sexta-feira, 29 de maio de 2015

9 DE JUNHO DE 2015


BELINDA, A ESCRAVA DO SILÊNCIO (1948)

Elmer Blaney Harris escreveu a peça de teatro que está na origem deste filme de Jean Negulesco. A peça parece ter sido inspirada em acontecimentos reais, ocorridos em Fortune Bridge, na Ilha do Príncipe Eduardo, onde o escritor tinha uma residência de verão. Elmer Blaney Harris, juntamente com Allen Vincent e Irma von Cube escreveram o argumento do filme, que teve um certo sucesso crítico aquando da sua estreia, apesar de o tema ser considerado “um veneno” de bilheteira.
Grande parte desse sucesso deve-se ao seu elenco, onde sobressai uma magnífica Jane Wyman, no papel de uma jovem surda-muda que atravessa momentos dramáticos na sua existência, mas que está bem acompanhada pelo restante elenco e inclusive pelos responsáveis técnicos. Se não, vejamos as nomeações para Oscars que recebeu nesse ano: Melhor Filme, Melhor Realizador (Jean Negulesco), Melhor Actor (Lew Ayres), Melhor Actor secundário (Charles Bickford), Melhor Actriz secundária (Agnes Moorehead), Melhor Argumento Adaptado, Melhor Fotografia (a preto e branco), Melhor Montagem, Melhor Som, Melhor Música, Melhor Direcção Artística (a preto e branco). Só Jane Wyman acabaria por ver reconhecido o seu talento, mas as 12 nomeações não deixam de ser significativas. Nos Globos de Ouro de 1949, Jane Wyman voltou a ganhar, mas “Johnny Belinda” seria igualmente consagrado como Melhor Filme do ano (juntamente com The Treasure of the Sierra Madre, de John Huston).
Este é um dos títulos de que guardo grata recordação dos meus tempos de criança, quando o vi pela primeira vez. No início da década de 50, Jane Wyman era uma das actrizes da minha particular estima, o que nunca esqueci. Esta recuperação é um tributo óbvio a essa memória. Presentemente é fácil reconhecer, todavia, que o filme justifica uma ampla atenção, mas está, quanto à sua realização, uns pontos abaixo de algumas obras deste mesmo período, dirigidas por cineastas com um outro elã (que não este relativo cinzentismo de Jean Negulesco). O que nos recoloca na ideia essencial: um filme interessante, é certo, um drama a resvalar para o melodrama, eficazmente contado e bem condimentado tecnicamente, mas uma obra impar fundamentalmente pelos actores que a interpretam, com Jane Wyman num desempenho absolutamente soberbo de contenção, de sobriedade, num papel que facilmente deslizaria para o rodriguinho fácil e o estereótipo. Uma contenção que iria manter ao receber o Oscar, proferindo o que se julga o mais curto discurso de aceitação da estatueta: "Ganhei este prémio mantendo a boca fechada e acho que vou fazê-lo novamente".


Inteiramente filmado na costa da Califórnia, EUA, a história “passa-se” todavia na ilha de Cape Breton, na Nova Escócia, uma província atlântica do Canadá, pouco tempo depois de terminada a II Guerra Mundial. Numa pequena aldeia de pescadores, vive Belinda McDonald (Jane Wyman), surda-muda, filha de Black McDonald (Charles Bickford), pai rude e vigoroso, dedicado ao trabalho e excessivamente protector e áspero na forma de tratamento. Em casa vive ainda a tia Aggie McDonald (Agnes Moorehead), que de alguma forma procura atenuar o ambiente. Belinda irá cruzar o seu destino com dois homens, Locky McCormick (Stephen McNally), que a irá violar numa noite de bebedeira, e um médico, o Dr Robert Richardson (Lew Ayres) que se interessa pelo seu caso, a ensina a comunicar, e acaba por ser acusado de ser o pai da criança que nasce da violação. Dizer mais do que isto, iria quebrar o interesse do desenlace da obra, mas por aqui se percebe já o tom melodramático do entrecho. Mas será muito justo, sublinhar ainda o trabalho de uma actriz, não nomeada, mas particularmente talentosa e que aqui tem igualmente um belíssimo trabalho: Jan Sterling, a jovem secretária do Dr Robert Richardson, por quem está apaixonada, e que acaba por se casar com Locky McCormick.
Casada com Ronald Reagan, que seria futuramente Presidente dos EUA, era Jane Wyman. Consta que o casamente se rompeu durante a rodagem de “Johnny Belinda” (divorciaram-se ainda em 1948), aparentemente por causa de uma paixão sua para com o seu par, Lew Ayres, mas este relacionamento não teve longa duração. De qualquer forma, Jane Wyman é a única ex-mulher de um Presidente dos EUA a ter recebido um Oscar. Depois deste período de grande relevo na carreira da actriz, esta só voltaria a ser muito popular, já na televisão, décadas depois, como um dos rostos da série “Falcon Crest”.

BELINDA, A ESCRAVA DO SILÊNCIO
Título original: Johnny Belinda
Realização: Jean Negulesco (EUA, 1948); Argumento: Irmgard VonCube, Allen Vincent, segundo peça teatral de Elmer Harris; Produção: Jerry Wald; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Ted D. McCord; Montagem: David Weisbart; Direcção artística: Robert M. Haas; Guarda-roupa: Milo Anderson, Marie Blanchard, Patricia Davidson, Eugene Joseff, Frank Ricci; Decoração: William Wallace; Maquilhagem: Perc Westmore, Betty Delmont, Frank McCoy; Direcção de Produção: Frank Mattison; Assistentes de realização: Mel Dellar, Lee White; Departamento de arte: Harry Goldman, Frederick Kuhn; Som: Charles Lang; Efeitos especiais: Edwin B. DuPar, William C. McGann; Companhia de produção: Warner Bros.; Intérpretes: Jane Wyman (Belinda McDonald), Lew Ayres (Dr. Robert Richardson), Charles Bickford (Black MacDonald), Agnes Moorehead (Aggie MacDonald), Stephen McNally (Locky McCormick), Jan Sterling (Stella McCormick), Rosalind Ivan (Mrs. Poggety), Dan Seymour, Mabel Paige, Ida Moore, Alan Napier, Barbara Bates, Monte Blue, James Craven, Franklyn Farnum, Creighton Hale, Jonathan Hale, Holmes Herbert, Charles Horvath, Douglas Kennedy, Blayney Lewis, Alice MacKenzie, Ray Montgomery, 'Snub' Pollard, Jeff Richards, Richard Walsh, Joan Winfield, Ian Wolfe, Frederick Worlock, etc. Duração: 102 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros. (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 9 de Janeiro de 1950.


JANE WYMAN (1917-2007)
De Jane Wyman tenho a boa recordação de a ver, no início da década de 50, era eu criança, em três filmes que não mais esqueci: “O Despertar”, “Belinda, a Escrava do Silêncio” e “O Véu Azul”, todos eles de uma emoção galopante que a actriz dominava brilhantemente. Manter fidelidade a paixões de adolescente parece-me de bom-tom, sobretudo depois de revisitadas as obras em questão e verificadas algumas das virtudes. 
Sarah Jane Mayfield era o seu nome de baptismo, com nascimento anunciado n o dia 5 de Janeiro de 1917, em St. Joseph, Missouri, EUA. Viria a falecer, com 90 anos, no dia 10 de Setembro de 2007, em Palm Springs, California, EUA, devido a complicações causadas por diabetes e artrites. Com os pais separados, Gladys Hope Christian e Manning Jefferies Mayfield, e órfã de pai aos oito anos, foi adoptada por uma família, e passou a assinar Jane Faulks. Tentou sem êxito por essa altura a carreira de actriz. Aos 15 anos, apareceu num número de dança, numa coreografia de Busby Berkeley, em “Toureiro à Força”. Passou pela Universidade do Missouri, em 1932, lançou-se depois numa carreira de cantora de rádio, mudando o nome para Jane Durrell. Apareceu em muitos filmes como simples figurante e, em 1936, assinou um contracto com a Warner Bros., passando a chamar-se Jane Wyman. Por essa altura, apareceu ao lado do seu futuro marido, Ronald Reagan, em “O Diabo São os Rapazes” (1938) e “Um Miúdo dos Diabos” (1940). Na década de 40, especializou-se em papéis de comédias e melodramas, como “Farrapo Humano” (1945), “O Despertar” (1946) (nomeação para o Oscar),“Belinda, a Escrava do Silêncio” (1948) (Oscar e Globo), “Pânico nos Bastidores” (1950), “A Sorte Bate à Porta” (1951), “The Story of Will Rogers” (1952) “Algemas de Cristal”(1950), “Só Para Ti” (1952), “O Véu Azul” (1951) (nova nomeação e segundo Globo), “Sublime Expiação” (1954) (quarta nomeação),   “Vida da Minha Vida” (1953), “Orgulho Contra Orgulho” (1955), “Tudo o Que o Céu Permite” (1955) ou “Milagre à Chuva” (1956). Dedicou-se muito intensamente à televisão, sobretudo em “Jane Wyman Presents The Fireside Theatre” (1955), nomeada por duas vezes como Melhor Actriz em série dramática (57 e 59), e algumas décadas depois, nos anos 80, na série “Falcon Crest”, novamente nomeada para um Globo de Ouro (1983) e vencedora do Globo em 1984. Nos anos 90, retirou-se para o seu Rancho Mirage, na Califórnia, tendo falecido com 90 anos, na sua casa de Palm Springs, em 2007. No Hollywood Walk of Fame, Jane Wyman possui duas estrelas, uma referente a cinema, junto ao nº6600 do Hollywood Boulevard, outra relativa a televisão, cerca do nº 1600 de Vine Street. Casada (e divorciada) cinco vezes, duas delas com o mesmo hmem: Ernest Eugene Wyman (1933 – 1935), Myron Futterman (1937 - 1938), Ronald Reagan (1940 - 1948), Fred Karger (1952 - 1954), Fred Karge (1961 - 1965).


Filmografia
Como actriz /cinema: 1932: The Kid from Spain (Toureiro à Força), de  Leo McCarey; 1933: Gold Diggers of 1933 (Orgia Dourada), de Mervyn LeRoy; Elmer, the Great, de Mervyn LeRoy; 1934: College Rhythm, de Norman Taurog; Harold Teen, de Murray Roth; 1935: Broadway Hostess, de Frank McDonald; Stolen Harmony, de Alfred L. Werker; George White's 1935 Scandals, de George White, Harry Lachman, James Tinling; All the King's Horses, de Frank Tuttle; Rumba, de Marion Gering; 1936: Cain and Mabel (Caim e Mabel), de Lloyd Bacon; King of Burlesque, de Sidney Lanfield; Freshman Love, de William C. McGann; Anything Goes, de  Lewis Milestone; Bengal Tiger (O Tigre de Bengala), de Louis King; 1936: The Sunday Round-Up (curta-metragem); My Man Godfrey (Doidos Milionários), de Gregory La Cava; Gold Diggers of 1937 (Revista Maravilhosa de 1937), de Lloyd Bacon; Polo Joe (O Campeão de Polo), de William C. McGann; Here Comes Carter, de  William Clemens; Stage Struck, de  Busby Berkeley; 1937: The King and the Chorus Girl (O Rei e a Corista), de Mervyn LeRoy; Smart Blonde, de Frank McDonald; Ready, Willing and Able, de Ray Enright; Slim, de  Ray Enright; Little Pioneer (curta-metragem); Over the Goal, de  Noel M. Smith, Mr. Dodd Takes the Air, de Alfred E. Green; Public Wedding, de Nick Grinde; The Singing Marine, de Ray Enright; 1938: The Crowd Roars (A Multidão Vibra), de Jean Daumery; Brother Rat (O Diabo São os Rapazes), de William Keighley; Fouls for Scandals (Escândalos de Amor), de Mervyn LeRoy, Bobby Connolly; He Couldn't Say No, de Lewis Seiler; The Spy Ring, de Joseph H. Lewis;  The Kid from Kokomo (Eu Quero a Mamã!...), de Lewis Seiler; Wide Open Faces (Hotel de Gangsters), de Kurt Neumann; 1939: Tail Spin (Águias de Glória), de Roy Del Ruth; Kid Nightingale, de George Amy; Private Detective, de Noel M. Smith; Torchy Blane.. Playing with Dynamite, de Noel M. Smith; Flight Angels (Anjos na Terra), de Lewis Seiler; 1940: Brother Rat anda Baby (Um Miúdo dos Diabos), de Ray Enright; Alice in Movieland (curta-metragem); 1940: My Love Came Back, de Curtis Bernhardt; Alice in Movieland (curta-metragem); Tugboat Annie Sails Again (Quando uma Mulher é Valente), de  Lewis Seiler; Gambling on the High Seas, de George Amy; An Angel from Texas, de Ray Enright;  1941: You're in the Army Now, de Lewis Seiler; Bad Men of Missouri, de Ray Enright; 1941: Honeymoon for Three (Lua-de-Mel para Três), de Lloyd Bacon; The Body Disappears, de D. Ross Lederman; 1942: My Favorite Spy (O Rei dos Detectives), de Tay Garnett; Larceny, Inc (Não Vale a Pena Roubar), de Lloyd Bacon; Footlight Serenade (Serenata da Alegria) de Gregory Ratoff; 1943: Princess O'Rourke (Sua Alteza Quer Casar), de Norman Krasna; 1944: The Doughgirls (O Hotel da Barafunda), de James V. Kern; Make Your Own Bed, de Peter Godfrey; Crime by Night, de William Clemens; Hollywood Canteen (Sonho em Hollywood), de Delmer Daves; 1945: The Lost Weekend (Farrapo Humano) de Billy Wilder; One More Tomorrow (Quero-te), de Peter Godfrey; 1946: The Yearling (O Despertar), de Clarence Brown; Night and Day (Fantasia Dourada), de Michael Curtiz; 1947: Cheyenne (Feras Sangrentas), de Raoul Walsh; Magic Town (A Cidade Mágica), de William A. Wellman; 1948: Johnny Belinda (Belinda, a Escrava do Silênio), de Jean Negulesco; 1949: A Kiss in the Dark (Um Beijo no Escuro), de Delmer Daves; It's a Great Feeling (Mademoiselle Fifi), de David Butler; 1949: The Lady Takes a Sailor (Até Parece Mentira), de Michael Curtiz; 1950: Stage Fright (Pânico nos Bastidores), de Alfred Hitchcock; The Glass Menagerie (Algemas de Cristal), de Irving Rapper; 1951: Three Guys Named Mike (Uma Noiva Para Três), de Charles Walters; The Blue Veil (O Véu Azul), de Curtis Bernhardt; Thea Screen Director (curta-matragem); 1951: Starlift (O Teu Amor e Uma Cabana), de  Roy Del Ruth; Here Comes the Groom (A Sorte Bate à Porta), de Frank Capra; 1952: Just for You (Só Para Ti), de Elliott Nugent; The Story of Will Rogers, de Michael Curtiz; 1953: Let's Do It Again (A Meia-Noite do Amor), de Alexander Hall; 1953: So Big (Vida da Minha Vida), de Robert Wise; Three Lives, de Edward Dmytryk (curta-metragem); 1954: Magnificent Obsession (Sublime Expiação), de Douglas Sirk; 1955: All That Heaven Allows (Tudo o Que o Céu Permite), de Douglas Sirk; 1955: Oil Town ou Lady Gallant (Orgulho Contra Orgulho), de Robert Parrish; 1956: Miracle in the Rain (Milagre à Chuva), de Rudolph Maté; 1959: Holiday for Lovers (Namorados em Férias), de Henry Levin; 1960: Pollyanna (Pollyanna), de David Swift; 1962: Bon Voyage! (Viagem a Paris), de James Neilson; 1969: How to Commit Marriage (Casamento à Americana), de Norman Panama; 1987: Happy 100th Birthday Hollywood (documentário TV); 1996: Wild Bill: Hollywood Maverick (documentário); 1998: Off the Menu: The Last Days of Chasen's (documentário); 2002: The Making of 'Far From Heaven' (documentário TV).

Como actriz /televisão: 1954: Summer Playhouse; 1955: General Electric Theater; 1955-1958: Jane Wyman Presents The Fireside Theatre; 1958 e 1962: Wagon Train; 1959: Lux Playhouse; 1960: Checkmate; 1960: Westinghouse Desilu Playhouse; 1961: The Investigators; 1964 e 1967: Insight; 1966: Bob Hope Presents the Chrysler Theatre; 1968: The Red Skelton Show; My Three Sons; 1971: The Failing of Raymond; 1972: The Sixthe Sense; 1972-1973: The Bold Ones: The New Doctors; 1973: Amanda Fallon; 1974: Owen Marshall: Counselor at Law; 1979: The Incredible Journey of Doctor Meg Laurel; 1980: The Love Boat; Charlie's Angels; 1981-1990: Falcon Crest; 1993: Dr. Quinn, Medicine Woman.

3 DE JUNHO DE 2015


A DAMA DE XANGAI (1948)

Depois de “O Mundo a Seus Pés” e “O 4º Mandamento”, que muitos consideram os títulos mais pessoais de Orson Welles, outra das suas obras mais significativas é “A Dama de Xangai”, rodada em 1948 para a Columbia Pictures. Diz a lenda, e as informações do próprio Welles, que este policial, retirado de um romance menor de Sherwood King ("If I Die Before I Wake"), se concretizou porque o cineasta precisava de 25.000 dólares para ajudar a montar um espectáculo musical na Broadway, "A Volta ao Mundo em 80 Dias", e os conseguiu parcialmente. Como o espectáculo não se chegou a estrear, Welles perdeu essa soma e ficou em dívida para com o produtor Harry Cohn, o homem forte da Columbia. Para pagar a dívida, aceitou adaptar esta obra que seria interpretada por Rita Hayworth, vedeta número um da Columbia e, nessa altura, ainda mulher de Orson Welles, apesar de, por esses dias, correr já o processo de divórcio.
História, portanto, complexa a da génese deste filme, mais uma obra maldita no percurso de um cineasta genial, que considera só ter completado três ou quatro filmes - todos os outros acabaram adulterados por produtores que o não compreendiam e não toleravam com bons olhos as suas experiências estilísticas e a morosidade da montagem. Diga-se, em boa verdade, que não devia ser fácil trabalhar com Welles. Ele próprio o confessa, quando afirma em várias entrevistas suas, que para si uma montagem nunca está terminada. De uma maneira ou de outra, “The Lady from Shanghai” foi mais um filme que se estreou depois de ter sofrido uma montagem imposta pelo produtor, e sobretudo depois de lhe terem colado uma banda sonora “estranha” - que não é a original, portanto - e que exasperava particularmente o realizador, que a considerava música para aventuras de Pluto ou filmes da casa Disney.
Mas vamos ao início da história. Os tumultuosos amores de Welles e Rita Hayworth atravessavam um mau momento, com processo em tribunal e tudo. Mas, a actriz amava ainda Welles e este nunca deixou de se sentir apaixonado por ela. A frase final desta obra dir-se-ia que se adapta por inteiro a este romance mal resolvido. Harry Cohn, o produtor, que durante anos procurou afastar a sua vedeta de estimação das garras desse “intelectual fatídico”, achou nessa altura que seria certamente muito comercial juntar publicamente o casal litigante num policial. E fez tudo para reunir Welles e Rita Hayworth nesta obra. Welles começou por convocar a imprensa e levá-la a assistir a um crime de lesa imagem da diva: perante os fotógrafos, Rita Hayworth aceitou cortar o seu belo cabelo, que surgiria curto e louro em “The Lady from Shanghai”.
Depois, alugou o iate de Errol Flynn, que o pilota por vezes, sem que ele apareça nas imagens, e partiu para os mares do Sul, Acapulco e Sausalito, onde filmou durante várias semanas sem dar novas ao estúdio. Quando chegou a Holywood, com as bobines debaixo do braço, montou o filme e mostrou-o numa ante-estreia para previsão da recepção do público. Os resultados foram catastróficos - ninguém percebera a história, nem o próprio Harry Cohn, que ofereceu um prémio a quem lha contasse direita. Mas Harry Cohn, apesar de tudo, tinha algum respeito por Welles, que lhe pagava na mesma moeda. Welles compreendia o papel dos produtores, mesmo daqueles que não percebiam nada de cinema, como era o declarado caso de Harry Cohn. Já agora, um à parte divertido: conta-se que quando Harry Cohn morreu, o seu enterro foi muito concorrido, o que Billy Wilder explicava, com a ironia que lhe era peculiar: "Acontece, sempre que se dá ao povo aquilo que ele tem vontade de ver..."
Mas no caso de Rita Hayworth, o povo não gostava de a ver transformada e por terra na derradeira sequência. Mulher fatal, sim, mas, mesmo assim, "deusa do amor", mito romântico de uma Hollywood que se afeiçoara à imagem de fábrica de sonhos. Welles, no entanto, filmara a sua amada com verdadeiro amor na objectiva. Basta reter alguns planos admiráveis por onde evolui com a leveza de uma sombra branca e a sensualidade refreada de uma felina pronta a atacar.
A história é realmente um pouco complexa, mas não é nela que se encontra o verdadeiro interesse e significado do filme. A Orson Welles, vindo da traumatizante experiência de “It's All True”, obra abortada entre o México e o Brasil, interessavam sobretudo as personagens que se confrontam, o clima que se cria, as inovações técnicas e narrativas que ia introduzindo no cinema. Esta história de tubarões que se entredevoram quando o cheiro do sangue encharca as águas do oceano era uma história que tinha muito a ver consigo. Ele próprio lhe introduz anotações obviamente pessoais, como a referência a Fortaleza, e a própria metáfora dos tubarões.
Resumindo e concluindo, que quando se começa a falar de Orson Welles a tendência é para não parar mais, “A Dama de Xangai" acaba por ser um dos mais sentidos e sinceros filmes de Welles, uma das obras onde põe mais de si próprio, onde algumas das suas obsessões mais constantes, como os temas da culpabilidade e da falsidade, melhor encontram ressonância e explanação.
Um filme com imagens absorventes de criatividade, de vigor, de brilho, uma das mais fulgurantes aventuras do cinema que se queria moderno e inventivo. Apaixonado pela estética da distanciação de Bertolt Brecht, que considerava o teatro chinês aquele que melhor concretizava essa intenção, não será de estranhar que as derradeiras sequências desta obra decorram precisamente durante uma representação de teatro chinês - será aí que se descobrirá o verdadeiro culpado, culpado que será justiçado numa admirável sequência de espelhos múltiplos, onde a realidade se deforma, multiplica e estilhaça.  

A DAMA DE XANGAI
Título original: The Lady from Shanghai
Realização: Orson Welles  (EUA); Argumento: Orson Welles, William Castle, Charles Lederer  e Fletcher Markle (os três últimos não creditados), segundo romance de Sherwood King  (If I Die Before I Wake); Música Original: Heinz Roemheld  e ainda Doris Fisher e Allan Roberts  (canção "Please Don't Kiss Me") (não creditados); Fotografia (P/b): Charles Lawton Jr., Rudolph Maté   (não creditado), Joseph Walker (não creditado); Montagem: Viola Lawrence; Direcção artística: Sturges Carne, Stephen Goosson; Decoração: Wilbur Menefee, Herman N. Schoenbrun; Guarda Roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistentes de realização: Sam Nelson; Realizador da Segunda unidade: William Castle; Som: Lodge Cunningham; Efeitos Especiais: Lawrence W. Butler; Produção: William Castle, Harry Cohn, Orson Welles, Richard Wilson; Intérpretes: Rita Hayworth (Elsa "Rosalie" Bannister), Orson Welles (Michael O'Hara), Everett Sloane (Arthur Bannister), Glenn Anders (George Grisby), Ted de Corsia (Sidney Broome), Erskine Sanford (Juiz), Gus Schilling (Goldie), Carl Frank (Procurador Público, Galloway), Louis Merrill (Jake), Evelyn Ellis (Bessie), Harry Shannon (Taxista), William Alland, Jessie Arnold, Jack Baxley, Steve Benton, Vernon Cansino, Doris Chan, George Chirello, Wong Show Chong, Edward Coke, Peter Cusanelli, Al Eben, Edythe Elliott, John Elliott, Keenan Elliott, Joseph Granby, Robert Gray, Alvin Hammer, Maynard Holmes, Tiny Jones, Byron Kane, Milton Kibbee, Preston Lee, Grace Lem, Billy Louie, Charles Meakin, Philip Morris, Sam Nelson, Mary Newton, Joseph Palmer, Edward Peil Sr., Gerald Pierce, Joe Recht, Mabel Smaney, Harry Strang, Norman Thomson, Philip Van Zandt, Dorothy Vaughan, Richard Wilson, Artarne Wong, Jean Wong, etc. Rodagem: nos Estúdios da Columbia e exteriores no México, San Francisco, a bordo de "Zacca", o iate de Errol Flynn; Duração: 87 minutos; Estreia: Abril de 1948 em Inglaterra e Maio de 1948 nos EUA;;  Distribuição Internacional: Columbia Pictures; Distribuição em Portugal: Radio Filmes (Portugal);Edição vídeo: Costa do Castelo.


RITA HAYWORTH (1918 - 1987)
Rita Hayworth, de nome de baptismo Margarita Carmen Cansino, nasceu em Brooklyn, Nova Iorque, a 17 de Outubro de 1918 e faleceu na mesma cidade, a 14 de Maio de 1987. De ascendência hispano-irlandesa, era filha do dançarino de flamengo Eduardo Cansino, natural de Castilleja de la Cuesta, e de Volga Hayworth, chefes de uma famosa família de dançarinos ciganos espanhóis. O avô, Antonio Cansino, era o maior expoente de Dança Clássica Espanhola, com uma escola de dança em Madrid que era mundialmente famosa. Aos três anos e meio, Margarita Cansino começou a ter aulas de dança, de que não gostava muito. Frequentou igualmente aulas de dança no Carnegie Hall, sob a instrução de seu tio Angel Cansino. Aos oito anos a família mudou-se para Hollywood, onde criaram a sua própria escola de dança. Começou a dançar integrada nos "The Dancing Cansinos", ainda sem idade para actuar na Califórnia, lança-se na cidade de Tijuana, actuando no “Foreign Club” e no “Caliente Club”, onde viria a ser descoberta, em 1935, pelo director da Fox Film, Winfield Sheehan. Nesta produtora, fez um teste e foi contratada por seis meses, sob o nome de Rita Cansino. Apareceu em pequenos papéis, em cinco filmes, mas o produtor executivo da Fox, Darryl F. Zanuck desinteressou-se dela e não renovou o contrato. Em 1937, com 18 anos, casou-se com seu empresário, Edward Judson, que lhe conseguiu alguns trabalhos em filmes independentes e posteriormente na Columbia Pictures, onde Harry Cohn assinou um contrato de longa duração. Começou a interpretar pequenos papéis e passou então a chamar-se Rita Hayworth, adoptando o nome de solteira da mãe. Depois de uns tempos hesitantes, em 1939, Howard Hawks dirige-a em “Only Angels Have Wings”, ao lado de Cary Grant e Jean Arthur, e ascendeu ao estrelato rapidamente, sobretudo depois de aparecer em “Susan and God” (1940), de George Cukor, e em “Blood and Sand” (1941), de Rouben Mamoulian. Com “Gilda”, de 1964, dirigido por Charles Vidor, atinge a maior celebridade. Casada com Orson Welles, em 1943, este dirige-a em “The Lady from Shanghai” (1948), que causou polémica, pois o realizador obrigou-a a cortar o cabelo e a pintá-lo de louro. Teve ainda alguns outros sucessos, como “Pal Joey” (1957), de George Sidney, ao lado de Frank Sinatra e Kim Novak. Continuou a trabalhar até inícios dos anos 70, já muito abalada pela doença de Alzheimer, que só viria a ser diagnostica em 1980. Para lá de Edward C. Judson (1937- 1942) e Orson Welles (1943-1948), foi casada ainda com o príncipe Aly Khan (1949-1953), o cantor Dick Haymes (1953-1955) e, finalmente, com o produtor James Hill (1958-1961). Morreu em casa da filha Yasmin, em Nova Iorque, e está sepultada no Cemitério de Holy Cross, em Culver City, na Califórnia, EUA. Foi uma das maiores star de Hollywood e um sex symbol que não se limitava a exibir o seu físico esplendoroso: era uma actriz completa, talentosa e sedutora.


Filmografia:
A) Como figurante ou como Rita Cansino: 1926: La Fiesta (curta-metragem); 1934: Cruz Diablo ou The Devil's Cross, de Fernando de Fuentes; 1935: Paddy O'Day (A Pequena Irlandesa), de Lewis Seiler; In Caliente (Sangue Ardente), de Lloyd Bacon; Under the Pampas Moon (Amor de Gaúcho), de James Tinling; Dante's Inferno (O Inferno de Dante), de Harry Lachman; Charlie Chan in Egypt (Charlie Chan no Egipto), de Louis King; Piernas de seda, de John Boland, Enrique de Rosas e Miguel de Zárraga; Hi, Gaucho!, de Thomas Atkins; Professional Soldier (Soldado Profissional), de Tay Garnett;1936: Meet Nero Wolfe (O Mistério Desvendado), de Herbert J. Biberman; Dancing Pirate (O Pirata Bailarino), de Lloyd Corrigan; Human Cargo (Repórteres Rivais), de Allan Dwan; Rebellion, de Lynn Shores; 1937: Hit the Saddle (Os Três Mosqueteiros do Oeste), de Mack V. Wright; Old Louisiana, de Irvin Willat; Life Begins with Love (Milionário a Dias), de Ray McCarey; Trouble in Texas (O Herói do Texas), de Robert N. Bradbury;
B) Como Rita Hayworth: 1937: Criminal of the Air (Contrabandistas do Ar), de Charles C. Coleman; Girls Can Play, de Lambert Hillyer; Paid to Dance (Paga para Dançar), de Charles C. Coleman; The Game That Kills (O Jogo que Mata), de Ross Lederman; The Shadow (A Sombra Negra), de Charles C. Coleman; 1938: Who Killed Gail Preston?, de Leon Barsha; The Renegade Ranger, de David Howard; Juvenile Court (Mocidade em Perigo), de D. Ross Lederman; Convicted, de Leon Barsha; There's Always a Woman (És uma Doida!...), de Alexander Hall; 1939: Special Inspector, de Leon Barsha; Homicide Bureau (Investigação Criminal), de Charles C. Coleman; The Lone Wolf Spy Hunt (Ladrão Dentro da Lei), de Peter Godfrey; Only Angels Have Wings (Paraíso Infernal), de Howard Hawks; 1940: Susan and God (As Teorias de Susana), de George Cukor; Blondie on a Budget (Os Ciúmes de Blondie), de Frank R. Strayer; Music in My Heart (Mais Forte que a Lei), de Joseph Santley; The Lady in Question (Acusada. Levante-; e!), de Charles Vidor; Angels over Broadway (Salvo da Morte), de Lee Garmes e Ben Hecht; 1941: Blood and Sand (Sangue e Arena), de Rouben Mamoulian; 1941: You’ll Never Get Rich (Nunca serás Rico), de Sidney Lanfield; The Strawberry Blonde (Uma Loira com Açucar), de Raoul Walsh; Affectionately Yours (Volta para Mim), de Lloyd Bacon; 1942: You Were Never Lovelier (Nunca Estiveste tão Linda), de William A. Seiter; My Gal Sal (Namorada), de Irving Cummings; Tales of Manhattan (Seis Destinos), de Julien Duvivier; 1944: Cover Girl (Modelos), de Charles Vidor; 1946: Gilda (Gilda), de Charles Vidor; Tonight and Every Night (Esta Noite e Sempre), de Victor Saville; 1947: Down to Earth (A Deusa Desceu à Terra), de Alexander Hall; 1948: The Loves of Carmen (Amores de Carmen), de Charles Vidor; The Lady From Shanghai (A Dama de Xangai), de Orson Welles; 1952: Affair in Trinidad (Calypso, a Feiticeira da Ilha), de Vincent Sherman; 1953: Miss Sadie Thompson (Chuva), de Curtis Bernhardt; Salomé (Salomé), de William Dieterle; 1957: Pal Joey (O Querido Joey), de George Sidney; Fire Down Below (Fogo dos Tropicos), de Robert Parrish; 1958: Separate Tables (Vidas Separadas), de Delbert Mann; 1959: They Came to Cordura (Os Heróis de Cordura), de Robert Rossen; 1959: The Story On Page One (Drama na Primeira Página), de Clifford Odets; 1962: The Happy Thieves (Os Alegres Ladrões), de George Marshall; 1964: Circus World (O Mundo do Circo), de Henry Hathaway; 1965: The Money Trap (A Tentação do Dinheiro, de Burt Kennedy; 1966: The Poppy is also a Flower (A Papoila também é uma Flor), de Terence Young; 1967: L'Avventuriero (O Marinheiro), de Terence Young; 1968: I bastardi (O Bastardo), de Duccio Tessari; 1971: The Naked Zoo, de William Grefe; 1971: Sur la Route de Salina, de Georges Lautner; 1972: The Wrath of God (A Cólera de Deus), de Ralph Nelson.


2 DE JUNHO DE 2015


O DESTINO BATE À PORTA (1946)

James M. Cain, em meados dos anos 40 era seguramente um escritor de romances negros muito popular. Com apenas dois anos de intervalo viu serem adaptadas ao cinema norte-americano três obras suas: “Pagos a Dobrar”, de Billy Wilder (1944),  “Alma em Suplício”, de Michael Curtiz (1945) e “O Destino Bate à Porta”, de Tay Garnett (1946). Mas há mais: em 1943, Luchino Visconti adapta, em Itália, "The Postman Always Rings Twice", com o título de “Obsessão”, na que seria uma das primeiras obras do neo-realismo. E já que falamos de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, devemos acrescentar que, para lá das versões de Tay Garnett e de Visconti, ainda irá surgir, décadas depois, em 1981, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, desta feita dirigido por Bob Rafelson, com um outro elenco de luxo, e uma ambiência erótica explosiva: Jack Nicholson, Jessica Lange e John Colicos.
Sobre a versão de 1946, há a dizer que Tay Garnett, o realizador, não era homem para grandes voos. Esta será talvez a sua coroa de glória, o filme que lhe terá trazido maior destaque, ainda que a sua carreira se tenha caracterizado por eficácia narrativa, competência técnica e uma generalizada boa vontade a assumir encomendas de vários géneros. Fez um pouco de tudo, quase sempre bem, mas raras vezes espantou o seu público. Em “The Postman Always Rings Twice” entrou a matar, com uma cena que ficou para sempre a história do cinema como uma das melhores apresentações que se conhece de uma personagem. Falamos do aparecimento de Lana Turner pela primeira vez no filme. Convém precisar:  Frank Chambers (John Garfield), que anda à boleia pelas estradas dos EUA, e tem um problema de pés (“nunca conseguem estar muito tempo no mesmo lugar”), apeia-se numa estação de gasolina à beira da estrada, onde se lê um letreiro equívoco: “Man Wanted”. O dono da estação, Nick Smith (Cecil Kellaway), oferece-lhe boas condições para se instalar como empregado. E quando Frank se encontra pronto a comer um hambúrguer, e discute as condições em que Nick “precisa de um homem” para o seu negócio, eis que rola pelo chão um batom que a câmara de filmar acompanha, subindo depois ao longo de umas esculturais pernas, até se deter no belíssimo rosto de uma loura irresistível. “Man Wanted” também se aplica a Cora Smith(Lana Turner),  esta mulher absolutamente deslocada naquele cenário de poeira e desolação, casada com um atarantado marido, muito mais velho do que ela? Pois é precisamente essa a questão, e Frank Chambers percebe-o desde logo.


Esta é a história de um casal de amantes que resolve livrar-se do marido da mulher, para melhor usufruir da sua paixão. As peripécias são várias, até se chegar a um final onde surge a moralidade do assunto, dando razão ao título, “o carteiro toca sempre duas vezes”. É mais uma incursão de James M. Cain pelos meandros do “romance negro” transferido para o “filme negro”, deixando bem à vista algumas das características do género, sobretudo essa insalubre atmosfera de vício e crime, onde a polícia, ou o detective privado quase não têm papel a desempenhar, rodando tudo à volta de ambições pecaminosas, com personagens algo mórbidas nas suas paixões desenfreadas, reservando-se o papel de “femme fatal” à protagonista que idealiza o crime e instiga o parceiro a cometê-lo com a sua cumplicidade. Nesse aspecto, Lana Turner é perfeita na composição dessa mulher que desperta os mais irresistíveis desejos e que os torna palpáveis e obsessivos, mesmo perante o olhar atento do Código Hays, que deixava passar pouca coisa, mas se via na inevitabilidade de admitir o que era apenas sugerido por um olhar, um gesto, uma palavra aparentemente inócua. A realização de Tay Garnett claro que não é isenta neste adensar de impulsos libidinais, mas é sobretudo a interpretação de John Garfield e Lana Turner que torna irrespirável de sensualidade esta obra particularmente significativa de um género e de uma época. Cecil Kellaway, Hume Cronyn e Leon Ames acompanham este tórrido romance com composições à altura. Refiram-se ainda a música de George Bassman e a fotografia de Sidney Wagner, na definição de ambientes e na criação desse clima de um erotismo ardente. Um beijo de Lana Turner e John Garfield vale bem por mil palavras e tornava inoperante qualquer tentativa de actividade censória – afinal não se trata mais do que de um beijo, cronometricamente controlado segundo os ditames do código. Tudo segundo as regras, com excepção da intensidade colocada pelos actores.

O DESTINO BATE À PORTA
Título original: The Postman Always Rings Twice
Realização: Tay Garnett (EUA, 1946); Argumento: Harry Ruskin, Niven Busch, segundo romance de James M. Cain (The Postman Always Rings Twice); Produção: Carey Wilson; Música: George Bassman; Fotografia (p/b): Sidney Wagner; Montagem: George White; Direcção artística: Randall Duell, Cedric Gibbons; Decoração: Edwin B. Willis; Maquilhagem: Jack Dawn; Guarda-roupa:  Irene, Marion Herwood Keyes, Eugene Joseff, Helen Scovil Roup; Direcção de Produção:  Harry Poppe;  Assistente de realização: Bill Lewis; Departamento de arte: Frank Wesselhoff; Som: Douglas Shearer; Efeitos visuais: Mark Davis, A. Arnold Gillespie, Warren Newcombe; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Lana Turner (Cora Smith), John Garfield (Frank Chambers), Cecil Kellaway (Nick Smith), Hume Cronyn (Arthur Keats), Leon Ames (Kyle Sackett), Audrey Totter (Madge Gorland), Alan Reed (Ezra Liam Kennedy), Jeff York (Blair), Philip Ahlm, John Alban, Don Anderson, Morris Ankrum, King Baggot, Betty Blythe, Paul Bradley, Wally Cassell, Jack Chefe, Dick Crockett, Oliver Cross, James Darrell, Tom Dillon, Edward Earle, Jim Farley, Joel Friedkin, A. Cameron Grant, William Halligan, Bud Harrison, Frank Mayo, Harold Miller, Howard M. Mitchell, Edgar Sherrod, Reginald Simpson, Brick Sullivan, John M. Sullivan, Charles Williams, etc. Duração:113 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Julho de 1947.


LANA TURNER (1921 - 1995)
Lana Turner integra-se perfeitamente na mitologia de Hollywood, sendo um dos seus casos mais célebres. Foi, durante 20 anos, uma das actrizes de maior sucesso da MGM e a sua vida foi um contínuo escândalo. Casou oito vezes, com sete maridos, a saber: o músico Artie Shaw (1940–1942), o escritor Stephen Crane (1942–1943, 1943–1944), o milionário Henry J. Topping (1948–1952), o actor Lex Barker (1953–1957), Fred May (1960–1962), o produtor Robert Eaton (1965–1969) e o hipnotizador Ronald Dante (1969–1972). Mas manteve histórias escaldantes com muitos outros: Victor Mature, Howard Hughes, Gene Krupa, Robert Stack, Tony Martin, Clark Gable, Fernando Lamas, Peter Lawford e Rex Harrison, entre outros. Ao que consta, o grande amor da sua vida foi Tyrone Power, com quem nunca casou.
Julia Jean Mildred Frances Turner, conhecida por Lana Turner, nasceu a 8 de Fevereiro de 1921, em Wallace, Idaho, EUA, e faleceu, aos 74 anos, em Century City, Los Angeles, EUA, a 29 de Junho de 1995. Filha de Mildred Frances Cowan e John Virgil Turner, quando tinha apenas 10 anos o pai foi assassinado numa rua de San Francisco. Lana foi colocada numa instituição religiosa, depois voltou para junto da mãe, em Los Angeles. Diz a lenda que um jornalista do “Hollywood Reporter”, Billy Wilkerson, a descobriu em 1935, a comer um gelado, no "Top Rat Café", frente à Hollywood Highschool, onde cursava dactilografia. Sugeriu-lhe que fizesse um teste para os agentes de Zeppo Marx. Começou como figurante, mas com a ajuda do realizador Mervyn LeRoy, célebre por descobrir talentos, torna-se rapidamente conhecida e uma vedeta, sobretudo entre os adolescentes que adoravam os seus “pullovers”, justíssimos, que lhe modelavam as formas. Continuou ligada a Mervyn LeRoy, trocando a Warner Bros pela Metro-Goldwyn-Mayer, para acompanhar o mestre. Cursou dicção, arte dramática e dança na Little Red School House, escola da MGM, juntamente com Judy Garland e Mickey Rooney, com quem filma uma das aventuras de Andy Hardy, em 1938. Louis B. Mayer percebe que ela vai ter de substituir o sex symbol da companhia, Jean Harlow. “Folies Ziegfeld”, de Robert Z. Leonard, é o seu primeiro grande sucesso, logo seguido por tantos outros: “Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, de Victor Fleming, “Johnny Eager”, de Mervyn LeRoy, “Weekend at the Waldorf”, de Robert Z. Leonard, “The Postman Always Rings Twice”, de Tay Garnett, “The Three Musketeers”, de George Sidney, “The Bad and the Beautiful”, de Vincente Minnelli, “The Merry Widow”, de Curtis Bernhardt, “Flame and the Flesh”, de Richard Brooks, “The Rains of Ranchipur”, de Jean Negulesco, “Peyton Place”, de Mark Robson, “Imitation of Life”, de Douglas Sirk, ou “Madame X”, de David Lowell Rich. Na televisão, apareceu em “Falcon Crest” e “The Love Boat”.
Mas a sua vida não foram só sucessos: em Abril de 1958, a sua filha Cheryl Crane, de 14 anos, assiste a uma violenta discussão da mãe com o amante dessa altura, o gangster Johnny Stompanato, e, para defender a mãe, apunhala o agressor. O caso torna-se escândalo nas revistas rosa e todos pensam que a carreira de Lana Turner pode estar arruinada para sempre. Mais uma vez renasce, num melodrama belíssimo de Douglas Sirk, “Imitation of Life”. Morre em 1995, vítima de cancro na laringe.


Filmografia:
1937: A Star is Born (Nasceu uma Estrela), de William A. Wellman (figurante); They Won't Forget (Esquecer, Nunca!), de Mervyn LeRoy (não creditado); Topper (O Par Invisível), de Norman Z. McLeod; The Great Garrick (O Grande Garrick), de James Whale; 1938: Love Finds Andy Hardy (Andy Hardy Apaixona-se), de Mervyn LeRoy; The Chaser, de Edwin L. Marin (cenas cortadas); Dramatic School (Ânsia de Vencer), de Robert B. Sinclair; The Adventures of Marco Polo (As Aventuras de Marco Polo), de Archie Mayo; Four's a Crowd (Quatro São Demais), de Michael Curtiz (não creditado); Rich Man, Poor Girl, de Reinhold Schunzel ; 1939: Calling Dr Kildare (Chamam o Dr. Kildare), de Robert Z. Leonard; These Glamour Girls (Meninas da Alta Roda), de S. Sylvan Simon; Dancing Co-Ed (Abc da Folia), de S. Sylvan Simon; 1940: Two Girls on Broadway (Curvas Perigosas), de Mervyn LeRoy; We Who Are Young (A Força dos Novos), de Harold S. Bucquet; 1941: Honky Tonk (Honky Tonk, a Cidade em Delírio), de Jack Conway; Ziegfeld Girl (Sonho de Estrela), de Robert Z. Leonard; Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming; 1942: Somewhere til find you (Tempestade no Pacífico), de Wesley Ruggles; Johnny Eager (Vidas Queimadas), de Mervyn LeRoy; 1943: Slightly dangerous (Ligeiramente Perigosa), de Wesley Ruggles; Du Barry was a Lady (Du Barry Era uma Senhora), de Roy Del Ruth; The Youngest Profession (Na Pista das Estrelas), de Edward Buzzell; 1944: Marriage is a Private Affair (O Amor Vem Depois), de Robert Z. Leonard; 1945: Keep Your Powder Dry (Éramos Três Camaradas), de Edward Buzzell; Weekend at the Waldorf (Fim-de-Semana no Waldorf), de Robert Z. Leonard; 1946: The Postman Always Rings Twice (O Destino Bate à Porta), de Tay Garnett; 1947: Cass Timberlane (As Duas Idades do Amor), de George Sidney; Green Dolphin Street (A Rua do Delfim Verde), de Victor Saville; 1948: The Three Musketeers (Os Três Mosqueteiros), de George Sidney; Homecoming (A Rival), de Mervyn LeRoy; 1950: A Life of Her Own (Seguirei o Meu Destino), de George Cukor; 1951: Mr. Imperium (É Proibido Amar), de Don Hartman; 1952: The Bad and the Beautiful (Cativos do Mal), de Vincente Minnelli; The Merry Widow (A Viúva Alegre), de Curtis Bernhardt; 1953: Latin Lovers (Meu Amor Brasileiro), de Mervyn LeRoy; 1954: Betrayed (Atraiçoada), de Gottfried Reinhardt; Flame and the Flesh (Conflito de Paixões), de Richard Brooks; 1955: The Rains of Ranchipur (As Chuvas de Ranchipur), de Jean Negulesco; The Sea Chase (A Raposa dos Mares), de John Farrow; 1955: The Prodigal (O Filho Pródigo), de Richard Thorpe; 1956: Diane (Diana de França), de David Miller; 1957: Peyton Place (Amar Não é Pecado), de Mark Robson; 1958: The Lady Takes a Flyer (Amor nas Nuvens), de Jack Arnold; Another Time, Another Place (O Amor Que Roubei), de Lewis Allen; 1959: Imitation of Life (Imitação da Vida), de Douglas Sirk; 1960: Portrait in Black (Moldura Negra), de Michael Gordon; 1961: Bachelor in Paradise (Um Solteirão no Paraíso), de Jack Arnold; By Love Possessed (A Posse do Amor), de John Sturges; 1962: Who's Got the Action? (As Loucuras do Meu Marido), de Daniel Mann; 1965: Love has Many Faces (O Amor Tem Muitas Faces), de Alexander Singer; 1966: Madame X (Madame X), de David Lowell Rich; 1969: The Big Cube, de Tito Davison; 1969-70: The Survivors (série de TV); 1971: The Last of the Powerseekers (TV); 1974: Persecution, de Don Chaffey, The Graveyard, de Don Chaffey; 1976: Bittersweet Love, de David Miller; 1980: Witches Brew, de Richard Shorr; 1982: Dead Men Don't Wear Plaid (Cliente Morto Não Paga a Conta), de Carl Reiner; 1982-83: Falcon Crest (série de TV); 1985: The Love Boat (série de TV); 1991: Thwarted, de Jeremy Hummer.

domingo, 24 de maio de 2015

26 DE MAIO DE 2015


ALMA EM SUPLÍCIO (1945)

"Mildred Pierce" é outro romance negro do escritor James M. Cain (“O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes” ou “Pagos a Dobrar”, entre outros), desta feita adaptado ao cinema por Ranald MacDougall, que teve a colaboração ainda (não creditada no genérico) de William Faulkner, Margaret Gruen, Albert Maltz, Louise Randall Pierson, Catherine Turney, Margaret Buell Wilder e Thames Williamson. A realização esteve entregue a Michael Curtiz, que três anos antes tinha assinado “Casablanca”. Este húngaro, naturalizado norte-americano, é um cineasta que assinou várias obras-primas, mas que permanece não muito valorizado por certa crítica que não vê nele um “autor”. Um filme como "Mildred Pierce" é mais um bom atestado do seu talento, sensibilidade e, inclusive, uma demonstração de algumas constantes autorais que mereceriam um estudo mais alargado. Trata-se seguramente de uma obra-prima que fica devendo muito ao seu argumento, aos seus técnicos principais, ao seu elenco, em particular a Joan Crawford, mas certamente mais ainda ao realizador que reuniu as peças e as conjugou de forma notável. Comecemos, pois, por sublinhar a excelência da realização, sobretudo na criação de ambientes, onde Curtiz é mestre. A utilização da iluminação, criando zonas de luz e sombra é magnifica e ajuda habilmente a definir dramaticamente certas situações, impondo um clima de mistério e por vezes de certa perversidade.


O romance de James M. Cain é fértil em peripécias, mas revela-se algo diferente da adaptação que dele foi feita para cinema. Passa-se em Glendale, na Califórnia, durante a década de 1930, um período difícil, marcado pela Grande Depressão. Mas o estrato social afasta-se claramente dos pobres de “As Vinhas da Ira”, por exemplo, e localiza-se numa classe média com problemas, mas relativamente desafogada. Mildred Pierce, a protagonista, descobre-se sozinha, com duas filhas para educar (uma das quais acaba por falecer), depois do seu divórcio. Encontra trabalho como empregada de mesa num restaurante, mas a filha, Veda, não lhe perdoa a queda social. Ambiciosa e snob, Veda é uma menina mimada que exige sempre mais da mãe. Esta assume a direcção de um restaurante de sucesso, multiplica o negócio, dispõe já de desenvoltura económica, arranja um “boyfriend”, Monty, com quem casa, mas a sorte vira-lhe as costas quando descobre que a filha a chantageia com uma falsa gravidez e Monty delapida a sua fortuna, com contabilidade enganosa. Para mais, descobre ainda Veda e Monty na mesma cama, o que destabiliza por completo a família. Mildred muda-se para Reno, Nevada, afasta-se da filha, mas os problemas regressam mais tarde. O romance não contém nenhum crime, mas, ao ser transposto para cinema, o “Motion Picture Production Code”, a impiedosa censura da altura, fez constar que existiam 11 temas tabus em filmes produzidos pelos membros associados, e mais 25 outros assuntos que deveriam merecer especial atenção. O que tornava impossível a adaptação do romance, sobretudo por questões sexuais, e levou os argumentistas a imaginar um crime, com que abre o filme, passando toda a narrativa subsequente a ser conduzida por Mildred Pierce (Joan Crawford) que surge como a principal suspeita da morte de Monte Beragon (Zachary Scott), sendo investigada pela polícia, que não deixa nunca de tomar em consideração ainda a conduta de Veda Pierce (Ann Blyth). Como obra de mistério e suspense, não se pode adiantar mais em descrições sem quebrar o segredo, pelo que por aqui nos quedamos, sublinhando mais uma vez a solidez da narrativa, que instala a ansiedade e mobiliza as emoções dos espectadores de forma notável, através da excelência da realização, da belíssima fotografia a preto e branco de Ernest Haller, onde nunca será demais apontar a brilhante iluminação, com as sombras projectadas nas paredes, o que liga imediatamente este título a outros de Curtiz, como o próprio “Casablanca”, e ainda a magnifica música de Max Steiner, como sempre um inspirado compositor que soube servir admiravelmente os filmes a que ligou o seu nome.
“Mildred Pierce” foi nomeado para seis Oscars, entre os quais o de Melhor Filme, Melhor Argumento, Melhor Fotografia a preto e banco, Melhor Actriz Secundária (duas nomeações, Ann Blyth e Eve Arden) e Melhor Actriz (Joan Crawford), única nomeação transformada em estatueta, o que permitiu à actriz relançar uma carreira que por essa altura não andava muito bem. Mas Crawford tem efectivamente um trabalho notável, com discretas mudanças de registo, mantendo o filme entre o melodrama e o filme negro, com uma incrível subtileza. Crawford ainda nos viria a dar algumas outras contribuições de altíssima qualidade, como o seu desempenho em “Johnny Guitar”, talvez o seu papel mais recordado.
Nota: em 2010, o realizador Todd Haynes rodou “Mildred Pierce”, uma mini-série em cinco partes, para a HBO, com Kate Winslet como Mildred, Guy Pearce como Monty Beragon, e Evan Rachel Wood como Veda. Esta nova adaptação do romance de James M. Cain é muito mais fiel à obra literária (mudaram os tempos, e desapareceu o Código Hays) e consegue ser igualmente um título muito interessante.

ALMA EM SUPLÍCIO
Título original: Mildred Pierce
Realização: Michael Curtiz (EUA, 1945); Argumento: Ranald MacDougall, e ainda (não creditados) William Faulkner, Margaret Gruen, Albert Maltz, Louise Randall Pierson, Catherine Turney, Margaret Buell Wilder, Thames Williamson, segundo romance de James M. Cain ("Mildred Pierce"); Produção: Jerry Wald, Jack L. Warner; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Ernest Haller; Montagem: David Weisbart; Direcção artística: Anton Grot, Bertram Tuttle; Decoração: George James Hopkins; Guarda-roupa: Milo Anderson, Clayton Brackett, Joan Crawford, Jeanette Storck; Maquilhagem: Perc Westmore, Edwin Allen, Geraldine Cole, Bill Cooley; Direcção de Produção: Louis Baum; Assistentes de realização: Frank Heath, Dick Moder; Departamento de arte: Herbert Plews, Levi C. Williams;  Som: Oliver S. Garretson, Gerald W. Alexander, Robert G. Wayne; Efeitos especiais: Willard Van Enger, Harry Barndollar; Efeitos visuais: Russell Collings, Paul Detlefsen, Mario Larrinaga; Companhia de produção: Warner Bros.-First National Pictures; Intérpretes: Joan Crawford (Mildred Pierce), Jack Carson (Wally Fay), Zachary Scott (Monte Beragon), Eve Arden (Ida Corwin), Ann Blyth (Veda Pierce), Bruce Bennett (Bert Pierce), Lee Patrick (Mrs. Maggie Biederhof), Moroni Olsen (Inspector Peterson), Veda Ann Borg (Miriam Ellis), Jo Ann Marlowe (Kay Pierce), William Alcorn, Betty Alexander, Ramsay Ames, George Anderson, Robert Arthur, Lynn Baggett, Leah Baird, Dorothy Barrett, Barbara Brown, Wheaton Chambers, John Christian, Wallis Clark, Chester Clute, John Compton, David Cota, James Flavin, Bess Flowers, Manart Kippen, Robert Loraine, Jean Lorraine, Butterfly McQueen, Jack O'Connor, George Tobias, Charles Trowbridge, Joan Wardley, Joan Winfield, etc. Duração: 111 minutos; Distribuição em Portugal: Sociedade Importadora de Filmes (SIF), Suevia Films (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 2 de Dezembro de 1946.


JOAN CRAWFORD (1905-1977)
Joan Crawford e Bette Davis protagonizaram o mais feroz confronto de personalidades em toda a história de Hollywood. Ao que consta, tudo começou por causa de um homem o actor Franchot Tone, que Bette Davis amava e que Joan Crawford “roubou”. Contam os mentideiros da época, que quando andava no ar o romance de Bette Davies com o seu partenaire Franchot Tone, no filme de 1935 “Dangerous”, Joan Crawford, então sex symbol da MGM, o terá convidado para jantar, aparecendo-lhe toda nua a recebê-lo em casa, o que terá “perturbado” o actor. Obviamente. Joan Crawford fez questão de fazer saber a Bette Davis, que nunca mais lhe perdoou. “Fiquei ciumenta, claro”, confessou. Bette passou a dizer coisas bonitas de Crawford, como por exemplo “que teria dormido com todos os actores da MGM, com excepção de Lassie”, famosa cadela estrela de cinema. Crawford responde na mesma moeda: “Coitada da Bette, parece que nunca teve um dia, ou noite, feliz na sua vida”.
A rivalidade arrastou-se ate que Robert Aldrich, em 1962, as convidou para actuaram num filme de terror, “Whatever Happened to Baby Jane”. Era uma história de duas velhas irmãs a viverem juntas na mesma casa, odiando-se. Mantiveram um profissionalismo a toda a prova, mas não evitaram a agressão verbal: Disse Bette Davis: “O melhor tempo que passei com Joan foi quando a atirei pelas escadas abaixo em “Whatever happened to Baby Jane”. Quando Bette Davis foi nomeada para o Oscar de Melhor Actriz por esse papel, Joan não foi mas imaginou uma vingança terrível. Combinou com as outras quatro nomeadas do ano que seria ela a receber o Oscar, caso alguma delas o viesse a ganhar. Bette Davis julgava-se a eleita, mas foi preterida por Anne Bancroft, em “Miracle Worker”, e assim Crawford subiu ao palco para receber a estatueta de Bancroft. Bette confessa: “Quase morri”. Mas quem morreu primeiro foi Joan Crawford, o que levou Bette a comentar: “Não digam que a morte não tem coisas boas. A de Joan Crawford foi uma delas”. Há quem diga, porém, que grande parte desta disputa era forjada em nome da publicidade. A verdade é que forma dois dos maiores monstros sagrados de Hollywood.
De seu verdadeiro nome Lucille Fay LeSueur, Joan Crawford terá nascido a 23 de Março de 1905, em San Antonio, Texas, EUA, e faleceu a 10 de Maio de 1977, com 72 anos, em Nova Iorque, NY, EUA. Há dúvidas quanto à data precisa do seu nascimento. Ela afirmava que teria sido em1908. Quem pesquizou em registos, e na ausência da certidão de nascimento, calcula 1905, baseando-se num censo de Abril de 1910, quando ela tinha cinco anos. Christina Crawford relata em “Mommie Dearest” que, de acordo com a "avó" de Christina, Joan teria na verdade nascido em Dezembro de 1904. Teve, de certeza, uma infância difícil e uma vida esmaltada de casos e escândalos. Cedo se tornou dançarina, o que lhe garantia a sobrevivência. Trabalhava num bar, dirigido por Henry Richman, quando conheceu Nils Granlund, um dos amantes da actriz Clara Bow. Como precisava de andar bem vestida, conta-se, Granlund facultou-lhe o dinheiro para ela comprar o que precisava e, quando Lucille foi ao seu escritório para passar o modelo, e se encontrava despida a prová-lo, entrou, sem bater à porta, Marcos Loew, da MGM, que gostou tanto do que viu que a contratou por cinco anos para a Metro Goldwyn Mayer. Assinou contrato em 1925 e estreou-se no cinema em “Pretty Ladies”, ainda na época do cinema mudo. Lucille Fay LeSueur aprendeu rapidamente a subir na vida, e como o fazer, o que era uma quase norma na Hollywood de então. Lá foi demonstrando o seu talento, de responsável em responsável. Mas o nome não agradava e havia que mudá-lo. A revista “Movie Weekly” organizou um concurso e a proposta vencedora foi a que Lucille adoptou, Joan Crawford.
Nomeada por três vezes para o Oscar de Melhor Actriz: em 1945, por “Mildred Pierce” (Alma em Suplício), de Michael Curtiz, que venceu; em 1947, por “Possessed” (Loucura de Amor), de Curtis Bernhardt; e, em 1952, por Sudden Fear (Medo Súbito), de David Miller. Uma das suas coras de glória é “Johnny Guitar”, mas, curiosamente, um dos seus filmes mais queridos, que se tornou um cult movie, é “What Ever Happened to Baby Jane?” (Que Teria Acontecido a Baby Jane?), de Robert Aldrich, de 1962, quando já nela nada refulgia como nos seus tempos de juventude, e se encontrava, mais um vez, em confronto, desta feita directo, com a sua rival de sempre, Bette Davis.
Foi casada quatro vezes. Com os actores Douglas Fairbanks Jr., Franchot Tone e Philip Terry e, o quarto casamento, com o empresário Alfred Steele, o maior accionista da Pepsi Cola, de quem ela ficou viúva em 1959, herdando o cargo de presidente do conselho da empresa. Não teve filhos, mas adoptou quatro crianças: Christina, Christopher e as gémeas Cynthia "Cindy" e Cathy. No seu testamento, escrito pouco tempo antes de sua morte, Joan Crawford deserdou os seus dois filhos mais velhos, Christina e Christopher, legando uma parcela ínfima da sua fortuna, avaliada em cerca de dois milhões de dólares, aos outros dois. Morreu em 1977 e encontra-se sepultada no Ferncliff Cemetery, Hartsdale, Condado de Westchester, Nova Iorque, EUA. Após a sua morte, a filha mais velha, Christina Crawford, publicou “Mommie Dearest”, um livro autobiográfico que se tornou rapidamente “best-seller”, onde descrevia Joan como uma megera, alcoólica e péssima mãe, cujos filhos teria adoptado com fins apenas publicitários. O livro foi mais tarde adaptado ao cinema, com Faye Dunaway no papel de Crawford.



Filmografia:
Filmes mudos: 1925: Pretty Ladies de Monta Bell (com o nome de Lucille Le Sueur); Lady of the Night (A Ave Nocturna), de de Monta Bell; Proud Flesh (Orgulho Vencido), de King Vidor; A Slave of Fashion (A Escrava da Moda), de Hobart Henley; The Merry Widow (A Viúva Alegre), de Erich von Stroheim; Pretty Ladies (A Mosca Negra), de Monta Bell; The Circle (A Eterna História), de Frank Borzage; The Midshipman (O Guarda-Marinha, de Christy Cabanne; Old Clothes (O Trapeiro), de Edward F. Cline; The Only Thing, de Jack Conway; Sally, Irene and Mary (A Lindíssima Trindade), de Edmund Goulding; Ben-Hur: A Tale of the Christ, de Fred Niblo, e ainda Charles Brabin, Christy Cabanne, J.J. Cohn e Rex Ingram (não creditados); 1926: Tramp, Tramp, Tramp (Sempre a Andar), de Harry Edwards; The Boob (Como se Faz um Herói), de William A. Wellman; Paris (Uma Aventura em Paris), de Edmund Goulding; 1927: Winners of the Wilderness (A Conquista da América), de W.S. Van Dyke; The Taxi Dancer (Castelo de Cartas), de Harry F. Millard; The Understanding Heart, de Jack Conway; The Unknown (O Homem Sem Braços), de Tod Browning; Twelve Miles Out (Fora da Lei Seca), de Jack Conway; Spring Fever (O Rei do Golf), de Edward Sedgwick; 1928: West Point (Cadete de West Point), de Edward Sedgwick; The Law of the Range, de William Nigh; Rose Marie (Rosa Maria), de Lucien Hubbard; Across to Singapore (Uma Noite em Singapura), de William Nigh; Four Walls (Prisão Redentora), de William Nigh; Our Dancing Daughters (Meninas da Moda), de Harry Beaumont; Dream of Love (Sonho de Amor), de Fred Niblo; 1929: The Duke Steps Out (O Novo Campeão), de James Cruze ;Tide of Empire, de Allan Dwan; Our Modern Maidens (Mocidade Ardente), de Jack Conway;
Filmes sonoros:
1929: The Hollywood Revue of 1929, de Charles Reisner; Untamed (Indómita), de Jack Conway; 2930: Great Day, de Harry Beaumont; Montana Moon (O Coração Manda), de Malcolm St. Clair; Our Blushing Brides (Três Destinos), de Malcolm St. Clair; Paid (Dentro da Lei), de Sam Wood; 1931: The Stolen Jools (curta-metragem); Dance, Fools, Dance (Virtudes Modernas), de Harry Beaumont; Laughing Sinners (Pecadores Alegres), de Harry Beaumont; This Modern Age (Esta Idade Moderna), de Nick Grinde; 1931: Possessed (Fascinação), de Clarence Brown; 1931: The Slippery Pearls, de William C. McGann (cameo); 1932: Grand Hotel (Grande Hotel), de Edmund Goulding; Letty Lynton (Enfeitiçados), de Clarence Brown; Rain (Chuva), de Lewis Milestone; 1933: Today We Live (A Vida É o Dia de Hoje), de Howard Hawks; Dancing Lady (O Turbilhão da Dança), de Robert Z. Leonard; 1934: Sadie McKee (Uma Mulher Que Venceu), de Clarence Brown; Chained (Os Dois Amores de Diana), de Clarence Brown; Forsaking All Others (Os Noivos de Mary), de W.S. Van Dyke; 1935: No More Ladies (Basta de Mulheres), de George Cukor e Edward H. Griffith; I Live My Life (Quero Viver a Vida), de W.S. Van Dyke; 1936: The Gorgeous Hussy (A Alegre Locandeira), de Clarence Brown; Love on the Run (Doidos & Cª), de W.S. Van Dyke; 1937: The Last of Mrs. Cheyney (A Última Conquista), de Richard Boleslawski; The Bride Wore Red (A Noiva de Vermelho), de Dorothy Arzner; Mannequin (Manequim), de Frank Borzage; 1938: The Shining Hour (Tentação), de Frank Borzage; 1939: Ice Follies of 1939 (O Turbilhão de Gelo), de Reinhold Schünzel; The Women (Mulheres), de George Cukor; 1940: Strange Cargo (Os Fugitivos da Guiana), de Frank Borzage; Susan and God (As Teorias de Susana), de George Cukor; 1941: A Woman's Face (A Cicatriz do Mal), de George Cukor; When Ladies Meet (Quando Elas se Encontram), de Robert Z. Leonard; 1942: They All Kissed the Bride (Quem Manda sou Eu), de Alexander Hall; Reunion in France (Encontro em França), de Jules Dassin; 1943: Above Suspicion (Insuspeitos), de Richard Thorpe; 1944: Hollywood Canteen (Sonho em Hollywood), de Delmer Daves; 1945: Mildred Pierce (Alma em Suplício), de Michael Curtiz; 1946: Humoresque (Fascinação), de Jean Negulesco; 1947: Possessed (Loucura de Amor), de Curtis Bernhardt; Daisy Kenyon (Entre o Amor e o Pecado), de Otto Preminger; 1949: Flamingo Road (O Caminho da Redenção), de Michael Curtiz; It's a Great Feeling, de David Butler; 1950: The Damned Don't Cry!, de Vincent Sherman; Harriet Craig (A Última Mentira), de Vincent Sherman; 1951: Goodbye, My Fancy (Sonho Desfeito), de Vincent Sherman; 1952: This Woman is Dangerous (Esta Mulher é Perigosa), de Felix Feist; Sudden Fear (Medo Súbito), de David Miller; 1953: Torch Song (Corpo Sem Alma), de Charles Walters; 1954: Johnny Guitar (Johnny Guitar), de Nicholas Ray; 1955: Female on the Beach (A Casa da Praia), de Joseph Pevney; Queen Bee (A Abelha Mestra), de Ranald MacDougall; 1956: Autumn Leaves (Folhas de Outono), de Robert Aldrich; 1957: The Story of Esther Costello, de David Miller; 1959: The Best of Everything, de Jean Negulesco; 1962: What Ever Happened to Baby Jane? (Que Teria Acontecido a Baby Jane?), de Robert Aldrich; 1963: The Caretakers (Mulheres Sem Destino), de Hall Bartlett; 1964: Della, de Robert Gist; Strait-Jacket (Volúpia do Crime), de William Castle;   Hush... Hush, Sweet Charlotte, de Robert Aldrich; 1965: I Saw What You Did (O Telefone Fatal), de William Castle; 1967: The Karate Killers, de Barry Shear; Berserk!, de Jim O'Connolly; 1970: Trog, de Freddie Francis; 1971: Journey to Murder, de John Gibson e Gerry O'Hara;

Televisão e documentários: 1953: The Revlon Mirror Theater - Série de TV (1 episódio); 1954: General Electric Theater – Série de TV (3 episódios); 1959: Woman on the Run – Teledramático; 1959 - 1961: Zane Grey Theater - Série de TV (2 episódios); 1959: On Trial - Série de TV (1 episódio); 1961: The Foxes – Teledramático; 1962: Your First Impression - Série de TV (1 episódio); 1962: Lykke og krone – Documentário; 1963: Route 66 - Série de TV (1 episódio); 1964: The Big Parade of Comedy – Documentário; 1967: The Man from U.N.C.L.E. - Série de TV (1 episódio); 1968: The Secret Storm - Série de TV (5 episódios); 1969: Journey to the Unknown – Teledramático; Night Gallery – Teledramático; 1970: The Virginian - Série de TV (1 episódio); 1971: The Name of the Game - Série de TV (1 episódio); 1972: Beyond the Water's Edge – Teledramático; The Sixth Sense - Série de TV (1 episódio) ; Hollywood: The Dream Factory - Documentário TV; 1974: That's Entertainement Part I, de Jack Haley Jr; 1976: That's Entertainment, Part II, de Gene Kelly; 1977: That's Action – Documentário; 1984: Terror in the Aisles – Documentário; 1985: That's Dancing ! – Documentário; 1988: Going Hollywood: The War Years – Documentário; 1995: Legends of Entertainment Video - Documentário TV; 1995: The Casting Couch - Documentário TV; 1997: Judy Garland's Hollywood - Documentário TV; 1998: Warner Bros. 75th Anniversary: No Guts, No Glory - Documentário TV. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

19 DE MAIO DE 2015


MEIA LUZ (1944)

“Gaslight”, que George Cukor  dirigiu em 1944, numa produção norte-americana, é uma nova versão de um filme inglês de 1940, dirigido por Thorold Dickinson, baseado na peça teatral “Gas Light”, de Patrick Hamilton (1938), e interpretada por Anton Walbrook e Diana Wynyard nos principais papeis. A peça tinha sido um grande sucesso na Broadway, com o título “Angel Street”, e foi sob essa designação que ficou conhecido igualmente o filme nos EUA. Mesmo em Inglaterra, tivera um título alternativo, “A Strange Case of Murder”. Quem conhece a peça de origem e ambos os filmes afirma que a versão de 40 é mais fiel à obra teatral do que a de 44. Mas a história, no essencial, permanece a mesma. Vejamos a versão de 40: Alice Barlow (Marie Wright) é assassinada na sua casa por um desconhecido,  que vasculha a residência em busca de algo que se sabe depois serem umas valiosas pedras preciosas. O crime fica sem resolução durante anos e a casa abandonada. Até que um dia, a sobrinha de Alice, Bella (Diana Wynyard) regressa casada com Paul (Anton Walbrook) que lentamente a vai tentando enlouquecer, através de vários expedientes, mas sobretudo fazendo-lhe crer que está a perder a memória e o discernimento. Será um detective, B. G. Rough (Frank Pettingell), que começa a suspeitar de Paul e o liga ao crime de Alice Barlow. A referência a “Gas Light” advém do facto de Londres viver ainda numa época de candeeiros a gaz. Em casa de Bella, sempre que Paul sai à noite, com a explicação de que vai trabalhar num outro local, a luz da casa se atenuar, o que só pode ter uma explicação (que aqui se não dá, para não retirar suspense ao drama).
Em Inglaterra, peça e filme foram grandes sucessos. Na Broadway, o espectáculo também  correu muito bem, o que levou os responsáveis da MGM a pensarem numa nova versão, norte-americana, com um novo elenco. Compraram os direitos à produtora britânica e , no contrato, exigiam que as cópias e negativos da anterior versão fossem destruídos. Afortunadamente, houve responsáveis que ultrapassaram o contrato e conservaram o negativo.


A nova versão conta com Charles Boyer, Ingrid Bergman, e Joseph Cotten, nos protagonistas, e ainda com as presenças da veterana Dame May Whitty e da estreante (dezoito anos!) Angela Lansbury, ambas magnificas em papeis muito distintos. A adaptação esteve a cargo de     John Van Druten, Walter Reisch e John L. Balderston, sempre segundo a peça de Patrick Hamilton, e tudo seria perfeito, não fosse a presença de Charles Boyer, um verdeiro canastrão que não consegue fazer esquecer o talento da restante equipa, mas põe seriamente em causa a sanidade de quem o escolheu para o papel. Valha-nos Ingrid Bergman que compõe uma admirável personagem, conquistando com este trabalho o seu primeiro Oscar. O filme estaria nomeado ainda em 1945 para outros Oscars, como Melhor Filme, Melhor Actor (Charles Boyer, imagine-se!), Melhor Actriz Secundária (Angela Lansbury), Melhor Argumento Adaptado, Melhor Fotografia (a preto e banco) (Joseph Ruttenberg), e ainda Melhor Direcção Artística (a preto e branco) (Cedric Gibbons, William Ferrari, Edwin B. Willis e Paul Huldschinsky), esta última nomeação também se transformaria em Oscar. Mas deve dizer-se que à música de Bronisław Kaper não teria ficado mal uma nomeação.
Com um orçamento de 2.068.000 dólares e uma receita que mais do que duplicou o empate de capital (4. 613. 000 dólares), “Gaslight” foi um sucesso muito merecido, sendo mais um belíssimo trabalho de George Cukor como director de actrizes. Mas, em paralelo a este aspecto, um outro se agiganta: o papel da casa como elemento claustrofóbico, como prisão psicológica, teia de aranha armada por uma figura sinistra que lentamente vai fechando a sua vítima nessa armadilha imposta (e aceite sem grande rebeldia por quem nela cai). Estamos numa Inglaterra vitoriana, o papel da mulher é subalterno, a sua decisão quase nula, aceitando submeter-se às imposições do marido. “Gaslight” pertence a um curioso conjunto de obras desse período, que irão, de certa forma, contribuir para a definição do “filme negro”. O papel do homem é igualmente muito curioso, se compararmos vários títulos desses anos. Filmes de Alfred Hitchcock, “Rebecca” (1940), “Suspicion” (1941), “Shadow of a Doubt” (1943), a que se juntam este “Gaslight” e “Jane Eyre”, de Robert Stevenson (ambos de 1944), “Dragonwyck”, de Joseph L. Mankiewicz (1945), “Notorious”, outra vez de Hitch, e “The Spiral Staircase”, de Robert Siodmak (ambos de 1946), “The Two Mrs. Carrolls”, de Peter Godfrey (1947), ou “Sorry, Wrong Number”, de Anatole Litvak, e “Sleep, My Love”, de Douglas Sirk (ambos de 1948) são excelentes exemplos de um quase subgénero a que alguns críticos (entre eles Emanuel Levy) chamaram já “Don't Trust Your Husband” (não confies no teu marido), dado que quase todas estas obras mulheres ricas e poderosas se vêem atormentadas por maquiavélicas personagens masculinas, maridos, namorados, amantes, que as procuram espoliar para o que não hesitam em caminhar para o assassinato. 
Última curiosidade: “Gaslight” foi adaptado a radio novela, em 1946, no “Lux Radio Theater”, contando com a interpretação dos actores do filme, Charles Boyer e Ingrid Bergman, e, no ano seguinte, no “The Screen Guild Theater”, com Charles Boyer e Susan Hayward.

MEIA LUZ
Título original: Gaslight
Realização: George Cukor (EUA, 1944); Argumento: John Van Druten, Walter Reisch, John L. Balderston, segundo peça de teatro de Patrick Hamilton ("Angel Street"); Produção: Arthur Hornblow Jr.; Música: Bronislau Kaper; Fotografia (p/b): Joseph; Montagem: Ralph E. Winters; Direcção artística: Cedric Gibbons; Decoração: Edwin B. Willis; Guarda-roupa: Irene; Maquilhagem: Jack Dawn, Irma Kusely; Direcção de Produção: Eddie Woehler; Assistentes de realização: Jack Greenwood;  Departamento de arte: William Ferrari, Paul Huldschinsky; Som: Douglas Shearer, Joe Edmondso; Efeitos especiais: Warren Newcombe; Companhia de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Charles Boyer (Gregory Anton), Ingrid Bergman (Paula Alquist), Joseph Cotten (Brian Cameron), Dame May Whitty (Miss Thwaites), Angela Lansbury (Nancy), Barbara Everest (Elizabeth), Emil Rameau (Maestro Guardi), Edmund Breon, Halliwell Hobbes, Tom Stevenson, Heather Thatcher, Lawrence Grossmith, Jakob Gimpel, Harry Adams, Lassie Lou Ahern, John Ardizoni, Frank Baker, Lillian Bronson, Leonard Carey, Alec Craig, Roger Gray, Jack Kirk, Pat Malone, Eric Wilton, Eustace Wyatt, Phyllis Yuse, Guy Zanette, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: MGM (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 26 de Março de 1946.


INGRID BERGMAN (1915 - 1982)
Esta é uma mulher que frequenta todos os top 10 das melhores actrizes de sempre. Mantem com Katharine Hepburn e Audrey Hepburn uma luta cerrada pelos três primeiros lugares em qualquer país em que ao inquérito se realize. Excepto na Suécia, onde é rainha. Uma das mais belas e mais talentosas actrizes de sempre. Ingrid Bergman Nieuwenhoff nasceu a 29 de Agosto de 1915, em Estocolmo, Suécia, e viria a falecer em Londres, Inglaterra, precisamente no dia 29 de Agosto de 1982, com 67 anos de idade.
A mãe, alemã, morreu quando ela tinha dois anos. O pai, Justus Bergman, sueco, era fotógrafo e boémio, tendo transmitido à filha a paixão pelo teatro. Esta iniciou-se cedo em pequenas companhias amadoras e, em 1933, entra para a Real Escola de Arte Dramática de Estocolmo mas, antes de terminar o curso, estreia-se no cinema, com sucesso. Em dois anos participa em nove filmes, na Suécia. Em 1939, parte para Hollywood para protagonizar a versão americana de um dos seus maiores sucessos suecos, "Intermezzo". A partir daí, a sua carreira foi fulgurante, criando uma galeria de personagens de invulgar densidade e sedução, a que a sua beleza muito especial adicionava um “glamour” muito próprio. Interpretou obras-primas indiscutíveis que vão de “Casablanca” a “Sonata de Outono”.


Ganhou três Oscars: para Melhor Actriz, em 1945, por “Gaslight” e, em 1957, por “Anastasia” e, para Melhor Actriz Secundária, em 1975, para “Murder on the Orient Express”. Foi nomeada por mais quatro vezes: 1944, For Whom the Bell Tolls, 1946, The Bells of St. Mary's, 1949, Joan of Arc, e 1979, Sonata de Outono. Dois Emmys para Melhor Actriz em mini série de televisão, em 1982, por “A Woman Called Golda” e para Actriz Principal, em 1960, para “The Turn of the Screw”. Quatro Golden Globe, para Melhor Actriz em filme dramático, em 1945, para “Gaslight”, em 1946, para “The Bells of St. Mary's”, em 1957, para “Anastasia”, e, em 1982, na categoria de televisão, para “A Woman Called Golda”. Um César Honorário, em 1976, pela carreira. Um BAFTA, para Melhor Actriz Secundária, em 1975, para “Murder on the Orient Express”. Casada com Petter Lindström (1937 - 1950), de quem teve uma filha, Pia; com Roberto Rossellini (1950 - 1957), de quem teve três filhos, Roberto e as gémeas Isotta Ingrid e Isabella Rossellini, também actriz; finalmente com Lars Schmidt (1958 - 1975). A ligação com Roberto Rossellini foi tumultuosa, pois ambos eram casados quando se apaixonaram e abandonaram as respectivas famílias para viverem juntos. Ingrid foi acusada de adúltera e de dar mau exemplo às mulheres americanas, o que a impediu de filmar nos Estados Unidos durante alguns anos. Morreu no dia em que completava 67 anos, depois de seis anos a lutar contra o cancro e depois de duas mastectomias. Um ano antes de falecer, Ingrid disse que se recusava a render-se à doença e que continuava a fumar e a beber vinho e champanhe. Encontra-se sepultada em Norra Begravningsplatsen (Northern Cemetery), Estocolmo, Suécia.


Filmografia/como actriz: 1932: Landskamp, de Gunnar Skoglund (não creditada); 1935: Munkbrogreven, de Edvin Adolphson e Sigurd Wallén (este não creditado); Bränningar, de Ivar Johansson; Swedenhielms, de Gustaf Molander; Valborgsmässoafton (Noite de Primavera), de Gustaf Edgren; 1936: På solsidan (Para o Destino), de Gustaf Molander; Intermezzo, de Gustaf Molander; 1938: Dollar (O Dólar), de Gustaf Molander; En kvinnas ansikte, de Gustaf Molander; 1938: Die Vier Gesellen, de Carl Froelich; 1939: En enda natt (Sedução), de Gustaf Molander; Intermezzo: A Love Story (Intermezzo), de Gregory Ratoff; 1940: Juninatten (Noite de Tentação), de Per Lindberg; 1941: Adam Had Four Sons (Os Quatro Filhos de Adão), de Gregory Ratoff; Rage in Heaven (Tempestade), de W.S. Van Dyke e Robert B. Sinclair e Richard Thorpe (não creditados); Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming; 1942: Casablanca (Casablanca), de Michael Curtiz; 1943: For Whom the Bell Tolls (Por Quem os Sinos Dobram), de Sam Wood; 1943: Swedes in America, de Irving Lerner (curta-metragem); 1944: Gaslight (Meia-Luz), de George Cukor; 1945: Saratoga Trunk (Saratoga), de Sam Wood; 1945: Spellbound (A Casa Encantada), de Alfred Hitchcock; The Bells of St. Mary's (Os Sinos de Santa Maria), de Leo McCarey; 1946: American Creed, de Robert Stevenson (curta-metragem); Notorious (Difamação), de Alfred Hitchcock; 1948: Arch of Triumph (O Arco do Triunfo), de Lewis Milestone; Joan of Arc (Joana d'Arc), de Victor Fleming; 1949: Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio), de Alfred Hitchcock; 1950: Stromboli (Stromboli), de Roberto Rossellini; 1952: Europa '51 (Europa 51), de Roberto Rossellini; 1953: Siamo Donne (Nós, as Mulheres), de Gianni Franciolini ("Alida Valli"), Alfredo Guarini ("Concorso 4 Attrici 1 Speranza"), Roberto Rossellini ("Ingrid Bergman"), Luchino Visconti ("Anna Magnani") e Luigi Zampa ("Isa Miranda"); 1954: Giovanna d'Arco al Rogo, de Roberto Rossellini; Viaggio in Italia (Viagem em Itália), de Roberto Rossellini; La Paura (O Medo), de Roberto Rossellini; 1956: Anastasia (Anastásia), de Anatole Litvak; Elena et les Hommes (Helena e os Homens), de Jean Renoir; 1958: Indiscreet (Indiscreto), de Stanley Donen; The Inn of the Sixth Happiness (A Pousada da Sexta Felicidade), de Mark Robson; 1959: The Turn of the Screw, de John Frankenheimer, em Startime (série de TV); 1961: Aimez-Vous Brahms?, de Anatole Litvak ; 1961: Auguste, de Pierre Chevalier (cameo) ; Twenty-Four Hours in a Woman's Life, de Silvio Narizzano (TV); 1963: Hedda Gabler, de Alex Segal (TV); 1964: The Visit (A Visita), de Bernhard Wicki; The Yellow Rolls-Royce (O Rolls-Royce Amarelo), de Anthony Asquith; 1966: The Human Voice, de Ted Kotcheff (TV); 1967: Stimulantia, de Hans Abramson ("Upptäckten"), Hans Alfredson ("Dygdens belöning"), Arne Arnbom ("Birgit Nilsson"), Ingmar Bergman ("Daniel"), Tage Danielsson ("Dygdens belöning"), Jörn Donner ("Det var en gång två älskande..."), Lars Görling ("Konfrontationer"), Gustaf Molander ("Smycket") e Vilgot Sjöman ("Negressen i skåpet") (Episódio: "Smycket"); 1969: Cactus Flower (A Flor de Cacto), de Gene Saks; 1970: Henri Langlois; A Walk in the Spring Rain (Chuva na Primavera), de Guy Green; 1973: From the Mixed-Up Files of Mrs. Basil E. Frankweiler, de Fielder Cook; 1974: Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente), de Sidney Lumet; 1976: A Matter of Time, de Vincente Minnelli; 1977: Great Performances: Childhood Host; 1978: Höstsonaten (Sonata de Outono), de Ingmar Bergman; 1979: The American Film Institute Salute to Alfred Hitchcock; 1982: A Woman Called Golda, de Alan Gibson (TV).