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quarta-feira, 8 de abril de 2015

19 DE MAIO DE 2015


MEIA LUZ (1944)

“Gaslight”, que George Cukor  dirigiu em 1944, numa produção norte-americana, é uma nova versão de um filme inglês de 1940, dirigido por Thorold Dickinson, baseado na peça teatral “Gas Light”, de Patrick Hamilton (1938), e interpretada por Anton Walbrook e Diana Wynyard nos principais papeis. A peça tinha sido um grande sucesso na Broadway, com o título “Angel Street”, e foi sob essa designação que ficou conhecido igualmente o filme nos EUA. Mesmo em Inglaterra, tivera um título alternativo, “A Strange Case of Murder”. Quem conhece a peça de origem e ambos os filmes afirma que a versão de 40 é mais fiel à obra teatral do que a de 44. Mas a história, no essencial, permanece a mesma. Vejamos a versão de 40: Alice Barlow (Marie Wright) é assassinada na sua casa por um desconhecido,  que vasculha a residência em busca de algo que se sabe depois serem umas valiosas pedras preciosas. O crime fica sem resolução durante anos e a casa abandonada. Até que um dia, a sobrinha de Alice, Bella (Diana Wynyard) regressa casada com Paul (Anton Walbrook) que lentamente a vai tentando enlouquecer, através de vários expedientes, mas sobretudo fazendo-lhe crer que está a perder a memória e o discernimento. Será um detective, B. G. Rough (Frank Pettingell), que começa a suspeitar de Paul e o liga ao crime de Alice Barlow. A referência a “Gas Light” advém do facto de Londres viver ainda numa época de candeeiros a gaz. Em casa de Bella, sempre que Paul sai à noite, com a explicação de que vai trabalhar num outro local, a luz da casa se atenuar, o que só pode ter uma explicação (que aqui se não dá, para não retirar suspense ao drama).
Em Inglaterra, peça e filme foram grandes sucessos. Na Broadway, o espectáculo também  correu muito bem, o que levou os responsáveis da MGM a pensarem numa nova versão, norte-americana, com um novo elenco. Compraram os direitos à produtora britânica e , no contrato, exigiam que as cópias e negativos da anterior versão fossem destruídos. Afortunadamente, houve responsáveis que ultrapassaram o contrato e conservaram o negativo.


A nova versão conta com Charles Boyer, Ingrid Bergman, e Joseph Cotten, nos protagonistas, e ainda com as presenças da veterana Dame May Whitty e da estreante (dezoito anos!) Angela Lansbury, ambas magnificas em papeis muito distintos. A adaptação esteve a cargo de     John Van Druten, Walter Reisch e John L. Balderston, sempre segundo a peça de Patrick Hamilton, e tudo seria perfeito, não fosse a presença de Charles Boyer, um verdeiro canastrão que não consegue fazer esquecer o talento da restante equipa, mas põe seriamente em causa a sanidade de quem o escolheu para o papel. Valha-nos Ingrid Bergman que compõe uma admirável personagem, conquistando com este trabalho o seu primeiro Oscar. O filme estaria nomeado ainda em 1945 para outros Oscars, como Melhor Filme, Melhor Actor (Charles Boyer, imagine-se!), Melhor Actriz Secundária (Angela Lansbury), Melhor Argumento Adaptado, Melhor Fotografia (a preto e banco) (Joseph Ruttenberg), e ainda Melhor Direcção Artística (a preto e branco) (Cedric Gibbons, William Ferrari, Edwin B. Willis e Paul Huldschinsky), esta última nomeação também se transformaria em Oscar. Mas deve dizer-se que à música de Bronisław Kaper não teria ficado mal uma nomeação.
Com um orçamento de 2.068.000 dólares e uma receita que mais do que duplicou o empate de capital (4. 613. 000 dólares), “Gaslight” foi um sucesso muito merecido, sendo mais um belíssimo trabalho de George Cukor como director de actrizes. Mas, em paralelo a este aspecto, um outro se agiganta: o papel da casa como elemento claustrofóbico, como prisão psicológica, teia de aranha armada por uma figura sinistra que lentamente vai fechando a sua vítima nessa armadilha imposta (e aceite sem grande rebeldia por quem nela cai). Estamos numa Inglaterra vitoriana, o papel da mulher é subalterno, a sua decisão quase nula, aceitando submeter-se às imposições do marido. “Gaslight” pertence a um curioso conjunto de obras desse período, que irão, de certa forma, contribuir para a definição do “filme negro”. O papel do homem é igualmente muito curioso, se compararmos vários títulos desses anos. Filmes de Alfred Hitchcock, “Rebecca” (1940), “Suspicion” (1941), “Shadow of a Doubt” (1943), a que se juntam este “Gaslight” e “Jane Eyre”, de Robert Stevenson (ambos de 1944), “Dragonwyck”, de Joseph L. Mankiewicz (1945), “Notorious”, outra vez de Hitch, e “The Spiral Staircase”, de Robert Siodmak (ambos de 1946), “The Two Mrs. Carrolls”, de Peter Godfrey (1947), ou “Sorry, Wrong Number”, de Anatole Litvak, e “Sleep, My Love”, de Douglas Sirk (ambos de 1948) são excelentes exemplos de um quase subgénero a que alguns críticos (entre eles Emanuel Levy) chamaram já “Don't Trust Your Husband” (não confies no teu marido), dado que quase todas estas obras mulheres ricas e poderosas se vêem atormentadas por maquiavélicas personagens masculinas, maridos, namorados, amantes, que as procuram espoliar para o que não hesitam em caminhar para o assassinato. 
Última curiosidade: “Gaslight” foi adaptado a radio novela, em 1946, no “Lux Radio Theater”, contando com a interpretação dos actores do filme, Charles Boyer e Ingrid Bergman, e, no ano seguinte, no “The Screen Guild Theater”, com Charles Boyer e Susan Hayward.

MEIA LUZ
Título original: Gaslight
Realização: George Cukor (EUA, 1944); Argumento: John Van Druten, Walter Reisch, John L. Balderston, segundo peça de teatro de Patrick Hamilton ("Angel Street"); Produção: Arthur Hornblow Jr.; Música: Bronislau Kaper; Fotografia (p/b): Joseph; Montagem: Ralph E. Winters; Direcção artística: Cedric Gibbons; Decoração: Edwin B. Willis; Guarda-roupa: Irene; Maquilhagem: Jack Dawn, Irma Kusely; Direcção de Produção: Eddie Woehler; Assistentes de realização: Jack Greenwood;  Departamento de arte: William Ferrari, Paul Huldschinsky; Som: Douglas Shearer, Joe Edmondso; Efeitos especiais: Warren Newcombe; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Charles Boyer (Gregory Anton), Ingrid Bergman (Paula Alquist), Joseph Cotten (Brian Cameron), Dame May Whitty (Miss Thwaites), Angela Lansbury (Nancy), Barbara Everest (Elizabeth), Emil Rameau (Maestro Guardi), Edmund Breon, Halliwell Hobbes, Tom Stevenson, Heather Thatcher, Lawrence Grossmith, Jakob Gimpel, Harry Adams, Lassie Lou Ahern, John Ardizoni, Frank Baker, Lillian Bronson, Leonard Carey, Alec Craig, Roger Gray, Jack Kirk, Pat Malone, Eric Wilton, Eustace Wyatt, Phyllis Yuse, Guy Zanette, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: MGM (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 26 de Março de 1946.


INGRID BERGMAN (1915 - 1982)
Esta é uma mulher que frequenta todos os top 10 das melhores actrizes de sempre. Mantem com Katharine Hepburn e Audrey Hepburn uma luta cerrada pelos três primeiros lugares em qualquer país em que ao inquérito se realize. Excepto na Suécia, onde é rainha. Uma das mais belas e mais talentosas actrizes de sempre. Ingrid Bergman Nieuwenhoff nasceu a 29 de Agosto de 1915, em Estocolmo, Suécia, e viria a falecer em Londres, Inglaterra, precisamente no dia 29 de Agosto de 1982, com 67 anos de idade.
A mãe, alemã, morreu quando ela tinha dois anos. O pai, Justus Bergman, sueco, era fotógrafo e boémio, tendo transmitido à filha a paixão pelo teatro. Esta iniciou-se cedo em pequenas companhias amadoras e, em 1933, entra para a Real Escola de Arte Dramática de Estocolmo mas, antes de terminar o curso, estreia-se no cinema, com sucesso. Em dois anos participa em nove filmes, na Suécia. Em 1939, parte para Hollywood para protagonizar a versão americana de um dos seus maiores sucessos suecos, "Intermezzo". A partir daí, a sua carreira foi fulgurante, criando uma galeria de personagens de invulgar densidade e sedução, a que a sua beleza muito especial adicionava um “glamour” muito próprio. Interpretou obras-primas indiscutíveis que vão de “Casablanca” a “Sonata de Outono”.


Ganhou três Oscars: para Melhor Actriz, em 1945, por “Gaslight” e, em 1957, por “Anastasia” e, para Melhor Actriz Secundária, em 1975, para “Murder on the Orient Express”. Foi nomeada por mais quatro vezes: 1944, For Whom the Bell Tolls, 1946, The Bells of St. Mary's, 1949, Joan of Arc, e 1979, Sonata de Outono. Dois Emmys para Melhor Actriz em mini série de televisão, em 1982, por “A Woman Called Golda” e para Actriz Principal, em 1960, para “The Turn of the Screw”. Quatro Golden Globe, para Melhor Actriz em filme dramático, em 1945, para “Gaslight”, em 1946, para “The Bells of St. Mary's”, em 1957, para “Anastasia”, e, em 1982, na categoria de televisão, para “A Woman Called Golda”. Um César Honorário, em 1976, pela carreira. Um BAFTA, para Melhor Actriz Secundária, em 1975, para “Murder on the Orient Express”. Casada com Petter Lindström (1937 - 1950), de quem teve uma filha, Pia; com Roberto Rossellini (1950 - 1957), de quem teve três filhos, Roberto e as gémeas Isotta Ingrid e Isabella Rossellini, também actriz; finalmente com Lars Schmidt (1958 - 1975). A ligação com Roberto Rossellini foi tumultuosa, pois ambos eram casados quando se apaixonaram e abandonaram as respectivas famílias para viverem juntos. Ingrid foi acusada de adúltera e de dar mau exemplo às mulheres americanas, o que a impediu de filmar nos Estados Unidos durante alguns anos. Morreu no dia em que completava 67 anos, depois de seis anos a lutar contra o cancro e depois de duas mastectomias. Um ano antes de falecer, Ingrid disse que se recusava a render-se à doença e que continuava a fumar e a beber vinho e champanhe. Encontra-se sepultada em Norra Begravningsplatsen (Northern Cemetery), Estocolmo, Suécia.


Filmografia/como actriz: 1932: Landskamp, de Gunnar Skoglund (não creditada); 1935: Munkbrogreven, de Edvin Adolphson e Sigurd Wallén (este não creditado); Bränningar, de Ivar Johansson; Swedenhielms, de Gustaf Molander; Valborgsmässoafton (Noite de Primavera), de Gustaf Edgren; 1936: På solsidan (Para o Destino), de Gustaf Molander; Intermezzo, de Gustaf Molander; 1938: Dollar (O Dólar), de Gustaf Molander; En kvinnas ansikte, de Gustaf Molander; 1938: Die Vier Gesellen, de Carl Froelich; 1939: En enda natt (Sedução), de Gustaf Molander; Intermezzo: A Love Story (Intermezzo), de Gregory Ratoff; 1940: Juninatten (Noite de Tentação), de Per Lindberg; 1941: Adam Had Four Sons (Os Quatro Filhos de Adão), de Gregory Ratoff; Rage in Heaven (Tempestade), de W.S. Van Dyke e Robert B. Sinclair e Richard Thorpe (não creditados); Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming; 1942: Casablanca (Casablanca), de Michael Curtiz; 1943: For Whom the Bell Tolls (Por Quem os Sinos Dobram), de Sam Wood; 1943: Swedes in America, de Irving Lerner (curta-metragem); 1944: Gaslight (Meia-Luz), de George Cukor; 1945: Saratoga Trunk (Saratoga), de Sam Wood; 1945: Spellbound (A Casa Encantada), de Alfred Hitchcock; The Bells of St. Mary's (Os Sinos de Santa Maria), de Leo McCarey; 1946: American Creed, de Robert Stevenson (curta-metragem); Notorious (Difamação), de Alfred Hitchcock; 1948: Arch of Triumph (O Arco do Triunfo), de Lewis Milestone; Joan of Arc (Joana d'Arc), de Victor Fleming; 1949: Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio), de Alfred Hitchcock; 1950: Stromboli (Stromboli), de Roberto Rossellini; 1952: Europa '51 (Europa 51), de Roberto Rossellini; 1953: Siamo Donne (Nós, as Mulheres), de Gianni Franciolini ("Alida Valli"), Alfredo Guarini ("Concorso 4 Attrici 1 Speranza"), Roberto Rossellini ("Ingrid Bergman"), Luchino Visconti ("Anna Magnani") e Luigi Zampa ("Isa Miranda"); 1954: Giovanna d'Arco al Rogo, de Roberto Rossellini; Viaggio in Italia (Viagem em Itália), de Roberto Rossellini; La Paura (O Medo), de Roberto Rossellini; 1956: Anastasia (Anastásia), de Anatole Litvak; Elena et les Hommes (Helena e os Homens), de Jean Renoir; 1958: Indiscreet (Indiscreto), de Stanley Donen; The Inn of the Sixth Happiness (A Pousada da Sexta Felicidade), de Mark Robson; 1959: The Turn of the Screw, de John Frankenheimer, em Startime (série de TV); 1961: Aimez-Vous Brahms?, de Anatole Litvak ; 1961: Auguste, de Pierre Chevalier (cameo) ; Twenty-Four Hours in a Woman's Life, de Silvio Narizzano (TV); 1963: Hedda Gabler, de Alex Segal (TV); 1964: The Visit (A Visita), de Bernhard Wicki; The Yellow Rolls-Royce (O Rolls-Royce Amarelo), de Anthony Asquith; 1966: The Human Voice, de Ted Kotcheff (TV); 1967: Stimulantia, de Hans Abramson ("Upptäckten"), Hans Alfredson ("Dygdens belöning"), Arne Arnbom ("Birgit Nilsson"), Ingmar Bergman ("Daniel"), Tage Danielsson ("Dygdens belöning"), Jörn Donner ("Det var en gång två älskande..."), Lars Görling ("Konfrontationer"), Gustaf Molander ("Smycket") e Vilgot Sjöman ("Negressen i skåpet") (Episódio: "Smycket"); 1969: Cactus Flower (A Flor de Cacto), de Gene Saks; 1970: Henri Langlois; A Walk in the Spring Rain (Chuva na Primavera), de Guy Green; 1973: From the Mixed-Up Files of Mrs. Basil E. Frankweiler, de Fielder Cook; 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1976: A Matter of Time, de Vincente Minnelli; 1977: Great Performances: Childhood Host; 1978: Höstsonaten (Sonata de Outono), de Ingmar Bergman; 1979: The American Film Institute Salute to Alfred Hitchcock; 1982: A Woman Called Golda, de Alan Gibson (TV).

sábado, 28 de fevereiro de 2015

24 DE MARÇO DE 2015


SYLVIA SCARLETT (1935)

Katharine Hepburn teve uma estreia fulgurante no teatro e no cinema e, em meia dúzia de anos, tornou-se numa das mais apaixonantes vedetas do céu estrelado de Hollywood (curiosamente nunca habitou longas temporadas nem em Hollywood, nem sequer em Nova Iorque, ela era dada ao Connecticut, onde nasceu e haveria de falecer). Mas desde muito nova que gostava de se vestir com roupa masculina, era mesmo considerada uma maria-rapaz, cortava o cabelo rente e respondia pelo nome de Jimmy. Filha de uma sufragista, ficou-lhe da herança materna esse gosto pela independência, essa necessidade de emancipação e de rebeldia de que deu sobejas provas ao longo de toda a sua vida artística, criando personagens inesquecíveis e invulgares na cinematografia norte-americana dos anos 30 em diante. Esse seu gosto pela androgenia não lhe retirava, contudo, um lado feminino muito sedutor para quem o soubesse descobrir para lá da aparente arrogância que muitas vezes aparentava.
“Sylvya Scarlet”, filme de 1935, é um dos seus trabalhos de início de carreira (“A Bill of Divorcement”, de George Cukor, é a sua estreia no ecrã e data de 1932), mas surge já como protagonista indiscutível, ao lado de Gary Grant, com quem contracenou por quatro vezes, sob a direcção de George Cukor, que a lançou no cinema e com quem colaborou em dez títulos. Acrescente-se que, mulher de fidelidades, iniciou em 1942 uma relação profissional e amorosa com Spencer Tracy, que só iria terminar 25 anos depois, com a morte do actor, depois de ambos terem aparecido juntos em nove filmes. Mas “Sylvia Scarlet” merece referência por diversos aspectos e um deles é precisamente por ser uma obra onde Katharine Hepburn dá largas à sua androgenia, interpretando o papel de uma jovem francesa que passa por rapaz, vestindo-se e agindo enquanto tal com certa desenvoltura.


Sylvia vive em Marselha com o pai, viúvo e grande apreciador de jogos, que o arruinaram e o levam a ter de fugir para Inglaterra. Por forma a passarem despercebidos na sua viagem para a Grã-Bretanha, Sylvia muda de género e passa a chamar-se Sylvestre (diga-se que esta mudança de género é um dos aspectos desconcertantes desta obra, pois não se percebe muito bem quais as razões para esta decisão – não se torna mais credível por isso, muito pelo contrário, como se deve calcular). Estamos o domínio da comédia onde o disfarce predispõe a situações equívocas para serem exploradas futuramente. “Sylvya Scarlet” é, nesse particular, muito sugestivo e algo inesperado na época. O código Hays, que começou a ser aplicado em 1934, ainda não tinha aperfeiçoado o seu controlo sobre a indústria cinematográfica, senão muito dificilmente concederia licença para produção de um título tão subversivo em matéria sexual. Claro que Cukor era já mestre na arte das subtilezas, mas o clima de ambiguidade sexual em que decorre todo o filme é de molde a perturbar as boas consciências.
Na viagem para Inglaterra, pai, Henry Scarlett (Edmund Gwenn) e filha/filho, Sylvia/Sylvester (Katharine Hepburn) são abordados por um aldrabão profissional, Jimmy Monkley (Cary Grant), que os denuncia como contrabandistas, para ele próprio passar incólume pela alfândega. Mais tarde reencontram-se, organizam-se em grupo de larápios mal sucedido, depois em bando de comediantes em tournée pela província, igualmente sem grande sorte. Pelo meio da jornada, Sylvia e Sylvester vão alternando situações dúbias, até se recompor a ordem natural das coisas e tudo terminar num “happy end” formal.
A comédia não está à altura de “Casamento Escandaloso” (The Philadelphia Story) ou “Duas Feras” (Bringing Up Baby), só para falar de duas outras obras interpretadas na época por Katharine Hepburn e Cary Grant, mas ostenta o sabor de uma certa perversão subliminar, inscrita num contexto de intriga aparentemente ingénua. O contraste é feliz, um pouco bizarro é certo, e as interpretações de todo o elenco valem mesmo a pena. Katharine Hepburn, sobretudo ela, é magnífica nessa figura de desconcertante duplicidade, e se não é um dos seus melhores filmes, será seguramente um dos seus trabalhos mais representativos da sua personalidade. 


SYLVIA SCARLETT
Título original: Sylvia Scarlett
Realização: George Cukor (EUA, 1935); Argumento: Gladys Unger, John Collier, Mortimer Offner, segundo romance de Compton MacKenzie; Produção: Pandro S. Berman; Música: Roy Webb; Fotografia (p/b):  Joseph H. August; Montagem: Jane Loring; Direcção artística: Van Nest Polglase;  Guarda-roupa:  Muriel King, Bernard Newman; Maquilhagem: Mel Berns; Assistentes de realização: Kenneth Holmes, Argyle Nelson; Departamento de arte: Sturges Carne; Som: George D. Ellis; Efeitos especiais: Harry Redmond Sr.; Companhias de produção: Radio Pictures; Intérpretes: Katharine Hepburn (Sylvia Scarlett / Sylvester), Cary Grant (Jimmy Monkley), Brian Aherne (Michael Fane), Edmund Gwenn (Henry Scarlett), Robert Adair, Bunny Beatty, May Beatty, Daisy Belmore, Carmen Beretta, Madam Borget, Thomas Braidon, Elsa Buchanan, Colin Campbell, Patricia Caron, Harold Cheevers, E.E. Clive, Edward Cooper, Adrienne D'Ambricourt, Kay Deslys, Nola Dolberg, Robert Hale, Alec Harford, Peter Hobbes, etc. Duração: 95 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Costa do Castelo; Classificação etária: M/ 12 anos.


KATHARINE HEPBURN (1907 - 2003)
“Escrevam o que quiserem sobre mim, mas nunca a verdade. Não, isso, não”, dizia ela, mas não a podemos satisfazer, neste caso. Katharine Houghton Hepburn nasceu a 12 de Maio de 1907, em Hartford, Connecticut, EUA, e faleceu aos 96 anos, a 29 de Junho de 2003, em Old Saybrook, Connecticut, EUA. Era de origem inglesa e escocesa, filha de Thomas Hepburn, médico, e de Katharine Houghton, sufragista. De espírito independente e de vontade indómita, rapidamente foi considerada uma líder do feminismo. Casou uma única vez com Ludlow Ogden Smith, um rico empresário da Nova Inglaterra, mas foi um casamento de curta duração (1928 - 1934). Manteve uma relação com o multimilionário Howard Hughes (1937-1939). Muito maior e mais intensa foi a sua relação, nos filmes (nove filmes em comum) e na vida real, com Spencer Tracy, que se prolongou por 25 anos, só terminando com a morte do actor (1967). Iniciou a carreira de actriz no teatro, no final da década de 20 e, em 1931, teve o seu primeiro sucesso em "The Warrior's Husband", sendo convidada a partir para Hollywood. O seu triunfo no cinema foi fulgurante, mas nunca abandonou o teatro e, mais tarde, seria igualmente seduzida pela televisão.


No cinema, as suas interpretações multiplicam-se por figuras inesquecíveis de mulheres arrojadas e de fibra temperamental, como em “Sylvia Scarlett”, “Alice Adams”, “Bringing Up Baby”, “The Philadelphia Story”, “Woman of the Year”, “Adam's Rib”, “The African Queen”, “Pat and Mike”, “Summertime”, “The Rainmaker”, “Suddenly, Last Summer”, “Long Day's Journey into Night”, “Guess Who's Coming to Dinner”, “The Lion in Winter”, “A Delicate Balance”, “Rooster Cogburn” ou “On Golden Pond”, sendo nomeada para o Oscar de Melhor Actriz, sempre como protagonista, por doze vezes, tendo ganho quarto estatuetas pelos seus desempenhos em “Morning Glory” (1934), “Guess Who's Coming to Dinner” (1968), “The Lion in the Winter” (1969) e “On Golden Pond” (1982).
Em televisão, ganhou um Emmy em 1975 pelo seu papel em “Love Among the Ruins”, e foi nomeada para outros quatro e também para dois Tonys. Em 1979, o “Screen Actors Guild” atribuiu-lhe o “Life Achievement Award”, e em 1962 tinha sido considerada a melhor actriz no Festival de Cannes, pelo seu trabalho em “Long Day's Journey into Night”. Conquistou três BAFTA: “The Lion in the Winter”, “Guess Who's Coming to Dinner” e “On Golden Pond”. Já em 1934, arrebatou o prémio de Melhor Actriz, em “Little Women”, no Festival de Veneza. Uma carreira recheada de honrarias para aquela que muitos consideram a maior actriz de sempre: em 1999, o “American Film Institute” considerou-a, através de uma sondagem, a maior actriz de todos os tempos, encabeçando uma lista de 25 notáveis. Por isso era conhecida por “The Great Kate” ou “First Lady of Cinema”.


Filmografia

1932: A Bill of Divorcement (Vítimas do Divórcio), de George Cukor; 1933: Little Women (As Quatro Irmãs), de George Cukor, Morning Glory (Glória de um Dia), de Lowell Sherman; Christopher Strong (O Que Faz o Amor), de Dorothy Arzner; 1934: The Little Minister, de Richard Wallace; Spitfire, de John Cromwell; 1935: Break of Hearts (Corações Desfeitos), de Philip Moeller; Sylvia Scarlett (Sylvia Scarlett), de George Cukor; Alice Adams, de George Stevens; 1936: A Woman Rebels (Revoltada), de Mark Sandrich; Mary of Scotland (Maria Stuart, Raínha da Escócia), de John Ford; 1937: Stage Door (A Porta das Estrelas), de Gregory La Cava; Quality Street (Bairro Elegante), de George Stevens; 1938: Holiday (A Irmã da Minha Noiva), de George Cukor; Bringing Up Baby (Duas Feras), de Howard Hakws; 1940: The Philadelphia Story (Casamento Escandaloso), de George Cukor; 1942: Keeper of the Flame (A Chama Eterna), de George Cukor; Woman of the Year (A Primeira Dama ou A Mulher do Ano), de George Stevens; 1943: Stage Door Canteen (Chuva de Estrelas), de Frank Borzage; 1944: Dragon Seed (O Filho do Dragão, de Harold S. Bucquet e Jack Conway; 1945: Without Love (Sem Amor), de Harold S. Bucquet; 1946: Undercurrent (Estranha Revelação), de Vincent Minnnelli; 1947: Song of Love (Sonata de Amor), de Clarence Brown; Sea of Grass (Terra de Ambições), de Elia Kazan; 1948: State of the Union (Um Filho do Povo), de Frank Capra; 1949: Adam's Rib (A Costela de Adão), de George Cukor; 1951: The African Queen (A Raínha Africana), de John Huston; 1952: Pat and Mike (A Mulher Absoluta), de George Cukor; 1955: Summertime (Loucura em Veneza), de David Lean; 1956: The Iron Petticoat (Um Americano em Moscovo), de Ralph Thomas; The Rainmaker (O Homem Que Fazia Chover), de Joseph Anthony; 1957: Desk Set (A Mulher Que Sabe Tudo), de Walter Lang; 1959: Suddenly, Last Summer (Bruscamente no Verão Passado), de Joseph L. Mankiewicz; 1962: Long Day's Journey into Night (Longa Jornada para a Noite), de Sidney Lumet; 1967: Guess Who's Coming to Dinner (Adivinhe Quem Vem Jantar), de Stanley Kramer; 1968: The Lion in Winter (O Leão no Inverno), de Anthony Harvey; 1969: The Madwoman of Chaillot (A Louca de Chaillot), de Brian Forbes; 1971: The Trojan Women, de Michael Cacoyannis; 1973: A Delicate Balance (Equilíbrio Instável), de Tony Richardson; 1973: The Glass Menagerie, de Anthony Harvey (TV); 1975: Rooster Cogburn (O Sheriff), de Stuart Millar; Love Among the Ruins (Amor entre Ruínas), de George Cukor (TV); 1978: Olly Olly Oxen Free, de Richard A. Colla; 1979: The Corn Is Green, de George Cukor (TV); 1981: On Golden Pond (A Casa do Lago), de Mark Rydell; 1984: The Ultimate Solution of Grace Quigley (Morte por Encomenda), de Anthony Harvey; 1986: Mrs. Delafield Wants to Marry, de George Schaefer (TV); 1988: Laura Lansing Slept Here, de George Schaefer (TV); 1992: The Man Upstairs, de George Schaefer (TV); 1993: Katharine Hepburn: All About Me, documentário realizado pela própria; 1994: One Christmas, de Tony Bill (TV); 1994: Love Affair (O Amor da Minha Vida), de Glenn Gordon Caron; 1994: This Can't Be Love (Será Isto o Amor?), de Anthony Harvey (TV).