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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

5 DE AGOSTO DE 2015


IRMA LA DOUCE (1963)

Billy Wilder é definitivamente um dos maiores realizadores que cresceram no cinema norte-americano. Nascido ainda no tempo do Império Austro-húngaro, em 1906, numa localidade que hoje pertence à Polónia, e falecido em Los Angeles em 2002, Billy Wilder parecia destinado a uma carreira de advogado em Viena, quando foi apanhado pelo jornalismo, viajando depois para Berlim. Começou a carreira no cinema como argumentista, e, tendo em conta a sua ascendência judaica, achou melhor emigrar depois de Hitler chegar ao poder. Em Hollywood, apesar de não dominar o inglês, vingou rapidamente, inicialmente a escrever argumentos com Charles Brackett. Foram autores de comédias como “Ninotchka” (1939) ou “Bola de Fogo” (1941). A carreira prosseguiu sempre com obras de reconhecida valia, como “Cinco Covas no Egipto” (1943), “Pagos a Dobrar” (1944) “Farrapo Humano” (1945), “Crepúsculo dos Deuses” (1950), “O Grande Carnaval” (1951), “O Pecado Mora ao Lado” (1955), “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), “O Apartamento” (1960) ou “Irma La Douce” (1963) todas elas com vários prémios no activo e sendo consideradas das melhores que a cinematografia mundial produziu nesse período.
Bateu-se bem em quase todos os géneros, marcando uma sólida posição de autor, mas foi na comédia que terá levado mais longe algumas das suas características, um humor cáustico, irreverente para com as instituições, moralmente cínico, algo perverso, mesmo quando o fundo é de uma invejável moralidade. Bom-vivant, isso mesmo fica testemunhado nas suas películas, onde se enfatizam os prazeres da vida. “Irma, La Douce” é um bom exemplo.
O argumento é do próprio Billy Wilder, de colaboração com I.A.L. Diamond, que adaptam uma peça teatral de Alexandre Breffort. Como em muitas outras obras de Billy Wilder, esta é uma história que vive do disfarce, de alguém a fazer-se passar por outro. A acção passa-se em Paris, num bairro popular, uma rua bem povoada de prostitutas, um café/taberna onde se encontram os chulos a jogar enquanto esperam que as raparigas lhes tragam da rua a mesada, uma pensão de grande rotação, a azáfama de todos os dias e de todas as noites, os polícias de giro que fecham os olhos e arrecadam as gorjetas no chapéu deixado sobre o banco, tudo a correr sobre rodas até ao dia em que aparece um novo polícia, Nestor Patou (Jack Lemmon), que desconhece as regras do jogo e resolve actuar segundo os regulamentos e a moral instituída. Claro que não resulta bem, será expulso da polícia e, com alguma sorte pelo seu lado, acaba por ser designado o nº 1 da associação dos chulos do bairro e terá como prémio Irma, La Douce, a prostituta preferida da zona. Mais coisa, menos coisa e muitos ciúmes pelo meio, Nestor acaba por se transformar em Lord X, que todas as semanas desce de Londres à cidade para estar com Irma e ofertar-lhe 500 francos a troco de um jogo de cartas por noite. Não interessa aprofundar mais a intriga, este início já dá para perceber que não é pelas boas práticas que se chega ao céu e há que saber viver numa sociedade onde todos traficam. Só não evolui na vida quem não se adapta às normas vigentes, que não são morais, nem justas, mas são as que há e as que melhor rendem no mercado. O ingénuo bem-intencionado é expulso desta sociedade, mas se resolve aderir aos maus costumes passa a number one.


A crítica de Billy Wilder não pode ser mais contundente, o seu humor é deliciosamente perverso, a direcção do filme desenvolve um cómico de situação e de diálogo cheio de subtendidos, mas sempre de uma elegância e subtileza de realçar. Todo o quadro de Paris boémio é magnífico de autenticidade, apesar de rodado quase sempre em estúdio, nos EUA, e a construção de personagens e de situações, deliciosa. Há um gag, um entre muitos possíveis de citar, memorável. O dono do café, sempre que há uma troca de argumentos mais violenta, vai buscar o sifão para reanimar o cliente entorpecido, lançando-lhe um jacto de água à distância. A prática torna-se de tal forma vulgar que às tantas já são os clientes a servirem-se do sifão. De resto, a engenhosa troca de Nestor por Lord X, com recurso a um elevador monta-cargas é igualmente deliciosa. Uma grande comédia que permite aos actores trabalhos condizentes. Jack Lemmon é, como sempre, brilhante, ele que foi um fiel colaborador de Wilder, e Shirley MacLaine mostra-se num dos grandes papéis da sua carreira. Aqui merecedor de mais uma nomeação para o Oscar de Melhor Actriz. Uma notável comédia de um mestre.

IRMA LA DOUCE
Título original: Irma la Douce
Realização: Billy Wilder (EUA; 1963); Argumento: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, segundo peça de teatro de Alexandre Breffort; Produção: Edward L. Alperson, I.A.L. Diamond, Doane Harrison, Billy Wilder, Alexandre Trauner; Música: André Previn; Fotografia (cor): Joseph LaShelle; Montagem: Daniel Mandell; Casting: Lynn Stalmaster; Direcção artística: Alexandre Trauner; Decoração: Maurice Barnathan, Edward G. Boyle; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Emile LaVigne, George Masters, Alice Monte, Harry Ray, Frank Westmore; Direcção de Produção: Allen K. Wood; Assistentes de realização: Hal W. Polaire, Christian Ferry; Departamento de arte: Frank Agnone, Arden Cripe, Hub Braden, Harold Michelson; Som: Gilbert D. Marchant, Robert Marti; Efeitos especiais: Milt Rice; Companhias de produção: The Mirisch Corporation, Phalanx Productions; Intérpretes: Jack Lemmon (Nestor Patou / Lord X), Shirley MacLaine (Irma La Douce), Lou Jacobi (Moustache), Bruce Yarnell (Hippolyte), Herschel Bernardi (Insp. Lefevre), Hope Holiday (Lolita), Joan Shawlee (Amazon Annie), Grace Lee Whitney (Kiki, a cossaca), Paul Dubov (Andre), Howard McNear, Cliff Osmond, Diki Lerner, Herb Jones, Ruth Earl, Jane Earl, Tura Satana, Lou Krugman, James Brown, Bill Bixby, John Alvin, Susan Woods, Harriette Young, Sheryl Deauville, Billy Beck, Jack Sahakian, Edgar Barrier, James Caan (soldao com rádio), Don Diamond, Paul Frees, Joe Gray, Louis Jourdan (Narrador), Ralph Moratz, Moustache, Doye O'Dell, Joe Palma, Richard Peel, etc. Duração: 147 minutos; Distribuição em Portugal: MGM (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Junho de 1974.


SHIRLEY MACLAINE (1934 - ?)
Shirley MacLaine, cujo nome de baptismo é Shirley MacLean Beaty, nasceu a 24 de Abril de 1934, em Richmond, Virginia, EUA. Filha de Ira Owens Beaty, um músico de origem irlandesa, e de Kathlyn Corinne MacLean, bailarina canadiana; irmã do actor e realizador Warren Beatty; casada, desde 1954 até 1982, com o realizador e produtor Steve Parker, Shirley iniciou-se como aluna de bailado na Washington School of Ballet. Diplomada, passou a viver em Nova Iorque, onde começa a aparecer em musicais da Broadway, como no sucesso de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, "Me and Juliet" e, seguidamente, em "The Pajama Game", sendo posteriormente convidada pelo produtor Hal B. Wallis para viajar até Hollywood, onde se estreia em “O Terceiro Tiro”, de Alfred Hitchcock (1955). Surge noutros filmes, como na superprodução “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” (1956), ou no excelente “Deus Sabe Quanto Amei”, de Minnelli (1958), onde recebe a primeira nomeação para o Oscar de Melhor Actriz. Em 1960, volta a ser nomeada por “O Apartamento”, e pouco depois, terceira nomeação por “Irma la Douce” (1963). In 1969, dirigida pelo amigo Bob Fosse, interpreta um musical, “Sweet Charity - A Rapariga que Queria Ser Amada”. Estreia-se como realizadora em 1975, com um documentário, rodado na China, “ The Other Half of the Sky: A China Memoir”, que é nomeado para o Oscar da categoria. Como actriz, nova nomeação em 1977, com “A Grande Decisão”. Finalmente ganha o Oscar de Melhor Actriz com “Laços de Ternura” (1983), e arrebata o Festival de Veneza com “Madame Sousatzka, a Professora” (1988). Depois de muitos outros sucessos, regressa à realização em 1998, com uma ficção, “Bruno” (2000). Entretanto, apareceu em diversas séries de televisão e telefilmes. Em 2015 tem em pré-produção alguns trabalhos. Shirley conta com uma Estrela no Hall of Fame, de Hollywood, em 1615 Vine Street.


Filmografia:
Como Actriz / Cinema: 1955: The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro), de Alfred Hitchcock; Artists and Models (Pintores e Raparigas), de Frank Tashlin; 1956: Around the World in Eighty Days (A Volta ao Mundo em 80 Dias), de Michael Anderson; 1958: The Sheepman (O Irresistível Forasteiro), de George Marshall; The Matchmaker (Viva o Casamento), de Joseph Anthony; Hot Spell (Feitiço Ardente), de Daniel Mann; Some Came Running (Deus Sabe Quanto Amei), de Vincente Minnelli; 1959: Ask Any Girl (O Que Elas Querem é Casar), de Charles Walters; Career (Os Caminhos da Ambição), de Joseph Anthony; 1960: Can-Can (Can-Can), de Walter Lang; The Apartment (O Apartamento), de Billy Wilder; Ocean's Eleven (Os Onze de Oceano), de Lewis Milestone; 1961: All in a Night's Work (A História daquela Noite), de Joseph Anthony; Two Loves (Dois Amores), de Charles Walters; The Children's Hour (A Infame Mentira), de William Wyler; 1962: My Geisha (A Minha Gueixa), de Jack Cardiff; Two for the Seesaw (Baloiço Para Dois), de Robert Wise; 1963: Irma la douce (Irma la Douce), de Billy Wilder; 1964: What a Way to Go ! (Ela e os Seus Maridos), de J. Lee Thompson; The Yellow Rolls-Royce (O Rolls-Royce Amarelo), de Anthony Asquith; 1965: John Goldfarb, Please Come Home (Um Americano no Harém), de J. Lee Thompson; 1966: Gambit (Ladrão Roubado), de Ronald Neame; 1967: Woman Times Seven (Sete Vezes Mulher), de Vittorio de Sica; 1968: The Bliss of Mrs. Blossom (A Felicidade da Senhora Blossom), de Joseph McGrath; 1969: Sweet Charity (Sweet Charity - A Rapariga que Queria Ser Amada), de Bob Fosse; 1970: Two Mules for Sister Sara (Os Abutres Têm Fome), de Don Siegel; 1971: Desperate Characters (Um Casal Desesperado), de Frank D. Gilroy; 1972: The Possession of Joel Delaney (A Obsessão de Joel Delaney), de Waris Hussein; 1977: The Turning Point (A Grande Decisão), de Herbert Ross; 1979: Being There (Bem-Vindo Mr. Chance), de Hal Ashby; 1980: Loving Couples (Amigos e Amantes), de Jack Smight; A Change of Seasons (A Aluna e o Professor), de Richard Lang; 1983: Terms of Endearment (Laços de Ternura), de James L. Brooks; 1984: Cannonball Run II (A Corrida Mais Louca do Mundo II), de Hal Needham; 1988: Madame Sousatzka (Madame Sousatzka, a Professora), de John Schlesinger; 1989: Steel Magnolias (Flores de Aço), de Herbert Ross; 1990: Waiting for the Light, de Christopher Monger; Postcards from the Edge (Recordações de Hollywood), de Mike Nichols; 1992: Used People (Um Certo Outono), de Beeban Kidron; 1993: Wrestling Ernest Hemingway), de Randa Haines; 1994: Guarding Tess (O Agente Secreto), de Hugh Wilson; 1996: Mrs. Winterbourne (O Comboio do Destino), de Richard Benjamin; The Evening Star (Lágrimas ao Entardecer), de Robert Harling; 1997: A Smile Like Yours (Bebé por Encomenda), de Keith Samples; 2000: Bruno, de Shirley MacLaine; 2003: Carolina, de Marleen Gorris; 2005: Bewitched (Casei com uma Feiticeira), de Nora Ephron; In Her Shoes (Na Sua Pele), de Curtis Hanson; Rumor Has It (Dizem por Aí...), de Rob Reiner; 2007: Closing the Ring (O Elo do Amor), de Richard Attenborough; 2010: Valentine's Day (Dia dos Namorados), de Garry Marshall; 2011: Anyone's Son (Morre... e Deixa-me em Paz), de Danny Aiello; 2012: Bernie, de Richard Linklater; 2013: Mother Goose!; Elsa & Fred, de Michael Radford; The Locals; The Secret Life of Walter Mitty (A Vida Secreta de Walter Mitty), de Ben Stiller; 2015: Wild Oats, de Andy Tennant; Men of Granite, de Dwayne Johnson-Cochran (pré-produção); Jim Button, de Dennis Gansel (anunciado). 

Televisão: 1955: Shower of Stars (série de TV); 1958: The Sid Caesar Show (série de TV); 1971-1972: Shirley's World, de Ray Austin (série de TV); 1995: The West Side Waltz (A Valsa da Vida), de Ernest Thompson (telefilme); 1998: Stories from My Childhood (série de TV); 1999: Joan of Arc (Joana de Arc - A Donzela da Lorena), de Christian Duguay (telefilme); 2001: These Old Broads, de Matthew Diamond (telefilme); 2002: Hell on Heels: The Battle of Mary Kay, de Ed Gernon (telefilme); 2002: Salem Witch Trials, de Joseph Sargent (telefilme); 2008: Coco Chanel, de Christian Duguay (telefilme); 2008: Anne of Green Gables: A New Beginning, de Kevin Sullivan (telefilme); 2012-2013: Downton Abbey, de Julian Fellowes (série de TV); 2014: Glee (série de TV).
Como realizadora: 1975: The Other Half of the Sky: A China Memoir (documentário); 2000: Bruno.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

DIA 8 DE JULHO DE 2015





O PECADO MORA AO LADO (1955)

“The Seven Year Itch” tem argumento de Billy Wilder e George Axelrod, partindo de uma peça de George Axelrod, que se baseia num tema muito trabalhado no campo do espectáculo, sobretudo na comédia: a crise dos sete anos num matrimónio. Segundo consta das estatísticas dos psicólogos, as relações no interior de um casamento sofrem períodos de forte quebra de estabilidade, a cada série de sete anos. Chamam-lhe os americanos qualquer coisa como “o desejo intenso dos sete anos”, desejo de novidade, de transgressão. Com esta base, Billy Wilder constrói uma comédia deliciosamente perversa, como só ele sabe fazer.
Abre com um prólogo “histórico” no qual se recordam os costumes que existiam na ilha de Manhattan quando, há 500 anos, esta era habitada por índios que tinham o costume de mandar as mulheres para locais mais frescos, quando o calor ali apertava a partir do início do verão. Elas iam, nem todas, claro, e eles ficavam a trabalhar, isto é, caçar, lançar armadilhas, pescar. Tudo ideias que podem conter um duplo sentido, e que, neste caso, tinham. 500 anos depois, numa estação de caminhos de ferro, os hábitos mantêm-se.
Richard Sherman (Tom Ewell) trabalha numa editora de livros de bolso, onde tem de tornar “atractivos” os clássicos. Colocando, por exemplo, grandes decotes nas capas das “Mulherzinhas”. Para lá disso, está casado há sete anos, com Helen (Evelyn Keyes). Nesse verão tórrido, ela parte para férias com o filho, Ricky, e deixa o marido só, na grande metrópole, entregue ao trabalho (e à tão falada crise dos sete anos). Para cúmulo, quando chega a casa Richard descobre que o andar de cima foi subalugado a um modelo de televisão, que no filme será conhecida apenas por “The Girl”, mas que todos reconhecem ser Marilyn Monroe num dos seus trabalhos míticos, aquele em que ela aparece com uma belíssima saia rodada sobre um dos ventiladores do metropolitano de Nova Iorque, flutuando a saia ao sabor da ventania e do desejo dos observadores (neste caso, o atarantado Richard, e nós, espectadores do filme). A cena foi filmada primeiramente num cruzamento da rua 54 com a Maddison Avenue, ao longo de várias horas, sempre com para cima de cinco mil mirones a rodear o exterior (entre os quais o então marido de Marilyn, Joe Di Maggio, que não suportava os ciúmes e com esta missão acrescentava mais achas à fogueira do próximo divórcio). Tornou-se impossível rodar a cena, que teve de ser repetida em interiores, no estúdio da Fox. Diz-se que todos as americanos esperavam ansiosamente este filme desde que as fotografias desta cena apareceram nos jornais, publicitando a obra. Philip Strassberg, crítico do “New Iork Daily Mirror”, terminava dizendo: “A paciência foi recompensada.”


Voltando ao filme, para agravar as coisas e pôr à prova a pouca resistência do patético Richard, a rapariga perde a chave da porta da rua, deixa cair uma planta (um tomateiro!) no terraço deste, procura desculpar-se, é convidada para um “drink” (diz que desce já, é “só ir buscar o vestido que está a refrescar no congelador”!), e vai ficando para aproveitar a frescura, agora do frigorífico do vizinho (que é sempre melhor que a nossa), desencadeando as mais loucas fantasias em Richard.
O que levanta uma questão muito curiosa: a peça de George Axelrod é um longo monólogo de Richard imaginando fantasias com uma inexistente rapariga, depois de rememorar várias cenas onde se sente o homem mais sexy do planeta que tenta afastar sempre as tentativas violentamente apaixonadas de algumas mulheres por si seduzidas (o que o leva a inventar mesmo uma réplica da célebre cena da praia de “Até à Eternidade”). No filme de Billy Wilder, porém, a presença de Marilyn Monroe é tão obsidiante que se torna o centro de atenção do filme, tornando Richard um espectador apenas. Truffaut vai mais longe e compara esta bela comédia de Billy Wilder a um documentário sobre Marilyn. Marilyn, o objecto do desejo.

O PECADO MORA AO LADO
Título original: The Seven Year Itch
Realização: Billy Wilder (EUA, 1955); Argumento: Billy Wilder & George Axelrod, segundo peça de George Axelrod ("The Seven Year Itch"); Produção: Charles K. Feldman, Doane Harrison, Billy Wilder; Música: Alfred Newman, Sergei Rachmaninov ("Second Piano Concerto"); Fotografia (cor): Milton R. Krasner; Montagem: Hugh S. Fowler; Direcção artística: George W. Davis, Lyle R. Wheeler; Decoração: Stuart A. Reiss, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Travilla; Maquilhagem: Ben Nye, Helen Turpin, Allan Snyder; Direcção de produção: A.F. Erickson, Saul Wurtzel; Assistentes de realização: Joseph E. Rickards; Som: Harry M. Leonard, E. Clayton Ward; Efeitos Especiais: Ray Kellogg; Genérico: Saul Bass; Companhias de produção: Charles K. Feldman Group, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Marilyn Monroe (a rapariga), Tom Ewell (Richard Sherman), Evelyn Keyes (Helen Sherman), Sonny Tufts (Tom MacKenzie), Robert Strauss (Mr. Kruhulik), Oskar Homolka (Dr. Brubaker), Marguerite Chapman (Miss Morris), Victor Moore, Roxanne (Dolores Rosedale), Donald MacBride, Carolyn Jones, Butch Bernard, Dorothy Ford, Kathleen Freeman, Ralph Littlefield, Doro Merande, Ron Nyman, Ralph Sanford, Mary Young, etc. ; Duração: 105 minutos; Distribuição em Portugal: Distribuição em Portugal: Fox Filmes.; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 6 de Fevereiro de 1956.


MARILYN MONROE (1926-1962)
Falar de Marilyn Monroe é tarefa quase impossível no que diz respeito à sua biografia. Se a sua morte está ainda hoje envolta num manto de opaca dúvida (seria suicídio ou assassinato?), tudo o mais se rege pelos mesmos princípios. Nada é certo na sua vida e quase apetece perguntar se Marilyn existiu realmente. Há os seus filmes, uma das poucas realidades palpáveis e definitivas, mas, quanto ao resto, cada biografia aponta num sentido, refuta as outras, acrescenta um ponto. Uma afirma que foi o marido da melhor amiga da mãe que a viola aos nove anos, outra que foi aos catorze um Zé-ninguém, o primeiro marido garante que casou com ela virgem. Mas há quem diga que tudo principiou aos seis anos. E que aos dois a tentaram matar, asfixiando-a com um travesseiro. Uns afirmam que o primeiro contrato com a Fox foi celebrado em Junho, um outro em Agosto, e há também quem garanta que foi em Setembro, coincidindo todos no ano, 1946, mas divergindo nas importâncias: um contrato que valia para uns 125 dólares, para outros 75… Há quem diga que foi o agente Hyde que a lançou, outros afiançam que ele nada teve a ver com o facto. Enfim, restam os filmes, as fotos, e a lenda. A lenda que por vezes é mais forte que a verdade, como dizia o director do jornal do filme de John Ford, “O Homem que Matou Liberty Valance”: “Quando a lenda é mais forte que a História, imprime-se a lenda!”
No controverso plano da biografia de Marilyn Monroe, a ideia não foi optar pela lenda, mas tentar tecer um conjunto de factos plausíveis, retirados de várias biografias manuseadas. A maioria delas não possui qualquer credibilidade. E mesmo as mais credíveis, assinadas por nomes como Norman Mailer ou Arthur Miller, são textos com muito de subjectivo e, nalguns casos, obviamente tendenciosos. Resta-nos tentar uma aproximação possível da vida de Marilyn, com todas as inexactidões e erros prováveis, e falar sobretudo do mais importante, o que permanece para lá da morte, a lenda, o mito, e os filmes.
De nome de baptismo chamava-se Norma Jean Mortensen, mas começou por ser conhecida por Norma Jean Baker. Nasceu a 1 de Junho de 1926, no Los Angeles General Hospital, em Los Angeles, Califórnia, EUA, e teve uma infância difícil. A mãe, Gladys Baker Monroe, chegou a trabalhar no cinema, como montadora de negativo, teve problemas psiquiátricos, esteve presa várias vezes e vivia permanentemente em condições de quase penúria extrema. Morreu num asilo psiquiátrico, com o diagnóstico de esquizofrénica-paranóica, e há quem diga que matara com uma facada, a melhor amiga, Grace McKee. A mesma cujo marido terá abusado sexualmente de Norma Jean, quando esta tinha apenas nove anos. As recordações de infância não poderiam, no entanto, ser mais dramáticas.
Já a avó materna fora internada num hospício depois de ter tentado sufocar a neta com um travesseiro. Do pai, Norma Jean pouco soube e nenhuma certeza teve. Há quem fale num tal Edward Mortensen, que garantem ter sido padeiro e que morrera vítima de um acidente de viação, antes de Marilyn nascer. Mas um outro biógrafo afirma que este mesmo Mortensen morreu aos 81 anos, em Riverside, de um ataque de coração. Há quem afirme, todavia, que o pai era um amigo desse Edward, colega da mãe na Consolidated Film Industries, e que se chamava Charles Stanley Gifford. Quando o tentou encontrar, ainda no início da sua carreira, este mandou dizer pelo telefone que se tinha alguma reclamação a apresentar se dirigisse ao seu advogado. Mais tarde, no auge da sua fama, Gifford tentou a aproximação, mas Norma Jean recordou-lhe então esta conversa.
Atendendo à instabilidade emocional da mãe, e ao facto de esta ser mãe solteira, Norma Jeane foi para casa de uma família adoptiva, a do muito religioso (fundamentalista!) casal Albert e Ida Bolender. Foi aqui que viveu os primeiros sete anos da sua vida: “Eram terrivelmente severos… não era por mal… era a sua religião. Educaram-me com muita severidade.” Mas à severidade de uns correspondia a depravação de outros. Em Outubro de 1933, com as finanças mais equilibradas, Gladys passa a viver por algum tempo com a filha Norma Jean. Em Setembro de 1935, com nove anos de idade, depois de ter sido (novamente?) violada (fala-se de um enigmático Mr. Kimmell, que poderia ter sido o actor inglês Murray Kinnell), foi para um orfanato, o Los Angeles Orphan’s Home, onde permaneceu até Junho de 1937, em condições, relatadas por ela, dignas de um romance de Dickens. Jura que teve de lavar quantidades enormes de louça e se banhava em água suja, apanhava surras com escovas de cabelo e vivia infeliz: “Nessa altura, o mundo à minha volta era deprimente. Tive de aprender a fingir para… não sei… afastar a tristeza. O mundo todo parecia que me estava fechado… (Sentia-me) de fora de tudo e a única coisa que eu podia fazer era sonhar uma espécie de mundo de faz-de-conta.”
Em Setembro de 1941, Norma Jean, depois de várias outras peripécias, estava a viver com Grace McKee que a encorajou a casar com o jovem Jim Dougherty, cinco anos mais velho do que ela. Casaram no dia 19 de Junho de 1942: “Grace McKee arranjou-me o casamento, eu não tive alternativa. Não há muito a dizer acerca disso. Eles não me podiam sustentar e tinham que arranjar qualquer coisa. E foi assim que me casei”. Compreende-se que, com apenas 16 anos, Norma Jean se case com Jimmy Dougherty, um jovem de 21 anos que conheceu quando trabalhava na Rádio Plane, em Van Nuys, Califórnia, uma fábrica de construção de aeronaves. O casamento funcionou como uma forma de libertação, um escape. De pouca duração. Dougherty alistou-se na Marinha em 1943 e, no ano seguinte, foi enviado para a frente da batalha. Ela ficou. Divorciaram-se em Junho (ou Setembro?) de 1946. Antes, em 1944, Marilyn foi fotografada na fábrica de material militar por David Conover um repórter fotográfico. O Exército encomendara as fotos com o intuito de divulgar o papel e a contribuição das mulheres durante a guerra. O fotógrafo, que havia sido enviado nessa missão pelo capitão Ronald Reagen, pediu permissão para fazer mais fotos e Marilyn dava início à sua carreira de modelo. Emmeline Snively, directora do “Blue Book Modeling Agency” ficou entusiasmada com o que viu e contratou-a como modelo. Cinco dólares por hora. A primeira capa foi a de “Family Circle”, aparecida a 26 de Abril de 1946. No ano seguinte, a beleza de Norma Jean tornou-se imensamente popular, sendo capa de 33 das revistas mais famosas. Entretanto, deixara o trabalho na fábrica e assume a tempo inteiro uma carreira de modelo. O seu fito é, no entanto, chegar ao cinema.


O sucesso como modelo fotográfico leva a 20th Century-Fox a contratá-la no dia 26 de Agosto de 1946 (admitamos como certa esta data!). Foi Howard Hughes quem a notou antes e lhe propôs uns testes. Zanuck, o patrão da Fox, não estava muito inclinado sequer para o teste, mas quando o viu ficou entusiasmado e Marilyn assina um contrato de 75 dólares por semana (admitamos como certa esta importância!). Billy Wilder, mais tarde, diria que Zanuck ficou particularmente tentado pelo “impacto sensual”, e acrescentou: “Há raparigas que têm uma pele que parece viver na fotografia. Temos a impressão de que as podemos tocar.” Norma Jean era uma delas. Pouco depois, e por sugestão da Fox (dizem que por sugestão de Bent Lyon), Norma Jean começou a assinar o nome Marilyn Monroe. Monroe vem da sua mãe e Marilyn da actriz Marilyn Miller. A primeira aparição de Marilyn foi numa pequena cena, em 1947, no filme "The Shocking Miss Pilgrim". Seguiu-se-lhe “Scudda Hoo! Scudda Hay!” onde a sua contribuição a nível de diálogo se resumia a um “Hi!”, ainda assim cortado na montagem definitiva. “Dangerous Years” mostra-a num grande plano, o que não foi suficiente para a Fox manter o contrato. Dispensada, foi para a Columbia, em cujo primeiro filme, “Ladies of the Chorus”, interpreta a personagem secundaríssima da “strip-teaseuse” Peggy Martin, que canta a famosa canção “Every Baby Needs a Da-Da-Daddy”. Mas também a Columbia não ficou entusiasmada com o concurso de Marilyn, e foi de novo dispensada, depois de algumas outras curtas aparições. Voltou a trabalhar como modelo, até que respondeu a um anúncio para um papel num filme que seria o último dos Irmãos Marx: “Love Happy”. Ela recorda o episódio: “Éramos três e Groucho pedia a cada uma para dar alguns passos à sua frente. Eu fui a única que ele pediu para recomeçar, segredando-me antes ao ouvido: “Tu tens o mais belo rabo da profissão!” Era um cumprimento, não uma grosseria.” Uma cena de minuto e meio, e foi tudo. Continuou a representar pequenos papéis, mas surge então (1949) uma personagem que irá ter algum significado na vida de Marilyn, Johnny Hyde, agente da William Morris Agency e rapidamente seu amante, que encontra numa recepção em Palm Springs e que se mostra entusiasmado com o futuro da prometedora actriz. Hyde está profundamente apaixonado por Marilyn, propõe-lhe casamento. Ela recusa, apesar da fortuna que poderia herdar rapidamente. Hyde estava gravemente doente do coração, explica-lhe que terá pouco tempo de vida, mas Marilyn confessa-lhe que “tem muita afeição por ele, que o acha um homem delicado, meigo, brilhante, um amigo querido, mas que não está apaixonada.” A família do defunto pede-lhe para não ir ao enterro. Mas ela vai. É ainda em 1949 que Marilyn aceita posar nua para um calendário, facto que mais tarde irá acarretar inúmeras críticas e contestação, quando a actriz era já uma vedeta, o que lhe valeu uma réplica célebre: “Hollywood é um lugar onde te pagam mil dólares por um beijo e cinquenta cêntimos pela tua alma.” Na verdade, a foto de Tom Kelley deu-lhe 50 dólares a ganhar e conseguiu um lucro de mais de 750.000.
Foi Johnny Hyde quem, em 1950, chamou a atenção do realizador John Huston para Marilyn. Ele viu uma das suas “aparições” no ecrã e resolve dar-lhe uma oportunidade de maior relevo em "Asphalt Jungle", depois de um teste lendário: Marilyn aparece com os peitos reforçados por “kleenexs” para causar melhor impressão, John Huston, ele próprio, alivia-a desses apêndices e diz-lhe para ela “passar o texto”. Marilyn pede para se deitar no chão, pois a cena seria passada numa cama, e não se cansa de repetir a “deixa”. Será Huston a mandá-la calar, dizendo “Basta, o papel é teu. Aparece segunda-feira no estúdio às nove horas.” Será a “sobrinha” de Louis Calhern, um advogado corrupto num grupo de “gansgters”, que ela atraiçoa, neste “filme negro” que se tornou um clássico do género.
Esta obra abre-lhe as portas para novas oportunidades, cada vez mais influentes. O seu desempenho em "All About Eve", também em 1950, gerou alguma notoriedade, e ficou a dever-se ao facto de Joseph L. Mankiewicz a ter visto em “Quando a Cidade Dorme”. Nesta obra-prima que aborda o universo do cinema, Marilyn é uma jovem estudante de arte dramática e aparece ao lado de nomes consagrados como os de Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Gary Merrill ou Celeste Holm. Quem a viu nos primeiros dias de filmagens percebeu o terror em que a mesma vivia. Chegava com horas de atraso ao estúdio, não conseguia fixar uma linha de texto, obrigava cada plano a ser filmado para cima de vinte vezes. Seria o início de um longo calvário (que se iria prolongar nos mesmos termos até ao fim da sua carreira) para os realizadores, produtores e colegas actores que consigo contracenavam, mas seria igualmente um pesadelo para a própria Marilyn, vítima da insegurança e da fragilidade psicológica de uma Norma Jean nunca amada, nunca desejada como pessoa, apenas cobiçada como corpo erótico para satisfação de sonhos de homens (e mulheres) que viam nela apenas um objecto sexual facilmente descartável depois de utilizado.


Toda a vida de Marilyn parece evoluir entre duas realidades psicológicas contraditórias: por um lado a necessidade de ser desejada a todo o preço, de se sentir cortejada, adulada, nem que para tal se tenha de converter num mero “sex symbol” de uma geração (ou de várias); por outro lado a imperiosa exigência de romper com esse estatuto de mulher-brinquedo, loura e desmiolada, apenas desejada pelo seu busto, o seu andar, a generosidade da sua sensualidade explosiva. Neste caso, Marilyn pretendia acima de tudo ser olhada como mulher, como actriz, como alguém que pensa e sente, que lê bons livros e é capaz de ser amada por um dos mais prestigiados escritores norte-americanos do seu tempo (Arthur Miller, vítima de perseguições durante o “machartismo”, e a quem Marilyn soube apoiar nos momentos de crise), ou pelos presidenciáveis Kennedys. Esta duplicidade de desejo nunca resolvida, este esboço de esquizofrenia latente, ficou marcada no seu corpo pelas mãos dos mais importantes homens da América, desde presidentes a escritores, de produtores a cantores, de actores a realizadores, de agentes a multimilionários.
Marilyn queria ser a um tempo “maravilhosa” e/ou “apenas uma mulher” e uma “boa actriz”. O espantoso, porém, e talvez seja essa a razão maior da criação de um mito que nada irá apagar nunca, é a permanência de uma inocência inatacável no seu olhar, a fragilidade doce e etéreo de um corpo que todos desejam e ninguém parece macular. Para lá de todas as feridas que os anos vão acumulando, a sua pele continua “a apetecer ser tocada”, tal como uma deusa misteriosa de desígnios insondáveis. O mito nasce.
"Clash By Night", de Fritz Lang, em 1952, merece igualmente boas referências da crítica. Marilyn conhece Joe DiMaggio no início de 1952, ela tem 25 anos, ele 37. DiMaggio tinha-se retirado do basebol norte-americano, concluindo uma carreira de astro. Há tempos que manifestara o desejo de conhecer a sua actriz preferida e em Fevereiro desse ano o romance explode nas páginas das revistas. “Fiquei surpreendida por me apaixonar de tal maneira por Joe, disse Marilyn. Esperava que ele fosse do género do desportista flamejante de Nova Iorque, e em vez disso deparei com um tipo reservado que não se atirou a mim logo imediatamente. Joe é um homem muito decente que faz as outras pessoas sentirem-se decentes também.” 1952 marca ainda pontos na carreira cinematográfica de Marilyn, que filma "Niagara", de Henry Hathaway, com Joseph Cotten, uma obra que ajuda a consolidar o seu estatuto de vedeta. "Gentlemen Prefer Blondes", de Howard Hawks, é o título seguinte, que a reúne a Jane Russell. Ambas irão assinar e deixar as marcas de mãos e pés no cimento que fica no passeio frente ao Chinese Theatre, em Hollywood Boulevard. Este tinha sido o local que Marilyn havia visitado quando criança, acompanhada pela mãe e pela amiga Grace. Tinha sido ali que havia jurado a si própria: “Quero ser uma grande estrela para lá de tudo o resto!" Conseguira-o. Em 14 de Janeiro de 1954, Marilyn casa-se pela segunda vez, desta feita com Joe DiMaggio. Apenas nove meses depois, a 27 de Outubro de 1954, divorciaram-se. O advogado de Marilyn explicou, em conferência de imprensa, que o motivo da separação foi “um conflito entre de carreiras”. Ou apenas mais um equivoco.
A celebridade da actriz é total e isso mesmo fica demonstrado na visita que Marilyn Monroe faz às tropas americanas deslocadas na Coreia. São 60.000 mil militares em estado de completa euforia que a recebem em apoteose. Após participar em vários filmes como apenas mais um belo rosto de Hollywood, Marilyn Monroe estava pronta para transformar a sua imagem através de uma séria actuação profissional. Queria deixar os papéis de tontinha e interpretar Dostoievski. Em 1956, Marilyn parte para Nova Iorque e dá início aos seus estudos sob a direcção de Lee Strasberg, no Actors Studio, uma casa que formara Marlon Brando, James Dean ou Paul Newman, entre tantos outros. Nesse mesmo ano, junto com o fotógrafo Milton Greene, Marilyn lançou a “Marilyn Monroe Productions”, uma produtora que irá intervir na concretização de alguns projectos futuros, como "Bus Stop", de Joshua Logan, (1956) e "The Prince and the Showgirl", de Laurence Olivier (1957). Em ambos os filmes ficam documentados os progressos da actriz em importantes papéis que exigem mais do que um rosto bonito e um corpo escultural. Em Londres, com Laurence Olivier como actor e realizador, Marilyn protagoniza um dos episódios mais desequilibrados da sua carreira, chegando sempre ao estúdio fora de horas e provocando a ira de Olivier. Tudo indica que será a partir desta época que a sua instabilidade psicológica se agrava.No dia 29 de Junho de 1956, depois de vários casos sentimentais, amplamente testemunhados pela imprensa de coração de todo o mundo, Marilyn Monroe casa com o dramaturgo Arthur Miller.
Entretanto, Billy Wilder, outro dos grandes cineastas norte-americanos, ainda que de origem europeia (austríaco), o que lhe confere um tipo de humor diferente, mais adulto e cínico, dirige Marilyn em duas das suas melhores comédias, “The Seven Year Itch” (1955) e, sobretudo, “Some Like it Hot” (1959). Em 1960, outro mestre americano, George Cukor realiza “Let’s Make Love”, onde Marilyn contracena com Yves Montand e nova situação explosiva se insinua durante a rodagem. A proximidade de Montand e Monroe não deixa ninguém indiferente, a começar pelos próprios. Durante as filmagens, Arthur Miller parte subitamente para o Nevada, deixando o par de actores entregue ao seu romance. Explosivo. Yves Montand, acabado o filme, regressa a Paris e à sua mulher, a actriz Simone Signoret. Marilyn sofre novo abalo.
O filme "The Misfits", último trabalho terminado da actriz, é escrito propositadamente por Miller para Marilyn, colocando-a ao lado de Clark Gable, que desde a infância, era o seu actor preferido e o homem que ela gostaria de ter tido como pai, ou algo mais. Tudo indica que Marilyn teria um problema edipiano mal resolvido, e toda a sua vida emocional e sexual parece ser uma longa procura do pai que nunca teve. Não será necessário ser um psiquiatra muito atento para inferir desta vida consumida em excessos uma conclusão destas. Um conjunto invulgar de episódios trágicos marca “Os Inadaptados”, que mantinha constantemente em estúdio, durante as filmagens, médicos para acompanharem quer Marilyn Monroe quer Montgomery Clift. Em Agosto de 1960, Marilyn é hospitalizada e as filmagens suspensas. Retomadas pouco depois, são concluídas em 4 de Novembro. A 11 do mesmo mês anuncia-se a separação de Marilyn e Miller e, a 16, Clark Gable morre vítima de um ataque cardíaco. Marilyn é acusada por Kay Gable, mulher do actor, de ter sido a causa da sua morte. O casamento entre Miller e Marilyn teve fim com o divórcio de 20 de Janeiro de 1961. Em Fevereiro, Marilyn tenta suicidar-se atirando-se de uma janela, mas fracassa nos seus intentos, sendo internada novamente numa clínica psiquiátrica de Nova Iorque. A dependência de drogas e do álcool acentua-se dramaticamente.
Em 1962, Marilyn foi considerada a estrela mais popular do mundo ("World's Most Popular Star"), demostrando a sua fama e o reconhecimento internacional. No dia 5 de Agosto do mesmo ano, com apenas 36 anos de idade, Marilyn Monroe morreu enquanto dormia, na sua casa de Brentwood, Califórnia. Tinha o telefone a seu lado. Uma dose excessiva de barbitúricos foi a causa apontada na autópsia. Mas a sua morte continua envolta em mistério. Fala-se em assassinato. O seu romance com os Kennedys vem à baila. O envolvimento com John F. Kennedy iniciara-se em finais de 1961. Na gala da celebração do aniversário do Presidente, no Madison Square Garden, a 6 de Maio de 1962, Marilyn canta o famoso "Happy Birthday To Mr. Presidente.” Também Bobby Kennedy ficou ligado a Marilyn com a suspeita de um “affair” numa data já muito próxima da sua morte. Por tudo isto, há quem fale de um silenciamento para impedir a revelação de algo comprometedor para alguém envolvido emocional e sexualmente com a actriz. O seu corpo foi sepultado no Westwood Memorial Park, em Los Angeles, Corridor of Memories, 24. Deixou atrás de si trinta filmes, entre os quais um, inacabado, "Something's Got to Give". “Sei que pertenço ao público e ao mundo, não porque seja especialmente talentosa e bela, mas porque nunca pertenci a nada ou ninguém mais.”



Filmografia:

Como actriz: 1947: The Shocking Miss Pilgrim (Sua Alteza a Secretária), de George Seaton; Dangerous Years, de Arthur Pierson; 1948: Scudda Hoo! Scudda Hay! ou Summer Lightning (Encanto da Mocidade), de F. Hugh Herbert; Ladies of the Chorus, de Phil Karlson; 1950: Love Happy ou Kleptomaniacs (Loucos por Mulheres), de David Miller, Leo McCarey (não creditado); A Ticket to Tomahawk, de Richard Sale; The Asphalt Jungle (Quando a Cidade Dorme), de John Huston; All About Eve (Eva), de Joseph L. Mankiewicz; The Fireball ou The Challenge, de Tay Garnett; Right Cross (Por um Amor), de John Sturges; 1951: Home Town Story, de Arthur Pierson; As Young as You Feel (Tão Jovem Quanto Possível), de Harmon Jones (TV); Love Nest (Um Ninho de Amor), de Joseph M. Newman (TV); Let's Make It Legal (Reconciliação), de Richard Sale (TV); 1952: Clash by Night (Conflito Nocturno), de Fritz Lang; We're Not Married! (Não Estamos Casados), de Edmund Goulding; Don't Bother to Knock (Os Meus Lábios Queimam), de Roy Ward Baker; Monkey Business (A Culpa Foi do Macaco), de Howard Hawks; O. Henry's Full House (Páginas da Vida), de Henry Hathaway, Howard Hawks, Henry King, Jean Negulesco e Henry Koster (episódio "The Cop and the Anthem", com Marilyn Monroe); 1953: Niagara (Niagara), de Henry Hathaway; Gentlemen Prefer Blondes (Os Homens Preferem as Loiras), de Howard Hawks; How to Marry a Millionaire (Como se Conquista um Milionário), de Jean Negulesco; 1954: River of No Return (Rio sem Regresso), de Otto Preminger e Jean Negulesco (este não creditado); There's No Business Like Show Business (Parada de Estrelas), de Walter Lang; 1955: The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado), de Billy Wilder; 1956: Bus Stop (Paragem de Autocarros), de Joshua Logan; 1957: The Prince and the Showgirl (O Príncipe e a Corista), de Laurence Olivier; 1959: Some Like It Hot (Quanto Mais Quente, Melhor), de Billy Wilder; 1960: Let's Make Love ou The Millionaire (Vamo-nos Amar), de George Cukor; 1961: The Misfits (Os Inadaptados), de John Huston; 1962: Something's Got to Give, de George Cukor (inacabado). 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

12 DE MAIO DE 2015


PAGOS A DOBRAR (1944)

“Double Indemnity” pode traduzir-se por “dupla indemnização”, numa terminologia ligada a companhias de seguros. É o que se passa nesta obra retirada de um romance negro de James M. Cain (o mesmo de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, com o qual a intriga deste “Pagos a Dobrar” tem muitos pontos de contacto), adaptado a cinema por um outro grande autor do policial negro, Raymond Chandler, argumento que contém ainda uma boa garfada do próprio Billy Wilder. Tal como em “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, o que aqui está em causa é a intenção de uma mulher (uma verdadeira “femme fatal” com uma ambição desmedida) em matar o marido para ficar com o seguro, enrolando no esquema um empregado de uma agência de seguros que se deixa prender de amores pela megera de falinhas mansas.
Há uma história curiosa de rivalidade entre produtores acerca desse filme: em 1944, David O. Selznick estreou com grande sucesso “Desde Que Tu Partiste”, e a campanha publicitária falava de "'Since You Went Away' como “as quatro mais importantes palavras no cinema desde 'Gone With the Wind'!", que também tinha sido produzido por Selznick. Billy Wilder não gostou da graça (o seu filme era do mesmo ano de 1944) e resolveu contra-atacar: "'Double Indemnity' são “as duas mais importantes palavras no cinema desde 'Broken Blossoms'!", referindo-se desta feita à obra prima de 1919  de D.W. Griffith. Selznick também não achou graça ao remoque e interpôs uma acção em tribunal por considerar ilegal este tipo de contra-publicidade. Mas há mais: Alfred Hitchcock, que tinha contas a ajustar com Selznick, acrescentou: "The two most important words in movies today are 'Billy Wilder'!"


E sim, Billy Wilder é um dos nomes mais representativos do cinema norte-americano entre os anos 40 e os anos 70. São dele algumas das pérolas daquela cinematografia, ele que nasceu austríaco, em 1906, numa aldeia que hoje é polaca (Sucha), para no início da década de 30 emigrar para a América, onde concretiza quase toda a sua filmografia como realizador. Antes, porém, na Alemanha, já adquirira prestígio como argumentista, depois de ter passado pela carreira de jornalista. Billy Wilder deu ao cinema títulos como “The Lost Weekend”, “Sunset Boulevard”, “The Big Carnival”, “Stalag 17”, “Same Like it Hot”, “The Apartment”, “The Front Page”, entre muitos outros igualmente meritórios, mas em 1944 afirmava-se já como um génio ao dirigir “Double Indemnity”, que ele disse não ter realizado a pensar que era um “filme negro”, mas que se afirma como um dos seus mais lídimos representantes. Na verdade, “Pagos a Dobrar” tem todas as características deste género, quer pelas situações, personagens, móbil do crime, mas sobretudo pela ambiência sombria e malsã em que decorre a acção, que liberta alguns dos piores sintomas de uma sociedade doente, obcecada pelo dinheiro, viciada pela ganância, corrupta e inebriada pelo sucesso fácil. Tudo isto são características que se adaptam bem à personagem principal, Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), que engendra todo o plano para matar o marido, depois de este ter assinado um chorudo seguro de vida que lhe foi proposto ardilosamente por Walter Neff (Fred MacMurray), com quem a viperina Phyllis Dietrichson mantinha um caso, obviamente muito conveniente para os seus intentos. No meio deste lamaçal de más intenções que idealizam o crime perfeito e a avultada recompensa financeira, aparece um astuto director de serviços da seguradora, Barton Keyes (um fabuloso Edward G. Robinson), que instintivamente descobre que nem tudo o que parece é.
O filme é admiravelmente contado, com uma magnífica fotografia preto e branco de John F. Seitz, uma iluminação que sublinha a sordidez dos ambientes, e uma partitura musical de Miklós Rózsa, daquelas que ficaram para a história.


Como nota João Benard da Costa num texto sobre  filme, “Double Indemnity” implica três leituras. É o nome da encruzilhada em que o corpo do marido de Barbara Stanwyck foi encontrado; é a referencia ao prémio do seguro que caberá a Phyllis por tal acidente; é ainda a inscrição da relação condenada em que os dois cúmplices se envolvem”. Esta óbvia e intencional sobrecarga de significados oferece ao filme uma tensão forte e obsessiva. Neste ambiente “negro” quase todas as personagens agem em função de desprezíveis intenções, não só o casal que imagina e executa o crime, mas a filha de Phyllis, o namorado desta, e quase todos os circundantes. O ambiente é de tal maneira doentio que Barbara Stanwyck, convidada para interpretar o papel principal, depois de ler o argumento o recusou, por o achar demasiado ignóbil. Foi Billy Wilder quem a convenceu, em boa hora: “És um rato ou uma actriz?”, ao que ela respondeu “quero ser uma actriz”. “Então aceita o papel”, ela aceitou e triunfou em toda a linha. Na verdade, a actriz tinha o perfil indicado para este trabalho.  Barbara Stanwyck atravessou todos os géneros, do melodrama à comédia, do western ao policial, mas terá sido no “filme negro” que melhor se identificou com figuras de “femme fatal” fria e calculista, mas de certa complexidade. Em “Pagos a Dobrar”, quem nos diz que Phyllis não está verdadeiramente interessada em Walter Neff? Recebeu quatro nomeações para o Oscar de Melhor Actriz, e foi-lhe atribuído um Oscar de carreira, em 1982.
Parece que a génese do filme não terá sido muito pacífica a nível de argumentistas. James M. Cain, o romancista, que se terá baseado num acontecimento verídico, ocorrido em 1920, e de que foi protagonista Ruth Snyder, não terá ficado muito satisfeito com a versão, e Raymond Chandler, o argumentista, quase terá cortado relações com Wilder, finda a rodagem. Diga-se que Chandler tem neste filme a sua única aparição no cinema: uma pequena figuração de um homem a ler um livro, enquanto Fred MacMurray desce uma escada (aproximadamente aos 16 minutos de projecção).
Em 2007, o American Film Institute organizou um inquérito sobre “Greatest Movie of All Time” e “Pagos a Dobrar” ficou em 29º lugar. Foi nomeado para sete Oscars, não tendo ganho nenhum: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Melhor Actriz, Melhor Argumento, Melhor Fotografia a preto e branco, Melhor Música e Melhor Som.

PAGOS A DOBRAR
Título original: Double Indemnity
Realização: Billy Wilder (EUA, 1944); Argumento: Billy Wilder, Raymond Chandler, segundo romance de James M. Cain; Produção: Buddy G. DeSylva, Joseph Sistrom; Música: Miklós Rózsa; Fotografia (p/b):  John F. Seitz; Casting: Harvey Clermont; Direcção artística: Hans Dreier, Hal Pereira; Decoração: Bertram C. Granger; Guarda-roupa:  Edith Head; Maquilhagem: Wally Westmore, Hollis Barnes, Robert Ewing, Charles Gemora; Direcção de Produção: Al Trosin; Assistentes de realização: Charles C. Coleman, Bill Sheehan; Departamento de arte: Jack Colconda, Jim Cottrell, Paul Tranz; Som: Stanley Cooley, Walter Obers; Efeitos visuais: Farciot Edouart; Companhia de produção: Paramount Pictures; Intérpretes: Fred MacMurray (Walter Neff), Barbara Stanwyck (Phyllis Dietrichson), Edward G. Robinson (Barton Keyes), Porter Hall (Mr. Jackson), Jean Heather (Lola Dietrichson), Tom Powers (Mr. Dietrichson), Byron Barr (Nino Zachetti), Richard Gaines (Edward S. Norton, Jr.), Fortunio Bonanova (Sam Garlopis), John Philliber (Joe Peters), James Adamson, John Berry, Raymond Chandler (homem a ler um livro), Edmund Cobb, Kernan Cripps, Betty Farrington, Bess Flowers, Miriam Franklin, Harold Garrison, Eddie Hall, Teala Loring, George Magrill, Sam McDaniel, Billy Mitchell, Clarence Muse, Constance Purdy, Dick Rush, Floyd Shackelford, Oscar Smith, Douglas Spencer, etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Filmes Unimundos; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 24 de Agosto de 1945.
 

BARBARA STANWYCK (1907-1990)
Ruby Stevens, mais tarde conhecida por Barbara Stanwyck, nasceu a 16 de Julho de 1907, em Brooklyn, Nova Iorque, EUA, e viria a falecer a 20 de Janeiro de 1990, com 82 anos, em Santa Monica, Califórnia, EUA. Foi a mais nova de cinco irmãos, tendo ficado órfã de mãe aos dois anos, sendo depois abandonada pelo pai, que foi trabalhar para longe, precisamente para a região do canal do Panamá. Ruby foi criada por uma família amiga da família, e também por uma irmã mais velha, corista, com quem foi viajando e aprendendo o gosto pelo espectáculo. Ainda passou por uma família judaica, os Harold Cohens, de Flatbush, mas voltou a sentir-se rejeitada. Começou a trabalhar numa loja de Brooklyn, posteriormente na Companhia Telefónica de Nova York, dividindo o apartamento com uma amiga, Maude Groodie, actriz de Vaudeville. Aos 15 anos era corista, contratada por Billy Crisp e Earl Lindsay. Em 1926, passou a trabalhar para o produtor Willard Mack, tendo participado em “The Noose” (197 representações no Teatro Hudson), altura em que mudou o nome para Barbara Stanwyck, por sugestão de Willard, que olhou pra um cartaz onde se lia "Jane Stanwick in 'Barbara Frietchie” e juntou o nome da peça (“Barbara Fritchie”), ao da actriz que a interpretava (Jane Stanwick), alterando depois para Stanwyck. Assim surgiu Barbara Stanwyck. Em 1927, foi para Hollywood e estreou-se em “Broadway Nights”, mas o sucesso só viria quando começou a trabalhar com Frank Capra em “Ladies of Leisure” (1930). Rapidamente alcançaria o estatuto de vedeta, através de uma carreira carregada de triunfos em filmes dos mais variados géneros, sendo que o seu talento transparecia em todos eles, do melodrama, como “O Seu Grande Amor” (1932) ou “O Pecado das Mães” (1937), ao filme negro, em obras como “Pagos a Dobrar” (1944), um dos seus melhores filmes, da comédia, “Lembra-te Daquela Noite” (1940) ou “As Três Noites de Eva” (1941) ao western, onde nos deu trabalhos inesquecíveis como “Aliança de Aço” (1939), culminando na televisão, em séries como “The Big Valley” (1965), um dos seus desempenhos memoráveis, ou “Pássaros Feridos” (1983).

Quatro nomeações para Melhor Actriz, em “Stella Dallas” (1937), “Ball of Fire” (1941), “Double Indemnity” (1944) e “Sorry, Wrong Number” (1948). Em 1982, recebe um Oscar honorário, consagrando toda uma carreira. Nos Globos de Ouro, recebeu em 1986 o Cecil B. DeMille Award, de carreira, além de uma estatueta para Melhor Actriz Secundária de televisão em 1984, por “The Thorn Birds”, tendo ainda sido nomeada por mais três ocasiões, 1966, 1967 e 1968, por “The Big Valley”. De resto, acumulou prémios e nomeações ao longo de toda a sua carreira. Casada com Frank Fay (1928 - 1935) e Robert Taylor (1939 - 1952). Jurou nunca mais se casar. Cumpriu. Barbara Stanwyck faleceu de insuficiência cardíaca, aos 82 anos, no St. John's Hospital, tendo o corpo da actriz sido cremado, e suas cinzas espalhadas em Lone Pine, na Califórnia.
Os colegas de profissão elogiavam a sua maneira de ser, o carinho com que tratava os mais novos. Tinha muitos amigos entre os actores e realizadores (alguns: Julie London, John Forsythe, Jane Wyman, Loretta Young, Jean Arthur, Bette Davis, Frank Capra, Fred MacMurray, Lucille Ball, Bob Hope, Frank Sinatra, Tony Martin, Richard Basehart, Aaron Spelling, Robert Fuller, John McIntire, Denny Miller, Bruce Dern, Leif Erickson, Gavin MacLeod, Pernell Roberts, Jeanne Cooper, Richard Anderson, L.Q. Jones, Barry Sullivan, William Conrad, Joan Crawford, Bill Quinn, Harold Gould, James Whitmore). Era republicana, conservadora e membro da “The Motion Picture Alliance for the Preservation of American Ideals”, uma associação política que apoiava a acção do senador McCarthy durante o sinistro período da “caça às bruxas” em Hollywood. Outros membros conhecidos eram Ginger Rogers, Clark Gable, Gary Cooper, John Wayne ou Irene Dunne. No inquérito do American Film Institute sobre "100 Years of The Greatest Screen Legends", surge em11º lugar. O mesmo instituto organizou outro inquérito, sobre "100 Greatest Screen Heroes and Villains", onde aparece em 8º lugar. Ficou colocada em 40º lugar na votação da revista Entertainment Weekly dedicada à "Greatest Movie Star of All Time". A sua estrela no Hollywood Walk of Fame está localizada no nº 1751 de Vine St.

Filmografia

Como actriz: 1927: Broadway Nights ("Noites da Broadway") de Joseph C. Boyle; 1929: The Locked Door, de George Fitzmaurice; Mexicali Rose, de Sam Hardy; 1930: Ladies of Leisure, de Frank Capra; 1931: Illicit, de Archie Mayo; Ten Cents a Dance, de Lionel Barrymore; Night Nurse, de William A. Wellman; The Miracle Woman, de Frank Capra; The Stolen Jools (curta-metragem); 1932: Forbidden (O seu Grande Amor), de Frank Capra; Shopworn, de Nicholas Grinde; So Big!, de William A. Wellman; The Purchase Price, de William A. Wellman; 1933: The Bitter Tea of General Yen (A Grande Muralha), de Frank Capra; Ladies They Talk About, de  Howard Bretherton; Baby Face (A Mulher que nos Perde), de Alfred E. Green; Ever in My Heart, de Archie Mayo; 1934: Gambling Lady, de Archie Mayo; A Lost Lady, de Alfred E. Green; The Secret Bride, de William Dieterle; 1935: The Woman in Red, de Robert Florey; Red Salute, de Sidney Lansfield; Annie Oakley, de George Stevens; 1936: A Message to Garcia, de George Marshall; The Bride Walks Out (Uma Noiva em Férias), de Leigh Jason; His Brother's Wife (Febres Tropicais), de W.S. Van Dyke; Banjo on My Knee (A Canção do Rio), de John Cromwell; The Plough and the Star (A Primeira Batalha), de John Ford; 1937: Internes Can't Take Money, de Alfred Santell; This Is My Affair (Ordens Secretas), de William A. Seiter; Stella Dallas (O Pecado das Mães), de King Vidor; Breakfast for Two (Almoço para Dois), de Alfred Santell; 1938: Always Forever (Mãe Solteira), de Sidney Lansfield; The Mad Miss Manton (Oito Raparigas e Um Crime), de Leigh Jason; 1939: Union Pacific (Aliança de Aço), de Cecil B. DeMille; Golden Boy (Paixão Mais Forte), de Rouben Mamoulian; 1940: Remember the Night (Lembra-te Daquela Noite), de Mitchell Leisen; 1941: The Lady Eve (As Três Noites de Eva), de Preston Sturges; Meet John Doe (Um João Ninguém), de Frank Capra; You Belong to Me (Pertences-me), de Wesley Ruggles; Ball of Fire (Bola de Fogo), de Howard Hawks; 1942: The Great Man's Lady (A Mulher do Grande Senhor), de William A. Wellman; The Gay Sisters (As Três Herdeiras), de Irving Rapper; 1943: Lady of Burlesque (Noite Fantástica), de William A. Wellman; Flesh and Fantasy (Os Mistérios da Vida), de Julien Duvivier; 1944: Double Indemnity (Pagos a Dobrar), de Billy Wilder; Hollywood Canteen (Sonho em Hollywood), de Delmer Daves; 1945: Christmas in Connecticut (Indiscrição), de Peter Godfrey; Hollywood Victory Caravan (curta-metragem); 1946: My Reputation ( A Minha Reputação), de Curtis Bernhardt; The Bride Wore Boots, de  Irving Pichel; The Strange Love of Martha Ivers (O Estranho Amor de Martha Ivers), de Lewis Milestone; California (Califórnia), de John Farrow; 1947: The Two Mrs. Carrolls (Inspiração Trágica), de Peter Godfrey; The Other Love (A Orquídea Branca), de Andre de Toth; Cry Wolf' (A Mansão da Loucura), de Peter Godfrey; Variety Girl (Parada de Estrelas), de George Marshall; 1948: B. F.'s Daughter (A Rebelde), de Robert Z. Leonard; Sorry, Wrong Number (Três Minutos de Vida), de Anatole Litvak; 1949: The Lady Gambles (A Tentação do Jogo), de Michael Gordon; East Side, West Side (Mundos Opostos), de Mervyn LeRoy; The File on Thelma Jordon (Duas Confissões), de Robert Siodmak; 1950: No Man of Her Own (Nenhum Homem Era Dela), de Mitchell Leisen; The Furies (Almas em Fúria), de Anthony Mann; To Please a Lady (Medo de Amar), de Clarence Brown; 1951: The Man with a Cloak (O Homem das Sombras), de Fletcher Markle; 1952: Clash by Night (Desengano), de Fritz Lang; 1953: Jeopardy (Vida Contra Vida), de John Sturges; Titanic (A Tragédia do Titanic), de Jean Negulesco; All I Desire (Desejo de Mulher), de Douglas Sirk; The Moonlighter, de Roy Rowland; Blowing Wild (Vento Selvagem), de Hugo Fregonese; 1954: Witness to Murder (A Testemunha do Crime), de Roy Rowland; Executive Suite (Um Homem e Dez Destinos), de Robert Wise; Cattle Queen of Montana (A Rainha da Montanha), de Allan Dwan; 1955: The Violent Men (Homens Violentos), de Rudolph Maté; Escape to Burma (Os Rubis do Príncipe Birmano), de Alan Dwan; 1956: There's Always Tomorrow (A Vida Não Pára), de Douglas Sirk; The Maverick Queen (A Rainha do Mal), de Joseph Kane; These Wilder Years, de Roy Rowland; The Ford Television Theatre (TV) - episódio Sudden Silence; 1957: Crime of Passion (Da Ambição ao Crime), de Gerd Oswald; Trooper Hook, de Charles Marquis Warren; Forty Guns (Quarenta Cavaleiros), de Samuel Fuller; 1958: Alcoa Theatre (TV); Goodyear Theatre (TV); 1958-1959: Zane Grey Theater (TV); 1959: The Real McCoys (TV)  The McCoys Visit Hollywood; 1960-61: The Barbara Stanwyck Show (TV); 1961: General Electric Theater (TV); The Joey Bishop Show (TV); 1961-1964: Wagon Train (TV); 1962 - Walk on the Wild Side (Restos de Um Pecado), de Edward Dmytryk; Rawhide (TV); The Dick Powell Show (TV); 1962-1963: The Untouchables (TV); 1963: The Molly Kinkaid Story, de Virgil W. Vogel, episódio da série Wagon Trail (TV); The World’s Greatest Showman: a Legend of Cecil B. DeMille, de Boris Segal (TV) (Documentário);  1964: Roustabout (Romance no Luna Parque), de John Rich; The Night Walker (Passos na Noite), de William Castle; The Kate Crowley Story (TV) episódio de Wagon Trail; Calhoun: County Agent (TV);  1965-1969: The Big Valley (TV); 1970: The House That Would Not Die, de John Llowellyn Moxey (TV); 1971: A Taste of Evil, de J. L. Moxley (TV); 1973: The Parkingtons: Dear Penelope (TV) episódio de The Letters; 1980: Charlie's Angels (TV) The Male Angel Affair, de Ron Staloff; 1983: The Thorn Birds (Pássaros Feridos), de Daryl Duke (TV); 1985-86: Dynasty II – The Colbys (TV).