Mercanton; Design de produção: Jean André;  Maquilhagem: Hagop Arakelian; Direcção de Produção: Michel Choquet, Claude Ganz, Jacqueline Leroux-Cabuis; Assistentes de realização: Pierre Boursaus, Paul Feyder;  Departamento de arte:  Jean Forestier, Georges Petitot; Som: Pierre-Louis Calvet; Companhias de produção: Cocinor, Iéna Productions, Union Cinématographique Lyonnaise (UCIL); Intérpretes: Brigitte Bardot (Juliete Hardy), Curd Jürgens (Eric Carradine), Jean-Louis Trintignant (Michel Tardieu), Jane Marken (Madame Morin, Jean Tissier (M. Vigier-Lefranc), Isabelle Corey (Lucienne), Jacqueline Ventura (Mme Vigier-Lefranc), Jacques Ciron, Paul Faivre, Jany Mourey, Philippe Grenier, Jean Lefebvre, Leopoldo Francés, Marie Glory, Georges Poujouly, Christian Marquand (Antoine Tardieu), Roger Vadim (um amigo de Antoine no carro), Raoul Lévy (um jogador), etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal: PrisvÍdeo; Classificação etária: M/ 12 anos.


BRIGITTE BARDOT (1934 - )
Foi Jean Cocteau, quem a dirigiu num filme seu, que dela disse: “A sua beleza e talento são inegáveis, mas ela possui qualquer coisa mais que atrai os idólatras numa época privada de deuses". Falava de Brigitte Bardot. Nasceu a 28 de Setembro de 1934, em Paris, França, de uma família burguesa, bem instalada na vida. A mãe é Anne-Marie Mucel, o pai, Louis Bardot, um industrial de ar líquido, dono das Usines Bardot, e um entusiasta por cinema. Educada de forma rigorosa, desde muito nova que lhe foi diagnosticada uma ambliopia, disfunção oftálmica caracterizada pela perda da visão num dos olhos, no seu caso o esquerdo. Estuda dança clássica, sendo uma óptima aluna do curso Bourgat. Em 1949, entra para o Conservatoire de Paris. Nesse mesmo ano, Hélène Lazareff, directora então da “Elle” e do “Jardin des Modes”, grande amiga de Madame Bardot, escolhe Brigitte para apresentar a moda jovem. Aos 15 anos, torna-se no símbolo juvenil da “Elle”, aparecendo na capa. Marc Allégret, realizador, aprecia as fotos, e convoca-a, mas os pais opõem-se a que ela seja actriz. Foi o avô que a defendeu: “Si cette petite doit un jour être une putain, elle le sera avec ou sans le cinéma, si elle ne doit jamais être une putain, ce n'est pas le cinéma qui pourra la changer! Laissons-lui sa chance, nous n'avons pas le droit de disposer de son destin”. O assistente de Allégret era Roger Vadim. O encontro não leva a filme nenhum na altura, mas a uma paixão entre Vadim e Brigitte. A relação não é bem vista pelos pais, que a querem enviar para Inglaterra. Aproveitando o facto de os pais irem a um concerto, tenta suicidar-se com gás. Foi o acaso do espectáculo ter sido cancelado que lhe salvou a vida: regressados a casa mais cedo, os Bardot salvam a filha, e aceitam não a enviar para Inglaterra, a troco da promessa de ela não casar com Vadim, senão aos 18 anos. O que acontece. Só a 21 de Dezembro de 1952. Estreia-se, entretanto, no cinema, num filme de Jean Boyer, “Le Trou Normand”, num pequeno papael mínimo. Continua em papéis insignificantes, em filmes importantes, ou papéis mais importantes, em filmes insignificantes. Passa pelo teatro, em “L'Invitation au Château”, de Jean Anouilh. Uma experiência falhada, que não irá repetir.

A consagração chega em 1956, quando Roger Vadim e Raoul Lévy escrevem um argumento intitulado “Et Dieu... créa la Femme”. Ninguém queria produzir o filme, mas toda a gente comentava já a beleza provocante de uma jovem que passeava por Cannes. Foi Curd Jürgens, um actor de prestígio na época, que aceitou patrocionar o filme que se iria rodar numa localidade não muito conhecida, Saint-Tropez. O filme iria alterar tudo isso: Brigitte Bardot passaria rapidamente a ser a mundialmente conhecida como BB, lenda e mito do cinema, modelo para a estátua da República Francesa, sex-symbol international, paradigma para a juventude. Saint-Tropez passava a ser destino de eleição na Riviera Francesa. Vadim seria realizador do momento. Consta que um caso com Jean-Louis Trintignant iria precipitar o divórcio com Vadim, a 6 de Dezembro de 1957.
Sobre “E Deus Criou a Mulher”, Vadim disse: “Je voulais, à travers Brigitte, restituer le climat d'une époque, Juliette est une fille de son temps, qui s'est affranchie de tout sentiment de culpabilité, de tout tabou imposé par la société et dont la sexualité est entièrement libre. Dans la littérature et les films d'avant-guerre, on l'aurait assimilée à une prostituée. C'est dans ce film une très jeune femme, généreuse, parfois désaxée et finalement insaisissable, qui n'a d'autre excuse que sa générosité”.
Mal acolhido em França, é exportado para os EUA, onde conhece um triunfo invulgar. Fala-se em “bardotlatria”. Relançado em salas francesas, é agora um sucesso. Os “Cahiers du Cinéma”, que haviam menosprezado o filme e os intérpretes, engolem seco. BB é a francesa mais conhecida na América. A imprensa fala de uma mulher que conjuga o melhor de Marlène Dietrich, de Ava Gardner, de Jane Russell, de Marilyn Monroe, numa mistura explosiva, com uma fantasia pessoal muito própria. Torna-se a mulher fetiche das décadas de 50 e 60 do século XX. O símbolo da emancipação feminina e da liberdade sexual. Mulher-criança, mulher fatal. Uma mescla explosiva que não deixou ninguém indiferente. No feminino, só Simone de Beauvoir ou Françoise Sagan se lhe aproximaram em celebridade. Roda sob as ordens de alguns dos maiores realizadores desse tempo: Sacha Guitry, Marc Allégret, René Clair, Anatole Litvak, Robert Wise, Claude Autant-Lara, Christian-Jaque, Serge Bourguignon, Henri-Georges Clouzot, Jean Cocteau, Louis Malle, Jean-Luc Godard, Édouard Molinaro, Edward Dmytryk, Michel Deville, Robert Enrico, Nina Companeez, para lá do próprio Roger Vadim. Entretanto, a sua vida sentimental é tumultuosa. Durante as filmagens de “Babette Vai à Guerra” (1959), conhece Jacques Charrier, casam e permanecem unidos até 1962. Em 1966, volta a casar com Gunter Sachs, com quem se mantém até ao divórcio, em 1969. Só em 1992 volta a casar, agora com o político de extrema-direita Bernard d'Ormale. Dizem os biógrafos que manteve relações com Jean-Louis Trintignant, Sami Frey, Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg, Sacha Distel, o escritor John Gilmore e o escultor Miroslaw Brozek. Como cançonetista conhece igualmente o sucesso, com temas como "Harley Davidson", "Je Me Donne A Qui Me Plait", "Bubble gum", "Contact", "Je Reviendrais Toujours Vers Toi", "L'Appareil A Sous", "La Madrague", "Le Soleil De Ma Vie", "On Déménage", "Sidonie", "Tu Veux, Tu Veux Pas". Em 1973, com 39 anos, e depois de concluir as filmagens de “L'Histoire très Bonne et très Joyeuse de Colinot Trousse-chemise”, de Nina Companeez, abandona o cinema e retira-se. Sobrevive a um cancro da mama, e torna-se um ferverosa defensora dos direitos dos animais. Em 1986, inaugurou a Fondation Brigitte-Bardot e desenvolve várias campanhas em prol dos animais. Patrocina a série de TV francesa “S.O.S. Animaux”, entre 1989 a 1992. Vegetariana, acaba de completar 80 anos, no meio de algumas polémicas por declarações consideradas extremistas, racistas e xenófobas.


Filmografia:

1952: Le Trou Normand, de Jean Boyer; Manina, la Fille sans Voiles, de Willy Rozier; Les Dents Longues (O Ambicioso), de Daniel Gélin; 1953: Le Portrait de Son Père, de André Berthomieu; Un Acte d'Amour ou Act of Love (Um Gesto de Amor), de Anatole Litvak; Si Versailles m'était conté... (Se Versalhes Falasse), de Sacha Guitry; 1954: Tradita, de Mario Bonnard; Le Fils de Caroline Chérie (As Mulheres e o Rebelde), de Jean-Devaivre; 1955: Futures Vedettes, de Marc Allégret; Doctor at Sea (Uma Garota a Bordo), de Ralph Thomas; Les Grandes Manœuvres (As Grandes Manobras), de René Clair; La Lumière d'en Face, de Georges Lacombe; Cette Sacrée Gamine (Uma Diabo de Saias), de Michel Boisrond; 1956: Mio figlio Nerone, de Steno; En Effeuillant la Marguerite (Desfolhando a Margarida), de Marc Allégret; Et Dieu… Créa la Femme (E Deus Criou a Mulher), de Roger Vadim; La Mariée est Trop Belle (A Noiva Era de Gritos), de Pierre Gaspard-Huit; Hélène de Troie (Helena de Tróia), de Robert Wise; 1957: Une Parisienne (Uma Parisiense), de Michel Boisrond; 1958: Les Bijoutiers du Clair de Lune (Vagabundos ao Luar), de Roger Vadim; En Cas de Malheur (Um caso perdido), de Claude Autant-Lara; 1959: La Femme et le Pantin (A Mulher e o Fantoche), de Julien Duvivier; Babette s'en va-t-en Guerre (Babette vai à guerra), de Christian-Jaque; Voulez-vous danser avec moi ? (Você Quer Dançar Comigo?), de Michel Boisrond; 1960: L'Affaire d'une Nuit, de Henri Verneuil; La Vérité (A Verdade), de Henri-Georges Clouzot; Le Testament d'Orphée, ou ne me demandez pas pourquoi!, de Jean Cocteua (não creditada);1961: La Bride sur le Cou (Uma Mulher Sem Freio), de Roger Vadim; Les Amours Célèbres (Amores Célebres), episódio “Agnès Bernauer”, de Michel Boisrond; 1962: Vie Privée ()Vida Privada, de Louis Malle; Le Repos du guerrier (O Repouso do Guerreiro), de Roger Vadim; 1963: Paparazzi, de Jacques Rozier; Le Mépris (O Desprezo), de Jean-Luc Godard; Une Ravissante Idiote (Uma Encantadora Idiota), de Édouard Molinaro; 1964: Marie Soleil, de Antoine Bourseiller (não creditado); 1965: Dear Brigitte, de Henry Koster; Viva María! (Viva Maria!), de Louis Malle; 1966: Masculin féminin, de Jean-Luc Godard; 1967: À Cœur Joie (Duas Semanas em Setembro), de Serge Bourguignon; 1968: Histoires extraordinaires (Histórias Extraordinárias), episódio “William Wilson”, de Louis Malle; Shalako (Shalako), de Edward Dmytryk; 1969: Les Femmes (As Mulheres), de Jean Aurel; 1970: L'Ours et la Poupée (O Urso e a Boneca), de Michel Deville; Les Novices (As Noviças), de Guy Casaril; 1971: Boulevard du Rhum (Bulevar do Rum), de Robert Enrico; Les Pétroleuses (As Rainhas do Petróleo), de Christian-Jaque; 1973: Don Juan 73 ou si Don Juan était une Femme (Se D. Juan Fosse Mulher), de Roger Vadim; L'Histoire très Bonne et très Joyeuse de Colinot Trousse-chemise (A Vida Alegre de Colinot), de Nina Companeez.