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sábado, 12 de setembro de 2015

1 DE DEZEMBRO DE 2015


MÚSICA NO CORAÇÃO (1965)
(na celebração dos 50 anos da sua estreia mundial, a 2 de Março de 1965)

 Há alguns filmes sobre os quais tenho uma recordação ambígua. Este é um deles. Ao longo da vida fui gostando e desgostando. Gostando de Robert Wise (sempre!), gostando e desgostando de tudo o resto, porque a vida é feita de bons e maus humores. Quando somos mais novos, mais radicais, menos dados à sensatez, “The Sound of Music” pode ser pasto de toda a nossa verrinosa maledicência. Que dizer desta empastelada aventura sentimental da família Trapp? Pois nada melhor do que arrear-lhe em cima. Mesmo um cliente habitual e um fanático do melodrama e do “musical” (no teatro ou no cinema) como eu, nunca viu com muito bons olhos esta lamechice da freira cantante que se apaixona pelo barão viúvo com sete filhos e foge dos nazis a cantar num festival de Salzburgo. Mas a verdade é que vi várias vezes o filme, ou excertos do filme (sobretudo nas vésperas de Natal, num qualquer canal de TV). É que “Música no Coração” tem muito que se lhe diga, tanto a peça como, sobretudo, o filme.
“The Trapp Family Singers” foi a biografia escrita por Maria Augusta Trapp, publicada em 1947, quando a família já tinha terminado a sua carreira como cantores, contando as mirabolantes peripécias de uma preceptora de criancinhas que interrompe o seu estágio para freira para descobrir a verdadeira “vida” na casa dos Trapp, com todo o seu caudal de promessas de felicidade e ameaças de tragédia. Com base nesta autobiografia, surgiu na RFA, em 1956, um filme, “Die Trapp-Familie” (ou “The Trapp Family”), assinado por Lee Kresel e Wolfgang Liebeneiner, com argumento de George Hurdalek e Herbert Reinecker, que parece estar na origem do interesse dos produtores norte-americanos. Entre os intérpretes, contava-se a memorável Ruth Leuwerik (no papel de Maria), ao lado de Hans Holt (Barão von Trapp), Maria Holst, Josef Meinrad, Friedrich Domin, Hilde von Stolz, Agnes Windeck, Gretl Theimer, etc. Na estreia, a baronesa Von Trapp, sobrevivente ainda da gesta coral da família, teve uma deixa memorável: “Nada é verdadeiro, mas é tudo maravilhoso!” A música era de Franz Grothe, e a premissa do filme enquadrava-se bem no espírito da reconstrução alemão, “para todos os problemas, há uma solução”.
O realizador Wolfgang Liebeneiner era um homem experimentado neste tipo de obras, e teve um sucesso inequívoco. Há no argumento desta obra um final que deixa supor que a família Trapp fugiu da Alemanha nazi directamente para os EUA, o que não aconteceu na realidade, pois ficaram na Europa e só em 1939 iniciaram a tournée pelos Estados Unidos. Essa estadia daria origem a uma continuação, “Die Trapp-Familie in Amerika” (“The Trapp Family in America”) (1958), desta feita dirigida unicamente por Wolfgang Liebeneiner. Ruth Leuwerik regressaria no papel da Baronesa von Trapp, e Hans Holt, no de Barão von Trapp.
Foram estes filmes, e a biografia escrita, que inspiraram Oscar Hammerstein II a escrever as líricas e Richard Rodgers a compor a música para um guião de Howard Lindsay e Russell Crouse, que subiu a cena no Lunt-Fontanne Theatre (Nova Iorque), em 16 de Novembro de 1959, para iniciar uma carreira épica na história do musical norte-americano. Mary Martin e Theodore Bikel eram os protagonistas inspirados que “conquistaram os corações” de todos os espectadores na noite da estreia, com excepções de alguns críticos que colocaram ressalvas a este espectáculo. Mas, neste caso, os críticos escreveram e a caravana passou incólume. O sucesso estava na rua. Nada o detinha.


“Música no Coração” transformou-se daí em diante, seguramente, num dos mais célebres e rentáveis espectáculos de toda a história do teatro e do cinema musicais. O seu êxito triunfal em (quase) todas as temporadas teatrais e o seu apoteótico sucesso nas salas de cinema, aquando da estreia do filme assinado por Robert Wise, que esteve em Lisboa (quem não recorda?), quase dois anos consecutivos no Tivoli, com sessões esgotadas e espectadores que repetiam a sua visão vezes sem conta, não termina de surpreender tudo e todos. Ninguém se furtou, depois, por exemplo, ao fascínio de um novo lançamento em DVD (com dezenas e dezenas de extras, a explicar como foi o que foi), e ninguém pode negar a genialidade de Robert Wise a conduzir este filme, muito embora alguns possam não suportar o tom algo lamechas e o peso de um argumento que, não sendo convencional, acaba por não se furtar a todos os rodriguinhos do melodrama musical.
Acontece que gosto de melodramas (ah, o Douglas Sirk!) e adoro musicais. Logo, por que não gostar deste “dois em um” que, para mais, tem uma soberba partitura musical? Revisto agora o filme, o que sobressai é realmente a portentosa realização de um mestre, Robert Wise. A sua relação com os cenários, a forma como enquadra, como movimenta a câmara, como dirige os actores, como se serve da sumptuosa paisagem, como estabelece a relação entre as personagens no interior de um mesmo plano (como realiza a “mise-en-scène”, em suma) é realmente brilhante. Depois, a história por vezes arrasta-se nalguns convencionalismos escusados. Mas a verdade é que o filme sobrevive, e sobrevive bem. 50 anos depois, as manifestações mundiais a assinalar a efeméride dão conta desta sobrevivência.
Fui remexer em papéis antigos e descobri uma nota minha, no DN, sobre uma reposição do filme, em Julho de 1977. Não se esqueçam da data e atentem no que escrevi: “Falando do filme, o melhor será passar por cima das aventuras e desventuras da família Trapp (que todos conhecem), para reconhecer a maestria extrema deste produto de uma cinematografia virada essencialmente para o “divertimento para toda a família.” Veiculando uma filosofia da vida de base “pequeno-burguesa”, jogando com os sentimentos e as emoções a seu belo prazer, “The Sound of Music” é, por outro lado, uma verdadeira lição de técnica e de “métier”. Por alguma razão Mao Tse Tung, quando quis que os chineses aprendessem cinema, lhes comprou, entre outras cópias (poucas), uma deste “manual”.


Ora bem: com uma ou outra alteração terminológica, mantenho o que então disse, acrescentando que, trinta anos depois, os chineses demonstraram ter aprendido, e muito bem, a fazer cinema. Robert Wise foi um dos grandes cineastas de Hollywood, um homem que começou a carreira ao lado de Orson Welles (colaborador essencial em “Citizen Kane”) e construiu depois uma filmografia invejável. Sou um seu fã incondicional. Há uns anos, num festival de cinema em Óbidos, ele foi o presidente de um Júri de que eu também fazia parte. Infelizmente adoeci e não pude estar presente nos trabalhos do festival, mas fui a Óbidos conhecê-lo, com o termómetro nos 38, só para ter o prazer de o olhar nos olhos. Afinal ele assinou uma dezena de obras-primas, desde “O Túmulo Vazio” (1945), até “West Side Story” (1961), passando por “Nascido para Matar”, “Nobreza de Campeão”, “O Dia em que a Terra Parou”, “Marcado pelo Ódio”, “Quero Viver”, “Homens no Escuro”, não contando com os ameaços.
Uma informação final: outro filme surgiu na continuação de “Música no Coração”. Foi “Celebrate the Sound of Music”, de 2005, uma realização de John L. Spencer, para televisão, e, tal como o próprio título sugere, trata-se de uma homenagem ao filme, com participação de cantores e personalidades que evocam a obra. Graham Norton era o apresentador, e apareciam vozes de Big Brovaz, Clare Buckfield, Fearne Cotton, Rosemarie Ford, Lesley Garrett, Carrie Grant, Jill Halfpenny, Gloria Hunniford, Bonnie Langford, Jon Lee, Robert Lindsay, Richard McCourt, Linda Robson, Denise Van Outen, entre outras.
Entretanto, surgiu a versão teatral portuguesa de “Música no Coração”, com a assinatura de Filipe La Féria, e com um elenco prestigiado, à frente do qual Lúcia Moniz e Anabela alternam no papel de “A Noviça Rebelde” (título do filme no Brasil). Com a partitura de Oscar Hammerstein II e Richard Rodgers, que contém só “hits” inesquecíveis, o seu bom gosto, o seu sentido do espectáculo, o seu ritmo e a sua direcção de actores desta minha embaraçosa ambiguidade ressaltaram as virtudes e atenuarem-se os lamentos. Esta montagem portuguesa de “Música no Coração” foi verdadeiramente surpreendente e um enorme passo em frente na história do musical em Portugal, mas mais ainda, na história do teatro em Portugal.


MÚSICA NO CORAÇÃO
Título original: The Sound of Music
Realização: Robert Wise (EUA, 1965); Argumento: Ernest Lehman, segundo Howard Lindsay e Russel Crouse (argumento do musical teatral), a partir de Maria von Trapp ("The Story of the Trapp Family Singers"); Produção: Saul Chaplin, Robert Wise, Peter Levathes; Richard D. Zanuck; Música original: Irwin Kostal; Fotografia (cor): Ted D. McCord; Montagem: William Reynolds; Casting: Lee Wallace; Design de produção: Boris Leven; Decoração: Ruby R. Levitt, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Dorothy Jeakins; Maquilhagem: Margaret Donovan, Ben Nye, Willard Buell, Ray Forman; Direcção de produção: Saul Wurtzel; Assistentes de realização: Ridgeway Callow, Richard Lang, Maurice Zuberano; Departamento de arte: Glenn 'Skippy' Delfino, Leon Harris, Ed Jones; Som: James Corcoran, Bernard Freericks, Fred Hynes, Murray Spivack; Efeitos especiais: L.B. Abbott, Emil Kosa Jr.; Companhias de produção: Robert Wise Productions (A Robert Wise Production of Rodger and Hammerstein's), Argyle Enterprises; Intérpretes: Julie Andrews (Maria), Christopher Plummer (Capitão Von Trapp), Eleanor Parker (a baronesa), Richard Haydn (Max Detweiler), Peggy Wood (Madre superior), Charmian Carr (Liesl), Heather Menzies-Urich (Louisa), Nicholas Hammond (Friedrich), Duane Chase (Kurt), Angela Cartwright (Brigitta), Debbie Turner (Marta), Kym Karath (Gretl), Anna Lee, Portia Nelson, Ben Wright, Daniel Truhitte, Norma Varden, Gilchrist Stuart, Marni Nixon, Evadne Baker, Doris Lloyd, Gertrude Astor, Alan Callow, Sam Harris, Jeffrey Sayre, etc. Duração: 174 minutos; Classificação etária: M/ 6 anos; Distribuição em Portugal (DVD e BluRay): Twentieth Century Fox / Pris Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 10 de Janeiro de 1966. 


JULIE ANDREWS (1935 - )
Julia Elizabeth Wells nasceu a 1 de Outubro de 1935, em Walton-on-Thames, Surrey, em Inglaterra. O pai, Edward Charles "Ted" Wells, era professor de trabalhos manuais, e a mãe, Barbara Ward Wells, pianista. Com dois anos de idade, começou a estudar dança com uma tia, Joan. Aos quatro anos, os pais divorciaram-se, ela ficou com a mãe e o padrasto, Ted Andrews, um cantor e artista de vaudeville, a quem foi buscar o seu novo nome. Ted Andrews descobriu que ela possuía uma bela voz que, devidamente trabalhada, iria torná-la famosa em toda Inglaterra. Teve então aulas de canto com Madame Lilian Stiles-Allen. Muito jovem ainda, estreou-se nos teatros do West End, em Londres, na década de 40, viajando depois para os EUA, lançando-se na Broadway em 1954 com o musical "The Boyfriend". Depois de passar pela televisão e de se estrear no cinema, Julie Andrews tornou-se a única actriz a ter vencido um Oscar num filme de Walt Disney, no musical “Mary Poppins” (1964), que lhe abriu as portas do sucesso. Mas, no ano seguinte, “Musica n Coração”, um dos maiores êxitos de bilheteira de todos os tempos, catapulta-a para a glória. Rende-lhe várias nomeações para Oscars, Globos e outros prémios, e cimenta a sua reputação como actriz, cantora, bailarina, diretora teatral e escritora.
Casada com Tony Walton (1959-1967) e, posteriormente, com o realizador Blake Edwards (1969-2010), com quem trabalhou imenso, em vários filmes: “Darling Lili”, “The Tamarind Seed”, “The Pink Panther Strikes Again”, “Ten”, “S.O.B.”, “Victor Victoria”, “Trail of the Pink Panther”,  “The Man who Loved Women” ou “That's Life!”. Mas Julie Andrews participou ainda noutros filmes particularmente interessantes: “The Americanization of Emily", "Hawaii", "Torn Curtain", “Thoroughly Modern Millie" ou "Star!".
Sobre “Mary Poppins” e “My Fair Lady” há uma história curiosa a relembrar. Quem interpretou “My Fair Lady” no teatro foi Julie Andrews. Quando a Warner projectou a adaptação a cinema, escolheu Audrey Hepburn para protagonista. Esta, inicialmente, recusou, dizendo que teria de ser Julie Andrews a repetir no cinema o seu trabalho no teatro. Mas Jack Warner não aceitou a sugestão e contra-atacou: ou Audrey Hepburn aceitava, ou seria Elizabeth Taylor a ficar com o papel. Na sessão de entrega dos Oscars, estavam as duas nomeadas, e seria Julie a receber a estatueta. Ganharia também o Globo de Ouro para Melhor Actriz em filme musical, e, ao receber este prémio, Julie Andrews “vingou-se” com muito estilo. Agradeceu a Jack Warner, “pois graças a ele ter-lhe recusado o papel principal em “My Fair Lady”, ela pode aceitar interpretar “Mary Poppins”, e assim receber aquele prémio”.
Julie Andrews foi homenageada pela Rainha Elizabeth II com a Ordem do Império Britânico em 31 de dezembro de 1999, além de também ter sido eleita, em 2002, uma das 100 maiores personalidades britânicas de todos os tempos, ocupando a 59ª posição. Além de um Oscar para melhor actriz, conquistou cinco Globos de Ouro, três Grammys e dois Emmys, entre muitos outros prémios.
Em 1997, após uma cirurgia à garganta, viu afectadas as suas cordas vocais, o que a deixou profundamente deprimida, e a fez recorrer a um acompanhamento psicológico. Interrompeu a carreira, mas voltaria depois, sobretudo ao teatro. No cinema passou sobretudo a emprestar a sua voz a personagens de filmes de animação. Andrews também escreve livros infantis, e em 2008 publicou uma autobiografia intitulada "Home: A Memoir of My Early Years".
Pela sua contribuição à indústria cinematográfica, Andrews possui uma estrela no Wall of Fame, em Hollywood Boulevard, junto ao nº 6901. Na cerimónia dos Osacres de 2015 recebeu um tributo que lhe foi entregue por Lady Gaga que interpretou um conjunto de temas de “The Sound of Music”.


Filmografia

Como actriz: 1949: La rosa di Bagdad, de Anton Gino Domenighini (voz); 1953: Television Christmas Party (TV); 1956: Ford Star Jubilee (TV); 1957: Cinderella (TV); 1959: The Gentle Flame (TV); 1964: The Americanization of Emily (Herói Precisa-se), de Arthur Hiller; Mary Poppins (Mary Poppins), de Robert Stevenson; 1965: The Sound of Music (Música no Coração), de Robert Wise; 1966: Hawaii (Hawaii), de George Roy Hill; 1966: Torn Curtain (Cortina Rasgada), de Alfred Hitchcock; 1967: Thoroughly Modern Millie (Millie, Rapariga Moderna), de George Roy Hill; 1968: Star! (A Estrela!), de Robert Wise; 1970: Darling Lili (Querida Lili), de Blake Edwards; 1974: The Tamarind Seed (A Semente de Tamarindo), de Blake Edwards; 1976 A Pantera volta a atacar (The Pink Panther Strikes Again), de Blake Edwards (voz, não creditada); 1979: Ten (10 - Uma Mulher de Sonho) de Blake Edwards; 1980: Little Miss Marker (Jogar para Ganhar), de Walter Bernstein; 1981: S.O.B. (Tudo Boa Gente), de Blake Edwards; 1982: Victor Victoria (Victor/Victoria), de Blake Edwards; Trail of the Pink Panther (Na Pista da Pantera), de Blake Edwards (voz, não creditada); 1983: The Man who Loved Women (Os meus Problemas com as Mulheres), de Blake Edwards; 1986: Duet for One (Dueto só para um), de Andreï Kontchalovski; 1986: That's Life! (A Vida É Assim), de Blake Edwards; 1991: Our Sons (Os Filhos da Sida), de de John Erman (TV); 1992: Julie (TV); Cin cin ou A Fine Romance, de Gene Saks; 1995: Victor/Victoria (TV); One Special Night (TV); 2000: Relative Values, de Eric Styles; 2001: The Princess Diaries (O Diário da Princesa), de Garry Marshall; On Golden Pond (TV); 2002: Paraíso Filmes (TV); 2003: Unconditional Love (Quem Matou o Nosso Amante?) de P. J. Hogan; Eloise at Christmastime (TV); Eloise at the Plaza (TV); 2004: Shrek 2 (Shrek 2), de Andrew Adamson (voz); The Princess Diaries 2: Royal Engagement (O Diário da Princesa: Noivado Real) de Garry Marshall; The Cat That Looked at a King (Vídeo); Great Performances (TV) Cinderella; 2007: Shrek 3 (Shrek o Terceiro), de Chris Miller (voz); Enchanted (Uma História de Encantar) de Kevin Lima (narradora); 2010: Shrek Forever After (Shrek Para Sempre) de Mike Mitchell (voz); Despicable Me (Gru - O Maldisposto) de Chris Renaud e Pierre Coffin (voz); Tooth Fairy (A Fada dos Dentes) de Michael Lembeck;

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

12 DE AGOSTO DE 2015


DR. JIVAGO (1965)

“Dr. Jivago”, de David Lean parte do romance homónimo de Boris Pasternak, prémio Nobel de Literatura de 1958. A obra provocou uma enorme polémica internacional ao ser lançada no Ocidente e terá interesse recordar um pouco este historial. Pasternak iniciou a escrita deste épico na década de 10 do século XX, mas só estaria acabado em 1956. Nesse ano, submetido à consideração da revista literária “Novy Mir” viu recusada a sua publicação, pois não se incluía nos cânones do então chamado “realismo socialista” e era vista objectivamente como uma crítica ao sistema soviético. Pasternak enviou várias cópias do manuscrito em russo para amigos que viviam no ocidente e, em 1957, o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli, comunista, conseguiu ter acesso ao romance e publicou-o. A União dos Escritores Soviéticos fez tudo para impedir a publicação da tradução, mas ela fez-se em 1957 e Feltrinelli foi expulso do PCI. Entretanto, o sucesso do livro foi imediato, com traduções em todas as línguas e edições clandestinas em russo. Depois, foi a consagração do Nobel, que causaria outras polémicas com alguns a considerar que tinha sido a CIA a incentivar a atribuição do prémio para criar embaraços ao governo soviético. Em 23 de Outubro de 1958, foi anunciado que Boris Pasternak ganhara o Prémio Nobel de Literatura de 1958, em função da sua “contribuição para a poesia lírica russa” e pelo seu papel "em prosseguimento da grande tradição da épica russa". Pasternak, por telegrama, agradece à Academia Sueca, “Infinitamente grato, emocionado, orgulhoso, surpreendido, esmagado”. Mas o escândalo e as ameaças na URSS levam o escritor a escrever de novo à Academia: “Tendo em conta o significado dado ao prémio pela sociedade em que vivo, tenho de renunciar a essa distinção imerecida, que me foi conferida. Por favor, não considerem a despropósito a minha renúncia voluntária”. E assim Pasternak não recebeu o Nobel, que só muitas anos depois (1989), um filho receberia, em nome do pai. O escritor, que recusou exilar-se no Ocidente, morreu na URSS, na noite de 30 de maio de 1960, vítima de cancro nos pulmões. 


A adaptação do romance a cinema não mobiliza divergências de monta, ainda que muito se tenha alterado, em função, essencialmente, de condensar as muitas centenas de páginas da obra literária nas três horas de projecção do filme. Mas ao essencial a adaptação mostra-se fiel. Numa época de profundas transformações sociais na Rússia, que se estende desde a I Guerra Mundial, passando pela Revolução Bolchevique de 1917, até finais da Guerra Civil, vamos acompanhar o percurso de uma personagem, Yuri (Omar Sharif), médico e poeta, em confronto com as alterações sociais e políticas por que passa o seu país. Yuri não é um potencial revolucionário, mas compreende que a Rússia czarista tem de mudar. A prepotência e a corrupção assentaram arraiais na sociedade e isso justifica de alguma maneira o levantamento popular e a implementação do comunismo. De início, até poderá sentir certa simpatia pelos revolucionários, mas progressivamente vai compreendendo que as transformações ocorreram apenas para se substituir uma burguesia corrupta e violenta na defesa dos seus interesses, por um aparelho corrupto e violento na defesa dos seus novos interesses. O povo nada beneficiou com a troca, as dificuldades são as mesmas, se não pioraram. Integrando-se neste quadro histórico que David Lean traça com pinceladas largas, surge Yuri, lamentando de início a morte da mãe, e oscilando depois no seu amor entre a mulher, Tonya (Geraldine Chaplin) e a amante, Lara (Julie Christie), a generosa cumplicidade da companheira, e a impulsividade criativa da paixão. Mas o que interessa sobretudo a Pasternak, e posteriormente a David Lean, é o entrecruzar de destinos, o choque entre o movimento colectivo e a deambulação individual. Entre a Revolução e a introspecção. Ou entre um equilíbrio que deverá sempre existir entre o nós e o eu, e a perversão que se verifica quando um dos lados se emancipa ditatorialmente. Daí a crítica que o romance e o filme comportam a um sistema que foi derrapando rapidamente das boas intenções iniciais para a tirania férrea dos tempos de Estaline.


Se Yuri é um poeta, David Lean procura prolongar esse estado poético ao longo do filme, criando uma atmosfera que liga admiravelmente o individual e o colectivo, o homem e a natureza, os estados amorosos e o destempero da violência. Esta foi uma obra que obteve um grande sucesso comercial e arrecadou cinco Oscares. As estatuetas foram para o Melhor Argumento Adaptado (Robert Bolt),  A Melhor Fotografia a Cores (Freddie Young), a Melhor Direcção Artística a Cores (John Box, Terence Marsh e Dario Simoni), o Melhor Guarda-roupa (Phyllis Dalton), e Melhor Partitura Musical Original (Maurice Jarre). Ainda esteve nomeado para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Secundário (Tom Courtenay), Melhor Som e Melhor Montagem. Um dos grandes trunfos terá sido indiscutivelmente o “tema de Lara”, uma composição musical romântica que tornou inesquecível este filme, uma superprodução com momentos fulgurantes e uma descrição cuidada de uma época de difícil reconstituição. O gosto pela vastidão da paisagem (aqui a paisagem gelada do Norte, como fora em Lawrence da Arábia”, o deserto, ou, em "Passagem Para a India”, os exteriores deslumbrantes do Oriente misterioso), a discrição no esboçar dos conflitos humanos e no despoletar das paixões, o equilíbrio encontrado entre a história individual e o drama colectivo, tudo isto faz de «Dr. Jivago” um belíssimo filme. A interpretação é quase sempre brilhante, quanto a mim com o senão de Omar Shariff que não está à altura da personagem. Mas David Lean mostra-se num glorioso momento de forma, ele que era uma referência imediata para cineastas como Stanley Kubrick, que o considerava um dos três únicos realizadores mundiais a que tinha de assistir a todos os filmes, ou Steven Spielberg, que quando parte para mais uma rodagem afirma rever com prazer e proveito alguns clássicos do grande mestre Lean.

DOUTOR JIVAGO
Título original: Doctor Zhivago
Realização: David Lean (Inglaterra, EUA, Itália, 1965); Argumento: Robert Bolt, segundo romance de Boris Pasternak; Produção: Arvid Griffen, Carlo Ponti; Música: Maurice Jarre; Fotografia (cor): Freddie Young; Montagem: Norman Savage; Casting: Irene Howard; Design de produção: John Box; Direcção artística: Terence Marsh; Decoração: Dario Simoni; Guarda-roupa: Phyllis Dalton; Maquilhagem: Anna Cristofani, Grazia De Rossi, Mario Van Riel; Direcção de Produção: John Palmer, Agustín Pastor, Douglas Twiddy, Stanley Goldsmith, Tadeo Villalba; Assistentes de realização: Roy Rossotti, Roy Stevens, Pedro Vidal, Peter Beale, José María Ochoa, Michael Stevenson; Departamento de arte: Fred Bennett, Gus Walker, Tom Jung, Mickey Lennon, Julián Martín, Gil Parrondo, Wallis Smith; Som: Paddy Cunningham, Winston Ryder, Van Allen James; Efeitos especiais: Eddie Fowlie; Efeitos visuais: Gerald Larn; Companhias de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Carlo Ponti Production, Sostar S.A.; Intérpretes: Omar Sharif (Yuri), Julie Christie (Lara), Geraldine Chaplin (Tonya), Rod Steiger (Komarovsky), Alec Guinness (Yevgraf), Tom Courtenay (Pasha), Siobhan McKenna (Anna), Ralph Richardson (Alexander), Rita Tushingham (a rapariga), Jeffrey Rockland (Sasha), Tarek Sharif (Yuri aos 8 anos), Bernard Kay (o bolchevique), Klaus Kinski (Kostoyed), Gérard Tichy (Liberius), Noel Willman, Geoffrey Keen, Adrienne Corri, Jack MacGowran, Mark Eden, Erik Chitty, Roger Maxwell, Wolf Frees, Gwen Nelson, Lucy Westmore, Lili Muráti, Peter Madden, Luana Alcañiz, Assad Bahador, José María Caffarel, Emilio Carrer, Catherine Ellison, Pilar Gómez Ferrer, Víctor Israel, Inigo Jackson, Gerhard Jersch, Jari Jolkkonen, Leo Lähteenmäki, María Martín, José Nieto, Ricardo Palacios, Ingrid Pitt, Robert Rietty, Mercedes Ruiz, Aldo Sambrell, Virgilio Teixeira (capitão), Brigitte Trace, María Vico, etc. Duração: 186 minutos; Distribuição em Portugal: Warner (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Setembro de 1966.


JULIE CHRISTIE (1941 - )
Há actrizes e actores que ficam marcados por um papel, uma personagem. Julie Christie não terá ficado para sempre associada à figura de Lara no “Doutor Jivago”, mas andou muito perto. No entanto, o seu talento e a sua fotogenia dispersaram-se por muitas outras obras, inglesas e internacionais.
Julie Frances Christie nasceu a 14 de Abril de 1941, em Chabua, na Índia britânica. Filha de uma pintora, Rosemary, e Francis "Frank" St. John Christie, que detinha uma plantação de chá. Com o divórcio dos pais, viveu com a mãe na zona rural do País de Gales. Estudou na escola do Convento de Our Lady, em Leonards-on-Sea, East Sussex, na Wycombe Court School, High Wycombe, Buckinghamshire, também na Central School of Speech and Drama. Em 1957, estreia-se na televisão e esteve para figurar no elenco do primeiro James Bond, mas os seus seios foram considerados pelos produtores pouco abonados. O primeiro grande papel da sua carreira é em “Billy Liar”, de John Schlesinger (1963). Aparece então associada ao movimento do “Free Cinema”. Dois anos depois, triunfa em toda a linha com “Darling”, do mesmo Schlesinger, onde ganha o Oscar de Melhor Actriz. No mesmo ano, brilha sob a direcção de David Lean, em “Doctor Zhivago”. A sua carreira a partir daí é um pouco irregular, mas vai aparecendo sempre em obras relevantes onde demonstra o seu inegável talento, que lhe valeu inúmeros prémios. Manteve uma relação com Warren Beatty, tendo actuado em filmes por ele dirigidos, como Shampoo (1975) e Heaven Can Wait (1978). Mas a sua carreira está recheada de obras indispensáveis como “Fahrenheit 451” (1966), “Far from the Madding Crowd” (1967), “Petulia” (1968),  “McCabe & Mrs. Miller” (1971), “The Go-Between” (1971), “Don't Look Now” (1973), “Demon Seed” (1977), “The Return of the Soldier” (1982), “Heat and Dust” (1983), “ Power” (1986), “Afterglow” (1997) ou  “Away from Her” (2008).
Foi nomeada quatro vezes para o Oscar de Melhor Actriz, ganhando em 1966, com “Darling”. Nomeada ainda em 1972 (“McCabe and Mrs. Miller”), 1998 (“Afterglow”) e 2008 (“Away from Her”). Foi Globo de Ouro, em 2008, com “Away from Her”, e contou com várias outras nomeações. O mesmo filme valeu-lhe os prémios da Screen Actors Guild e da National Board of Review, que antes já a havia consagrado em 1965, por “Darling” e “Doctor Zhivago”. “Afterglow”, em 1998, valeu-lhe ainda o Independent Spirit Award. Presença regular nos BAFTAS (em 1964, 67, 73, 74), ganhou em 1966, com “Darling”.
Outros relacionamentos célebres foram com Terence Stamp e Donald Sutherland, mas o mais duradouro foi com Duncan Campbell, um jornalista do “The Guardian”, que data dos anos 70 e acabou em casamento em 2007. Julie Christie, feminista, é igualmente activa defensora do ambiente e dos animais, lutando contra armas nucleares, e defendendo a causa da Palestina.


Filmografia

Como actriz: 1961: A for Andromeda (TV); Call Oxbridge 2000 (TV); 1962: The Fast Lady (A Respeitável Carcaça), de Ken Annakin; The Andromeda Breakthrough (TV); 1962: Crooks Anonymous (Agarra que é Ladrão!), de Ken Annakin; 1963: Billy Liar (O Jovem Mentiroso), de John Schlesinger; O Santo (TV); ITV Play of the Week (TV); 1965: Doctor Zhivago (Doutor Jivago), de David Lean; Darling (Darling), de John Schlesinger; Young Cassidy (O Jovem Cassidy), de John Ford; 1966: Fahrenheit 451 (Grau de Destruição), de François Truffaut; 1967: Far from the Madding Crowd (Longe da Multidão), de John Schlesinger; 1968: Petulia (Petulia), de Richard Lester; 1970: The Go-Between (O Mensageiro), de Joseph Losey; In Search of Gregory (Convite ao Pecado), de Peter Wood; 1971: McCabe & Mrs. Miller (A Noite Fez-se Para Amar), de Robert Altman; 1973: Don't Look Now (Aquele Inverno em Veneza), de Nicolas Roeg; 1975: Shampoo (Shampoo), de Hal Ashby; 1977: Demon Seed (A Semente do Demónio), de Donald Cammell; 1978: Heaven can Wait (O Céu Pode Esperar), de Warren Beatty; 1981: Memoirs of a Survivor (Memórias de Uma Sobrevivente), de David Gladwell; 1982: Les Quarantièmes Rugissants, de Christian de Chalonge; The Return of the Soldier (O Regresso do Soldado), de Alan Bridges; 1983: Heat and Dust (Verão Indiano), de James Ivory; Separate Tables (TV); The Gold Diggers, de Sally Potter; 1986: Miss Mary, de María Luisa Bemberg; 1986: Power (As Chaves do Poder), de Sidney Lumet; 1986: Väter und Söhne - Eine deutsche Tragödie (TV); 1986: Champagne Amer, de Ridha Behi, Henri Vart; 1988: Dadah Is Death (TV); 1990: Fools of Fortune (Anos de Fogo), de Pat O’ Connor; 1992: The Railway Station Man (TV); 1996: Dragonheart (DragonHeart: Coração de Dragão), de Rob Cohen; 1996: Hamlet (Hamlet), de Kenneth Branagh; 1996 Karaoke (TV); 1997: Afterglow (Sol do Poente), de Alan Rudolph; 2000: The Miracle Maker – The Story of Jesus; 2001: Belphégor, le Fantôme du Louvre, de Jean-Paul Salomé; 2001: No Such Thing, de Hal Hartley; 2002: Snapshots, de Rudolf van den Berg; I’m with Lucy, de Jon Sherman; 2004: Troy (Tróia), de Wolfgang Petersen; Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), de Alfonso Cuarón; Finding Neverland (À Procura da Terra do Nunca), de Marc Forster; 2005: The Secret Life of Words (A Vida Secreta das Palavras), de Isabel Coixet; 2006: Away from Her (Longe Dela), de Sarah Polley; 2009: Glorious 39 (Os Gloriosos 39), de Stephen Poliakoff; 2009: New York, I Love You (episódio de Shekhar Kapur); 2011: Red Riding Hood (A Rapariga do Capuz Vermelho), de Catherine Hardwicke; 2012: The Company You Keep (Regra de Silêncio), de Robert Redford.