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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

28 DE JULHO DE 2015


A RAPARIGA DA MALA (1961)

Existe uma meia dúzia de génios na história do cinema italiano (Felllini, De Sica, Visconti, Rossellini, Antonioni, Pasolini, Bertolucci…), que ofusca muitos outros cineastas com imenso talento mas não tão bem reconhecidos internacionalmente. Um entre muitos outros, é Valério Zurlini, um homem nascido em Bolonha, em 1926, e falecido em Verona, em 1982, e que deixou uma obra extremamente valiosa e muito solitária no interior da filmografia transalpina. Estudou Direito, passou pelo teatro, entrou no cinema pela porta do documentarismo e, em 1954, estreia-se na longa-metragem com a adaptação de um romance de Vasco Pratolini, “Le Ragazze di San Frediano” (As Raparigas de San Frediano), que é relativamente bem acolhido. Mas será com as duas obras seguintes, ambas interpretadas por Claudia Cardinale, que entrará na História, “Estate Violenta” (Verão Violento, 1959), e sobretudo “La Ragazza con la Valigia” (A Rapariga da Mala, 1961).
Pode falar-se de alguma influência do neo-realismo, mas Zurlini tem uma voz muito pessoal e um posicionamento diverso. A sua curta filmografia prossegue com outra adaptação de Pratolini, “Cronaca Familiare” (Dois Irmãos, Dois Destinos, 1962) a que se seguem títulos com recepção de público e crítica muito diversa, “Le Soldatesse” (1965), “Seduto alla sua Destra” (1968), “La Prima Notte di Quiete” (Outono Escaldante, 1972), culminando com “Il Deserto dei Tartari” (1976), uma versão muito aplaudida do romance de Dino Buzzati. Zurlini morre cedo, vítima de uma hemorragia gástrica, a sua obra nunca foi devidamente avaliada, apesar de muito amada por alguns, poucos, que lhe reconhecem a importância e o significado na renovação da cinematografia italiana. “A Rapariga da Mala” é um bom exemplo do seu talento, da sua sensibilidade, do seu olhar muito particular perante a realidade social do seu país, mas igualmente sobre as emoções e os sentimentos das suas personagens. Zurlini é um homem discreto, subtil, que desenha grandes paixões e grandes desesperos com a delicadeza necessária e o pudor que se impõe.
“A Rapariga da Mala” fala de Aida Zepponi (Claudia Cardinale), que chega a Parma no carro de Marcello Fainardi (Corrado Pani) e que é abandonada por este. Fica numa estação de comboios, só, com uma mala e o desespero de se saber traída. Procura reencontrar o playboy que a deixou, vai ter a sua casa, um belo palacete onde se encontra Lorenzo Fainardi (Jacques Perrin), o irmão mais novo de Marcello, que percebe toda a extensão da perfídia  deste e procura ajudar a “rapariga da mala” a descobrir uma solução. Mas a cada vez que se encontram, Lorenzo mais e mais se apaixona por Aida. Ele é ainda um adolescente, despertando para a vida, mas o amor invade-o e o ciúme instala-se quando vê Aida a ser galanteada e a dançar com outros.


Há neste filme da descoberta do amor uma cena absolutamente de antologia. Lorenzo leva Aida para sua casa, que nesse dia se encontra sem ninguém, e ela vai tomar um banho no andar de cima, enquanto o jovem coloca a tocar uma ária da ópera “Aida”. Quando a belíssima Claudia Cardinale desce a escadaria, envolta num roupão banco, ao som da música de Verdi, os olhos de Lorenzo brilham de encantamento e também todos os do público que assiste a esta cena inesquecível. Mas há mais. Por exemplo: Lorenzo, assistindo à sedução de Aida por um grupo de desconhecidos que a cortejam, à noite, junto à piscina do hotel, é outro momento magnífico de cinema, num filme que todo ele se impõe como uma lição na arte de exprimir por imagens emoções sem nunca cair na facilidade ou no sentimentalismo gratuito.
Para lá da qualidade sensível da realização de Zurlini, há ainda que referir a fotografia a preto e branco de Tino Santoni que, quer em exteriores como em interiores, consegue sempre apoiar as intenções dramáticas da obra, sem as tornar demasiado ostensivas, e ainda a excelente interpretação de Claudia Cardinale e Jacques Perrin, sobretudo estes dois, mas todo o elenco é perfeito. Cardinale terá uma das suas interpretações inesquecíveis, no apogeu da sua beleza e no início de uma retumbante carreira, e Jacques Perrin, que lançava já os alicerces de um percurso invulgar que o levaria a produtor de obras de autores importantes, e a papéis como o de “Cinema Paraíso”. Deve ainda sublinhar-se a banda sonora de “A Rapariga da Mala”, que oferece uma panorâmica invulgar de sucessos musicais desse período. A partitura original é de Mario Nascimbene, acompanhado por Bruno Nicolai e Mario Gangi, mas dispersos pela intriga, funcionando como comentário subtil, além do Verdi já citado, temos Peppino Di Capri, Dimitri Tiomkin, Fausto Papetti, Mina, Adriano Celentano, Umberto Bindi, Nico Fidenco, Chuck-Locatelli, não esquecendo a famosa “Tintarella di luna”.

A RAPARIGA DA MALA
Título original: La Ragazza con la Valigia
Realização: Valerio Zurlini (Itália, França, 1961);  Argumento: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Giuseppe Patroni Griffi, Valerio Zurlini; Produção: Charles Delac, Maurizio Lodi-Fè; Música: várias Mario Nascimbene supervisor; Fotografia (p/b): Tino Santoni; Montagem: Mario Serandrei; Design de produção: Flavio Mogherini; Guarda-roupa: Gaia Romanini; Maquilhagem: Giovanni Ranieri, Vasco Reggiani; Assistentes de realização: Mario Maffei, Piero Schivazappa; Som: Enzo Silvestri; Companhias de produção: Titanus, Société Générale de Cinématographie (S.G.C.); Intérpretes: Claudia Cardinale (Aida Zepponi), Jacques Perrin (Lorenzo Fainardi), Luciana Angiolillo (Tia de Lorenzo), Renato Baldini (Francia), Riccardo Garrone (Romolo), Elsa Albani (Lucia), Corrado Pani (Marcello Fainardi), Gian Maria Volonté (Piero Benotti), Romolo Valli (Don Pietro Introna), Enzo Garinei (Pino), Ciccio Barbi (Crosia), Nadia Bianchi (Nuccia), Angela Portaluri, Edda Soligo (professora), etc. Duração: 121 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes; Cópia DVD: Versatil Home Vídeo, Brasil; Classificação etária: M/ 12 anos.
 

CLAUDIA CARDINALE (1938 - )
É uma das mulheres mais bonitas da História do Cinema e tem uma característica invulgar: tanto é credível como uma sofisticada aristocrata, como uma camponesa da província ou uma burguesa da cidade. Não é só a beleza que a identifica, mas também uma forte personalidade e um talento imenso. Claude Josephine Rose Cardinale nasceu a 15 de Abril de 1938, em Túnis, na Tunísia,  contando agora 77 anos. Os pais eram sicilianos, ela estudou no liceu Cambon, e ganhou um concurso de beleza, que a considerava “a mais bela italiana de Túnis”. A língua familiar era o dialecto siciliano, e a língua aprendida na escola o francês. O italiano só o começou a dominar muito mais tarde. Nos seus primeiros filmes, era dobrada. Os primeiros contactos com o cinema, em 1955, resultam dessa eleição, que a leva ao Festival de Veneza, onde se faz desde logo notar. Mas Claudia queria ser professora, recusa propostas e apenas aceita interpretar uma curta-metragem, “Anneaux d'or”, de René Vautier. Só em 1958 se estreia na longa-metragem, em “Goha”, de Jacques Baratier, mas é sobretudo em “Gangsters Falhados”, de Mario Monicelli, que ela se afirma plenamente. Franco Cristaldi é o produtor, que será, a partir de 1966 até 1975, o primeiro marido de Cardinale. Os anos 60 são de triunfo constante, trabalhando sob as ordens de alguns dos mais importantes cineastas, como Luchino Visconti, Valerio Zurlini, Mauro Bolognini, Abel Gance, Henri Verneuil, Philippe de Broca, Luigi Comencini, Federico Fellini, Blake Edwards, Henry Hathaway, ou Sergio Leone. Até 1963, em “Fellini 8 ½”, Claudia Cardinale era dobrada. Em “O Leopardo” foi dobrada por Solveyg D’Assunta, mas falou francês nas cenas com Alain Delon, e inglês quando contracenava com Burt Lancaster. Nos anos 60 e 70 atingiu o estrelato internacional, em obras de Visconti, “Rocco e os Seus Irmãos” ou “O Leopardo”, ao lado de Jean-Paul Belmondo, em “Cartouche”,  no já referido “8 ½” ou em “O Mundo do Circo”, de Henry Hathaway, ou “Era uma vez no Oeste”, de Sergio Leone. Cuidando particularmente bem da sua carreira, quase só trabalhou a partir daí com grandes cineastas, como Marco Ferreri, Luigi Comencini, Franco Zeffirelli, Marco Bellocchio, Luchino Visconti (para quem  interpretou quatro filmes), Jerzy Skolimowski, Mikhaïl Kalatozov, George P. Cosmatos, Alan Bridges, Werner Herzog, Christian-Jaque, José Giovanni, Michel Lang, Nadine Trintignant, Diane Kurys ou Robert Enrico, e muitas vezes para o seu segundo marido, o produtor e realizador  Pasquale Squitieri (1975 até ao presente). A partir dos anos 90 a sua participação no cinema é espaçada, mas intensifica a televisão, ao teatro e à escrita. Nos anos 2000, em Paris, interpreta, “La Vénitienne”, de um anónimo do século XVI (2000), e “Sweet Bird of Youth” de Tennessee Williams (2005). De espírito liberal, empenhada politicamente, defendendo causas humanitárias, foi Embaixadora de Boa Vontade da UNESCO, em 1999. Escreveu uma autobiografia, lançada em 2005, “Mes étoiles” (Ed.Michel Lafon) e, em 2009, um livro de fotografias,  “Ma Tunisie” (Ed. Timée). Uma das suas últimas interpretações no cinema foi em 2012, “O Gebo e a Sombra”, de Manoel de Oliveira. A 20 de Maio de 2015, espalhou-se a notícia de que Claudia Cardinale teria falecido. Mais uma daquelas brincadeiras de mau gosto que só tem um lado positivo: o desmentido. Felizmente, Claudia Cardinale, uma das mais belas e talentosas actrizes do cinema, está viva.



Filmografia:

Como actriz: 1955: Anneaux de Or, de René Vautier (curta-metragem); 1958: Goha le simple, de Jacques Baratier; 1958: Tre straniere a Roma, de Claudio Gora; I soliti ignoti (Gangsters Falhados),de Mario Monicelli; 1959: Vento del Sud, de Enzo Provenzale; Un maledetto imbróglio (A 3 ª Chave), de Pietro Germi; Il magistrato (Todos foram culpados), de Luigi Zampa; Audace colpo dei soliti ignoti (Golpe Audacioso), de Nanni Loy; La prima notte (Amor e Vigarice), de Alberto Cavalcanti;  Upstairs and Downstairs (Escada Acima, Escada Abaixo), de Ralph Thomas; 1960: La Ragazza con la valigia (A Rapariga da Mala), de Valerio Zurlini; I Delfini, de Francesco Maselli;  Rocco e i suoi fratelli (Rocco e os Seus Irmãos), de Luchino Visconti; Le Bel Antonio (O Belo António), de Mauro Bolognini; Austerlitz (Austerlitz), de Abel Gance; 1961: La Viaccia (A Herança), de Mauro Bolognini; Les Lions sont Lâchés, de Henri Verneuil; Auguste, de Pierre Chevalier; 1962: Cartouche (Cartouche), de Philippe de Broca; Senilità (Beleza Perversa), de Mauro Bolognini; 1963: La ragazza di Bube (A Rapariga de Bube), de Luigi Comencini; 1963: Otto e mezzo (Fellini Oito e Meio), de Federico Fellini; 1963: Il Gattopardo (O Leopardo), de Luchino Visconti; 1963: The Pink Panther (A Pantera Cor-de-Rosa), de Blake Edwards; 1964: Il Magnifico Cornuto (A eterna dúvida), de Antonio Pietrangeli; Gli indifferenti (Os Indiferentes), de Francesco Maselli; Circus World (O Mundo do Circo), de Henry Hathaway; 1965: Vaghe stelle dell'Orsa (Estrelas Vagas de Ursa Sandra), de Luchino Visconti; Blindflod (Com os Olhos Vendados), de Philip Dunne; 1966: Le Fate (As Feiticeiras), (epidódio "Fata Armenia"), de Mauro Bolognini; Lost Command (Os Centuriões), de Mark Robson; The Professionals (Os Profissionais), de Richard Brooks; 1967: Don't Make Waves (Não Faças Ondas), de Alexander Mackendrick; Una Rosa per tutti (Uma rosa para todos), de Francesco Rosi; 1968: La Amante Estelar, de Antonio de Lara (curta-metragem); Il giorno della civetta (O Dia da Vergonha),  de Damiano Damiani; The Hell With Heroes (Vidas Perigosas) de Joseph Sargent; C'era una volta il West (Aconteceu no Oeste), de Sergio Leone; Ruba al prossimo tuo (Que rico par!), de Francesco Maselli; 1969: Nell'anno del Signore, de Luigi Magni; Krasnaya palatka (A Grande Odisseia), de Mikhaïl Kalatozov; Certo, certissimo anzi probabile (Certo, Certíssimo, ou... Talvez Não), de Marcello Fondato; 1970: The Adventures of Gerard (Aventuras de Gerard),  de Jerzy Skolimowski; 1971: L'Udienza (A Audiência) de Marco Ferreri; Bello, onesto, emigrato Australia sposerebbe compaesana illibata (Casamento por Procuração),  de Luigi Zampa; Popsy Pop, de Jean Herman; Les Pétroleuses (As Rainhas do Petróleo), de Christian-Jaque; 1972: La Scoumoune (O Bandido Bem-Amado),  de José Giovanni; 1973: Libera, amore mio... (Libera, Meu Amor...),  de Mauro Bolognini; I guappi, de Pasquale Squitieri; Il giorno del furore, de Antonio Calenda; 1974: Gruppo di famiglia in un interno (Violência e Paixão), de Luchino Visconti; 1975: A mezzanotte va la ronda del piacere (Meia-Noite de Prazer), de Marcello Fondato; 1976: La lozana andaluza, de Vicente Escrivá; Il Comune senso del pudore (O Discreto Sentido do Pudor), de Alberto Sordi; 1977: Qui comincie l'avventura (Aqui Começa a Aventura), de Carlo Di Palma; Il prefetto di ferro (O Governador de Ferro), de Pasquale Squitieri; Jesus de Nazaré (TV); Corleone (O Último Padrinho), de Pasquale Squitieri; 1978: Goodbye & Amen (O Homem da CIA), de Damiano Damiani; 1978: L'arma (A Arma), de Pasquale Squitieri; La Part du feu, de Étienne Périer; Escape to Athena (Fuga para Atenas), de George P. Cosmatos; 1979: Little Girl in Blue Velvet (A Rapariga do Vestido Azul), de Alan Bridges; 1980: Si salvi chi vuole, de Roberto Faenza; 1981: The Salamander (O Esquadrão Salamandra), de Peter Zinner: Elena Leporello; La pelle (A Pele) de Liliana Cavani; 1982: Fitzcarraldo (Fitzcarraldo), de Werner Herzog; 1982: Le Cadeau (O Presente), de Michel Lang; 1983: Le Ruffian (Os Grandes Aventureiros), de José Giovanni; Princess Daisy, de Marco Bellocchio(TV); 1984: Claretta,  de Pasquale Squitieri;  1984: Enrico IV (Henrique IV), de Marco Bellocchio; 1985: La donna delle meraviglie, de Alberto Bevilacqua; L'Été prochain, de Nadine Trintignant; 1986:  Naso di cane (TV); La storia (A História), de Luigi Comencini (TV); 1987: Un uomo innamorato (Homem Apaixonado), de Diane Kurys; 1989: La Révolution française de Robert Enrico e Richard T. Heffron (episódio "Les Années Lumière"); Hiver 54, l'abbé Pierre, de Denis Amar; Atto di dolore, de Pasquale Squitieri; Blu elettrico,  de Elfriede Gaeng (TV); 1990: La batalla de los tres reyes, de Souheil Ben-Barka e Uchkun Nazarov; 1991: Mayrig, de Henri Verneuil; 588, rue Paradis, de Henri Verneuil; 1993: Flash - Der Fotoreporter - Das Zweite Gesicht der Aida; 1993: Son of the Pink Panther (O Filho da Pantera Cor-de-Rosa) de Blake Edward; Mayrig (TV); 1994: Elles ne pensent qu'à ça..., de Charlotte Dubreuil; 1995: 10-07: L'affaire Zeus (TV); 1996: Un été à La Goulette, de Férid Boughedir; Nostromo (TV); 1997: Sous les pieds des femmes, de Rachida Krim; Riches, belles, etc., de Bunny Godillot (ou Bunny Schpoliansky, ou Harmel Sbraire); Il deserto di fuoco (TV); 1998: Mia, Liebe meines Lebens (TV); 1999: Un café... l'addition, de Félicie Dutertre e François Rabes (curta-metragem; 1999: Li chiamarono... briganti!, de Pasquale Squitieri; 2000: Élisabeth - Ils sont tous nos enfants (TV); 2001: And now... Ladies and Gentlemen (Amantes Sem Passado), de Claude Lelouch; 2005: Le Démon de midi, de Marie-Pascale Osterrieth; 2007: Cherche fiancé tous frais payés de Aline Issermann; 2008: Hold-up à l'italienne, de Claude-Michel Rome (TV); 2009: Le Fils (O Meu Filho), de Mehdi Ben Attia; 2010: Un balcon sur la mer (Uma Vista Para o Mar), de Nicole Garcia; Sinyora Enrica ile Italyan Olmak, de Ali Ilhan; Il giorno della Shoah (TV); 2011: Joy de V., de Nadia Szold; 2012: O Gebo e a Sombra de Manoel de Oliveira; El artista y la Modelo, de Fernando Trueba; 2013: Effie Gray, de Richard Laxton; 2014: The Silent Mountain de Ernst Gossner; Ultima  Fermata, de Giambattista Assanti;  Les Francis, de Fabrice Begotti; 2015: Piccolina bella, de Anna Scaglione; All Roads Lead to Rome, de Ella Lemhagen; Twice Upon a Time in the West, de Boris Despodov.

22 DE JULHO DE 2015


BONECA DE LUXO (1961)

O romance donde parte “Boneca de Luxo” traz a assinatura de Truman Capote e tem o título homónimo do filme no original, “Breakfast at Tiffany's”. A sequência inicial mostra-nos Audrey Hepburn (Holly Golightly / Lula Mae Barnes) frente a uma das montras da joalharia Tiffani’s comendo um croissant, bebendo leite de pacote, olhando as jóias do seu encantamento. A banda sonoro é “Blue Moon”. Não se pode ser mais romântico e, todavia, este é um filme de uma muito saudável amoralidade, ou não fosse Capote o seu autor literário. Sobre isso há desde já que dizer que Blake Edwards e o seu argumentista George Axelrod alteraram bastante alguns aspectos do romance para o encaixar numa mais aceitável versão de grande público. Paul Varjak (George Peppard), por exemplo, no romance é assumidamente homossexual, e  Holly Golightly não é apenas uma acompanhante de luxo de homens ricos, mas igualmente de mulheres. O filme ignora ambas as questões e cria para Varjak uma senhora casada, bem instada na vida (Patricia Neal), que lhe decora o apartamento e lhe deixa ainda generosos cheques na mesa da sala, antes de sair satisfeita dos seus encontros. Não se pode dizer que a moralidade seja recuperada inteiramente, mas é mais atenuada.
É Varjak quem resume a história quando tenta iniciar um novo romance: “era uma vez uma bela rapariga que vive com um gato sem nome…” Vem a saber-se depois que a bela rapariga que vive em Nova Iorque nasceu no Texas, casou aos 14 anos com  Doc Golightly (Buddy Ebsen), tem um irmão, Fred, que adora, fugiu de uma vida miserável e anónima para se instalar em Nova Iorque fazendo valer a sua beleza e outros encantos a homens que ela seduz em busca de um casamento rico. Tem realmente um gato, a que chama Gato, porque um gato não tem nome, não pertence a ninguém, como ela própria. Ela ama coisas bravias, julga-se indomável, não acredita no amor, ou pelo menos julga não acreditar, pede 50 dólares ao acompanhante sempre que vai ao toilette, é um estouvada que não se preocupa com as festas que dá e o barulho que provocam (o que leva o chinês do andar de cima a protestar continuamente e a ameaçar chamar a polícia…) e a sua boquilha enorme é bem capaz de provocar um incêndio no chapéu de uma qualquer convidada. De resto, rega plantas com whisky, o que é sempre de bom tom. Hepburn que tem uma carreira carregada de sucessos e de fulgurantes interpretações tem aqui o papel de uma vida (mas, neste caso, Hepburn é como os gatos, tem sete vidas).
Deliciosamente tresloucada e ingénua nalguns aspectos da vida, pelo menos assim parece, tem mesmo como padrinho um velhote simpático que ela visita semanalmente na prisão de Sing Sing. Para lhe entregar o “boletim meteorológico” e receber 100 dólares em troca. Claro que um dia vai ter problemas com as autoridades da brigada antidroga.


Tiffani’s é a sua obsessão e não é de estranhar que quando o prometedor escritor consegue ter 10 dólares vão os dois à joalharia procurar alguma coisa desse preço. Obviamente tarefa impossível, a não ser para um pequeno dedilhador de prata para telefone, bizantinice que não está nos propósitos do casal. Mas o bem avontadado empregado da Tiffani’s além de ter seguramente apadrinhado financeiramente o filme (em boa hora!), ainda aceita gravar as iniciais da Holly num anel que lhes saiu no equivalente americano da Farinha Amparo. Blake Edward é um realizador por vezes brilhante com um sentido da comédia admirável. Além deste esplêndido “Breakfast at Tiffany's”, assinou comédias como “10”, a notável série inicial da “Pantera Cor-de-Rosa”, “Darling Lili”, “The Great Race”, o fabuloso “The Party”, “That's Life!”, "S.O.B."  ou “Victor/Victoria”, o que não o impediu de rodar um drama espantoso, “Days of Wine and Roses”, ou um western extremamente interessante, “Wild Rovers”, entre muitos outros títulos a merecer atenção.
O filme tornou célebre o nº 167 East 71st Street, em Manhattan, Nova Iorque, e seu o poster, que aparece em dezenas e dezenas de quartos de jovens em diversas outras películas, foi considerado o 18º melhor cartaz de sempre num inquérito, “"The 25 Best Movie Posters Ever" organizado pela revista “Premiere”.
Curiosamente quem estava para interpretar o principal papel feminino de “Breakfast at Tiffany's” era Marilyn Monroe, que, alguns anos antes, tinha aparecido, sob as ordens de Billy Wilder, “O Pecado Mora ao Lado”. Ambos os filmes convocam algumas similitudes. Mas Marilyn, que julgo teria sido igualmente uma óptima escolha, ainda que num outro registo, escusou-se. Quem a aconselhou foi Lee Straberg, o guru do Actor’s Studio, que não viu com bons olhos a actriz a interpretar um papel de prostituta de luxo. Foi então convidada a belga Audrey Hepburn. O filme foi começado a rodar por John Frankenheimer, mas Hepburn não se deu bem com ele e este acabou substituído por Blake Edwards.
O elenco é todo ele de luxo, para lá de Audrey Hepburn que, como já vimos, é sumptuosa na composição de Holly Golightly. Mas George Peppard, longe dos filmes catástrofe em que parece ter-se especializado, está muito bem no discreto e tímido escritor Paul "Fred" Varjak, Patricia Neal é uma convincente decoradora em crise de meia idade, Buddy Ebsen é o compreensível e saudoso Doc Golightly, Martin Balsam            é O. J. Berman, um dos muitos generosos contribuintes para a boa vida de Holly, o VIP espanhol José Luis de Vilallonga passa por José da Silva Pereira, um brasileiro cobardolas, muito cioso d seu bom nome, John McGiver é o impagável vendedor da Tiffany's e Mickey Rooney interpreta o impagável Sr. Yunioshi, um chinês resmungão, que antecipa de alguns anos a personagem do chinês ajudante de Peter Seller na serie A Pantera Cor-de-rosa.
“Breakfast at Tiffany's” recebeu diversos prémios e nomeações. Foi nomeado para cinco categorias do Oscar, vencendo duas, três nos Globos de Ouro e cinco nomeações para os Grammy. Nos Oscars as nomeações foram para Audrey Hepburn, para o argumentista George Axelrod            e para a direcção artística, Hal Pereira, Roland Anderson, Samuel M. Comer e Ray Moyer; Ganhou os Oscars de Melhor partitura, Henry Mancini, e Melhor Canção  , a magnífica "Moon River", igualmente de Henry Mancini, escrita igualmente para este filme e, mais ainda, para a voz de Audrey Hepburn. Esta a cantá-la no canto de uma janela, dedilhando uma guitarra tornou-se numa das imagens de marca do filme e de uma certa época.

BONECA DE LUXO
Título original: Breakfast at Tiffany's
Realização: Blake Edwards (EUA, 1961); Argumento: George Axelrod, segundo romance de Truman Capote; Produção: Martin Jurow, Richard Shepherd; Música: Henry Mancini; Fotografia (cor): Franz Planer, Philip H. Lathrop; Montagem: Howard A. Smith; Casting: Marvin Paige; Direcção artística: Roland Anderson, Hal Pereira; Guarda-roupa: Hubert de Givenchy, Edith Head, Pauline Trigere, Joan Joseff; Decoração: Sam Comer, Ray Moyer; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Westmore; Assistentes de realização: William McGarry; Departamento de arte: Gene Lauritzen, Robert McGinnis; Som: Hugo Grenzbach, John Wilkinson, Richard Gramaglia; Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton; Companhias de produção: A Jurow-Shepherd Production; Intérpretes: Audrey Hepburn (Holly Golightly), George Peppard (Paul Varjak), Patricia Neal (2-E), Buddy Ebsen (Doc Golightly), Martin Balsam (O.J. Berman), José Luis de Vilallonga (José), John McGiver (vendedor de Tiffany), Alan Reed (Sally Tomato), Dorothy Whitney (Mag Wildwood), Beverly Powers (Stripper), Stanley Adams (Rusty Trawler), Claude Stroud (Sid Arbuck), Elvia Allman, Orangey (o gato), Mickey Rooney (Mr. Yunioshi), Alfred Avallone, Janet Banzet, Henry Barnard, Henry Beckman, Nicky Blair, Mel Blanc, Bill Bradley, Thayer Burton, Florine Carlan, Sue Casey, Roydon Clark, Marian Collier, Christine Corbin, Dick Crockett, Tom Curtis, Tommy Farrell, James Field, George Fields, Joe Gray, Joseph J. Greene, Barbara Kelley, Kip King, Frank Kreig, Gil Lamb, Hanna Landy, James Lanphier, Mary LeBow, Paul Lees, Leatrice Leigh, Mel Leonard, Mike Mahoney, Frank Marth, Fay McKenzie, Joyce Meadows, Hollis Morrison, Kate Murtagh, Bill Neff, Miriam Nelson, Chuck Niles, Peggy Patten, Robert Patten, John Perri, Michael Quinlivan, William Benegal Rau, Joe Scott, Charles Sherlock, Annabella Soong, Helen Spring, Joan Staley, Nino Tempo, Towyna Thomas, Glen Vernon, Linda Wong, Wilson Wood, Richard Wyler, Michael Zaslow, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Paramount / Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos.


AUDREY HEPBURN (1929- 1993)
Quando ainda adolescente, mas já apaixonado por cinema, escrita e belas mulheres, vi “Guerra e Paz”, de King Vidor, e achei (e escrevi-o num jornal de Portalegre, cidade onde então vivia), que Audrey Hepburn era uma Natasha Rostova sem igual. A minha paixão por Audrey Hepburn permanece e resiste ao tempo. Acho que nunca vi um mau filme com esta actriz.
Audrey Kathleen Ruston, conhecida no cinema por Audrey Hepburn, nasceu a 4 de Maio de 1929, em Bruxelas, Bélgica, e viria a falecer a 20 de Janeiro de 1993, em Tolochenaz, Vaud, na Suíça.  Se há actriz de sangue azul, autêntico e certificado, é esta. A mãe era a baronesa holandesa, Ella van Heemstra, e o pai, Joseph Victor Anthony Ruston, empresário nascido na Boémia, com ascendência inglesa e austríaca. O pai descobre nos seus ancestrais o nome de família Hepburn, que lhe acrescenta oficialmente. Passa a chamar-se Audrey Kathleen Hepburn-Ruston. Com o divórcio dos pais, Audrey viajou com a mãe para Londres, onde estudou. De regresso à Holanda, passou por privações várias durante a ocupação nazi. Chegou a comer folhas e bolbos de tulipas para sobreviver e assistiu à tortura e morte de familiares pelos nazis. Para a libertar da sua ascendência inglesa, mal vista pelos nazis, a mãe mudou-lhe nesse período o nome de Audrey para Edda. Depois da Libertação, regressou aos estudos em Londres, ingressou na escola de ballet de Marie Rambert (de onde saiu por ser alta demais e não ter vocação), trabalhou como modelo e ingressou no cinema em 1948, num pequeno papel, em “Nederlands in 7 lessen”, de Charles Huguenot van der Linden. Conhece Colete, que a escolhe para interpretar “Gigi” no teatro. Em 1951, com “Young Wives' Tale”, chama a atenção e, dois anos depois, é o triunfo, já na produção norte americana, com  “Férias em Roma”, de William Wyler, que se torna um grande sucesso de público e crítica e com o qual Audrey Hepburn ganha o Oscar de Melhor Actriz. Três dias depois ganha o Emmy pelo seu trabalho em teatro, na peça “Gigi”. Carreira fulgurante e triunfal. Ela não apresenta os atributos das "sex goddesses" dessa época, mas em contrapartida apresenta um beleza sofisticada, aureolada com alguma inocência e muita classe. Depois de “Férias em Roma” (1953) a carreira prossegue com obras que se tornam clássicos de um certo tipo de comédias românticas  como “Cinderela em Paris”, “Sabrina”, “Ariane”,  ou dramas como “A História de Uma Freira” (1959). Com “Boneca de Luxo” (1961) transforma-se num ícone de ressonância mundial, o que se mantém nas obras posteriores, “Charada” (1963), “Minha Linda Lady” (1964), terminando a sua filmografia com alguns títulos que fogem ao seu registo tradicional, “Caminho para Dois” (1967), e o filme de terror “Os Olhos da Noite” (1967). Depois deste filme, apresentaram-lhe propostas para aparecer em muitos outros, como “Adeus, Mr. Chips” (1969), “40, Idade Perigosa” (1973), “Nicolau e Alexandra” (1971), “O Exorcista” (1973), “Voando Sobre Um Ninho de Cucos” (1975), “Uma Ponte Longe Demais” (1977) ou “A Grande Decisão” (1977), mas recusou-os todos. Depois de ter casado com o psiquiatra Andrea Dotti, foram raras as suas aparições no cinema. Regressou em 1976, em “A Flecha e a Rosa”, de Richard Lester, e podemos ainda vê-la em “Laços de Sangue” e “Romance em Nova Iorque”, antes de dar por terminada a carreira em “Sempre”, de Steven Spielberg. Em 1988, Audrey tornou-se Embaixadora Especial das Nações Unidas, UNICEF, desenvolvendo esforços para ajudar as crianças da América Latina e de África. Na votação do American Film Institute relativa às “50 Greatest Screen Legends” aparece em terceiro lugar. Foi considerada uma das mais belas mulheres de sempre em vários inquéritos, como os das revistas “People”, “Entertainment Weekly”, "New Woman", “Premiere” e “Empire”. Morreu a 20 de Janeiro de 1993, em Tolochnaz, na Suíça, vítima de um cancro. Casada com o actor Mel Ferrer (1954 - 1968), que conheceu durante uma festa dada por Gregory Peck, e, posteriormente, com o Dr. Andrea Dotti (1969 - 1982). Viveu os últimos anos da vida na Suíça, na companhia de Robert Wolders, um actor holandês. Falava fluentemente diversas línguas: inglês, holandês, espanhol, francês e italiano. Henry Mancini afirmou que o tema “Moon River” tinha sido escrito para ela cantar e que ela o cantou como ninguém mais, apesar de centenas de versões, algumas de vozes como a de Sinatra. O seu papel de Holly Golightly, em “Boneca de Luxo” foi considerada a 32ª melhor interpretação de sempre na votação do “Première Magazine”, “100 Greatest Performances of All Time” (2006). Recusou interpretar “O Diário de Anne Frank” (1959) para não reviver os horrores passados sob a dominação nazi na Holanda. Quando tinha 16 anos, durante a batalha de Arnhem, Audrey foi enfermeira voluntária e tratou um jovem militar inglês ferido, Terence Young, que, mais de 20 anos depois, seria seu director em “Os Olhos da Noite” (1967).
Oscar para Melhor Actriz em “Férias em Roma” (1953) e Oscar Especial por razões Humanitárias em 1993. Nomeada por mais quatro vezes: “Sabrina” (1954), “The Nun's Story” (1959), “Breakfast at Tiffany's” (1961), “Wait Until Dark” (1967). Foi uma das raras actrizes a ganhar Oscar, Globo, Tony, Emmy e Grammy. Entre os seus amigos mais chegados contavam-se Elizabeth Taylor, Eva Gabor, Peter Bogdanovich, Blake Edwards, Julie Andrews, Shirley MacLaine, Gregory Peck, Ben Gazzara e Capucine. Ganhou o Tony Award de Melhor Actriz em 1954, com “Ondine” e em 1968 um Tonny honorário. Ganhou o Globo de Ouro, em 1953, com “Roman Holiday” e o Prémio Cecil B. DeMille, em 1990, um Prémio Honorário. Ganhou três BAFTAS, para “Roman Holiday”, “The Nun’s Story” e “Charade”. A 8 de Fevereiro de 1960 foi-lhe dada uma estrela no Passeio da Fama  de Hollywood. No ano de 2000 foi lançado o filme “The Audrey Hepburn Story”, uma homenagem a Audrey, com Jennifer Love Hewitt no papel principal.



Filmografia

Como actriz: 1948: Nederlands in 7 lessen, de Charles Huguenot van der Linden; 1949: Sauce Tartare (TV); 1950: Saturday-Night Revue (TV); 1951: One Wild Oat, de Charles Saunders; Laughter in Paradise (Uma Bela Piada), de Mario Zampi; Young Wives’ Tale, de Henry Cass; The Lavender Hill Mob (Roubei Um Milhão), de Charles Crichton; BBC Sunday-Night Theatre (TV) – episódio The Silent Village; 1952: The Secret People, de Thorold Dickinson; Nous irons à Monte-Carlo ou Monte Carlo Baby (Iremos a Monte Carlo), de Jean Boyer; CBS Television Workshop (TV); 1953: Roman Holiday (Férias em Roma), de William Wyler; 1954: Sabrina (Sabrina), de Billy Wilder; 1956: War and Peace (Guerra e Paz), de King Vidor; 1957: Funny Face (Cinderela em Paris), de Stanley Donen; Love in the Afternoon (Ariane), de Billy Wilder; Producers' Showcase (TV) – episódio Mayerling; 1959: Green Mansions (A flor que não morreu), de Mel Ferrer; 1959: The Nun’s Story (A História de Uma Freira), de Fred Zinnemann; 1960: The Unforgiven (O Passado Não Perdoa), de John Huston; 1961: Breakfast at Tiffany’s (Boneca de Luxo), de Blake Edwards; The Children’s Hour (A Infame Mentira), de William Wyler; 1963: Charade (Charada), de Stanley Donen; 1964: Paris When it Sizzles (Quando Paris delira), de Richard Quine; My Fair Lady (Minha Linda Lady), de George Cukor;  1966: How to steal a million (Como Roubar Um Milhão), de William Wyler; 1967: Two for the Road (Caminho para Dois), de Stanley Donen; Wait Until Dark (Os Olhos da Noite), de Terence Young; 1976: Robin and Marian (A Flecha e a Rosa), de Richard Lester; 1979: Bloodline (Laços de Sangue), de Terence Young; 1981: They All Laughed (Romance em Nova Iorque), de Peter Bogdanovich; 1987: Love Among Thieves (TV);1989: Always (Sempre), de Steven Spielberg.