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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

1 DE SETEMBRO DE 2015


OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM (1969)

Sydney Pollack foi, inquestionavelmente, um dos cineastas mais interessantes entre os revelados na década de 60, nos EUA. Filmes como “A Flor à Beira do Pântano”, “Caçadores de Escalpes”, “As Brancas Montanhas da Morte”, “Os Três Dias do Condor”, “Yakusa”, “Bobby Deerfield”, “Tootsie” ou “África Minha” testemunham bem a importância da contribuição de Pollack. “Os Cavalos Também se Abatem” data de 1969 e é outro dos seus triunfos, desta feita adaptando um excelente romance de Horace McCoy, um dos grandes escritores norte-americanos no domínio do “romance negro”. Ambientado em plena época da Grande Depressão económica nos EUA, “They Shoot Horses, Don't They?” é um documento impressionante sobre este período, desenrolando-se quase toda a obra no interior de um recinto onde decorre uma maratona de dança, verdadeiramente inumana na forma como é sustentada pelos concorrentes, na mira de atingirem uma avultada maquia, prometida a quem consiga estar mais tempo a dançar de forma ininterrupta. 1.500 dólares na altura devia ser uma importância considerável. Vários mitos da América são aqui abordados de forma lúcida e vigorosa, desde o espírito de competição até ao “struggle for life”, passando pelo sonho da abastança e da terra prometida.
Estamos na Califórnia, o Eldorado americano, para onde se dirigiam todos os que fugiam da miséria e do desemprego. Como se viu em “As Vinhas da Ira”. Não só as condições atmosféricas ajudavam, como existia ali a fábrica de sonhos que acalentava a esperança de muitos, sobretudo os mais jovens, com a expectativa de serem “descobertos”. Numa vasta tenda, com uma pista central e bancadas para o muito público que irá acorrer ao longo de dias e dias, o show vai começar. Diz-se um concurso. São cerca de centena e meia de pares que irão dançar consecutivamente, com intervalos de 10 minutos de duas em duas horas. O último par a resistir ganha a taluda. Há enfermeiras e médico que distribuirá aspirinas e pouco mais: “Pneumonia dupla é entre vocês e Deus”, anuncia o apresentador. “O relógio nunca pára.” “Se perderem o parceiro podem dançar durante 24 horas a solo, depois, se não arranjarem outro, serão desqualificados.”
Esta é “a maior maratona do mundo!”, que abre as portas da fama e da fortuna. “Sete refeições por dia” é também um bom argumento para muitos dos concorrentes. A dança inicia-se, primeiro em slow, depois mais agitado. Ao fim de 25 dias e de mais de 600 horas, já com muitos concorrentes pelo caminho, o teste de energia e resistência: uma corrida à volta da pista, extenuante, desumana, para isolar os três últimos que serão desqualificados. “Não precisam de ser o número um na estrada da vida, mas não sejam o último”. O marujo já de certa idade que concorre afirma que já “trabalhou em barcos de gado e é mais ou menos a mesma coisa”.


“Negócio, estritamente negócio”, proclama o apresentador. “Este é o tipo de acontecimento que atrai muitas pessoas. Hoje vamos ter gente de Hollywood. Fala-se em Le Roy, na altura um dos grandes cineastas de Hollywood. A determinada altura, o par que está a granjear maior simpatia entre o público é chamado à parte e fazem-lhe a proposta: “Casam-se em público e podem ganhar 200 dólares. Se não quiserem continuar casados podem divorciar-se logo no dia seguinte”.
1200 horas de dança, outra corrida à volta da pista. A maratona aproxima-se do fim. A cada nova corrida, um pequeno canhão é trazido para a pista para dar o sinal de partida. Um símbolo bélico para tornar mais real esta guerra. Como fazer dinheiro com a miséria dos outros. Como assistir à desgraça pública de alguém, para tornar mais suportável a miséria própria. As galerias estão cheias durante os dias, à noite decresce a multidão, para regressar no dia seguinte, ávida de novidades dramáticas. Há quem desista, quem tenha alucinações, quem morra na pista, quem se ofereça, quem aspire por um tiro na cabeça. Afinal, “os cavalos também se abatem”.
Retrato implacável de uma realidade cruel e violenta, na terra do espectáculo. Onde tudo é espectáculo. Onde tudo se compra e se vende. Ou quase tudo.
Actores notáveis, técnicos inspirados, todos se reúnem para fazer desta obra uma cavalgada empolgante, de ritmo vertiginoso, pela sobrevivência e a afirmação pessoal. Gig Young foi Oscar de Melhor Actor Secundário, e o filme recebeu mais oito nomeações: Jane Fonda, Melhor Actriz; Susannah York, Melhor Actriz Secundária; Harry Horner e Frank R. McKelvy, Melhor Direcção Artística; Donfeld, Melhor Guarda-roupa; Fredric Steinkamp, Melhor Montagem; James Poe e Robert E. Thompson, Melhor Argumento Adaptado; Johnny Green e Albert Woodbury, Melhor Música; e Sydney Pollack, Melhor Realizador. Outros prémios e nomeações se multiplicaram. Este é seguramente um dos mais lancinantes retratos da América da Grande Depressão, quando o presidente Herbert Hoover exclamava que “a prosperidade está ao virar da esquina”.
O filme não perdeu nenhuma actualidade e as maratonas de dança agora são transmitidas pela televisão em novos formatos. Big Brother e muitas outras “casas” e “segredos” são agora o negócio, onde tudo se vende e tudo se compra.


OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM
Titulo original: They Shoot Horses, Don’t They?
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1969); Argumento: James Poe, Robert E. Thompson, segundo romance de Horace McCoy (“They Shoot Horses, Don’t They?”); Produção: Robert Chartoff, Johnny Green, Theodore B. Sills, Irwin Winkler; Fotografia (cor): Philip H. Lathrop; Montagem: Fredric Steinkamp; Casting: Lynn Stalmaster; Design de produção: Harry Horner; Decoração: Frank R. McKelvy; Guarda-roupa: Donfeld; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, Frank McCoy; Direcção de produção: Edward Woehler; Assistentes de realização: Al Jennings, Joel Chernoff, Lynn Guthrie; Som: Norval D. Crutcher, Tom Overton, Tex Rudloff; Companhias de produção: American Broadcasting Company, Palomar Pictures; Intérpretes: Jane Fonda (Gloria Beatty), Michael Sarrazin (Robert Syverton), Susannah York (Alice LeBlanc), Gig Young (Rocky), Red Buttons (Harry ‘Sailor’ Kline), Bonnie Bedelia (Ruby), Michael Conrad (Rollo), Bruce Dern (James), Al Lewis, Robert Fields, Severn Darden, Allyn Ann McLerie, Madge Kennedy, Jacquelyn Hyde, Felice Orlandi, Art Metrano, Gail Billings, Lynn Willis, Maxine Greene, Mary Gregory, Robert Dunlap, Paul Mantee, Tim Herbert, Tom McFadden, Noble ‘Kid’ Chissel, etc. Duração: 120 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição e Portugal (DVD): Cine Digital.


JANE FONDA (1937 - )
Lady Jayne Seymour Fonda é o nome de baptismo desta actriz que nasceu a 21 de Dezembro de 1937, em Nova Iorque, EUA. Os pais foram o actor Henry Fonda, um dos maiores da sua geração, e a muito conhecida Frances Seymour Brokaw, uma das presenças mais cobiçadas das festividades nova-iorquinas. Frances Seymour Brokaw suicidou-se quando Jane Fonda tinha 21 anos. Jane Fonda tem como irmão o também actor Peter Fonda e é tia de uma outra actriz, Bridget Fonda. Com esta família parecia escrita deste muito nova a carreia de Jane Fonda. Na verdade, estreia-se no teatro ao lado do pai, em 1954, numa produção teatral dirigida por Joshua Logan, "The Country Girl", no Omaha Community Theatre. Em 1958, já se encontra matriculada no Actors Studio, às ordens de Lee Strasberg. Em “Garota Apimentada” (1960) é de novo Joshua Logan que apadrinha desta feita a sua estreia no cinema, onde irá interpretar um importante conjunto de filmes, que merecerão dois Oscars da Academia de Hollywood, para “Klute” (1971) e “O Regresso dos Heróis” (1978), além de mais cinco nomeações em “Os cavalos Também Se Abatem” (1969), “Julia” (1977), “O Síndroma da China” (1979), “A Manhã Seguinte” (1986) e “A Casa do Lago” (1981).
Se a sua carreira profissional foi uma sucessão de sucessos, a sua vida emocional e as suas actividades políticas e sociais causaram profunda polémica. Foi casada com o realizador francês Roger Vadim (1965 - 1973), depois com o activista político Tom Hayden (1973 - 1990), finalmente com o produtor Ted Turner (1991 - 2001). Todos os casamentos terminaram em divórcios. Durante muitos anos dedicou-se a campanhas pelos direitos civis, pela emancipação da mulher ou contra a guerra do Vietname. Chegou a ser presa em 1970. No início da década de 80, iniciou uma nova cruzada, esta com base na aeróbica, publicando "Jane Fonda's Workout Book" e alguns vídeos que tiveram grande sucesso. Em 1995, a revista Empire publicou um inquérito sobre as “100 Sexiest Stars” e Jane Fonda aparece em 21º lugar. A mesma revista, dois anos depois, quis saber quais eram "The Top 100 Movie Stars of All Time" e Jane Fonda foi a 83ª da lista. A revista Première coloca-a, entretanto, em 32º lugar na sua lista das “Greatest Movie Stars of All Time” (2005). Escreveu uma autobiografia, "My Life So Far". Para lá de Oscars e nomeações, Jane Fonda ganhou imensas outras distinções e prémios em festivais e manifestações afins.


Filmografia
Como actriz: Cinema: 1960: Tall Story (Garota Apimentada), de Joshua Logan; 1962: Walk on the Wild Side (Restos de Um Pecado), de Edward Dmytryk; The Chapman Report (A Vida Íntima de Quatro Mulheres), de George Cukor; Period of Adjustment (A Arte de Bem Casar), de George Roy Hill; 1963: In the Cool of the Day (Ânsia de Amar), de Robert Stevens; Sunday in New York (Um Domingo em Nova Iorque), de Peter Tewksbury; 1964: Les Félins (A Jaula do Amor), de René Clément; La Ronde (A Ronda do Amor), de Roger Vadim; 1965: Cat Ballou (Mulher Felina), de Elliot Silverstein; 1966: The Chase (Perseguição Impiedosa), de Arthur Penn; La Curée (Queda no Abismo), de Roger Vadim; Any Wednesday (Livre à Quarta-Feira), de Robert Ellis Miller; 1967: Barefoot in the Park (Descalços no Parque), de Gene Saks; 1967: Hurry Sundown (O Incerto Amanhã), de Otto Preminger; 1968: Histoires extraordinaires (Histórias Extraordinárias), episódio “Metzengerstein”, de Roger Vadim; 1968: Barbarella (Barbarella), de Roger Vadim; They Shoot Horses, Don't They? (Os Cavalos Também Se Abatem), de Sydney Pollack; 1971: Klute (Klute), de Alan J. Pakula; 1972: Tout va bien (Tudo Vai Bem), de Jean-Luc Godard, Jean-Pierre Gorin; FTA, de Francine Parke; 1973: Steelyard Blues (Com Um Pé Fora da Lei), de Alan Myerson; 1973: A Doll's House (A Casa da Boneca), de Joseph Losey; 1976: The Blue Bird (O Pássaro Azul), de George Cukor; 1977: Fun with Dick and Jane (Adivinhe Quem Vem Para Roubar), de Ted Kotcheff; Julia (Julia), de Fred Zinnemann; 1978: Coming Home (O Regresso dos Heróis), de Hal Ashby; Comes a Horseman (Uma Mulher Implacável) de Alan J. Pakula; California Suite (Um Apartamento na Califórnia), de Herbert Ross; 1979: The China Syndrome (O Síndroma da China), de James Bridges; 1980: The Electric Horseman (O Cowboy Eléctrico), de Sydney Pollack; Nine to Five (Das 9 às 5), de Colin Higgins; 1981: On Golden Pond (A Casa do Lago), de Mark Rydell; Sois belle et tais-toi, de Delphine Seyrig (documentário); 1981: Rollover (A Face do Poder), de Alan J. Pakula; 1985: Agnes of God (Agnes de Deus), de Norman Jewison; 1986: The Morning After (A Manhã Seguinte), de Sidney Lumet; 1987: Leonard Part 6 ,de Paul Weiland; 1989: Old Gringo (O Velho Gringo), de Luis Puenzo; 1990: Stanley and Iris (Para Iris, com Amor), de Martin Ritt; 1994: A Century of Cinema, de Caroline Thomas (documentário); 2002: Searching for Debra Winger, de Rosanna Arquette (documentário); 2004: Tell Them Who You Are, de Mark Wexler (documentário); 2005: Monster-in-Law (Uma Sogra de Fugir),  de Robert Luketic; 2007: Georgia Rule (Regras Para Ser Feliz), de Garry Marshall; 2011: Peace, Love and Misunderstanding (Paz, Amor e Outras Confusões), de Bruce Beresford; 2012: Et si on vivait tous ensemble? (E Se Vivêssemos Todos Juntos?), de Stéphane Robelin; 2013: The Butler (O Mordomo) de Lee Daniels; 2014: Better Living Through Chemistry (Viver Melhor à Base de Químicos) de Geoff Moore e David Posamentier; This Is Where I Leave You (Sete Dias Sem Fim), de Shawn Levy; 2015: La giovinezza, de Paolo Sorrentino; Fathers and Daughters, de Gabriele Muccino; Krystal, de William H. Macy.

Televisão: 1962: A String of Beads; 1981: Lily: Sold Out; 1984: The Dollmaker, de Daniel Petrie; 2012: The Newsroom de Aaron Sorkin; 2014: Os Simpsons; 2015: Grace and Frankie; 

26 DE AGOSTO DE 2015


HELLO, DOLLY (1969)

A câmara de Gene Kelly sobe as escadarias dos "Harmonica Gardens" e vai enquadrar as costas de um velho negro que dirige uma orquestra de jazz. Os braços estendidos, os ombros já encurvados, uma pequena batuta prolongando o negro da casaca, dir-se-ia o sacerdote de uma liturgia de sons por ele comandados. A câmara de Gene Kelly aproxima-se então, com respeito, e vai com ela um grande amor e a reverência devida ao "Rei". Com ela vamos também nós, direitos às costas daquele velho negro de ralos cabelos brancos que, súbito, se volta e se descobre:
- “That's Louis, Dolly”...
- “Hello, Louis”..., responde-lhe Barbra Streisand, e nestas breves palavras, nestes gritos de amor que a memória só conhece raramente, está o mais belo momento de “Hello, Dolly”, filme.
O velho negro, de ombros encurvados já, continua naquela voz rouca de quem viveu eternidades e conhece a vida por dentro e por fora. Ele é o "Rei", ressuscitando um velho poema. Aí o temos, de corpo inteiro, desarmado, sem o velho trompete cravado nos lábios, unicamente com a sua voz rouca e o amor esgueirando-se pelo olhar. É o "Rei" que estende a mão a Barbra, e com ele regressa toda a nostalgia, toda a sumptuosidade litúrgica, toda a turbulência musical, toda a alegria incomensurável de um cortejo em New Orleans. O mais belo momento de “Hello, Dolly”. Um momento que nos obriga a ver e rever um musical. Um momento sublime que ficará por certo na história do cinema e do musical. Uma história que não é só feita de filmes. Mas de pessoas. De rostos. De vozes. Da rouquidão arrastada de um velho negro do jazz. E de uma grande vedeta com a força telúrica de uma Barbra Streisand, aqui num dos seus grandes momentos de actriz e cantora.


Com “Hello, Dolly”, datado de 1969, Gene Kelly regressava à realização cinematográfica depois de alguns anos de interregno, e regressava também ao musical: um regresso, se não em cheio, pelo menos em beleza, dado que o director, coreógrafo, bailarino e actor de tantos e tantos clássicos do género regressava sem vestígios de senilidade, sem envelhecimento formal, sem qualquer indício de quebra, de vigor ou de invenção. Antes pelo contrário: “Hello, Dolly” surgia em 1969 nos ecrãs de todo o mundo como mais um notável exercício de cinema, uma baforada de vitalidade e de ritmo num género exausto por essa altura. Um majestoso espectáculo que passava a constituir, daí em diante, uma nova referência obrigatória na história de um género de prestigiada linhagem.
Encadeado vertiginoso de canções e bailados, “Hello, Dolly” é a transposição para o cinema de um espectáculo musical de grande sucesso na Broadway - 2.844 representações no St. James Theatre, de Nova Iorque, depois da sua estreia a 16 de Janeiro de 1964. A produção do espectáculo estivera a cargo de David Merrick, com direcção e coreografia de Gower Champion. Na base do espectáculo, uma peça teatral de Thornton Wilder, "The Matchmaker", adaptada por Michael Stewart, com música e líricas de Jerry Herman.
Mas a história desta adaptação é curiosíssima. A versão original da intriga remonta a uma peça teatral inglesa, “A Day Well Spent”, de John Oxenford, estreada em Londres em 1835. Alguns anos depois, Johann Nestroy escrevia uma versão alemã, que subiria a cena em 1842, em Viena de Áustria, com o título “Einen Jux Will Er Sich Machen”. Quase um século depois, o norte-americano Thornton Wilder, segundo sugestão de Max Reinhardt, escreve uma sua primeira adaptação a que chamou “The Merchant of Yonkers”, que se estreou no teatro, com Jane Cowl como protagonista. Não satisfeito com o resultado, cerca de quinze anos depois, o mesmo Thornton Wilder volta ao tema e refaz a história que passa a chamar-se “The Matchmaker”. É na temporada de 1954-55 que a peça sobe à cena, em Londres, com Ruth Gordon na figura de Dolly Levi. A 5 de Dezembro de 1955, David Merrick estreia esta nova peça em Nova Iorque no The Theatree Guild, para 486 representações, com um cast que inclui, além de Ruth Gordon, Loring Smith, Eileen Herlie, Arthur Hill e Robert Morse. Daqui nasce, em 1958, uma versão cinematográfica, homónima, dirigida por Joseph Anthony, interpretada por Shirley Booth, Shirley MacLaine, Anthony Perkins, Paul Ford, Wallace Ford e Robert Morse. É, portanto, desta versão que o mesmo David Merrick se socorre para a criação do musical “Hello, Dolly” que, ao tempo da sua estreia em salas da Broadway, se transformou no maior sucesso musical em palco. Seria, meses depois, ultrapassado por “O Violino no Telhado”.
Mas este sucesso não seria fácil de conseguir. Antes de aparecer na Broadway, o musical rodou por algumas cidades dos EUA e as primeiras impressões foram "desastrosas". Adaptador e músico foram reescrevendo o que parecia fraco, até chegarem à versão que surgiria em palco em N. Y. O argumento de “Hello, Dolly” continuaria a ser, no entanto, tanto no palco como no ecrã, o seu calcanhar de Aquiles. Lá chegaremos...
Desse elenco original faziam parte Carol Channing, David Burns, Eileen Brennan, Charles Nelson Reilly, Sondra Lee, Jerry Dodge, Alice Playten, Igors Gavon. O espectáculo recebeu 10 Tonys (correspondentes aos Oscars, em teatro), entre os quais o de melhor produção de um musical, melhor autoria, melhor direcção, melhor música, melhor coreografia e melhor actriz. Para os críticos do “Variety”, seria o mais votado para quatro categorias, melhor direcção de um musical, melhor actriz, melhor cenografia e melhor lírica.


Houve quem considerasse que “Hello, Dolly” era um musical de um tema só, precisamente "Hello, Dolly", e que os restantes números musicais eram bastante inferiores a esse. A partitura conta, todavia, com alguns outros bons momentos, entre as principais canções: "I Put My Hand In", "It Takes a Woman", "Put on Your Sunday Clothes", "Ribbons Down My Back", "Motherhood", "Dancing", "Before the Parade Passes By", "Elegance", "It Only Takes a Moment" ou "So Long Dearie".
Voltando à adaptação cinematográfica, haverá que referir que ela foi empreendida por Ernest Lehman, com realização de Gene Kelly, música e líricas de Jerry Herman e Michael Stewart, coreografia de Michael Kidd (o mesmo desse espantoso “Sete Noivas para Sete Irmãos”), fotografia (em Todd-AO) de Harry Stradling, direcção musical de Lennie Hayton e Lionel Newman e direcção artística de John de Cuir.
Nos Oscars do ano, ganharia o de melhor filme e melhor fotografia, e seria ainda nomeado para melhor direcção musical, melhor direcção artística e melhores cenários.
O argumento é frágil e demasiado secundário para sobre ele nos determos com muita atenção. Serve unicamente de pretexto a uma "feérie" e é esta que está em causa. Pouco nos interessa saber que uma jovem viúva (que se ocupa "profissionalmente" a arranjar casamentos para outros) resolva, subitamente, preocupar-se com o seu futuro e "caçar" um milionário que diz que "o máximo a que um americano pode aspirar é ter muito dinheiro". Estamos em Nova Iorque, 1880, e tudo terá de ser visto nesta perspectiva, tanto mais que o filme reflecte um saudável e subtil sentido crítico.
Mas o que funciona como centro motor é a reconstituição de um tempo histórico, estilizado pela forma como nos é transmitido. É a América de fins do século XIX, a eufórica América que ainda se descobre a si própria, e o faz cantando e dançando, transbordante de alegria e vitalidade.
“Hello, Dolly” é, neste aspecto, uma espécie de "revista", na sua sucessão de "quadros", que se prolonga por duas horas e meia de um turbilhão de cores e sons. O rosto de uma cidade onde são visíveis as profundas desigualdades sociais, mas onde os conflitos se resolvem ainda ao ritmo de uma orquestra comandada por um improvisado, mas admirável, Louis Armstrong (cremos que na sua última aparição cinematográfica).
Haverá essencialmente que salientar a qualidade plástica das grandes sequências coreografadas: a partida de um comboio carregado de habitantes de uma pequena aldeia nos arredores de Nova Iorque, com destino à capital; a parada que fecha em apoteose a primeira parte do filme (e que constitui, só por si, um inolvidável momento de musical); ou ainda esses três quartos de hora finais, inteiramente limitados pelas paredes de um restaurante, onde se sucedem vertiginosos bailados, cada vez mais turbulentos, com um ritmo de marcação inexcedível, onde é bem visível o dedo de Michael Kidd.
Que “Hello, Dolly” não aguenta a mais rudimentar aproximação crítica ao nível do argumento, essa é uma conclusão que se impõe extrair rapidamente, para melhor saborearmos depois, sem problemas de consciência, esse impressionante espectáculo musical, onde são ainda de sublinhar o trabalho e o talento de Barbra Streisand, não só como actriz, mas sobretudo como personalidade e cantora, para lá da presença de Walter Matthau, que compõe com brilho e humor a figura de um excêntrico milionário. Outros actores: Michael Crawford, Marianne McAndrew, E.J. Peaker, Danny Lockin, Louis Armstrong, Tommy Tune e David Hurst.

HELLO, DOLLY!
Título original: Hello, Dolly!
Realização: Gene Kelly (EUA, 1969); Argumento: Ernest Lehman, segundo peça teatral de Michael Stewart, inspirada em Thornton Wilder ("The Matchmaker") e Johann Nestroy ("Einen Jux will er sich machen"); Produção: Roger Edens, Ernest Lehman; Fotografia (cor): Harry Stradling Sr.; Montagem: William Reynolds; Casting: Alixe Gordin, Joe Scully; Design de produção: John DeCuir; Direcção artística: Herman A. Blumenthal, Jack Martin Smith; Decoração: Raphael Bretton, George James Hopkins, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Irene Sharaff; Maquilhagem: Edwin Butterworth, Dick Hamilton, Edith Lindon, Daniel C. Striepeke, Verne Langdon, Sharleen Rassi; Direcção de produção: Francisco Day, George E. Swink; Assistentes de realização: Paul Helmick, Robert J. Koster, Richard Lang; Departamento de arte: Lloyd R. Apperson, Craig Binkley, Greg C. Jensen; Som: James Corcoran, Jack Solomon, Murray Spivack, Vinton Vernon, Douglas O. Williams, Terrance Emerson; Efeitos especiais: Johnny Borgese; Efeitos visuais: L.B. Abbott, Art Cruickshank, Emil Kosa Jr.; Companhias de produção: Chenault Productions, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Barbra Streisand (Dolly Levi), Walter Matthau (Horace Vandergelder), Michael Crawford (Cornelius Hackl), Marianne McAndrew (Irene Molloy), Danny Lockin (Barnaby Tucker), E.J. Peaker (Minnie Fay), Joyce Ames (Ermengarde), Tommy Tune (Ambrose Kemper), Judy Knaiz (Gussie Granger), Louis Armstrong, David Hurst, Fritz Feld, Richard Collier, J. Pat O'Malley, David Ahdar, Will Ahern, Melanie Alexander, Ben Archibek, John Arnold, Roger Arroyo, Robert Bakanic, etc. Duração: 146 minutos; Classificação etária: M/ 6 anos; Distribuição em Portugal (DVD): Twentieth Century Fox; Data de estreia em Portugal: 16 de Dezembro de 1969.


BARBRA STREISAND (1942 - )
Ela não é apenas uma actriz conceituada, uma cantora de sucesso, mas igualmente uma produtora que sabe conduzir os negócios e uma realizadora que consegue transformar em êxitos os títulos que assina. É uma entertainer completa, canta, dança, representa, sabe lançar uma graça quando é necessário e justificar uma lágrima. Para ela, o espectáculo não tem segredos, como soe dizer-se. Barbara Joan Streisand nasceu a 24 de Abril de 1942, em Williamsburg, Brooklyn, Nova Iorque, EUA. Os pais foram Diana, uma cantora que se tornou secretária de escola, e Emanuel Streisand, descendente de judeus polacos, professor do ensino secundário. Ela estudou na Beis Yakov Jewish School em Brooklyn. Cresceu a sonhar ser actriz. Conseguiu-o e de que maneira. Começou a carreira como cantora de um nightclub off-Broadway em Nova Iorque, e estreou-se no teatro musical da Broadway em 1962, em "I Can Get It For You Wholesale", logrando logo uma nomeação para o Tony Award para Best Supporting Actress: No ano seguinte, o sucesso continuou com o primeiro álbum lançado pela Columbia Records, "The Barbara Streisand Album", que ganhou vários Grammy, incluindo "Best Album of the Year".
Ainda na Broadway, em 1964, volta a ver explodir o seu talento na composição de Fanny Brice em "Funny Girl". Quando chegou ao cinema, era uma vedeta e sua versão de “Funny Girl: Uma Rapariga Endiabrada (1968), dirigida pelo mestre William Wyler, transformou-a numa "superstar', a que se seguem outros triunfos como “Hello Dolly” (1969),“Melinda” (1970), “O Mocho e a Gatinha” (1970) ou “Que Se Passa Doutor?” (1972). Aparece no melodrama sentimental “O Nosso Amor de Ontem” (1973), de Sydney Pollack ao lado de Robert Redford, onde muitos críticos consideram que deu a sua melhor interpretação de sempre. A canção "The Way We Were" escrita para esse filme e cantada por ela tornou-se um tema memorável.
Não satisfeita com o seu trabalho como actriz, e produtora, lançou-se igualmente na realização. “Yentl” (1983), que recebeu várias nomeações para os Oscars, ganhando dois. Mas Barbara ficou sem nenhuma estatueta, o que provocou a ira dos admiradores. Voltaria com “O Príncipe das Marés” (1991), novas sete nomeações, mas a recompensa como Melhor Realização seria dada pela Directors Guild of America. A sua terceira realização seria “As Duas Faces do Espelho” (1996), um novo melodrama que voltou a emocionar as plateias. Casada com Elliott Gould (1963 - 1971), de quem tem um filho, Jason Gould, e com James Brolin (1998 - presente). Pelo meio, alguns romances que fizeram a ligação entre os dois casamentos. Democrata, não enjeita acções de cariz social e político. Foi uma apoiante de Al Gore à presidência dos EUA. É a única personalidade mundial, no universo do showbusiness que recebeu Oscar, Tony, Emmy, Grammy, Golden Globe, Cable Ace, National Endowment for the Arts, e prémio Peabody, além do American Film Institutes Lifetime Achievement Honor e o Chaplin Award, do Film Society of Lincoln Center.


Filmografia
Como Actriz: 1968: Funny Girl (Funny Girl: Uma Rapariga Endiabrada), de William Wyler; 1969: Hello, Dolly ! (Hello, Dolly !), de Gene Kelly; 1970: On a Clear Day You Can See Forever (Melinda), de Vincente Minnelli; The Owl and the Pussycat (O Mocho e a Gatinha), de Herbert Ross; 1972: Up the Sandbox (A Mulher das Mil Caras), de Irvin Kershner; What's Up, Doc? (Que Se Passa Doutor?), de Peter Bogdanovich; 1973: The Way We Were (O Nosso Amor de Ontem), de Sydney Pollack; 1974: For Pete's Sake (A Minha Mulher é Doida!), de Peter Yates; 1975: Funny Lady (Funny Lady), de Herbert Ross; 1976: A Star is Born (Nasce Uma Estrela), de Frank Pierson; 1979: The Main Event (Treinador de Saias), de Howard Zieff; 1981: All Night Long (Até de Madrugada), de Jean-Claude Tramont; 1983: Yentl (Yentl), de Barbra Streisand; 1984: Sunday Night Live (TV); 1986: Directed by William Wyler (documentário); 1987: Nuts (Louca), de Martin Ritt; 1990: Listen Up: The Lives of Quincy Jones (documentário); 1991: Prince of the Tides (O Príncipe das Marés), de Barbra Streisand; 1996: The Mirror has Two Faces (As Duas Faces do Espelho), de Barbara Streisand; 2004: Meet the Fockers (Uns Compadres do Pior), de Jay Roach; 2010: Little Fockers (Não Há Família Pior!) de Paul Weitz; 2012: The Guilt Trip (Não Há Culpa Nem Desculpa!), de Anne Fletcher

Como realizadora: 1983: Yentl; 1991: O Príncipe das Marés; 1995: Barbara: The Concert (TV (documentário); 1996: As Duas Faces do Espelho; 2001: Timeless: Live in Concert (TV, documentário); 2009: Streisand: Live in Concert (TV (documentário); 2017: Barbara Streisand (em projecto).