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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

25 DE AGOSTO DE 2015


CAMELOT (1967)

“Camelot”, filme de Joshua Logan, com música de Frederick Lowe e poemas de Alan Jay Lerner, e interpretações de Richard Harris, Vanessa Redgrave e Franco Nero, partiu de uma versão teatral de um musical homónimo estreado na Broadway a 6 de Dezembro de 1960. Em 1956, Frederick Lowe e Alan Jay Lerner haviam estreado com um sucesso retumbante “My Fair Lady”, que estaria em cena durante 2.717 representações. A dupla regressava, quatro anos depois, com a adaptação de um romance de T.H.White, “The Once and the Future King”, que recuperava os tempos dos “Cavaleiros da Távola Redonda”, e os amores de Guenevere, Artur, o rei, e Lancelot du Lac, cavaleiro. E tudo anunciava um sucesso semelhante... Na Broadway, a peça teve 873 representações. Apesar de ter sido aguardada com enorme expectativa, a crítica reagiu mal. Estreou no Majestic Theatre, de Nova Iorque, com um elenco de luxo: Richard Burton, Julie Andrews, Roberet Goulet, Robert Coote, Roddy McDowall, entre outros. A direcção esteve a cargo de Moss Hart. A coreografia era da responsabilidade de Hanya Holm e o belíssimo guarda-roupa trazia a assinatura de Adrian e Tony Duquette.


A adaptação cinematográfica de “Camelot” mantém a partitura musical de Frederick Lowe e os poemas de Alan Jay Lerner. A produção esteve a cargo de Sonny Burke, com direcção musical de Alfred Newman e direcção vocal de Ken Darby. Entre os seus números mais conhecidos e popularizados contam-se “Camelot”, “How To Handle a Woman”, “If Ever I Would Leave You” ou “C’est Moi”. Joshua Logan foi o director escolhido pela Warner para adaptar a cinema este musical. Não muito tempo antes conhecera um enorme sucesso com “Piquenique”, um fabuloso melodrama de amor, a que se seguiriam “Paragem de Autocarro”, com Marilyn Monroe, “Sayonara”, com Marlon Brando, e um desencorajante “Ao Sul do Pacífico”, que todavia conta com fiéis indiscutíveis, dada a qualidade da sua partitura. Com “Camelot” regressava ao melhor da sua inspiração.
Esta aventura lendária por terras do Rei Artur custou 15 milhões de dólares. Edward Carrere, o director artístico, criou um castelo de Camelot digno do orçamento, e dos contos de fadas, e John Truscott vestiu as personagens com um guarda-roupa sumptuoso. Joshua Logan conduziu o filme com mão mestre, valorizando devidamente os momentos musicais.
“Camelot” tem interpretações de Richard Harris, no papel de Rei Artur, a inglesa Vanessa Redgrave como Guenevere, o italiano Franco Nero como Lancelot (dobrado nas cenas cantadas por Gene Merlino), e ainda David Hemmings, como Mordred, Lionel Jeffries como Rei Pellinore e Laurence Naismith, na figura de Merlin. Entre todos, Franco Nero é o mais discutível.
Casado com Guenevere, o rei Artur quer restabelecer na sua corte a época de ouro dos “Cavaleiros da Távola Redonda”. O espírito da cavalaria instalava-se nesse reino de quimérica felicidade. Mas Lancelot, a quem o rei Artur muito queria, acaba por trair essa amizade seduzindo, ou deixando-se seduzir por Guenevere. O que leva o casal de adúlteros ao castigo e Camelot à ruína dos seus ideais.
Derradeira grande produção de Jack Warner para a Warner Bros., “Camelot” recebeu no ano de 1967 nomeações da Academia de Hollywood para melhor fotografia, melhor guarda-roupa, melhor som e melhor partitura musical. Não receberia nenhuma das estatuetas, mas ficaria ainda assim bem colocado nas preferências do público.

CAMELOT
Título original: Camelot
Realização: Joshua Logan (EUA, 1967); Argumento: Alan Jay Lerner, segundoo uma peça teatral sua ("Camelot"), a partir de uma obra de T.H. White "The Once and Future King"); Produção: Jack L. Warner, Joel Freeman; Música: Alfred Newman; Fotografia (cor): Richard H. Kline; Montagem: Folmar Blangsted; Design de produção: John Truscott, Edward Carrere; Direcção artística: Edward Carrere; Decoração: John Brown; Guarda-roupa: John Truscott; Maquilhagem: Gordon Bau, Jean Burt Reilly; Direcção de produção: Tadeo Villalba; Assistente de realização: Arthur Jacobson; Departamento de arte: Edward Carrere, John Truscott, Craig Binkley, Ward Preston; Som: M.A. Merrick, Dan Wallin; Efeitos especiais: Johnny Borgese, Robie Robinson; Companhias de produção: Warner Brothers/Seven Arts; Intérpretes: Richard Harris (Rei Arthur), Vanessa Redgrave (Guenevere), Franco Nero (Lancelot Du Lac), David Hemmings (Mordred), Lionel Jeffries (Rei Pellinore), Laurence Naismith (Merlyn), Pierre Olaf (Dap), Estelle Winwood (Lady Clarinda), Gary Marshal (Sir Lionel), Anthony Rogers (Sir Dinadan), Peter Bromilow (Sir Sagramore), Gary Marsh, Nicolas Beauvy, Fredric Abbott, Leon Greene, Michael Kilgarriff, Christopher Riordan, etc. Duração: 179 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 25 de Outubro de 1967. 


VANESSA REDGRAVE (1937 - )
Esta é uma das grandes actrizes inglesas do século XX. Tive a sorte de a ver no teatro, em Londres, em 1979, a interpretar "Ellida", na belíssima peça de Henrik Ibsen, "The Lady from the Sea". Foi uma produção da Royal Exchange no New Round House Theatre. Ela contracenava com Graham Crowden e Terence Stamp, num espectáculo magnífico que dava bem a medida do talento e da delicadeza desta mulher admirável.  
Nasceu a 30 de Janeiro de 1937, em Greenwich, Londres, Inglaterra. Filha dos actores Michael Redgrave e Rachel Kempson. Irmã de Corin Redgrave e Lynn Redgrave. Na família ainda se encontram outros membros dedicados às artes, como Jemma Redgrave (sobrinha) e Liam Neeson (genro). Casada com Tony Richardson (1962–1967) e Franco Nero (2006–até ao presente). Entre 1971 e 1986 manteve uma relação com o actor Timothy Dalton. Três filhos: Natasha Richardson (1963–2009), Joely Richardson (1965) e Carlo Gabriel Nero (1969). Laurence Olivier anunciou o nascimento de Vanessa durante uma representação de Hamlet, no Old Vic, informando o público que o seu colega de palco, Sir Michael Redgrave acabara de ter uma filha. Foi educada na Alice Ottley School e na Worcester & Queen's Gate School, de Londres, antes de se estrear no teatro. Entrou para a Central School of Speech and Drama em 1954. Estreia-se no West End em 1958. Foi, no entanto, em 1961, ao interpretar Rosalind, na peça “As  You Like It”, na Royal Shakespeare Company, que ela começou a chamar definitivamente a atenção para o seu talento, que não mais deixaria de brilhar, tanto no teatro, como no cinema e na televisão. Integrou o elenco de mais de 35 espetáculos, tanto no West End de Londres, como na Broadway de Nova Iorque, ganhando tanto o Tony como o Olivier. No cinema surgiu em mais de 80 títulos, sempre com indiscutível sucesso, sendo de referir “Blowup” (1966), “Isadora” (1968), “Mary, Queen of Scots” (1971), “The Devils” (1971), “Julia” (1977), “The Bostonians” (1984), “Howards End” (1992), “Mission: Impossible” (1996) ou “Atonement” (2007). Tanto Arthur Miller como Tennessee Williams consideraram-na “a maior actriz viva do nosso tempo”.
Até hoje é a única actriz inglesa a ganhar os prémios mais importantes de cinema, teatro e televisão: Oscar, Emmy, Tony, Olivier, Cannes, Veneza, Golden Globe e Screen Actors Guild. Conta com mais de meia centena de nomeações e mais de quarenta prémios internacionais. Cinco nomeações para Oscars nos filmes “Howards End” (1992), “The Bostonians” (1984),  “Mary, Queen of Scots” (1971), “Isadora” (1968) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966)e um Oscar ganho com “Júlia” (1977). Treze nomeações para os Globos de Ouro, de que triunfou duas vezes (“Júlia”, 1977, e “If These Walls Could Talk 2”, 2000, respectivamente em cinema e televisão). As restantes nomeações foram para “The Gathering Storm” (2002), “Bella Mafia” (1997), “A Month by the Lake” (1995), “A Man for All Seasons” (1988), “Prick Up Your Ears” (1987), “Second Serve” (1986), “The Bostonians” (1984), “Mary, Queen of Scots” (1971), “Isadora” (1968), “Camelot” (1967) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966). Ganhou dois Emmys, com “Playing for Time” (1980) e “If These Walls Could Talk 2” (2000). Foi ainda nomeada pelo trabalho em “The Gathering Storm” (2002), “Young Catherine” (1991), “Second Serve” (1986) e “Peter the Great (1986). Várias nomeações para os BAFTAS e um honorário em  2010. Ganhou o Festival de Cannes por duas vezes, com “Isadora” (1968) e “Morgan: A Suitable Case for Treatment” (1966). Recebeu o David di Donatello com “Mary, Queen of Scots” (1971). Ganhou em Veneza, com “Little Odessa” (1994). A esses devem juntar-se dezenas de outros prestigiados prémios e distinções.  Vanessa Redgrave é ainda conhecida por defender causas sociais e políticas, sendo muito comentada a sua contribuição para a defensa do estado palestiniano.



Filmografia

Cinema: 1958: Behind the Mask (Por Detrás da Máscara), de Brian Desmond Hurst; 1959: A Midsummer Night's Dream (TV); 1960: BBC Sunday-Night Play (TV) -Twentieth Century Theatre: The Elder Statesman; 1963: As You Like It (TV); 1964: Armchair Theatre (TV) ; First Night (TV); 1965: Love Story (TV); 1966: A Farewell to Arms (TV); 1966: A Man for All Seasons (Um Homem para a Eternidade), de Fred Zinnemann; The Sailor from Gibraltar, de Tony Richardson; Blow-Up (Blow-Up, História de um Fotógrafo), de Michelangelo Antonioni; Morgan: A Suitable Case for Treatment (Morgan - Um Caso para Tratamento), de Karel Reisz; 1967: Camelot (Camelot), de Joshua Logan; Red and Blue, de Tony Richardson (curta-metragem); 1968: The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira), de Tony Richardson; Isadora (Isadora), de Karel Reisz; Un Tranquillo Posto di Campagna (Um Tranquilo Lugar na Província), de Elio Petri; The Seagull (A Gaivota), de Sidney Lumet; 1969: Oh What a Lovely War! (Viva a Guerra!), de Richard Attenborough; 1970: Drop Out, de Giovanni Brass; The Devils (Os Diabos), de Ken Russell; En mor med två barn väntandes sitt tredje (curta-metragem); 1971: The Trojan Women (As Trioanas),  de Michael Cacoyannis; Mary, Queen of Scots (As Duas Rainhas), de Charles Jarrott; 1972: La Vacanza, de Giovanni Brass; 1973: A Picture of Katherine Mansfield (TV); 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1975: Out of the Season (Fora de Estação), de Alan Bridges; 1976: The seven per cent solution (O Regresso de Sherlock Holmes), de Herbert Ross; 1977: Julia (Júlia), de Fred Zinnemann: 1979: Agatha (O Mistério de Agatha), de Michael Apted; Bear Island (A Ilha dos Ursos), de Don Sharp; 1980: Yanks (Yanks), de John Schlesinger; Playing for Time (TV); 1982: My Body, My Child (Meu Corpo, meu Filho), de Marvin J. Chomsky (TV): 1983: Sing Sing, de Sergio Corbucci; Wagner (TV); 1984: The Bostonians (As Mulheres de Boston), de James Ivory; Steamin, de Joseph Losey; Faerie Tale Theatre (TV)  episódio Snow White and the Seven Dwarfs, de Peter Medak; 1985: Whetherby, de David Hare; 1985: American Playhouse (TV); 1986: Comrades, de  Bill Douglas; Second Serve (TV); Peter the Great (TV); 1987: Prick Up Your Ears (Vidas em Fúria), de Stephen Frears; 1988: Consuming Passions (A Louca Doçura), de Giles Foster; A Man for All Seasons (Conflito Mortal), de Charlton Heston (TV); 1989: Pokhorony Stalina, de Evgeniy Evtushenko; 1990: Diceria dell'untore, de Beppe Cino; Romeo.Juliet, de Armondo Linus Acosta; No Calor do Sul (TV);  1991: Ballad of the Sad Café (A Balada das Paixões), de Simon Callow; What Ever Happened to Baby Jane? (TV); Young Catherine (TV); 1992: Howards End (Regresso a Howards End), de James Ivory; 1992: Indiana Jones - Crónicas da Juventude (TV); 1993: The House of the Spirits (A Casa dos Espíritos) de Bille August; Un Muro de Silencio, de Lita Stantic; Great Moments in Aviation (TV); 1993 They Eles vêem), de  John Korty (TV); 1994: Storia di una Capinera, de Franco Zeffirelli; 1995 The Wind in the Willows (TV); Down Came a Blackbird (TV); 1995: Little Odessa de James Gray (Viver e Morrer em Little Odessa), de James Gray; Mother's Boy (Assédio Fatal), de Yves Simoneau; A Month by the Lake (Amor à Beira do Lago) de John Irvin; 1996: Smilla's Sense of Snow (Smilla e o Mistério da Neve), de Bille August; 1996: Mission Impossible (Missão Impossível), de Brian De Palma; The Willows in Winter (TV); 1996 Two Mothers for Zachary (TV);  1997: Wilde (Wilde), de Brian Gilbert; Déjà Vu, de Henry Jaglom; Mrs. Dalloway, de Marleen Gorris; Bela Mafia (TV);  1998: Deep Impact (Impacto Profundo), de Mimi Leder; Lulu on the Bridge, de Paul Auster; Cradle will Rock (América - Anos 30), de Tim Robbins; Le Clandestin, de Carlos Gabriel Nero; 1999 Girl, Interrupted (Vida Interrompida), de James Mangold; Uninvited, de  Carlo Gabriel Nero; Eleonora (TV); A Rumor of Angels, de Peter O'Fallon; Mirka, de Rachid Benhadj; 2000: The 3 Kings, de Shaun Mosley; Escape to Life: The Erika and Klaus Mann Story, de  Wieland Speck, Andrea Weiss; Children's Story, Chechnia (Curta-metragem) (voz); If These Walls Could Talk 2 (Amor no Feminino) (TV); 2001: The Pledge (A Promessa), de Sean Penn; 2002: Crime and Punishment, de Menahem Golan; Jack and the Beanstalk: The Real Story (TV);  The Locket (TV); The Gathering Storm (O Homem Que Mudou o Mundo), de Richard Loncraine; 2003: Good Boy! (Um Cão do Outro Mundo), de John Hoffman; Byron (TV); 2004: The Fever, de Carlo Gabriel Nero; 2005: The Keeper: The Legend of Omar Khayyam, de Kayvan Mashayekh; Short Order, de Anthony Byrne; The White Countess (A Condessa Russa), de James Ivory; 2006: The Thief Lord, de Richard Claus; The Shell Seekers (TV);  2007: How About You..., de  Anthony Byrne; The Riddle, de Brendan Foley; Venus (Venus), de Roger Michell; Evening (Ao Anoitecer), de Lajos Koltai; Atonement (Expiação), de Joe Wright; 2008: Restraint (Ravenwood - Jogo de Sobrevivência), de  David Denneen;Ein Job (TV); Gud, lukt och henne; 2009: Identity of the Soul, de Thomas Høegh; 2004-2009: Nip/Tuck (TV);  The Day of the Triffids (TV); 2010: Lettres à Juliette (Cartas para Julieta), de Gary Winick; Konferenz der Tiere (Animais Unidos Jamais Serão Vencidos), de Reinhard Klooss, Holger Tappe; Miral, de Julian Schnabel; 2011: Anonymous (Anónimo), de Roland Emmerich; Coriolanus (Coriolano), de Ralph Fiennes; Cars 2 (Carros 2), de John Lasseter, Brad Lewis; The Whistleblower (Delatora), de Larysa Kondracki; Song for Marion, de Paul Andrew Williams; The Last Will and Testament of Rosalind Leigh, de Rodrigo Gudiño; Political Animals (TV); 2013: The Butler (O Mordomo) de Lee Daniels; 2014: Black Box (TV); The Thirteenth Tale (TV); Playhouse Presents (TV); 2012-2015: Old Roseanne McNulty (Chamem a Parteira) (TV); 2015: The Secret Scripture (pre-produção). 

domingo, 12 de julho de 2015

14 DE JULHO DE 2015


PIQUENIQUE (1955)

Hal Carter (William Holden) viaja à boleia numa carruagem de um comboio de carga e desce numa pequena cidade do Kansas, para visitar um amigo dos tempos da faculdade, Alan Benson (Cliff Robertson). Ambos foram amigos nesse tempo, mas um seguiu os conselhos da família e tornou-se num herdeiro abastado, enquanto o outro anda à deriva em busca da aventura. A cidadezinha é pequena, daquelas onde todos se conhecem, e que prefiguram um microcosmo social que dá para perceber as características da condição humana. Parece ser essa a ideia da peça teatral de William Inge que Daniel Taradash adapta a argumento de cinema e Joshua Logan realiza. Hal Carter começa por ser bem recebido pelas famílias da região. Uma velhota aceita o seu trabalho, e, na casa do lado, Flo Owens (Betty Field) e as duas filhas, a mais velha, Madge Owens (Kim Novak), e a mais nova, Millie Owens (Susan Strasberg), não ficam indiferentes à presença deste estranho. Aliás o tema do “estranho (ou estranha) na cidade” que vem desencadear um conjunto de reacções e precipitar acontecimentos, pondo a descoberto traumas e frustrações recalcadas, é um assunto bastante glosado em literatura, teatro e cinema. No dia seguinte à chegada de Hal, comemora-se o dia do trabalhador, à americana, com piquenique e festança, baile e animação pela noite dentro. Madge Owens, que vai ser eleita a rainha das festividades, está prometida a Alan Benson, mas tudo parece um arranjo de ocasião sem amor de permeio. Já Miss Rosemary Sydney (Rosalind Russell), uma tia solteirona desesperadamente à procura de marido, não despega do tímido e perplexo Howard Bevans (Arthur O'Connell), que ela jurou levar ao altar. As desilusões e o desejo não satisfeito levam Rosemary Sydney ao desespero e a tomar atitudes menos convenientes, numa noite de muito álcool e pouco discernimento. O que acarreta um conjunto de situações que destroem a aparente calma da cidadezinha.


O filme foi rodado em Halstead, no Kansas, bem no centro dos EUA, e Tulsa, no Oklahoma, é um destino de liberdade. O comboio atravessa a cidade e tem Tulsa como meta. Haverá quem parta com esse destino, sem saber o que lhe reserva o futuro, mas com o desejo de precipitar a aventura? Na própria família Owens há um pouco de tudo, a cautelosa mãe, que quer assegurar o futuro da filha mais velha com o casamento com Alan Benson, a filha mais jovem, rebelde e relegada para segundo plano pela beleza da irmã, e Maggie, o centro das atenções, que oscila entre o casamento seguro e a aventura sem garantia alguma. O filme parece jogar nesta última opção, apostando numa paragem de autocarro que pode trazer a felicidade… ou a desilusão. Mas a certeza de não ter perdido a oportunidade.
William Holden é o herói romântico desta história de um dia do trabalhador, e Kim Novak a rainha do cortejo ao longo do rio. Ambos se entendem às mil maravilhas e a cena de baile, numa plataforma erguida sobre as águas do rio, com os balões da festa a iluminar-lhes os olhos, é seguramente das mais belas sequências de sedução da história do cinema. Os olhares, os gestos, as mãos que se agarram, os braços que deslizam, a música que embala, o álcool que enlouquece, a volúpia do ambiente que se torna cada vez mais escaldante, fazem deste momento um instante cinematográfico inesquecível. Joshua Logan foi aqui tocado pela magia e os actores ajudam e de que maneira. Mas se esta dupla é brilhante, não será menos de destacar o casal Rosalind Russell e Arthur O'Connell, que são notáveis, sem a sensualidade dos verdes anos, mas com as agruras do tempo a deixar marcas, mas a permitir o persistir da esperança.
O filme teve seis nomeações para os Oscars de 1956: Melhor Filme (produtor Fred Kohlmar), Melhor Realizador (Joshua Logan), Melhor Actor Secundário (O’Connell), Melhor Montagem (Charles Nelson, William A. Lyon), Melhor Direcção Artística (William Flannery, Jo Mielziner, Robert Priestley) e Melhor Música (George Duning). Ganhou dois: Melhor Montagem e Direcção Artística.

PIQUENIQUE
Título original: Picnic
Realização: Joshua Logan (EUA, 1955); Argumento: Daniel Taradash, segundo peça teatral de William Inge; Produção: Fred Kohlmar; Música: George Duning; Fotografia (cor): James Wong Howe; Montagem: William A. Lyon, Charles Nelson; Design de produção: Jo Mielziner; Direcção artística: William Flannery; Decoração: Robert Priestley; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistentes de realização: Carter De Haven Jr.; Som: George Cooper, John P. Livadary; Coreografia: Miriam Nelson; Companhia de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: William Holden (Hal Carter), Kim Novak (Madge Owens), Betty Field (Flo Owens), Susan Strasberg (Millie Owens), Cliff Robertson (Alan Benson), Arthur O'Connell (Howard Bevans), Verna Felton  (Helen Potts), Reta Shaw (Irma Kronkite), Rosalind Russell (Miss Rosemary Sydney), Nick Adams, Raymond Bailey, Elizabeth Wilson, Warren Frederick Adams, Carle E. Baker, George E. Bemis, Steve Benton, Harold A. Beyer, Paul R. Cochran, Adlai Zeph Fisher, Don C. Harvey, Flomanita Jackson, Shirley Knight, Phyllis Newman, Henry Pagueo, Harry Sherman Schall, Floyd Steinbeck, Wayne R. Sullivan, Henry P. Watson, Abraham Weinlood, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Abril de 1956.


KIM NOVAK (1933- )
Kim Novak não tem uma filmografia extensa, afirma que apareceu no cinema por acaso, mas deixa o seu lugar bem marcado na história da sétima arte. Desde logo por ser uma das musas louras de Htchcock, que a dirige naquele que hoje é considerado por alguns o melhor filme de sempre, “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (Vertigo). É dela igualmente uma das cenas românticas mais sensuais do cinema, uma noite de baile em “Piquenique”. Mas há muito mais a recordar desta actriz lindíssima que foi igualmente uma das preferidas de Richard Quine (com quem chegou a viver, nos anos 60, e com quem rodou “Tentação Loira”, “Sortilégio de Amor”, “Um Estranho na Minha Vida, ou “Notável Senhoria”). 
Marilyn Pauline Novak, mais conhecida por Kim Novak, nasceu em Chicago, Illinois, EUA, no dia 13 de Fevereiro de 1933, contando agora 82 anos. De origem checa, os pais tinham sido professores, mas ela nunca foi uma boa estudante. Por isso, quando acabou os estudos secundários, passou por vários ofícios, desde ascensorista a empregada de loja e ajudante de dentista, mas foi como modelo de moda jovem que melhor se sentiu. Ingressa mesmo numa escola de modelos, após o que viaja para Los Angeles, onde lhe oferecem pequenos papéis na RKO e depois na Columbia. Como se chamava Marilyn, mudou o nome para se distanciar de Marilyn Monroe, mas manteve Novak. Em 1954, aparece em “Pushover”, ao lado de Fred MacMurray, num curto papel que chamou a atenção. Tornou-se muito popular e começaram a surgir grandes trabalhos, como “Picnic”, fazendo par com William Holden, sob as ordens de Joshua Logan. Conhece um triunfo em toda a linha. Frank Sinatra é o seu parceiro em “Pal Joey” e “The Man with the Golden Arm”, e James Stewart, em “Vertigo”, de Hitch. Roda “The Amorous Adventures of Moll Flanders”, em 1965, e decide afastar-se uns tempos do cinema. Novak já vivia desiludida com os papéis que então lhe atribuíam. Regressa três anos depois com “The Legend of Lylah Clare”, que foi um fracasso. Os filmes seguintes não lhe agradam e, em 1991, depois de “Liebestraum”, de Mike Figgis, retira-se, dedica-se à pintura e cria cavalos nas herdades no Oregon e na Califórnia. Em 1957, fez greve em protesto contra o salário que recebia na época e mantém fama de rebelde e de difícil ao longo de toda a sua carreira.
Foi casada com o actor Richard Johnson durante um ano (1965-1966) e depois com o médico veterinário Robert Malloy (1976-até ao presente). Foi muito notada uma relação com o actor Michael Brandon (1973-1974), para lá de algumas outras mais (Frank Sinatra, Aly Khan, Ramfis Trujillo, Sammy Davis, Jr….). Possui uma estrela na “Walk of Fame”, localizada perto do nº 6336, em Hollywood Boulevard. Recebeu um Globo de Ouro, como actriz revelação feminina, por “Piquenique” e um BAFTA, para “melhor actriz estrangeira” pelo mesmo filme. Recolheu ainda um Urso de Ouro honorário pela sua contribuição para a 7ª arte no 47º Festival de Cinema de Berlim.


Filmografia
Como Actriz: 1953: The French Line (A Moda Vem de Paris), de Lloyd Bacon; 1954: Pushover (Tentação Loira), de Richard Quine; 1954: Phffft! (Pffft... é o Amor Que Se Evapora), de Mark Robson; 1955: Son of Sinbad (O Filho de Sinbad) de Ted Tetzlaff; 5 Against the House (4 Homens e Uma Mulher), de Phil Karlson; Picnic (Piquenique), de Joshua Logan; The Man with the Golden Arm (O Homem do Braço de Ouro), de Otto Preminger; 1956: The Eddy Duchin Story (Melodia Fascinante), de George Sidney; 1957: Jeanne Eagels (Um Só Amor), de George Sidney; Pal Joey (O Querido Joey), de George Sidney; 1958: Vertigo (A Mulher Que Viveu Duas Vezes), de Alfred Hitchcock; Bell Book and Candle (Sortilégio de Amor),de Richard Quine; 1959: Middle of the Night (A Meio da Noite), de Delbert Mann; 1960: Strangers When We Meet (Um Estranho na Minha Vida), de Richard Quine; Pepe (Pepe), de George Sidney; 1962: The Notorious Landlady (Notável Senhoria) de Richard Quine; Boys' Night Out (Não Brinque com os Maridos), de Michael Gordon; 1964: Of Human Bondage (Servidão Humana), de Bryan Forbes; Kiss Me Stupid (Beija-me, Idiota), de Billy Wilder; 1965: The Amorous Adventures of Moll Flanders (A Vida Amorosa de Moll Flanders), de Terence Young; 1968: The Legend of Lylah Clare (A Lenda de uma Estrela), de Robert Aldrich; 1969: The Great Bank Robbery (Olhos Verdes, Loira e Perigosa), de Hy Averback; 1973: Tales That Witness Madness,  episódio "Luau" (TV); 1973: The Third Girl from the Left, de Peter Medak (TV); 1975: Satan's Triangle, de Sutton Roley (TV); 1977: The White Buffalo (A Carga do Búfalo Branco), de Jack Lee Thompson; 1979: Schöner Gigolo, armer Gigolo (História de um Gigolo), de David Hemmings; 1980: The Mirror Crack'd (Espelho Quebrado), de Guy Hamilton; 1983: Malibu (TV); 1985: Alfred Hitchcock Presents; episódio “Man from the South”; 1987: Es hat mich sehr gefreut, de Mara Mattuschka (curta-metragem); 1986-1987: Falcon Crest (TV); 1987: Es hat mich sehr gefreut (curta-metragem); 1990: The Children, de Tony Palmer; 1991: Liebestraum, de Mike Figgis.

Documentários: 1959: Premier Khrushchev in the USA; 1963: Showman.