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sábado, 12 de setembro de 2015

27 DE OUTUBRO DE 2015


ÁFRICA MINHA (1985)

Karen Blixen, ou Karen Christence, baronesa de Blixen-Finecke, mais conhecida pelo pseudónimo de Isak Dinesen, era dinamarquesa, nascida em final do século XIX e falecida em 1962, e veio a notabilizar-se como escritora, “contadora de histórias”, como ela gostava de se chamar, autora de alguns volumes de grande sucesso, como “Seven Gothic Tales”, “Out of Africa” (1937), “Winter's Tales” ou “Shadows on the Grass”. Passou grande parte da sua vida em África, precisamente no Quénia, onde teve uma fazenda, “no sopé das montanhas Ngongo”. Fugindo de um desgosto de amor, foi em África que se refugiou, casando com o barão Bror Blixen, irmão do seu antigo amante. O casamento é, obviamente, uma combinação por conveniência de ambas as partes: enquanto o barão encontra o capital necessário para montar uma plantação de café e poder continuar a viver em safaris de animais e de fortunas, Karen ganha um título nobilitário e uma pausa de reflexão em relação à sua vida na Dinamarca.
Em África, Karen Blixen descobrirá um continente fascinante, envolto numa estranha magia, que a apaixona para todo o sempre, marcando, daí para a frente, toda a sua vida e produção literária. Quando, em 1931, regressa à Dinamarca, depois de mais de 15 anos no continente africano, um dos seus trabalhos literários de maior repercussão será precisamente “Out of Africa”, um volume de pequenas histórias, recordações, episódios vividos ou imaginados, obra que está na origem do filme de Sydney Pollack. Este, no entanto, não se contenta em adaptar “Out of Africa”, mas conjuga-a com outros textos da mesma escritora; e ainda com obras biográficas como “Isak Dinesen: The Life of a Storyteller”, de Judith Thurman, ou “Silence Will Speak: A Study of the Life of Denys Finch Hatton and His Relationship With Karen Blixen”, de Errol Trzebinski. O resultado final será uma amálgama de referências que permitem reconstituir aspectos da vida desta mulher que atravessou o continente africano numa época particularmente reveladora (entre 1914 e 1931), mas esboçar, igualmente, um quadro impressionista e romanesco (pode mesmo ir-se mais longe e falar-se de romantismo) da sua paisagem geográfica e humana. É evidente, porém, que a África nunca funciona de forma autónoma, mas como cenário condicionante de uma vida. Cenário, todavia, trabalhado com o necessário rigor histórico, político e sociológico, que se pressente por detrás do tema central de Pollack. A protagonista é Karen e é através dela que tudo o mais surge, é através dos seus olhos que tudo é visto. Donde a justificação da “voz off”, que funciona como elemento unificado e descritivo conferindo a toda a toada da obra um tom memorialista.


Donde também essa sensação de “perda” de que todo o filme está imbuído, como contraponto a uma figura de obstinada pertinácia, de combate, de luta, de conquista. Mas tudo o que Karen toca parece esboroar-se e perder-se. Todo o filme se organiza, aliás, em função das sequências iniciais, passadas na Dinamarca, nas quais Karen confessa a perda da virgindade, ofertada a um amante que agora a ignora. Daí em diante, Karen vai procurar “conquistar”, um pouco como consequência lógica dessa “perda” original que a marca: ela compra um título, um marido, uma plantação, uma fábrica; ela quer um filho, um amante, de novo um marido; ela procura domesticar África, calçando luvas brancas nos empregados negros, desviando o curso dos rios, curando os nativos feridos, europeizando-lhe as roupas. Mas em tudo falha. O resultado é sempre uma perda (o filho que não pode ter; o marido de quem se divorcia; um outro que rejeita o casamento como acto de posse de um sobre outro; a fábrica que arde num incêndio; a África que não consegue dominar). Karen vai perdendo tudo, mas ganhando intimamente, enriquecendo-se em experiência e sabedoria. Retira as luvas brancas aos criados negros, e deixa o rio circular livremente no seu leito natural. Irá mesmo lutar por uma terra para os nativos que são desalojados das suas propriedades. Denys, o homem que ela não conseguiu conquistar, acabará por ser aquele que para sempre a marcará, precisamente porque foi o único que não a conseguiu compreender na sua complexidade (isto é, o único que se furtou ao seu enquadramento mental). Enquanto figura de mulher, Karen aproxima-se bastante da personagem de Scarlet O'Hara, de “E Tudo o Vento Levou”, e este paralelismo vale igualmente para o próprio tom romanesco da obra, que se aproxima da película de Victor Fleming, da mesma forma que se cruza com “Viagem para a Índia”, de David Lean. Em todas elas existe esse jogo de poder expresso a vários níveis, tecido em relações de forte acento sexual. Aliás, “África Minha” faz-nos comparticipar desse intenso clima erótico, sensual. Admiravelmente desenhado pela narrativa suave, discreta, mas vigorosa, intimista, quase mágica que Sydney Pollack imprime a toda a película numa evidente manifestação de mestria, de estilo dominado e austero, de rigor, de serenidade expositiva. Uma última palavra para a excelência da representação, acentuando-se não só o brilhantismo de Meryl Streep mas igualmente de Robert Redford e Klaus Maria Brandauer. Referência ainda à fotografia de David Watkin e à música de John Barry. Todos eles muito bem representados nos diversos Oscars e nomeações que a obra justificou. Estatuetas foram para Melhor Filme, Melhor Realizador (Sydney Pollack), Melhor Argumento Adaptado (Kurt Luedtke), Melhor Fotografia (David Watkin), Melhor Direcção Artística (Stephen B. Grimes, Josie MacAvin), Melhor Som (Chris Jenkins, Gary Alexander, Larry Stensvold, Peter Handford) e ainda Melhor Musica Original (John Barry). Meryl Streep ficou-se pela nomeação, bem como Klaus Maria Brandauer, nomeações que ainda sublinharam o trabalho de guarda-roupa e montagem. De resto, o filme anda ganhou dezenas e dezenas de outras distinções e muitos outros prémios.


ÁFRICA MINHA
Título original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1985); Argumento: Kurt Luedtke, segundo Karen Blixen ("Out of Africa" e outros escritos), Judith Thurman ("Isak Dinesen: The Life of a Story Teller") e Errol Trzebinski ("Silence Will Speak"); Produção: Anna Cataldi, Terence A. Clegg, Kim Jorgensen, Sydney Pollack, Judith Thurman; Música: John Barry; Fotografia (cor): David Watk; Montagem: Pembroke J. Herring, Sheldon Kahn, Fredric Steinkamp, William Steinkamp; Casting: Mary Selway; Design de produção: Stephen B. Grimes; Direcção artística: Colin Grimes, Cliff Robinson, Herbert Westbrook; Maquilhagem: J. Roy Helland, J. Roy Helland, Norma Hill, Mary Hillman, Joyce James, Gary Liddiard, Vera Mitchell; Direcção de Produção: Robin Forman Howard, Gerry Levy; Assistentes de realização: Roy Button, Jack Couffer, Patrick Kinney, George Menoe, Meja Mwangi, Tom Mwangi, David Tomblin, Simon Trevor, Lee Cleary, Michael Zimbrich; Departamento de arte: Bert Hearn, Geoff Langley, Frank Billington-Marks; Som: Gary Alexander, Peter Handford, Chris Jenkins, William L. Manger, Tom McCarthy Jr., Larry Stensvold, John Stevenson; Efeitos especiais: David Harris; Efeitos visuais: Syd Dutton, Mark Freund, Steve Gawley, Michael Gleason, Jay Riddle; Companhias de produção: A Mirage Enterprises Production / A Sydney Pollack Film; Universal Pictures Limited; Intérpretes: Meryl Streep (Karen), Robert Redford (Denys), Klaus Maria Brandauer (Bror), Michael Kitchen (Berkeley), Malick Bowens (Farah), Joseph Thiaka (Kamante), Stephen Kinyanjui (Kinanjui), Michael Gough (Delamere), Suzanna Hamilton (Felicity), Rachel Kempson (Lady Belfield), Graham (Lord Belfield), Leslie Phillips (Sir Joseph), Shane Rimmer, Mike Bugara, Job Seda, Mohammed Umar, Donal McCann, Kenneth Mason, Tristram Jellinek, Stephen B. Grimes, Annabel Maule, Benny Young, Sbish Trzebinski, Allaudin Qureshi, Niven Boyd, Peter Strong, Abdulla Sunado, Amanda Parkin, Muriel Gross, Ann Palme, Keith Pearson, etc. Duração: 161 minutos; Distribuição em Portugal: Universal (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 28 de Fevereiro de 1986.


MERYL STREEP (1949 - )
Há muita gente que a considera a maior actriz viva. A Academia de Hollywood parece dar-lhes razão. Já a nomeou por 19 vezes para o Oscar de Melhor Actriz, tendo vencido por três vezes. Um “case study”, como é agora moda dizer-se. As nomeações: “The Deer Hunter” (1978), “Kramer vs. Kramer” (1979, ganhou, como actriz secundária), “The French Lieutenant's Woman” (1981), “Sophie's Choice” (1982, ganhou), “Silkwood” (1983), “Out of Africa” (1985), “Ironweed” (1987), “Evil Angels” (1988), “Postcards from the Edge” (1990), “The Bridges of Madison County” (1995), “One True Thing” (1998), “Music of the Heart” (1999), “Adaptation” (2002), “The Devil Wears Prada” (2006), “Doubt” (2008), “Julie & Julia” (2009), “The Iron Lady” (2011, ganhou), “August: Osage County” (2013) e “Into the Woods” (2014). Mas não são só os Oscars. Ela é seguramente das actrizes mais premiadas de sempre. 29 nomeações para os Globos de Ouro, que venceu por oito vezes, também novo recorde. Recebeu igualmente dois Emmys, dois Screen Actors Guild Awards, o prémio de melhor actriz no Festival de Cannes e no Festival de Berlim, cinco prémios do New York Film Critics Circle, dois BAFTA, dois Australian Film Institute Award, quatro indicações ao Grammy Award e uma indicação ao Tony Award, deixando de lado dezenas e dezenas de outros trofeus e distinções.
Mary Louise Streep nasceu a 22 de Junho de 1949, em Bernardsville, Summit, New Jersey, EUA. Os pais foram Harry William Streep, Jr., ligado à indústria farmacêutica, com ascendência alemã e suíça, e Mary Wolf, uma artista com ancestros de raízes inglesas, irlandesas e alemães.
Estudou no Bernards High School e depois no Vassar College, onde chegou a ser aluna da actriz Jean Arthur. Foi estudante do Dartmouth College e fez mestrado em Artes Dramáticas na Universidade de Yale, curso durante o qual participou de várias montagens teatrais, como “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare. Participou em diversos elencos em Nova Iorque e New Jersey, em peças como “Henry V”, “The Taming of the Shrew” ou “Measure for Measure”. Conheceu John Cazale, com quem viveu até à morte deste, três anos depois. Na Broadway lançou-se no musical “Happy End”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. No cinema, desponta em “Julia” (1977), e no ano seguinte, em “The Deer Hunter”, sendo particularmente notada e recebendo a sua primera nomeação para o Oscar. Nesse mesmo ano, surge na minissérie “Holocausto”, que lhe trouxe reputação nacional e internacional. Ganhou o Emmy para Melhor Actriz. Este foi o início fulgurante de uma carreira imparável. Em “Out of Africa” (1985) Meryl Streep interpretou a escritora dinamarquesa Karen Blixen. Sydney Pollack, o realizador, de início não a considerava a actriz ideal, por não a achar suficientemente sexy para a personagem. Ele pensava em Audrey Hepburn. Meryl não desarmou, apresentou-se no encontro com Pollack com sutiã com generoso postiço e bem decotado. Ganhou o papel. Em 1995, Streep contracenou com Clint Eastwood em “The Bridges of Madison County”, outro enorme sucesso. Mas o seu maior êxito comercial apareceria em 2008, com o musical “Mamma Mia!”, uma adaptação do musical da Broadway com canções do grupo sueco ABBA, que arrecadou 602,6 milhões de dólares, a maior receita entre os musicais de todos os tempos.
Recebeu o prémio honorário do American Film Institute em 2004 e o Kennedy Center Honor em 2011, ambos pela sua contribuição para a cultura dos Estados Unidos através das artes performativas, sendo a mais jovem artista da história a receber tal distinção. Foi condecorada por duas vezes pelo presidente Barack Obama, em 2010 e 2014, com a Medalha Nacional das Artes e a Medalha Presidencial da Liberdade, mais alta condecoração civil dos Estados Unidos.
Entre 1984 e 1990, ganhou seis People's Choice Awards para a melhor atriz cinematográfica, e em 1990 foi indicada como a "Melhor do Mundo". Em Setembro de 1998 recebeu uma estrela no Hall of Fame de Hollywood, localizada no número 7020 da Hollywood Boulevard. Quatro anos antes, em 1994, deixara a marca dos pés e mãos, além da assinatura frente ao Grauman's Chinese Theatre. Em 2007, juntamente com Bruce Springsteen e Frank Sinatra, foi inscrita no New Jersey Hall of Fame, onde se homenageiam personalidades de diversas áreas, do desporto à política, nascidos naquele estado e que contribuíram de maneira expressiva para a cultura mundial.
Meryl Streep viveu com o actor John Cazale durante os últimos três anos da vida deste, que morreria com um cancro nos ossos. Nas últimas semanas de vida de Cazale, a actriz mudou-se para o hospital onde diariamente lia o jornal para o companheiro, com a sonoridade de um comentador desportivo. Em Setembro de 1978, casou com o escultor Don Gummer. Em 2013, no agradecimento ao Oscar, Meryl dedicou o prémio ao marido. Disse: “Em primeiro lugar gostaria de agradecer a Don, porque quando se agradece ao marido no final do discurso, eles aumentam o volume da música e deixa de se ouvir e eu faço questão de que ele saiba que tudo que eu valorizo nas nossas vidas foi ele que me deu". Tiveram quatro filhos: Henry Wolfe Gummer, nascido em 1979; Mamie Gummer, nascida em 1983; Grace Gummer, nascida em 1986; e Louisa Jacobson Gummer, nascida em 1991. Tanto Mamie como Grace são actrizes, enquanto Henry é músico e actor.


Filmografia

Como actriz: 1975: Everybody Rides the Carousel, de John Hubley; 1977: Julia (Julia), de Fred Zinnemann; The Deadliest Season (TV); 1977-1979: Great Performances (TV); 1978: The Deer Hunter (O Caçador), de Michael Cimino; Holocaust (Holocausto), de Marvin J. Chomsky (TV); 1979: Manhattan (Manhattan), de Woody Allen; The Seduction of Joe Tynan (A Sedução de Joe Tynan), de Jerry Schatzberg; Kramer vs. Kramer (Kramer Contra Kramer), de Robert Benton; Uncommon Women... and Others de Merrily Rossman e Steven Robman (TV);1981: The French Lieutenant's Woman (A Amante do Tenente Francês), de Karel Reisz; 1982: Still of the Night (Na Calada da Noite), de Robert Bento; Sophie's Choice (A Escolha de Sofia), de Alan J. Pakula; Alice at the Palace (TV); 1983: Silkwood (Reacção em Cadeia), de Mike Nichols; 1984: Falling in Love (Encontro com o Amor), de Ulu Grosbard; Little Ears: The Velveteen Rabbit de Mark Sottnick (curta-metragem, narradora); In Our Hands (documentário); 1985: Plenty (Plenty, Uma História de Mulher), de Fred Schepisi; Out of Africa (África Minha) de Sydney Pollack; 1986: Heartburn (A Difícil Arte de Amar), de Mike Nichols; Rabbit Ears: The Tale of Mr. Jeremy Fisher (curta-metragem, narradora, vídeo); Rabbit Ears: The Tale of Peter Rabbit (curta-metragem, vídeo, narradora); 1987: Ironweed (Estranhos na Mesma Cidade), de Hector Babenco; The Tailor of Gloucester (curta-metragem, narradora, vídeo); 1988: A Cry in the Dark (Um Grito de Coragem), de Fred Schepisi; 1989: She-Devil (Demónio de Saias), de Susan Seidelman; Rabbit Ears: The Fisherman and His Wife (curta-metragem, narradora, vídeo); 1990: Postcards from the Edge (Recordações de Hollywood) de Mike Nichols; 1991: Defending Your Life (Em Defesa da Vida), de Albert Brooks; 1992: Death Becomes Her (A Morte Fica-vos Tão Bem), de Robert Zemeckis; 1993: The House of the Spirits (A Casa dos Espíritos), de Bille August; 1994: The River Wild (Rio Selvagem), de Curtis Hanson; Os Simpsons (TV); A Century of Cinema, de Caroline Thomas (documentário); 1995: The Bridges of Madison County (As Pontes de Madison County) de Clint Eastwood; 1996: Before and After (Antes e Depois), de Barbet Schroeder; Marvin's Room (Duas Irmãs) de Jerry Zaks; 1997: Juramento do Amor (TV); First Do No Harm, de Jim Abraham; 1998: Dancing at Lughnasa (Dançando em Lughnasa), de Pat O'Connor; One True Thing (Podia-te Acontecer), de Carl Franklin;1999: Music of the Heart (Melodia do Coração), de Wes Craven; King of the Hill (TV) - A Beer Can Named Desire; Ginevra's Story: Solving the Mysteries of Leonardo da Vinci's First Known Portrait (narração); Chrysanthemum (curta-metragem. Narração); 2001: Artificial Intelligence: AI (A.I. Inteligência Artificial) de Steven Spielberg; 2002: Adaptation. (Inadaptado), de Spike Jonze; The Hours (As Horas), de Stephen Daldry: 2003: Stuck on You (Agarrado a Ti), de Peter e Bobby Farrelly; Freedom: A History of Us (TV documentário); Angels in America (Anjos na América), de Mike Nichols (TV); 2004: The Manchurian Candidate (O Candidato da Verdade) de Jonathan Demme; Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events (Lemony Snicket's: Uma Série de Desgraças), de Brad Silberling; 2005: Prime (Terapia do Amor), de Ben Younger; 2006: The Music of Regret, de Laurie Simmons (curta-metragem); 2006: The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada), de David Frankel; A Prairie Home Companion (A Praire Home Companion - Bastidores da Rádio) de Robert Altman; Ant Bully (O Rapaz Formiga) de John A. Davis (voz); Hurricane on the Bayou, de Greg McGillivray (narradora) (documentário); 2007: Lions for Lambs (Peões em Jogo) de Robert Redford; 2008: The Magic 7 de Roger Holzberg; Rendition (Detenção Secreta), de Gavin Hood; Evening (Ao Anoitecer) de Lajos Koltai; Dark Matter (Matéria Negra), de Shi-Zheng Chen; Mamma Mia! (Mamma Mia!), de Phyllida Lloyd; Doubt (Dúvida), de John Patrick Shanley; Ribbon of Sand, de John Grabowska (documentário); Theater of War, de John W. Walter (documentário); 2009: Julie & Julia (Julie & Julia), de Nora Ephron; It's Complicated (Amar... é Complicado!), de Nancy Meyers; Fantastic Mr. Fox (O Fantástico Senhor Raposo), de Wes Anderson: (voz); 2010: Web Therapy (TV);2010 – 2012: Web Therapy (TV); 2011: The Iron Lady (A Dama de Ferro), de Phyllida Lloyd; 2012: Hope Springs (Terapia a Dois), de David Frankel; 2013: August: Osage County (Um Quente Agosto), de John Wells; 2014: The Homesman (The Homesman - Uma Dívida de Honra), de Tommy Lee Jones; Into the Woods (Caminhos da Floresta), de Rob Marshall; The Giver (The Giver - O Dador de Memórias), de Phillip Noyce; 2015: Suffragette (As Sufragistas), de Sarah Gavron; Ricki and the Flash (Ricki e os Flash), de Jonathan Demme; 2016: Florence Foster Jenkins, de Stephen Frears;

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

1 DE SETEMBRO DE 2015


OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM (1969)

Sydney Pollack foi, inquestionavelmente, um dos cineastas mais interessantes entre os revelados na década de 60, nos EUA. Filmes como “A Flor à Beira do Pântano”, “Caçadores de Escalpes”, “As Brancas Montanhas da Morte”, “Os Três Dias do Condor”, “Yakusa”, “Bobby Deerfield”, “Tootsie” ou “África Minha” testemunham bem a importância da contribuição de Pollack. “Os Cavalos Também se Abatem” data de 1969 e é outro dos seus triunfos, desta feita adaptando um excelente romance de Horace McCoy, um dos grandes escritores norte-americanos no domínio do “romance negro”. Ambientado em plena época da Grande Depressão económica nos EUA, “They Shoot Horses, Don't They?” é um documento impressionante sobre este período, desenrolando-se quase toda a obra no interior de um recinto onde decorre uma maratona de dança, verdadeiramente inumana na forma como é sustentada pelos concorrentes, na mira de atingirem uma avultada maquia, prometida a quem consiga estar mais tempo a dançar de forma ininterrupta. 1.500 dólares na altura devia ser uma importância considerável. Vários mitos da América são aqui abordados de forma lúcida e vigorosa, desde o espírito de competição até ao “struggle for life”, passando pelo sonho da abastança e da terra prometida.
Estamos na Califórnia, o Eldorado americano, para onde se dirigiam todos os que fugiam da miséria e do desemprego. Como se viu em “As Vinhas da Ira”. Não só as condições atmosféricas ajudavam, como existia ali a fábrica de sonhos que acalentava a esperança de muitos, sobretudo os mais jovens, com a expectativa de serem “descobertos”. Numa vasta tenda, com uma pista central e bancadas para o muito público que irá acorrer ao longo de dias e dias, o show vai começar. Diz-se um concurso. São cerca de centena e meia de pares que irão dançar consecutivamente, com intervalos de 10 minutos de duas em duas horas. O último par a resistir ganha a taluda. Há enfermeiras e médico que distribuirá aspirinas e pouco mais: “Pneumonia dupla é entre vocês e Deus”, anuncia o apresentador. “O relógio nunca pára.” “Se perderem o parceiro podem dançar durante 24 horas a solo, depois, se não arranjarem outro, serão desqualificados.”
Esta é “a maior maratona do mundo!”, que abre as portas da fama e da fortuna. “Sete refeições por dia” é também um bom argumento para muitos dos concorrentes. A dança inicia-se, primeiro em slow, depois mais agitado. Ao fim de 25 dias e de mais de 600 horas, já com muitos concorrentes pelo caminho, o teste de energia e resistência: uma corrida à volta da pista, extenuante, desumana, para isolar os três últimos que serão desqualificados. “Não precisam de ser o número um na estrada da vida, mas não sejam o último”. O marujo já de certa idade que concorre afirma que já “trabalhou em barcos de gado e é mais ou menos a mesma coisa”.


“Negócio, estritamente negócio”, proclama o apresentador. “Este é o tipo de acontecimento que atrai muitas pessoas. Hoje vamos ter gente de Hollywood. Fala-se em Le Roy, na altura um dos grandes cineastas de Hollywood. A determinada altura, o par que está a granjear maior simpatia entre o público é chamado à parte e fazem-lhe a proposta: “Casam-se em público e podem ganhar 200 dólares. Se não quiserem continuar casados podem divorciar-se logo no dia seguinte”.
1200 horas de dança, outra corrida à volta da pista. A maratona aproxima-se do fim. A cada nova corrida, um pequeno canhão é trazido para a pista para dar o sinal de partida. Um símbolo bélico para tornar mais real esta guerra. Como fazer dinheiro com a miséria dos outros. Como assistir à desgraça pública de alguém, para tornar mais suportável a miséria própria. As galerias estão cheias durante os dias, à noite decresce a multidão, para regressar no dia seguinte, ávida de novidades dramáticas. Há quem desista, quem tenha alucinações, quem morra na pista, quem se ofereça, quem aspire por um tiro na cabeça. Afinal, “os cavalos também se abatem”.
Retrato implacável de uma realidade cruel e violenta, na terra do espectáculo. Onde tudo é espectáculo. Onde tudo se compra e se vende. Ou quase tudo.
Actores notáveis, técnicos inspirados, todos se reúnem para fazer desta obra uma cavalgada empolgante, de ritmo vertiginoso, pela sobrevivência e a afirmação pessoal. Gig Young foi Oscar de Melhor Actor Secundário, e o filme recebeu mais oito nomeações: Jane Fonda, Melhor Actriz; Susannah York, Melhor Actriz Secundária; Harry Horner e Frank R. McKelvy, Melhor Direcção Artística; Donfeld, Melhor Guarda-roupa; Fredric Steinkamp, Melhor Montagem; James Poe e Robert E. Thompson, Melhor Argumento Adaptado; Johnny Green e Albert Woodbury, Melhor Música; e Sydney Pollack, Melhor Realizador. Outros prémios e nomeações se multiplicaram. Este é seguramente um dos mais lancinantes retratos da América da Grande Depressão, quando o presidente Herbert Hoover exclamava que “a prosperidade está ao virar da esquina”.
O filme não perdeu nenhuma actualidade e as maratonas de dança agora são transmitidas pela televisão em novos formatos. Big Brother e muitas outras “casas” e “segredos” são agora o negócio, onde tudo se vende e tudo se compra.


OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM
Titulo original: They Shoot Horses, Don’t They?
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1969); Argumento: James Poe, Robert E. Thompson, segundo romance de Horace McCoy (“They Shoot Horses, Don’t They?”); Produção: Robert Chartoff, Johnny Green, Theodore B. Sills, Irwin Winkler; Fotografia (cor): Philip H. Lathrop; Montagem: Fredric Steinkamp; Casting: Lynn Stalmaster; Design de produção: Harry Horner; Decoração: Frank R. McKelvy; Guarda-roupa: Donfeld; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, Frank McCoy; Direcção de produção: Edward Woehler; Assistentes de realização: Al Jennings, Joel Chernoff, Lynn Guthrie; Som: Norval D. Crutcher, Tom Overton, Tex Rudloff; Companhias de produção: American Broadcasting Company, Palomar Pictures; Intérpretes: Jane Fonda (Gloria Beatty), Michael Sarrazin (Robert Syverton), Susannah York (Alice LeBlanc), Gig Young (Rocky), Red Buttons (Harry ‘Sailor’ Kline), Bonnie Bedelia (Ruby), Michael Conrad (Rollo), Bruce Dern (James), Al Lewis, Robert Fields, Severn Darden, Allyn Ann McLerie, Madge Kennedy, Jacquelyn Hyde, Felice Orlandi, Art Metrano, Gail Billings, Lynn Willis, Maxine Greene, Mary Gregory, Robert Dunlap, Paul Mantee, Tim Herbert, Tom McFadden, Noble ‘Kid’ Chissel, etc. Duração: 120 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição e Portugal (DVD): Cine Digital.


JANE FONDA (1937 - )
Lady Jayne Seymour Fonda é o nome de baptismo desta actriz que nasceu a 21 de Dezembro de 1937, em Nova Iorque, EUA. Os pais foram o actor Henry Fonda, um dos maiores da sua geração, e a muito conhecida Frances Seymour Brokaw, uma das presenças mais cobiçadas das festividades nova-iorquinas. Frances Seymour Brokaw suicidou-se quando Jane Fonda tinha 21 anos. Jane Fonda tem como irmão o também actor Peter Fonda e é tia de uma outra actriz, Bridget Fonda. Com esta família parecia escrita deste muito nova a carreia de Jane Fonda. Na verdade, estreia-se no teatro ao lado do pai, em 1954, numa produção teatral dirigida por Joshua Logan, "The Country Girl", no Omaha Community Theatre. Em 1958, já se encontra matriculada no Actors Studio, às ordens de Lee Strasberg. Em “Garota Apimentada” (1960) é de novo Joshua Logan que apadrinha desta feita a sua estreia no cinema, onde irá interpretar um importante conjunto de filmes, que merecerão dois Oscars da Academia de Hollywood, para “Klute” (1971) e “O Regresso dos Heróis” (1978), além de mais cinco nomeações em “Os cavalos Também Se Abatem” (1969), “Julia” (1977), “O Síndroma da China” (1979), “A Manhã Seguinte” (1986) e “A Casa do Lago” (1981).
Se a sua carreira profissional foi uma sucessão de sucessos, a sua vida emocional e as suas actividades políticas e sociais causaram profunda polémica. Foi casada com o realizador francês Roger Vadim (1965 - 1973), depois com o activista político Tom Hayden (1973 - 1990), finalmente com o produtor Ted Turner (1991 - 2001). Todos os casamentos terminaram em divórcios. Durante muitos anos dedicou-se a campanhas pelos direitos civis, pela emancipação da mulher ou contra a guerra do Vietname. Chegou a ser presa em 1970. No início da década de 80, iniciou uma nova cruzada, esta com base na aeróbica, publicando "Jane Fonda's Workout Book" e alguns vídeos que tiveram grande sucesso. Em 1995, a revista Empire publicou um inquérito sobre as “100 Sexiest Stars” e Jane Fonda aparece em 21º lugar. A mesma revista, dois anos depois, quis saber quais eram "The Top 100 Movie Stars of All Time" e Jane Fonda foi a 83ª da lista. A revista Première coloca-a, entretanto, em 32º lugar na sua lista das “Greatest Movie Stars of All Time” (2005). Escreveu uma autobiografia, "My Life So Far". Para lá de Oscars e nomeações, Jane Fonda ganhou imensas outras distinções e prémios em festivais e manifestações afins.


Filmografia
Como actriz: Cinema: 1960: Tall Story (Garota Apimentada), de Joshua Logan; 1962: Walk on the Wild Side (Restos de Um Pecado), de Edward Dmytryk; The Chapman Report (A Vida Íntima de Quatro Mulheres), de George Cukor; Period of Adjustment (A Arte de Bem Casar), de George Roy Hill; 1963: In the Cool of the Day (Ânsia de Amar), de Robert Stevens; Sunday in New York (Um Domingo em Nova Iorque), de Peter Tewksbury; 1964: Les Félins (A Jaula do Amor), de René Clément; La Ronde (A Ronda do Amor), de Roger Vadim; 1965: Cat Ballou (Mulher Felina), de Elliot Silverstein; 1966: The Chase (Perseguição Impiedosa), de Arthur Penn; La Curée (Queda no Abismo), de Roger Vadim; Any Wednesday (Livre à Quarta-Feira), de Robert Ellis Miller; 1967: Barefoot in the Park (Descalços no Parque), de Gene Saks; 1967: Hurry Sundown (O Incerto Amanhã), de Otto Preminger; 1968: Histoires extraordinaires (Histórias Extraordinárias), episódio “Metzengerstein”, de Roger Vadim; 1968: Barbarella (Barbarella), de Roger Vadim; They Shoot Horses, Don't They? (Os Cavalos Também Se Abatem), de Sydney Pollack; 1971: Klute (Klute), de Alan J. Pakula; 1972: Tout va bien (Tudo Vai Bem), de Jean-Luc Godard, Jean-Pierre Gorin; FTA, de Francine Parke; 1973: Steelyard Blues (Com Um Pé Fora da Lei), de Alan Myerson; 1973: A Doll's House (A Casa da Boneca), de Joseph Losey; 1976: The Blue Bird (O Pássaro Azul), de George Cukor; 1977: Fun with Dick and Jane (Adivinhe Quem Vem Para Roubar), de Ted Kotcheff; Julia (Julia), de Fred Zinnemann; 1978: Coming Home (O Regresso dos Heróis), de Hal Ashby; Comes a Horseman (Uma Mulher Implacável) de Alan J. Pakula; California Suite (Um Apartamento na Califórnia), de Herbert Ross; 1979: The China Syndrome (O Síndroma da China), de James Bridges; 1980: The Electric Horseman (O Cowboy Eléctrico), de Sydney Pollack; Nine to Five (Das 9 às 5), de Colin Higgins; 1981: On Golden Pond (A Casa do Lago), de Mark Rydell; Sois belle et tais-toi, de Delphine Seyrig (documentário); 1981: Rollover (A Face do Poder), de Alan J. Pakula; 1985: Agnes of God (Agnes de Deus), de Norman Jewison; 1986: The Morning After (A Manhã Seguinte), de Sidney Lumet; 1987: Leonard Part 6 ,de Paul Weiland; 1989: Old Gringo (O Velho Gringo), de Luis Puenzo; 1990: Stanley and Iris (Para Iris, com Amor), de Martin Ritt; 1994: A Century of Cinema, de Caroline Thomas (documentário); 2002: Searching for Debra Winger, de Rosanna Arquette (documentário); 2004: Tell Them Who You Are, de Mark Wexler (documentário); 2005: Monster-in-Law (Uma Sogra de Fugir),  de Robert Luketic; 2007: Georgia Rule (Regras Para Ser Feliz), de Garry Marshall; 2011: Peace, Love and Misunderstanding (Paz, Amor e Outras Confusões), de Bruce Beresford; 2012: Et si on vivait tous ensemble? (E Se Vivêssemos Todos Juntos?), de Stéphane Robelin; 2013: The Butler (O Mordomo) de Lee Daniels; 2014: Better Living Through Chemistry (Viver Melhor à Base de Químicos) de Geoff Moore e David Posamentier; This Is Where I Leave You (Sete Dias Sem Fim), de Shawn Levy; 2015: La giovinezza, de Paolo Sorrentino; Fathers and Daughters, de Gabriele Muccino; Krystal, de William H. Macy.

Televisão: 1962: A String of Beads; 1981: Lily: Sold Out; 1984: The Dollmaker, de Daniel Petrie; 2012: The Newsroom de Aaron Sorkin; 2014: Os Simpsons; 2015: Grace and Frankie; 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

18 DE AGOSTO DE 2015


FLOR À BEIRA DO PÂNTANO (1966)

Tennessee Williams é o autor da peça, em um acto, onde “se inspira” esta obra de Sydney Pollack, com guião escrito por Francis Ford Coppola, de colaboração com Fred Coe, Edith R. Sommer e David Rayfiel, este não creditado no genérico. A peça é curta, dez páginas, 20 minutos e pouco de representação, e vive unicamente do diálogo entre dois miúdos, ela, Willie, cerca de 13 anos, ele, Tom, um pouco mais velho, 16 anos, por aí. Ela tenta equilibrar-se nos velhos carris de caminho-de-ferro de uma estação abandonada, com os ferros carcomidos pela ferrugem, levando entre as mãos uma boneca a desfazer-se, ele é adepto de papagaios que voam pelo céu. Conversam e ela conta porque vive sozinha, numa casa que ostenta um letreiro que diz tudo sobre o que se passou e o que há-de vir, dando igualmente um significado à peça e ao filme dela retirado: “This Property Is Condemned”. Esta propriedade é a terra, a casa e os velhos habitantes daquela casa. Todos condenados. Estamos nos anos 30, na Grande Depressão nos EUA, na pequena povoação de Dodson, no estado do Mississípi. Aqui acaba esta desencantada e cruel peça de teatro.
O filme encarrega-se de reinventar a história que Willie conta, agora não só por palavras, mas através de um flashback, onde ficamos a conhecer Alva (Natalie Wood), irmã de Willie, e principal atração da terra. Ela e a mãe, Hazel Starr (Kate Reid), que dirigem uma pensão, meia saloon, meio salão de festas e quase bordel. No filme também é Willie Starr (Mary Badham) quem inicia a contagem da história, falando com Tom (Jon Provost), mas depois, através de uma viagem pelos carris dos caminhos-de-ferro, precipitamo-nos no passado, para conhecer a história de Alva, a belíssima rapariga que agrada a todos e a todos procura agradar, numa terra que vive da estação de comboios e do que lhe está associado.
É a essa terra que chega Owen Legate (Robert Redford), que se aloja na pensão Starr, onde participa, um pouco à distância, na festa de anos da Mãe Hazel Starr, que distribui beijos e carícias pelas visitas. Entre elas, J.J. Nichols (Charles Bronson), que se deita com a mãe enquanto espera pela filha. Mas Alva parece estar “reservada” pela mãe a um velho e rico cidadão, o Senhor Johnson (John Harding), que oferece pulseiras de diamantes e ouro, viagens e promete apartamento em Chicago. O ambiente é este, falta dizer que Alva se perde de amores por Owen Legate, sem saber que este vem com a incumbência de reorganizar o caminho-de-ferro, emagrecendo a empresa, retirando gorduras, enfim, despedindo pessoal. Estamos nos anos 30 na Grande Depressão, tal como depois de 2008, na Crise actual. Robert Redford é aqui o equivalente a George Clooney, em “Nas Nuvens”, com despedimentos cara a cara (e soco na cara), o que depois se passa a realizar através de uma muito mais higiénica “videoconferência”. Evoluções tecnológicas que não disfarçam o essencial.


Depois há muitas mais peripécias que não convém revelar, mas deve dizer-se que esta adaptação de Tennessee Williams, que acrescenta uma hora e vinte à duração da sua peça, é bastante bem feita no essencial, criando um ambiente que tem tudo a ver com o autor de “Um Eléctrico Chamado Desejo” e outras grandes obras teatrais, e desenvolvendo personagens absolutamente coerentes com o universo do dramaturgo. Alva é obviamente uma personagem de Tennessee Williams, poderia mesmo dizer-se que anda em tirocínio para a Blanche Dubois de “A Streetcar Named Desire”. Ao que consta, Tennessee Williams não teria gostado muito do filme, mas este tem essa toada desesperadamente poética, de solidão e sofrimento psicológico, com figuras que aspiram às estrelas e à felicidade absoluta, e se encontram presas numa terra de ninguém que as sufoca e se veem despojadas de tudo, arrastadas na lama, vivendo sonhos impossíveis que se transformam em traumas e frustrações causticantes. Tal como o afirma a canção preferida de Alva, que é cantada por Willie, que assim passa para si os sonhos irrealizados da irmã. Os sonhos ficam, mas os espectadores percebem que o equilíbrio nos carris não conduzirá a nada, a não ser a um horizonte fechado na paisagem. Não haverá nem Chicago nem New Orleans.
O filme poderá ter, aqui e ali, uma ou outra falha, sobretudo quando entra numa toada romantizada, quase no final, mas é um excelente retrato de uma época povoada por personagens bem defendidos por actores míticos. Natalie Wood tem aqui um dos seus grandes papéis, entre a fragilidade e a resistência perante a adversidade, Robert Redford mostra-se já um grande actor e uma presença impactante, mas creio que Kate Reid e Mary Badham merecem ainda destaque especial. O mesmo se dirá para a banda sonora de Kenyon Hopkins e a fotografia de James Wong Howe.
Esta é a segunda longa-metragem de Sydney Pollack, recém-saído dos estúdios de televisão onde fizera tirocínio para voos mais altos, entre 1961 e 1965. “Chamada Para a Vida” ("The Slender Thread) assinala a sua estreia na longa-metragem, mas será “This Property Is Condemned” a projectá-lo definitivamente para uma carreira de grande cineasta, autor de obras essenciais como “Os Cavalos Também se Abatem”, “As Brancas Montanhas da Morte”, “O Nosso Amor de Ontem”, “Yakuza”, “Os Três Dias do Condor”, “O Cowboy Eléctrico”, “A Calúnia”, “Tootsie - Quando Ele Era Ela”, “África Minha”, “A Firma”, “Sabrina” ou “Encontro Acidental”, entre outros. Mas “This Property Is Condemned” não lhe esteve reservado desde início. O filme era para ser interpretado por Elizabeth Taylor e Richard Burton, com este último a realizar. Depois, já com Natalie Wood na protagonista, passou para as mãos de John Huston, de John Frankenheimer, até chegar a Pollack, um pouco por influência de Robert Redford. 

FLOR À BEIRA DO PÂNTANO
Título original: This Property Is Condemned
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1966); Argumento: Francis Ford Coppola, Fred Coe, Edith R. Sommer, David Rayfiel, segundo peça teatral de Tennessee Williams; Produção: John Houseman, Ray Stark; Música: Kenyon Hopkins; Fotografia (cor): James Wong Howe; Montagem: Adrienne Fazan; Design de produção: Stephen B. Grimes; Direcção artística: Philip M. Jefferies, Hal Pereira; Decoração: William Kiernan; Guarda-roupa: Edith Head; Maquilhagem: Sugar Blymyer, Edwin Butterworth, Gary Morris, Wally Westmore; Direcção de Produção: Clarence Eurist; Assistentes de realização: Eddie Saeta;  Som: Charles Grenzbach, Harry Lindgren; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Paul K. Lerpae; Companhias de produção: Paramount Pictures, Seven Arts Productions; Intérpretes: Natalie Wood (Alva Starr), Robert Redford (Owen Legate), Charles Bronson (J.J. Nichols), Kate Reid (Hazel Starr), Mary Badham (Willie Starr), Alan Baxter (Knopke), Robert Blake (Sidney), Dabney Coleman, John Harding, Ray Hemphill, Brett Pearson, Jon Provost, Robert Random, Quintin Sondergaard, Mike Steen, Bruce Watson, Ralph Roberts, Nick Stuart, etc. Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo Audiovisuais / Paramount (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos.


NATALIE WOOD (1938 - 1981)
Foi um dos rostos da juventude em fúria, ou do conflito de gerações entre meados dos anos 50 e meados da década de 60, em obras essenciais, como “Rebel Without a Cause”, de Nicholas Ray; “The Searchers”, de John Ford; “West Side Story”, de Jerome Robbins e Robert Wise, “Splendor in the Grass”, de Elia Kazan; “ Love with the Proper Stranger” ou “Inside Daisy Clover”, ambos de Robert Mulligan. Belíssima, tocante na sua fragilidade, foi uma actriz excelente, que a morte colheu precocemente e de forma muito misteriosa.
Natasha Nikolaevna Zakharenko ou Natasha Nikolaevna Gurdin, nome de baptismo de Natalie Wood, nasceu a 20 de Julho de 1938, em San Francisco, Califórnia, EUA, e viria a falecer a 29 de Novembro de 1981, com 43 anos, na Ilha de Santa Catalina, Califórnia, EUA. Em 1943, com apenas quatro anos de idade, Natalie Wood estreia-se no cinema, nos filmes “The Moon Is Down” e “Happy Land”. Como actriz infantil, participa em muitas obras, inclusive no clássico natalício, “Miracle on 34th Street” (1947). A partir de 1955, com 17 anos, Natalie lança-se numa carreira adulta, no filme de Nicholas Ray, “Fúria de Viver”, ao lado de outros jovens como James Dean e Sal Mineo. Segundo Suzanne Finstad, autora de “Natasha: The Biography of Natalie Wood”, publicado em 2001, Natalie Wood terá tido uma relação com o realizador Nicholas Ray, para conseguir o papel de protagonista. Depois do sucesso de “Rebel Without a Cause”, protagoniza um conjunto de filmes onde impõe a sua beleza, elegância e talento, entre os quais é justo destacar “The Searchers”, “Splendor in the Grass”, “West Side Story”, “Love with the Proper Stranger”, “Sex and the Single Girl”, “The Great Race”, “Inside Daisy Clover”, ou “This Property Is Condemned”, ao mesmo tempo que mantinha uma continua actividade na televisão. Em 1981, enquanto decorriam as filmagens de “Brainstorm”, com Christopher Walken, faleceu num acidente estranho e nunca totalmente esclarecido. Em Novembro desse ano, enquanto navegava num iate, com o marido, Robert Wagner, e o colega de ambos, Christopher Walken, morreu afogada. Tinha 43 anos de idade. Encontra-se sepultada no Westwood Memorial Park, Los Angeles, Califórnia.
Nomeada para o Oscar de Melhor Actriz por três vezes: 1955 - Rebel Without a Cause; 1961 - Splendor in the Grass; e 1963 - Love with the Proper Stranger; Golden Globe: Melhor Actriz de TV (Drama): 1980 - From Here To Eternity. Casada por duas vezes com Robert Wagner (1957 - 1962) e (1972 - 1981) e ainda com Richard Gregson (1969 - 1972).



Filmografia
Como actriz: Cinema: 1943: The Moon Is Down (Noite sem Lua), de Irving Pichel; Happy Land (Terra Sagrada), de Irving  Michel; 1946: The Bride Wore Boots, de Irving Pichel; Tomorrow Is Forever (Amanhã Viveremos), de Irving Pichel; 1947: Driftwood, de Allan Dwan; The Ghost and Mrs. Muir (O Fantasma Apaixonado), de Joseph L. Mankiewicz; Miracle on 34th Street (De Ilusão Também Se Vive), de George Seaton; 1948: Scudda Hoo! Scudda Hay! (Encanto da Mocidade), de F. Hugh Herbert; 1949: Father Was a Fullback, de John M. Stahl; The Green Promise (Terra de Promissão), de William D. Russell; Chicken Every Sunday, de George Seaton; 1950: Never a Dull Moment (Convite ao Amor), de George Marshall; The Jackpot (Cautela com os Fiscais), de Walter Lang; Our Very Own (Entre Duas Mães), de David Miller; No Sad Songs for Me (Destino Amargo), de Rudolph Maté; 1951: The Blue Veil (O Véu Azul), de Curtis Bernhardt; Dear Brat, de William A. Seiter; 1952: The Star (A Estrela), de Stuart Heisler; Just for You' (Só Para Ti), de Elliott Nugent; The Rose Bowl Story, de William Beaudine; 1954: The Silver Chalice (O Cálice de Prata), de Victor Saville; 1955: Rebel Without a Cause (Fúria de Viver), de Nicholas Ray; One Desire (Um Só Desejo), de Jerry Hopper; 1956: The Girl He Left Behind (Quero-te, mas Deixa-me), de David Butler; The Burning Hills (O Monte do Desespero), de Stuart Heisler; A Cry in the Night (Um Grito na Escuridão), de Frank Tuttle; The Searchers (A Desaparecida), de John Ford; 1957: Bombers B-52 (Bombardeiro B-52), de Gordon Douglas; 1958: Kings Go Forth (Só Ficou a Saudade), de Delmer Daves; Marjorie Morningstar (Fúria de Amar), de Irving Rapper; 1960: All the Fine Young Cannibals (Escândalo na Sociedade), de Michael Anderson; Cash McCall (O que são as Mulheres), de Joseph Pevney ; 1961: West Side Story (Amor Sem Barreiras), de Jerome Robbins e Robert Wise; Splendor in the Grass (Esplendor na Relva), de Elia Kazan; 1962: Gypsy (Gypsy), de Mervyn LeRoy; 1963: Love with the Proper Stranger (Amar Um Desconhecido), de Robert Mulligan; 1964: Sex and the Single Girl (A Solteira e o Atrevido), de Richard Quine; 1965: Inside Daisy Clover (O Estranho Mundo de Daisy Clover), de Robert Mulligan ; 1965: The Great Race (A Grande Corrida à Volta do Mundo), de Blake Edwards; 1966: Penelope (Os Prazeres de Penélope), de Arthur Hiller; 1966: This Property Is Condemned (Flor à Beira do Pântano), de Sydney Pollack; 1969: Bob & Carol & Ted & Alice (Bob & Carol & Ted & Alice), de Paul Mazursky; 1972: The Candidate (O Candidato), de Michael Ritchie (cameo); 1975: Peeper, de Peter Hyams; 1979: Meteor (Meteoro), de Ronald Neame; 1980: The Last Married Couple in America (Os Bem Casados), de Gilbert Cates; 1980: Willie & Phil (O Trio do Amor), de Paul Mazursky (cameo); 1983: Brainstorm (Projecto Brainstorm), de Douglas Trumbull;

Televisão: 1952: The Schaefer Century Theatre; Gruen Guild Playhouse; 1953: Jukebox Jury; The Pride of the Family; 1954: The Public Defender; Mayor of the Town; 1969: Bracken's World; 1973: The Affair; 1976: Cat on a Hot Tin Roof; 1978: Switch; 1979: Hart to Hart; From Here to Eternity; The Cracker Factory; 1980: The Memory of Eva Ryker; Willie & Phil.