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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

25 DE AGOSTO DE 2015


CAMELOT (1967)

“Camelot”, filme de Joshua Logan, com música de Frederick Lowe e poemas de Alan Jay Lerner, e interpretações de Richard Harris, Vanessa Redgrave e Franco Nero, partiu de uma versão teatral de um musical homónimo estreado na Broadway a 6 de Dezembro de 1960. Em 1956, Frederick Lowe e Alan Jay Lerner haviam estreado com um sucesso retumbante “My Fair Lady”, que estaria em cena durante 2.717 representações. A dupla regressava, quatro anos depois, com a adaptação de um romance de T.H.White, “The Once and the Future King”, que recuperava os tempos dos “Cavaleiros da Távola Redonda”, e os amores de Guenevere, Artur, o rei, e Lancelot du Lac, cavaleiro. E tudo anunciava um sucesso semelhante... Na Broadway, a peça teve 873 representações. Apesar de ter sido aguardada com enorme expectativa, a crítica reagiu mal. Estreou no Majestic Theatre, de Nova Iorque, com um elenco de luxo: Richard Burton, Julie Andrews, Roberet Goulet, Robert Coote, Roddy McDowall, entre outros. A direcção esteve a cargo de Moss Hart. A coreografia era da responsabilidade de Hanya Holm e o belíssimo guarda-roupa trazia a assinatura de Adrian e Tony Duquette.


A adaptação cinematográfica de “Camelot” mantém a partitura musical de Frederick Lowe e os poemas de Alan Jay Lerner. A produção esteve a cargo de Sonny Burke, com direcção musical de Alfred Newman e direcção vocal de Ken Darby. Entre os seus números mais conhecidos e popularizados contam-se “Camelot”, “How To Handle a Woman”, “If Ever I Would Leave You” ou “C’est Moi”. Joshua Logan foi o director escolhido pela Warner para adaptar a cinema este musical. Não muito tempo antes conhecera um enorme sucesso com “Piquenique”, um fabuloso melodrama de amor, a que se seguiriam “Paragem de Autocarro”, com Marilyn Monroe, “Sayonara”, com Marlon Brando, e um desencorajante “Ao Sul do Pacífico”, que todavia conta com fiéis indiscutíveis, dada a qualidade da sua partitura. Com “Camelot” regressava ao melhor da sua inspiração.
Esta aventura lendária por terras do Rei Artur custou 15 milhões de dólares. Edward Carrere, o director artístico, criou um castelo de Camelot digno do orçamento, e dos contos de fadas, e John Truscott vestiu as personagens com um guarda-roupa sumptuoso. Joshua Logan conduziu o filme com mão mestre, valorizando devidamente os momentos musicais.
“Camelot” tem interpretações de Richard Harris, no papel de Rei Artur, a inglesa Vanessa Redgrave como Guenevere, o italiano Franco Nero como Lancelot (dobrado nas cenas cantadas por Gene Merlino), e ainda David Hemmings, como Mordred, Lionel Jeffries como Rei Pellinore e Laurence Naismith, na figura de Merlin. Entre todos, Franco Nero é o mais discutível.
Casado com Guenevere, o rei Artur quer restabelecer na sua corte a época de ouro dos “Cavaleiros da Távola Redonda”. O espírito da cavalaria instalava-se nesse reino de quimérica felicidade. Mas Lancelot, a quem o rei Artur muito queria, acaba por trair essa amizade seduzindo, ou deixando-se seduzir por Guenevere. O que leva o casal de adúlteros ao castigo e Camelot à ruína dos seus ideais.
Derradeira grande produção de Jack Warner para a Warner Bros., “Camelot” recebeu no ano de 1967 nomeações da Academia de Hollywood para melhor fotografia, melhor guarda-roupa, melhor som e melhor partitura musical. Não receberia nenhuma das estatuetas, mas ficaria ainda assim bem colocado nas preferências do público.

CAMELOT
Título original: Camelot
Realização: Joshua Logan (EUA, 1967); Argumento: Alan Jay Lerner, segundoo uma peça teatral sua ("Camelot"), a partir de uma obra de T.H. White "The Once and Future King"); Produção: Jack L. Warner, Joel Freeman; Música: Alfred Newman; Fotografia (cor): Richard H. Kline; Montagem: Folmar Blangsted; Design de produção: John Truscott, Edward Carrere; Direcção artística: Edward Carrere; Decoração: John Brown; Guarda-roupa: John Truscott; Maquilhagem: Gordon Bau, Jean Burt Reilly; Direcção de produção: Tadeo Villalba; Assistente de realização: Arthur Jacobson; Departamento de arte: Edward Carrere, John Truscott, Craig Binkley, Ward Preston; Som: M.A. Merrick, Dan Wallin; Efeitos especiais: Johnny Borgese, Robie Robinson; Companhias de produção: Warner Brothers/Seven Arts; Intérpretes: Richard Harris (Rei Arthur), Vanessa Redgrave (Guenevere), Franco Nero (Lancelot Du Lac), David Hemmings (Mordred), Lionel Jeffries (Rei Pellinore), Laurence Naismith (Merlyn), Pierre Olaf (Dap), Estelle Winwood (Lady Clarinda), Gary Marshal (Sir Lionel), Anthony Rogers (Sir Dinadan), Peter Bromilow (Sir Sagramore), Gary Marsh, Nicolas Beauvy, Fredric Abbott, Leon Greene, Michael Kilgarriff, Christopher Riordan, etc. Duração: 179 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 25 de Outubro de 1967. 


VANESSA REDGRAVE (1937 - )
Esta é uma das grandes actrizes inglesas do século XX. Tive a sorte de a ver no teatro, em Londres, em 1979, a interpretar "Ellida", na belíssima peça de Henrik Ibsen, "The Lady from the Sea". Foi uma produção da Royal Exchange no New Round House Theatre. Ela contracenava com Graham Crowden e Terence Stamp, num espectáculo magnífico que dava bem a medida do talento e da delicadeza desta mulher admirável.  
Nasceu a 30 de Janeiro de 1937, em Greenwich, Londres, Inglaterra. Filha dos actores Michael Redgrave e Rachel Kempson. Irmã de Corin Redgrave e Lynn Redgrave. Na família ainda se encontram outros membros dedicados às artes, como Jemma Redgrave (sobrinha) e Liam Neeson (genro). Casada com Tony Richardson (1962–1967) e Franco Nero (2006–até ao presente). Entre 1971 e 1986 manteve uma relação com o actor Timothy Dalton. Três filhos: Natasha Richardson (1963–2009), Joely Richardson (1965) e Carlo Gabriel Nero (1969). Laurence Olivier anunciou o nascimento de Vanessa durante uma representação de Hamlet, no Old Vic, informando o público que o seu colega de palco, Sir Michael Redgrave acabara de ter uma filha. Foi educada na Alice Ottley School e na Worcester & Queen's Gate School, de Londres, antes de se estrear no teatro. Entrou para a Central School of Speech and Drama em 1954. Estreia-se no West End em 1958. Foi, no entanto, em 1961, ao interpretar Rosalind, na peça “As  You Like It”, na Royal Shakespeare Company, que ela começou a chamar definitivamente a atenção para o seu talento, que não mais deixaria de brilhar, tanto no teatro, como no cinema e na televisão. Integrou o elenco de mais de 35 espetáculos, tanto no West End de Londres, como na Broadway de Nova Iorque, ganhando tanto o Tony como o Olivier. No cinema surgiu em mais de 80 títulos, sempre com indiscutível sucesso, sendo de referir “Blowup” (1966), “Isadora” (1968), “Mary, Queen of Scots” (1971), “The Devils” (1971), “Julia” (1977), “The Bostonians” (1984), “Howards End” (1992), “Mission: Impossible” (1996) ou “Atonement” (2007). Tanto Arthur Miller como Tennessee Williams consideraram-na “a maior actriz viva do nosso tempo”.
Até hoje é a única actriz inglesa a ganhar os prémios mais importantes de cinema, teatro e televisão: Oscar, Emmy, Tony, Olivier, Cannes, Veneza, Golden Globe e Screen Actors Guild. Conta com mais de meia centena de nomeações e mais de quarenta prémios internacionais. Cinco nomeações para Oscars nos filmes “Howards End” (1992), “The Bostonians” (1984),  “Mary, Queen of Scots” (1971), “Isadora” (1968) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966)e um Oscar ganho com “Júlia” (1977). Treze nomeações para os Globos de Ouro, de que triunfou duas vezes (“Júlia”, 1977, e “If These Walls Could Talk 2”, 2000, respectivamente em cinema e televisão). As restantes nomeações foram para “The Gathering Storm” (2002), “Bella Mafia” (1997), “A Month by the Lake” (1995), “A Man for All Seasons” (1988), “Prick Up Your Ears” (1987), “Second Serve” (1986), “The Bostonians” (1984), “Mary, Queen of Scots” (1971), “Isadora” (1968), “Camelot” (1967) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966). Ganhou dois Emmys, com “Playing for Time” (1980) e “If These Walls Could Talk 2” (2000). Foi ainda nomeada pelo trabalho em “The Gathering Storm” (2002), “Young Catherine” (1991), “Second Serve” (1986) e “Peter the Great (1986). Várias nomeações para os BAFTAS e um honorário em  2010. Ganhou o Festival de Cannes por duas vezes, com “Isadora” (1968) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966). Recebeu o David di Donatello com “Mary, Queen of Scots” (1971). Ganhou em Veneza, com “Little Odessa” (1994). A esses devem juntar-se dezenas de outros prestigiados prémios e distinções.  Vanessa Redgrave é ainda conhecida por defender causas sociais e políticas, sendo muito comentada a sua contribuição para a defensa do estado palestiniano.



Filmografia

Cinema: 1958: Behind the Mask (Por Detrás da Máscara), de Brian Desmond Hurst; 1959: A Midsummer Night's Dream (TV); 1960: BBC Sunday-Night Play (TV) -Twentieth Century Theatre: The Elder Statesman; 1963: As You Like It (TV); 1964: Armchair Theatre (TV) ; First Night (TV); 1965: Love Story (TV); 1966: A Farewell to Arms (TV); 1966: A Man for All Seasons (Um Homem para a Eternidade), de Fred Zinnemann; The Sailor from Gibraltar, de Tony Richardson; Blow-Up (Blow-Up, História de um Fotógrafo), de Michelangelo Antonioni; Morgan: A Suitable Case for Treatment (Morgan - Um Caso para Tratamento), de Karel Reisz; 1967: Camelot (Camelot), de Joshua Logan; Red and Blue, de Tony Richardson (curta-metragem); 1968: The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira), de Tony Richardson; Isadora (Isadora), de Karel Reisz; Un Tranquillo Posto di Campagna (Um Tranquilo Lugar na Província), de Elio Petri; The Seagull (A Gaivota), de Sidney Lumet; 1969: Oh What a Lovely War! (Viva a Guerra!), de Richard Attenborough; 1970: Drop Out, de Giovanni Brass; The Devils (Os Diabos), de Ken Russell; En mor med två barn väntandes sitt tredje (curta-metragem); 1971: The Trojan Women (As Trioanas),  de Michael Cacoyannis; Mary, Queen of Scots (As Duas Rainhas), de Charles Jarrott; 1972: La Vacanza, de Giovanni Brass; 1973: A Picture of Katherine Mansfield (TV); 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1975: Out of the Season (Fora de Estação), de Alan Bridges; 1976: The seven per cent solution (O Regresso de Sherlock Holmes), de Herbert Ross; 1977: Julia (Júlia), de Fred Zinnemann: 1979: Agatha (O Mistério de Agatha), de Michael Apted; Bear Island (A Ilha dos Ursos), de Don Sharp; 1980: Yanks (Yanks), de John Schlesinger; Playing for Time (TV); 1982: My Body, My Child (Meu Corpo, meu Filho), de Marvin J. Chomsky (TV): 1983: Sing Sing, de Sergio Corbucci; Wagner (TV); 1984: The Bostonians (As Mulheres de Boston), de James Ivory; Steamin, de Joseph Losey; Faerie Tale Theatre (TV)  episódio Snow White and the Seven Dwarfs, de Peter Medak; 1985: Whetherby, de David Hare; 1985: American Playhouse (TV); 1986: Comrades, de  Bill Douglas; Second Serve (TV); Peter the Great (TV); 1987: Prick Up Your Ears (Vidas em Fúria), de Stephen Frears; 1988: Consuming Passions (A Louca Doçura), de Giles Foster; A Man for All Seasons (Conflito Mortal), de Charlton Heston (TV); 1989: Pokhorony Stalina, de Evgeniy Evtushenko; 1990: Diceria dell'untore, de Beppe Cino; Romeo.Juliet, de Armondo Linus Acosta; No Calor do Sul (TV);  1991: Ballad of the Sad Café (A Balada das Paixões), de Simon Callow; What Ever Happened to Baby Jane? (TV); Young Catherine (TV); 1992: Howards End (Regresso a Howards End), de James Ivory; 1992: Indiana Jones - Crónicas da Juventude (TV); 1993: The House of the Spirits (A Casa dos Espíritos) de Bille August; Un Muro de Silencio, de Lita Stantic; Great Moments in Aviation (TV); 1993 They Eles vêem), de  John Korty (TV); 1994: Storia di una Capinera, de Franco Zeffirelli; 1995 The Wind in the Willows (TV); Down Came a Blackbird (TV); 1995: Little Odessa de James Gray (Viver e Morrer em Little Odessa), de James Gray; Mother's Boy (Assédio Fatal), de Yves Simoneau; A Month by the Lake (Amor à Beira do Lago) de John Irvin; 1996: Smilla's Sense of Snow (Smilla e o Mistério da Neve), de Bille August; 1996: Mission Impossible (Missão Impossível), de Brian De Palma; The Willows in Winter (TV); 1996 Two Mothers for Zachary (TV);  1997: Wilde (Wilde), de Brian Gilbert; Déjà Vu, de Henry Jaglom; Mrs. Dalloway, de Marleen Gorris; Bela Mafia (TV);  1998: Deep Impact (Impacto Profundo), de Mimi Leder; Lulu on the Bridge, de Paul Auster; Cradle will Rock (América - Anos 30), de Tim Robbins; Le Clandestin, de Carlos Gabriel Nero; 1999 Girl, Interrupted (Vida Interrompida), de James Mangold; Uninvited, de  Carlo Gabriel Nero; Eleonora (TV); A Rumor of Angels, de Peter O'Fallon; Mirka, de Rachid Benhadj; 2000: The 3 Kings, de Shaun Mosley; Escape to Life: The Erika and Klaus Mann Story, de  Wieland Speck, Andrea Weiss; Children's Story, Chechnia (Curta-metragem) (voz); If These Walls Could Talk 2 (Amor no Feminino) (TV); 2001: The Pledge (A Promessa), de Sean Penn; 2002: Crime and Punishment, de Menahem Golan; Jack and the Beanstalk: The Real Story (TV);  The Locket (TV); The Gathering Storm (O Homem Que Mudou o Mundo), de Richard Loncraine; 2003: Good Boy! (Um Cão do Outro Mundo), de John Hoffman; Byron (TV); 2004: The Fever, de Carlo Gabriel Nero; 2005: The Keeper: The Legend of Omar Khayyam, de Kayvan Mashayekh; Short Order, de Anthony Byrne; The White Countess (A Condessa Russa), de James Ivory; 2006: The Thief Lord, de Richard Claus; The Shell Seekers (TV);  2007: How About You..., de  Anthony Byrne; The Riddle, de Brendan Foley; Venus (Venus), de Roger Michell; Evening (Ao Anoitecer), de Lajos Koltai; Atonement (Expiação), de Joe Wright; 2008: Restraint (Ravenwood - Jogo de Sobrevivência), de  David Denneen;Ein Job (TV); Gud, lukt och henne; 2009: Identity of the Soul, de Thomas Høegh; 2004-2009: Nip/Tuck (TV);  The Day of the Triffids (TV); 2010: Lettres à Juliette (Cartas para Julieta), de Gary Winick; Konferenz der Tiere (Animais Unidos Jamais Serão Vencidos), de Reinhard Klooss, Holger Tappe; Miral, de Julian Schnabel; 2011: Anonymous (Anónimo), de Roland Emmerich; Coriolanus (Coriolano), de Ralph Fiennes; Cars 2 (Carros 2), de John Lasseter, Brad Lewis; The Whistleblower (Delatora), de Larysa Kondracki; Song for Marion, de Paul Andrew Williams; The Last Will and Testament of Rosalind Leigh, de Rodrigo Gudiño; Political Animals (TV); 2013: The Butler (O Mordomo) de Lee Daniels; 2014: Black Box (TV); The Thirteenth Tale (TV); Playhouse Presents (TV); 2012-2015: Old Roseanne McNulty (Chamem a Parteira) (TV); 2015: The Secret Scripture (pre-produção). 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

19 DE AGOSTO DE 2015


BONNIE E CLYDE (1967)

Aquando da sua estreia, “Bonnie e Clyde” não teve o sucesso crítico que mereceria e, mais ainda, suscitou uma tremenda polémica nos EUA (e também em Portugal, e um pouco por todo o lado onde se exibiu) que teve por base a violência explosiva que testemunhava e que, por aquela altura (1967), não era muito vulgar no cinema. No ano seguinte, ao escrever no DL, considerei-o o “melhor filme do ano”, dizendo que tinha sido precocemente “arrumado nas prateleiras o arsenal de “Bonnie e Clyde”, calando as rajadas de metralhadoras, ocultando a mais desesperadamente bela morte do cinema moderno”.
Julgo que será interessante recuperar esse texto que me parece não só significativo de um tempo, como sobretudo da importância do filme e da sua perenidade. Ainda hoje, o seu arrojo espanta e o seu significado humano e sociológico perdura.
Rezava assim o que então escrevi: “Como por “vingança do destino”, “Bonnie e Clyde” renasceu. Na base deste acontecimento surpreendente e sem paralelo vamos encontrar razões de vária ordem: a maior das quais se estriba, certamente, no êxito tremendo que esta película de Arthur Penn despertou em todo o mundo. Êxito feito pelo público (única e exclusivamente), êxito que pode muito simplesmente significar uma identificação de propósitos e desespero entre as gerações destes anos agitados de 67-68 e as da época conturbada da Grande Depressão económica dos anos 30, período que permitiu o aparecimento de figuras como Bonnie e Clyde, agora ressuscitadas do esquecimento por uma juventude que se interroga, irada e impotente perante todos os crimes passados (e presentes).
Sobre o argumento de Robert Benton e David Newman, esta biografia de Bonnie e Clyde esteve para ser dirigida, primeiramente, por Truffaut, depois por Godard. Acabou por ser comprada por 75 000 dólares, mas ficou nas mãos de Warren Beatty, que decidiu entregá-la a Arthur Penn. O realizador, desiludido com os cortes sofridos por “Perseguição Impiedosa” (e impostos pela Columbia), decidira abandonar o cinema. Mas a história entusiasmou-o. Bem assim como as condições em que a mesma prometia vir a ser rodada: inteira liberdade de acção, assegurada por Warren Beatty, que funcionava como produtor, depois de ter conseguido um adiantamento reduzido de Jack Warner. Após algumas hesitações no que respeita à escolha da actriz que iria viver a personagem de Bonnie, o filme principiou, concluiu-se, estreou-se. Meia dúzia de pessoas assistiu à estreia; alguns críticos viram e não gostaram. Estamos na América de Lindsay Johnson, fins de 1967. Mas o público começou a ir. Na Europa, é o sucesso; na América, envergonhados, alguns críticos voltam à plateia, revêem e dão o dito por não dito: afinal, “Bonnie e Clyde” é um grande filme. Mas Bosley Crowther, no “New York Times”, diz três vezes que não. Na última, foi despedido, após muitos anos “de bons e leais serviços”. Foi a última vítima de Bonnie e Clyde (“Express”, Pierre Billard). Hoje, “Bonnie e Clyde” espera a consagração dos Óscares. Prevemos-lhe vários e todos inteiramente merecidos (não os teve, soube-se depois).
Do êxito ao mito foi um salto. Bonnie e Clyde surgem em cartazes, discos, propaganda, vestuário, moda. Com o nome de Bonnie and Clyde vendem-se carros, boinas, vestidos, fatos, cartazes, revistas. Warren Beatty e Faye Dunaway invadem todos os domínios, inquietantes...


No início da década de 30, nos E.U.A., existi­ram, em carne e sangue, dois gangsters de reputação lendária. Bonnie e Clyde roubavam bancos, ajudavam os camponeses, eram auxiliados por negros e pobres brancos, encarnando em si um ideal de justiça social que a Depressão e os seus anos de fome haviam afas­tado há muito da sociedade norte-americana. Rou­bando e matando depois (entrando numa engrenagem de que desconheciam as regras, mas de que suspeitavam o aliciante), Bonnie e Clyde transformaram-se num dos mais famosos casais de fora-da-lei de toda a América. Clyde, de metralhadora em punho e estranhamente impotente no amor; Bonnie, compondo poesia da sua vida aventurosa nos intervalos dos assaltos; ambos personificando a falência de um humanismo que os tomou reais. Eles, e ainda todos os outros que os rodeiam, os perseguem, prendem, auxiliam, encobrem ou matam, todos compõem o retrato de uma nação, de um povo, de uma época. E Arthur Penn vai até à minúcia, esgravata documentação do impossível, e descobre, para além do retrato, também a respiração, as veias, o sangue que corria na América de 30.
Depois, há ainda um ritmo: intercalado de situações burlescas e de cenas de uma violência trágica, desgastante, envolvente. Ao ritmo trepidante de uma balada do velho Oeste, que serve de pano de fundo a toda uma série de perseguições (comparáveis à comédia burlesca), sucede-se o crepitar medonho de metralhadoras despejando a morte (como os polícias negros da época); a uma cena de amor impossível nos campos verdes, selvagens e livres, justapõem-se os últimos olhares de um casal crivado de balas e jorrando sangue de mil chagas, sangue-sangue, vermelho, vivo e quente.
Cite-se ainda a interpretação de Faye Dunaway e Warren Beatty, que fazem de Bonnie e Clyde dois dos muitos anjos caídos, homens desalojados da sua condição, figuras à procura de um lugar, mas recusando entrar no único jogo que lhe indicam possível. Finalmente, assinale-se que Arthur Penn nos deu a obra-prima que vinha prometendo desde o início da sua carreira. Acrescente-se que promete mais, muito mais…”
Assim foi. Arthur Penn deu-nos depois obras magníficas, mas “Bonnie e Clyde” manteve-se o seu filme chave que, ainda hoje, permanece actual e permite as mais curiosas comparações com outros períodos da História, onde a crise económica, social e política segreda a marginalidade e o crime.
Arthur Hiller Penn nasceu em Filadélfia, a 27 de Setembro de 1922, e veio a falecer a 28 de Setembro de 2010, um dia depois de completar 88 anos. Começou a sua carreira na televisão, onde adquiriu celebridade como realizador, passando ao cinema em 1958, com “The Left Handed Gun” (Vício de Matar), a história do lendário Billy the Kid, interpretada por Paul Newman, demostrando desde logo as suas preocupações sociais e seu estilo. Seguiram-se “O Milagre de Anne Sullivan”, “Mickey One”, “Perseguição Impiedosa”, “Bonnie e Clyde”, que o consagrou definitivamente, “O Restaurante de Alice”, “O Pequeno Grande Homem”, “Duelo no Missouri”, e mais alguns títulos que o colocaram entre os grandes autores de Hollywood, entre os anos 60 e 80.

BONNIE E CLYDE (1967)
Titulo original : Bonnie and Clyde
Realização: Arthur Penn (EUA, 1967); Argumento: David Newman, Robert Benton, Robert Towne; Produção: Warren Beatty; Música: Charles Strouse; Fotografia (cor): Burnett Guffey; Montagem: Dede Allen; Direcção artística: Dean Tavoularis; Decoração: Raymond Paul; Guarda-roupa: Theadora Van Runkle; Maquilhagem: Robert Jiras, Gladys Witten; Direcção de produção: Russell Saunders; Assistentes de realização: Jack N. Reddish; Departamento de arte: Stuart Spates; Som: Francis E. Stahl, Dan Wallin; Efeitos especiais: Danny Lee; Companhias de produção: Warner Brothers/Seven Arts, Tatira-Hiller Productions; Intérpretes: Warren Beatty (Clyde Barrow), Faye Dunaway (Bonnie Parker), Michael J. Pollard (C.W. Moss), Gene Hackman (Buck Barrow), Estelle Parsons (Blanche), Denver Pyle (Frank Hamer), Dub Taylor (Ivan Moss), Evans Evans (Velma Davis), Gene Wilder (Eugene Grizzard), Martha Adcock, Harry Appling, Owen Bush, Mabel Cavitt, Patrick Cranshaw, Frances Fisher, Sadie French, Garry Goodgion, Clyde Howdy, Russ Marker, Ken Mayer, Ken Miller, Ann Palmer, Stuart Spates, James Stiver, Ada Waugh, etc. Duração: 112 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Zon Lusomundo; Classificação etária: M/16 anos; Data de estreia em Portugal: 1 de Dezembro de 1967.


FAYE DUNAWAY (1941 - )
Dorothy Faye Dunaway nasceu a 14 de Janeiro de 1941, em Bascom, Flórida, EUA. A mãe era Grace Smith e o pai MacDowell Dunaway, Jr, oficial do exército. Viajando muito pelos EUA e pela Europa, eram frequentes as zangas, até chegar o divórcio. Com dez anos Dorothy Faye Dunaway viu-se na contingência de sobreviver quase por si só. Estudou dança, piano, canto, estudou na universidade de Boston. Em 1962, com 21 anos, estuda teatro na American National Theater and Academy. Notada por Lloyd Richards, indicada a Elia Kazan, integra o elenco da Lincoln Center Repertory Company, onde cresce como actriz, apesar da sua vida instável, emocionalmente perturbada, sendo frequente a sua visita a psicanalistas. Mas o sucesso avizinha-se. No cinema estreia-se num pequeno papel em “O Incerto Amanhã”, de Otto Preminger, mas foi, pouco depois, quando protagonizou “Bonnie & Clyde”, ao lado de Warren Beatty, que a sua sorte mudou de vez, chegando rapidamente ao estatuto de vedeta, uma mistura explosiva de mulher fria e sensual, de verdadeiro sex symbol da nova América dos anos 60. A carreira entrou em contínua ascensão e participa num importante conjunto de obras, a começar por “The Thomas Crown Affair”, de Norman Jewison; Amanti, de Vittorio, de Sica; 1969: “The Arrangement”, de Elia Kazan, “Little Big Man”, de Arthur Penn, “Chinatown”, de Roman Polanski, “Three Days of the Condor”, de Sydney Pollack, até culminar com “Network”, de Sidney Lumet, em 1976, que lhe valeu o Oscar de Melhor Actriz.
A partir dos anos 80, a sua carreira conhece alguma perda de fulgor, com aparecimento em filmes menos interessantes. Tem fama de ser “difícil”, e a sua interpretação em “Mommie Dearest”, de Frank Perry (1981) parece ter contribuído para esta fama. Ela própria explica o relativo apagamento da sua imagem com este filme que ela detesta e que, parece, gostaria de fazer desaparecer da sua filmografia: “Este filme arruinou a minha carreira como actriz principal, porque o meu desempenho foi muito bom num papel odioso, que provocou grande antipatia entre o público cinéfilo”.
Faye foi casada duas vezes, a primeira com Peter Wolf, cantor do grupo de rock J. Geils Band, nos anos 70 e com o fotógrafo inglês Terry O’Neil, com quem teve um filho. Faye Dunaway recebeu, ao longo da sua carreira, inúmeros prémios e distinções, entre eles um Oscar, dois BAFTAS, quatro Globos de Ouro. Tem uma estrela que lhe foi atribuída no Hollywood Walk of Fame, junto ao nº 7021 de Hollywood Boulevard. Em Outubro de 1997, a revista Empire organizou um inquérito para saber quais as maiores vedetas de todos os tempos. Faye Dunaway surgiu em 65º lugar.


Filmografia
Como Actriz: 1967: Hurry Sundown (O Incerto Amanhã), de Otto Preminger; The Happening (Os Devassos), de Elliot Silverstein; Bonnie and Clyde (Bonnie e Clyde), de Arthur Penn; 1968: The Thomas Crown Affair (O Grande Mestre do Crime), de Norman Jewison; Amanti (Um Lugar para Amar), de Vittorio, de Sica; 1969: The Extraordinary Seaman (O Marinheiro Fantástico), de John Frankenheimer; The Arrangement (O Compromisso), de Elia Kazan; 1970: Little Big Man (O Pequeno Grande Homem), de Arthur Penn; Puzzle of a Downfall Child (Tempo, de Viver), de Jerry Schatzberg; 1971: La Maison sous les arbres (Uma Casa à Sombra das Árvores), de René Clément; Doc (Vento do Oeste), de Frank Perry; 1973: Oklahoma Crude (O Poço do Ódio), de Stanley Kramer; 1973: The Three Musketeers (Os Três Mosqueteiros - os diamantes da Rainha), de Richard Lester; 1974: Chinatown (Chinatown), de Roman Polanski; Four Musketeers (Os Quatro Mosqueteiros: A Vingança, de Milady), de Richard Lester; The Towering Inferno (A Torre do Inferno), de John Guillermin e Irwin Allen; 1975: Three Days of the Condor (Os Três Dias do Condor), de Sydney Pollack; 1976: Network (Escândalo na TV), de Sidney Lumet; Voyage of the Damned (A Viagem dos Malditos), de Stuart Rosenberg; 1978: Eyes of Laura Mars (Os Olhos, de Laura Mars), de Irvin Kershner; 1979: The Champ (O Campeão), de Franco Zeffirelli; 1980: The First Deadly Sin (O Primeiro Pecado Mortal), de Brian G. Hutton; 1981: Mommie Dearest (Querida Mãezinha), de Frank Perry; 1983: The Wicked Lady (A Dama Perversa), de Michael Winner; 1984: Supergirl (Supergir), de Jeannot Szwarc; 1985: Ordeal by Innocence (A Forca para Um Inocente), de Desmond Davis; 1987: Barfly (Barfly - Amor Marginal), de Barbet Schroeder; 1988: Midnight Crossing (Cruzeiro Sem Regresso), de Roger Holzberg; La partita, de Carlo Vanzina; Burning Secret (Segredo Ardente), de Andrew Birkin; 1989: In una notte di chiaro di luna (Morte Silenciosa), de Lina Wertmüller; Wait Until Spring, Bandini (A Primavera Virá, Bandini), de Dominique Deruddere; 1990: The Handmaid's Tale (A História da Aia), de Volker Schlöndorff; 1990: The Two Jakes (O Caso da Mulher Infiel), de Jack Nicholson (voz); 1991: Scorchers (Corpos Ardentes), de David Beaird; 1992: Lahav Hatzui, de Amos Kollek; 1993: Arizona Dream (Arizona), de Emir Kusturica; The Temp (Ambição Sem Limites), de Tom Holland; 1995: Don Juan DeMarco (Don Juan DeMarco), de Jeremy Leven; Drunks, de Peter Cohn; 1996: Dunston Checks In (Macaco à Solta, Pânico no Hotel), de Ken Kwapis; 1996: Albino Alligator (Albino Aligator), de Kevin Space; The Chamber (A Câmara Encerrada), de James Foley; 1997: The Twilight of the Golds), de Ross Kagan Marks; 1997: En brazos, de la mujer madura), de Manuel Lombardero; 1999: Love Lies Bleeding, de William Tannen; The Thomas Crown Affair (O Caso Thomas Crown), de John McTiernan; 1999: The Messenger: The Story of Joan of Arc (Joana de Arc), de Luc Besson; 1999: The Yards (Nas Teias da Corrupção), de James Gray; 2000: Stanley's Gig, de Marc Lazard; 2001: Yellow Bird, de Faye Dunaway (curta-metragem); Festival in Cannes, de Henry Jaglom; 2002: Mid-Century, de Scott Billups; Changing Hearts (Corações Quebrados), de Martin Guigui; The Rules of Attraction (As Regras da Atracção), de Roger Avary; 2002: Man of Faith ou The Calling, de Damian Chapa; 2003: Blind Horizon (O Assassino do Presidente), de Michael Haussman; 2004: Last Goodbye, de Jacob Gentry; El Padrino, de Damian Chapa; Jennifer's Shadow, de Daniel, de la Vega et Pablo Parés; 2005: Ghosts Never Sleep, de Steve Freedman; 2006: Cut Off (O Roubo), de Gino Cabanas; Love Hollywood Style, de Michael Stein; Rain, de Craig DiBona; La rabbia, de Louis Nero; 2007: Killer Hacker (The Gene Generation), de Pearry Reginald Teo; 2007: Cougar Club, de Christopher Duddy; 2007: Say It in Russian, de Jeff Celentano; 2007: Flick, de David Howard; 2008: Fashion: The Movie, de Jeff Espagnol; 2009: The Seduction of Dr. Fugazzi, de October Kingsley; 2009: Balladyna, de Dariusz Zawislak; 2009: The Magic Stone, de Jowita Gondek; 2009: 21 and a Wake-Up, de Chris McIntyre; 2012: Master Class,, de Faye Dunaway

Televisão: 1965: Seaway; 1969: The Trials of O'Brien; 1971: Great Performances: Hogan's Goat, de Glenn Jordan; 1972: The Woman I Love, de Paul Wendkos; 1974: After the Fall, de Gilbert Cate;1976: The Disappearance of Aimee, de Anthony Harvey; 1981: Evita Peron, de Marvin J. Chomsk; 1982: The Country Girl, de Gary Halvorson e Michael Montel; 1984: Ellis Island, de Jerry London; 1985: Christopher Columbus, de Alberto Lattuad; Thirteen at Dinner, de Lou Antonio; 1986: Raspberry Ripple, de Nigel Finch; Beverly Hills Madam, de Harvey Hart; 1987: Casanova, de Simon Langton; 1989: Cold Sassy Tree, de Joan Tewkesbury; 1990: Silhouette, de Carl Schenkel; 1993: It Had to Be You Columbo, de Vincent McEveety; 1995: A Family Divided, de Donald Wrye; Road to Avonlea 1996: The People Next Door,, de Tim Hunte; 1997: Rebecca, de Jim O'Brien; 1998: Gia, de Michael Cristofer; A Will of Their Own, de Karen Arthur; 2000: Running Mates, de Ron Lagomarsino; Stanley's Gig; 2001: Touched by an Angel; 2002: Soul Food; The Biographer: Diana - La vérité interdite, de Philip Saville; 2002-2003: Alias; 2004: Anonymous Rex, de Julian Jarrold; Back When We Were Grownups, de Ron Underwood; 2006: CSI: Crime Sob Investigação; 2007: Pandemic, de Armand Mastroianni; 2009: Grey's Anatomy (Anatomia de Grey); Midnight Bayou; 2010: A Family Thanksgiving; Earth Ring (curta-metragem);


Teatro: 1961-1963: A Man for All Seasons, de Robert Bolt; 1961-1963: After the Fall, de Arthur Miller, encenação de Elia Kazan; 1965: Infirmière84; 1964: But For Whom Charlie, de S. N. Behrman, encenação de Elia Kazan; 1964: The Changeling, de Thomas Middleton e William Rowley, encenação de Elia Kazan; Femme, de chambre86; 1982: The Curse of an Aching Heart, de William Alfred, encenação de Gerald Gutierrez.