segunda-feira, 3 de agosto de 2015

12 DE AGOSTO DE 2015


DR. JIVAGO (1965)

“Dr. Jivago”, de David Lean parte do romance homónimo de Boris Pasternak, prémio Nobel de Literatura de 1958. A obra provocou uma enorme polémica internacional ao ser lançada no Ocidente e terá interesse recordar um pouco este historial. Pasternak iniciou a escrita deste épico na década de 10 do século XX, mas só estaria acabado em 1956. Nesse ano, submetido à consideração da revista literária “Novy Mir” viu recusada a sua publicação, pois não se incluía nos cânones do então chamado “realismo socialista” e era vista objectivamente como uma crítica ao sistema soviético. Pasternak enviou várias cópias do manuscrito em russo para amigos que viviam no ocidente e, em 1957, o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli, comunista, conseguiu ter acesso ao romance e publicou-o. A União dos Escritores Soviéticos fez tudo para impedir a publicação da tradução, mas ela fez-se em 1957 e Feltrinelli foi expulso do PCI. Entretanto, o sucesso do livro foi imediato, com traduções em todas as línguas e edições clandestinas em russo. Depois, foi a consagração do Nobel, que causaria outras polémicas com alguns a considerar que tinha sido a CIA a incentivar a atribuição do prémio para criar embaraços ao governo soviético. Em 23 de Outubro de 1958, foi anunciado que Boris Pasternak ganhara o Prémio Nobel de Literatura de 1958, em função da sua “contribuição para a poesia lírica russa” e pelo seu papel "em prosseguimento da grande tradição da épica russa". Pasternak, por telegrama, agradece à Academia Sueca, “Infinitamente grato, emocionado, orgulhoso, surpreendido, esmagado”. Mas o escândalo e as ameaças na URSS levam o escritor a escrever de novo à Academia: “Tendo em conta o significado dado ao prémio pela sociedade em que vivo, tenho de renunciar a essa distinção imerecida, que me foi conferida. Por favor, não considerem a despropósito a minha renúncia voluntária”. E assim Pasternak não recebeu o Nobel, que só muitas anos depois (1989), um filho receberia, em nome do pai. O escritor, que recusou exilar-se no Ocidente, morreu na URSS, na noite de 30 de maio de 1960, vítima de cancro nos pulmões. 


A adaptação do romance a cinema não mobiliza divergências de monta, ainda que muito se tenha alterado, em função, essencialmente, de condensar as muitas centenas de páginas da obra literária nas três horas de projecção do filme. Mas ao essencial a adaptação mostra-se fiel. Numa época de profundas transformações sociais na Rússia, que se estende desde a I Guerra Mundial, passando pela Revolução Bolchevique de 1917, até finais da Guerra Civil, vamos acompanhar o percurso de uma personagem, Yuri (Omar Sharif), médico e poeta, em confronto com as alterações sociais e políticas por que passa o seu país. Yuri não é um potencial revolucionário, mas compreende que a Rússia czarista tem de mudar. A prepotência e a corrupção assentaram arraiais na sociedade e isso justifica de alguma maneira o levantamento popular e a implementação do comunismo. De início, até poderá sentir certa simpatia pelos revolucionários, mas progressivamente vai compreendendo que as transformações ocorreram apenas para se substituir uma burguesia corrupta e violenta na defesa dos seus interesses, por um aparelho corrupto e violento na defesa dos seus novos interesses. O povo nada beneficiou com a troca, as dificuldades são as mesmas, se não pioraram. Integrando-se neste quadro histórico que David Lean traça com pinceladas largas, surge Yuri, lamentando de início a morte da mãe, e oscilando depois no seu amor entre a mulher, Tonya (Geraldine Chaplin) e a amante, Lara (Julie Christie), a generosa cumplicidade da companheira, e a impulsividade criativa da paixão. Mas o que interessa sobretudo a Pasternak, e posteriormente a David Lean, é o entrecruzar de destinos, o choque entre o movimento colectivo e a deambulação individual. Entre a Revolução e a introspecção. Ou entre um equilíbrio que deverá sempre existir entre o nós e o eu, e a perversão que se verifica quando um dos lados se emancipa ditatorialmente. Daí a crítica que o romance e o filme comportam a um sistema que foi derrapando rapidamente das boas intenções iniciais para a tirania férrea dos tempos de Estaline.


Se Yuri é um poeta, David Lean procura prolongar esse estado poético ao longo do filme, criando uma atmosfera que liga admiravelmente o individual e o colectivo, o homem e a natureza, os estados amorosos e o destempero da violência. Esta foi uma obra que obteve um grande sucesso comercial e arrecadou cinco Oscares. As estatuetas foram para o Melhor Argumento Adaptado (Robert Bolt),  A Melhor Fotografia a Cores (Freddie Young), a Melhor Direcção Artística a Cores (John Box, Terence Marsh e Dario Simoni), o Melhor Guarda-roupa (Phyllis Dalton), e Melhor Partitura Musical Original (Maurice Jarre). Ainda esteve nomeado para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Secundário (Tom Courtenay), Melhor Som e Melhor Montagem. Um dos grandes trunfos terá sido indiscutivelmente o “tema de Lara”, uma composição musical romântica que tornou inesquecível este filme, uma superprodução com momentos fulgurantes e uma descrição cuidada de uma época de difícil reconstituição. O gosto pela vastidão da paisagem (aqui a paisagem gelada do Norte, como fora em Lawrence da Arábia”, o deserto, ou, em "Passagem Para a India”, os exteriores deslumbrantes do Oriente misterioso), a discrição no esboçar dos conflitos humanos e no despoletar das paixões, o equilíbrio encontrado entre a história individual e o drama colectivo, tudo isto faz de «Dr. Jivago” um belíssimo filme. A interpretação é quase sempre brilhante, quanto a mim com o senão de Omar Shariff que não está à altura da personagem. Mas David Lean mostra-se num glorioso momento de forma, ele que era uma referência imediata para cineastas como Stanley Kubrick, que o considerava um dos três únicos realizadores mundiais a que tinha de assistir a todos os filmes, ou Steven Spielberg, que quando parte para mais uma rodagem afirma rever com prazer e proveito alguns clássicos do grande mestre Lean.

DOUTOR JIVAGO
Título original: Doctor Zhivago
Realização: David Lean (Inglaterra, EUA, Itália, 1965); Argumento: Robert Bolt, segundo romance de Boris Pasternak; Produção: Arvid Griffen, Carlo Ponti; Música: Maurice Jarre; Fotografia (cor): Freddie Young; Montagem: Norman Savage; Casting: Irene Howard; Design de produção: John Box; Direcção artística: Terence Marsh; Decoração: Dario Simoni; Guarda-roupa: Phyllis Dalton; Maquilhagem: Anna Cristofani, Grazia De Rossi, Mario Van Riel; Direcção de Produção: John Palmer, Agustín Pastor, Douglas Twiddy, Stanley Goldsmith, Tadeo Villalba; Assistentes de realização: Roy Rossotti, Roy Stevens, Pedro Vidal, Peter Beale, José María Ochoa, Michael Stevenson; Departamento de arte: Fred Bennett, Gus Walker, Tom Jung, Mickey Lennon, Julián Martín, Gil Parrondo, Wallis Smith; Som: Paddy Cunningham, Winston Ryder, Van Allen James; Efeitos especiais: Eddie Fowlie; Efeitos visuais: Gerald Larn; Companhias de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Carlo Ponti Production, Sostar S.A.; Intérpretes: Omar Sharif (Yuri), Julie Christie (Lara), Geraldine Chaplin (Tonya), Rod Steiger (Komarovsky), Alec Guinness (Yevgraf), Tom Courtenay (Pasha), Siobhan McKenna (Anna), Ralph Richardson (Alexander), Rita Tushingham (a rapariga), Jeffrey Rockland (Sasha), Tarek Sharif (Yuri aos 8 anos), Bernard Kay (o bolchevique), Klaus Kinski (Kostoyed), Gérard Tichy (Liberius), Noel Willman, Geoffrey Keen, Adrienne Corri, Jack MacGowran, Mark Eden, Erik Chitty, Roger Maxwell, Wolf Frees, Gwen Nelson, Lucy Westmore, Lili Muráti, Peter Madden, Luana Alcañiz, Assad Bahador, José María Caffarel, Emilio Carrer, Catherine Ellison, Pilar Gómez Ferrer, Víctor Israel, Inigo Jackson, Gerhard Jersch, Jari Jolkkonen, Leo Lähteenmäki, María Martín, José Nieto, Ricardo Palacios, Ingrid Pitt, Robert Rietty, Mercedes Ruiz, Aldo Sambrell, Virgilio Teixeira (capitão), Brigitte Trace, María Vico, etc. Duração: 186 minutos; Distribuição em Portugal: Warner (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 20 de Setembro de 1966.


JULIE CHRISTIE (1941 - )
Há actrizes e actores que ficam marcados por um papel, uma personagem. Julie Christie não terá ficado para sempre associada à figura de Lara no “Doutor Jivago”, mas andou muito perto. No entanto, o seu talento e a sua fotogenia dispersaram-se por muitas outras obras, inglesas e internacionais.
Julie Frances Christie nasceu a 14 de Abril de 1941, em Chabua, na Índia britânica. Filha de uma pintora, Rosemary, e Francis "Frank" St. John Christie, que detinha uma plantação de chá. Com o divórcio dos pais, viveu com a mãe na zona rural do País de Gales. Estudou na escola do Convento de Our Lady, em Leonards-on-Sea, East Sussex, na Wycombe Court School, High Wycombe, Buckinghamshire, também na Central School of Speech and Drama. Em 1957, estreia-se na televisão e esteve para figurar no elenco do primeiro James Bond, mas os seus seios foram considerados pelos produtores pouco abonados. O primeiro grande papel da sua carreira é em “Billy Liar”, de John Schlesinger (1963). Aparece então associada ao movimento do “Free Cinema”. Dois anos depois, triunfa em toda a linha com “Darling”, do mesmo Schlesinger, onde ganha o Oscar de Melhor Actriz. No mesmo ano, brilha sob a direcção de David Lean, em “Doctor Zhivago”. A sua carreira a partir daí é um pouco irregular, mas vai aparecendo sempre em obras relevantes onde demonstra o seu inegável talento, que lhe valeu inúmeros prémios. Manteve uma relação com Warren Beatty, tendo actuado em filmes por ele dirigidos, como Shampoo (1975) e Heaven Can Wait (1978). Mas a sua carreira está recheada de obras indispensáveis como “Fahrenheit 451” (1966), “Far from the Madding Crowd” (1967), “Petulia” (1968),  “McCabe & Mrs. Miller” (1971), “The Go-Between” (1971), “Don't Look Now” (1973), “Demon Seed” (1977), “The Return of the Soldier” (1982), “Heat and Dust” (1983), “ Power” (1986), “Afterglow” (1997) ou  “Away from Her” (2008).
Foi nomeada quatro vezes para o Oscar de Melhor Actriz, ganhando em 1966, com “Darling”. Nomeada ainda em 1972 (“McCabe and Mrs. Miller”), 1998 (“Afterglow”) e 2008 (“Away from Her”). Foi Globo de Ouro, em 2008, com “Away from Her”, e contou com várias outras nomeações. O mesmo filme valeu-lhe os prémios da Screen Actors Guild e da National Board of Review, que antes já a havia consagrado em 1965, por “Darling” e “Doctor Zhivago”. “Afterglow”, em 1998, valeu-lhe ainda o Independent Spirit Award. Presença regular nos BAFTAS (em 1964, 67, 73, 74), ganhou em 1966, com “Darling”.
Outros relacionamentos célebres foram com Terence Stamp e Donald Sutherland, mas o mais duradouro foi com Duncan Campbell, um jornalista do “The Guardian”, que data dos anos 70 e acabou em casamento em 2007. Julie Christie, feminista, é igualmente activa defensora do ambiente e dos animais, lutando contra armas nucleares, e defendendo a causa da Palestina.


Filmografia

Como actriz: 1961: A for Andromeda (TV); Call Oxbridge 2000 (TV); 1962: The Fast Lady (A Respeitável Carcaça), de Ken Annakin; The Andromeda Breakthrough (TV); 1962: Crooks Anonymous (Agarra que é Ladrão!), de Ken Annakin; 1963: Billy Liar (O Jovem Mentiroso), de John Schlesinger; O Santo (TV); ITV Play of the Week (TV); 1965: Doctor Zhivago (Doutor Jivago), de David Lean; Darling (Darling), de John Schlesinger; Young Cassidy (O Jovem Cassidy), de John Ford; 1966: Fahrenheit 451 (Grau de Destruição), de François Truffaut; 1967: Far from the Madding Crowd (Longe da Multidão), de John Schlesinger; 1968: Petulia (Petulia), de Richard Lester; 1970: The Go-Between (O Mensageiro), de Joseph Losey; In Search of Gregory (Convite ao Pecado), de Peter Wood; 1971: McCabe & Mrs. Miller (A Noite Fez-se Para Amar), de Robert Altman; 1973: Don't Look Now (Aquele Inverno em Veneza), de Nicolas Roeg; 1975: Shampoo (Shampoo), de Hal Ashby; 1977: Demon Seed (A Semente do Demónio), de Donald Cammell; 1978: Heaven can Wait (O Céu Pode Esperar), de Warren Beatty; 1981: Memoirs of a Survivor (Memórias de Uma Sobrevivente), de David Gladwell; 1982: Les Quarantièmes Rugissants, de Christian de Chalonge; The Return of the Soldier (O Regresso do Soldado), de Alan Bridges; 1983: Heat and Dust (Verão Indiano), de James Ivory; Separate Tables (TV); The Gold Diggers, de Sally Potter; 1986: Miss Mary, de María Luisa Bemberg; 1986: Power (As Chaves do Poder), de Sidney Lumet; 1986: Väter und Söhne - Eine deutsche Tragödie (TV); 1986: Champagne Amer, de Ridha Behi, Henri Vart; 1988: Dadah Is Death (TV); 1990: Fools of Fortune (Anos de Fogo), de Pat O’ Connor; 1992: The Railway Station Man (TV); 1996: Dragonheart (DragonHeart: Coração de Dragão), de Rob Cohen; 1996: Hamlet (Hamlet), de Kenneth Branagh; 1996 Karaoke (TV); 1997: Afterglow (Sol do Poente), de Alan Rudolph; 2000: The Miracle Maker – The Story of Jesus; 2001: Belphégor, le Fantôme du Louvre, de Jean-Paul Salomé; 2001: No Such Thing, de Hal Hartley; 2002: Snapshots, de Rudolf van den Berg; I’m with Lucy, de Jon Sherman; 2004: Troy (Tróia), de Wolfgang Petersen; Harry Potter and the Prisoner of Azkaban (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), de Alfonso Cuarón; Finding Neverland (À Procura da Terra do Nunca), de Marc Forster; 2005: The Secret Life of Words (A Vida Secreta das Palavras), de Isabel Coixet; 2006: Away from Her (Longe Dela), de Sarah Polley; 2009: Glorious 39 (Os Gloriosos 39), de Stephen Poliakoff; 2009: New York, I Love You (episódio de Shekhar Kapur); 2011: Red Riding Hood (A Rapariga do Capuz Vermelho), de Catherine Hardwicke; 2012: The Company You Keep (Regra de Silêncio), de Robert Redford.

11 DE AGOSTO DE 2015


OS CHAPÉUS-DE-CHUVA DE CHERBOURG 
(1964)

“Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” representa uma experiência muito rara no cinema, sobretudo se nos referirmos a tudo o que fica para trás relativo a 1864. Depois, o próprio Jacques Demy terá voltado a este estilo noutros filmes. Aliás, todo o cinema de Demy, um dos cineastas franceses que acompanharam o desenvolvimento da “nouvelle vague”, no final dos anos 50, início dos de 60, é uma curiosa e inédita mescla de realidade e fantasia, com a música a desempenhar um papel aglutinador essencial em muitas das suas obras.  “Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” iniciaram esta tendência com uma fabulosa partitura musical de Michel Legrand que acompanha todo o filme, um pouco na linha da ópera que não deixa de ser citada (Geneviève Emery e Guy Foucher, o par amoroso desta obra vão mesmo à ópera assistir a uma representação de “Carmen”).
Para os que gostam de musicais, este é um filme indispensável. Para os que não gostam de musicais, o melhor será não perder este título, pois ele é um musical muito diferente, digamos que um musical europeu, prolongando de certa forma o musical anglo-saxão, mas insuflando-lhe novo folego. Uma boa oportunidade para mudar de opinião, portanto. Para os que gostam de ópera este é um teste a não perder igualmente, uma espécie de opereta dos tempos modernos (enfim, dos anos 60 do século passado). Para os adeptos de histórias de amor e de melodramas, “Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” é um excelente exemplo a explorar. Para os que gostam de filmes sociais, este é um deles, acompanhado por partitura musical (cumpre informar que Jacques Demy empreendeu, anos depois, em 1982, uma experiência limite neste campo, ao dirigir “Um Quarto na Cidade”, outro filme integralmente musicado e cantado tendo como tema greves e conflitos laborais em França).
A carreira de Jacques Demy não foi muito longa nem permitiu uma filmografia extensa. Além dos títulos já referidos, há a citar ainda a sua magnífica primeira longa-metragem, o poético e deslumbrante “Lola” (1961) e o excelente “A Grande Pecadora” (1963). Depois de “Os Chapéus-de-chuva de Cherbourg” volta a dirigir Catherine Deneuve, ao lado da sua irmã Françoise Dorleac, em “As Donzelas de Rochefort” (1967), que mantem o estilo musical. Seguem-se “A Princesa com Pele de Burro” (1970) e “A Flauta Mágica” (1972). Nascido a 5 de Junho de 1931, Demy viria a falaecer a 27 de Outubro de 1990, em Paris, ao que se julga vítima de SIDA. Era casado com Agnés Varda.


Geneviève Emery  (Catherine Deneuve) e Guy Foucher (Nino Castelnuovo) são jovens em 1958 e amam-se. Ela tem 17 anos e é filha de Madame Emery (Anne Vernon), dona de uma loja de chapéus-de-chuva em Cherbourg. Ele já passou os 20 anos, é operário numa oficina de automóveis, e está à espera de ser chamado para a tropa, numa altura em que a guerra da Argélia estava ao rubro. Madame Emery não vê com bons olhos este romance, e entretanto surge um outro pretendente, Roland Cassard (Marc Michel), muito mais condizente com os predicados pretendidos pelas convenções: um homem endinheirado, bem-posto e bem instado na vida no comércio das pedras preciosas, e que ama Geneviéve sem sombra de dúvida. O filme está dividido em três partes, que acompanham o percurso de Guy: Partida (1958), Ausência (1959 e Regresso (1963). A guerra da Argélia é um tema presente em todo o filme, marcado o compasso da obra. Tudo acontece como acontece porque a guerra existe. Tudo se desenrola segundo leis inflexíveis porque imperam preconceitos e porque no amor nem sempre o que deve ser é, mas sim o que pode ser. Não se vive consoante se gostaria de viver, mas como se deve viver, tendo em conta um determinado número de condicionalismos. Esta não é a ideia de Jacques Demy, mas a crítica implícita que ele formula em relação á sociedade francesa de inícios da década de 60.
O filme não é só não-realista pela presença obsessiva da música, mas também por toda a sua composição plástica, onde sobressaem os cenários, todos eles decorados de forma garrida, com uma presença de cores dominantes impressionantes. São as paredes interiores, forradas a papel com desenhos e tonalidades invulgares, são as paredes exteriores que acompanham esta forma de combinar a expressividade dos cenários com a expressividade das acções e dos diálogos, definindo a dramaticidade de cada cena ou sequência. O filme termina em pleno Natal de 1963, e a presença da neve é outro elemento que Demy aproveita em favor do clima pretendido.
Enfim, uma obra-prima, com uma banda sonora que não se esquece, e uma Catherine Deneuve, em início de carreira, deslumbrante.

OS CHAPÉUS-DE-CHUVA DE CHERBURGO
Título original: Les parapluies de Cherbourg
Realização: Jacques Demy (França, RFA, 1964); Argumento: Jacques Demy; Produção: Mag Bodard, Gilbert de Goldschmidt, Pierre Lazareff; Música: Michel Legrand; Fotografia (cor): Jean Rabier; Montagem: Anne-Marie, Monique Teisseire; Design de produção: Bernard Evein; Guarda-roupa: Jacqueline Moreau; Maquilhagem: Christine Fornelli; Direcção de Produção: Charles Chieusse, Philippe Dussart, Maurice Urbain; Assistentes de realização: André Flédérick, Klaus Müller-Laue, Jean-Paul Savignac; Departamento de arte: Maurice Bourbotte, Jean Didenot, Joseph Gerhard, Claude Pignot; Som: François Musy; Companhias de produção: Parc Film, Madeleine Films, Beta Film; Intérpretes: Catherine Deneuve (Geneviève Emery), Nino Castelnuovo (Guy Foucher), Anne Vernon (Madame Emery), Marc Michel (Roland Cassard), Ellen Farner (Madeleine), Mireille Perrey (Tia Élise), Jean Champion (Aubin), Pierre Caden (Bernard), Jean-Pierre Dorat (Jean), Bernard Fradet, Michel Benoist, Philippe Dumat, Dorothée Blanck, Jane Carat, Harald Wolff, Danielle Licari, José Bartel, Christiane Legrand, Georges Blaness, Claudine Meunier, Claire Leclerc, Patrick Bricard, Jacques Camelinat, François Charet, Jean-Pierre Chizat, Jacques Demy (um cliente), Bernard Garnier, Gisèle Grandpré, Hervé Legrand,  Michel Legrand (Jean, voz a cantar), Myriam Michelson, Paul Pavel, Roger Perrinoz, Rosalie Varda, etc. Duração: 91 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos.


CATHERINE DENEUVE (1943 - )
Catherine Fabienne Dorléac nsceu a 22 de Outubro de 1943, em Paris, França. O gosto pela representação aprendeu-o eu casa. O pai era um actot, Maurice Dorleác, e teve uma irmã, falecida muito precocemente, Françoise Dorléac, que era igualmente actriz. Chegaram a representar juntas, em “Les Demoiselles, de Rochefort”. Deneuve estreou-se no cinema aos 13 anos, em 1956, e durante a adolescência trabalhou em diversos pequenos filmes com o diretor Roger Vadim q               eu a lançou e com quem teve uma relação amorosa, de que resultou um filho, Christian Vadim. Mas foi em 1964, em Os Guarda Chuvas do Amor, de Jacques Demy, que Catherine Deneuve se afirmou definitivamente como uma das maiores actrizes francesas, reputação que foi mantendo dai até hoje. Entre 1965 e 1972, foi casada com o fotógrafo inglês David Bailey, o mesmo que haveria de inspirar Antonioni para o seu filme “Blow Up”. Conhece-se ainda uma outra relação importante, com o actor italiano Marcello Mastroianni, com quem teve uma filha, Chiara Mastroianni, em 1972. A sua carreira como interprete é uma sucessão de triunfo, derigida por grandes cineastas de todo o mundo, como Luis Buñuel, em “A Bela do Dia”, ou Roman Polanski., em “Repulsa”, ainda nos anos 60. Mas Luis Buñuel, François Truffaut, Jacques Demy, Lars von Trier, Tony Scott, Stuart Rosenberg, Marco Ferreri, Jean-Pierre Melville, Robert Aldrich, Jean-Paul Rappeneau, Claude Lelouch, Dino Risi, Raoul Ruiz, Alain Corneau ou André Téchiné, foram alguns dos mais notáveis cineastaa com quem cruzou a sua carrera. De André Téchiné tornou-se mesmo uma espécie de actriz fetichae aparecendo em diversas obras deste que é considerado um dos mais significativos cineastas da actualidade francesa. Um dia terá declarado que gostaria de trabalhar com Manoel de Oliveira e este fez-lhe a vontade por diversas ocasiões, a começar por “O Convento”.
Como símbolo de uma beleza elegante, aparentemente fria e distante, misteriosa no seu íntimo, Deneuve foi aproveitada para estar associada a grandes nomes da moda e dos perfumes. Foi um rosto do estilista Yves Saint Laurent e deu igualmente a cara pelos perfumes Chanel Nº 5, o mais vendido e famoso perfume do mundo por mais de duas décadas. Continuou ligada à publicidade, com Louis Vuitton ou os cosméticos Mac. Ganhou três Cesars para a Melhor Actriz Francesa, esteve nomeada para um Oscar por “Indochina”, que acabaria por ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua não inglesa, ganhou um BAFTA, ganhou o Festival de Cannnes e o de Veneza, e obteve um retumbante sucesso de público e critica com “8 Mulheres”, em 2002, ao lado de algumas das maiores atrizes francesas da altura, como Fanny Ardant e Emmanuelle Béart.


Filmografia:

Como actriz: 1956: Les Collégiennes, de André Hunebelle; 1960: Les portes claquent, de Jacques Poitrenaud, Michel Fermaud; L'Homme à femmes (Homens e Mulheres), de Jacques-Gérard Cornu; 1961: Les Parisiennes, de Marc Allégret (episódio “Sophie”); Ça c'est la vie, de Claude Choubier (curta-metragem); 1962: Les Petits Chats, de Jacques R. Villa; Et Satan conduit le bal, de Grisha M. Dabat; Le Vice et la Vertu, de Roger Vadim; 1963: Vacances portugaises ou Les Egarements (Os Sorrisos do Destino), de Pierre Kast; Les Plus Belles Escroqueries du monde (As Mais Belas Vigarices do Mundo), de Claude Chabrol (episódio “L'homme qui vendit la tour Eiffel”); 1964: Les Parapluies, de Cherbourg (Os Chapéus de Chuva de Cherburgo), de Jacques Demy; La Chasse à l'homme (Caça ao Homem), de Édouard Molinaro; Un monsieur de compagnie (Nasceu para seduzir), de Philippe, de Broc; La costanza della ragione, de Pasquale Festa Campanile; 1965: Le Chant du monde (Rudes Paixões), de Marcel Camus; Répulsion (Repulsa), de Roman Polanski; La Vie de château (Escândalo no Castelo), de Jean-Paul Rappeneau; Das Liebeskarussell (Engano Matrimonial), de Rolf Thiele (episódio “Angéla”); 1966: Les Créatures (Páginas Íntimas), de Agnès Varda; 1967: Les Demoiselles, de Rochefort (As Donzelas de Rochefort), de Jacques Dem; Belle de jour (A Bela de Dia), de Luis Buñuel; Benjamin ou les Mémoires de un puceau, de Michel Deville; Manon 70, de Jean Aurel; 1968: La Chamade (A Chamada), de Alain Cavalier; Mayerling (Mayerling), de Terence Young; Vienna: The years remembered, de Jay Anson (curta-metragem); La Sirène du Mississipi (A Sereia do Mississípi), de François Truffaut; 1969: April fools (Os Loucos do Amor), de Stuart Rosenberg; 1970: Tristana (Tristana, Amor Perverso), de Luis Buñuel; Peau de âne (A Princesa com Pele de Burro), de Jacques Demy; 1971: Ça n'arrive qu'aux autres (A Longa Jornada), de Nadine Trintignant; 1971: La Cagna (Liza, a Submissa), de Marco Ferreri; 1972: Un flic (Cai a Noite Sobre a Cidade), de Jean-Pierre Melville; L'Événement le plus important depuis que l'homme a marché sur la Lune (O acontecimento mais importante desde que o homem chegou à Lua), de Jacques Demy; Henri Langlois, de Elia Herson e Roberto Guerra (documentário); Le Dernier Cri des Halles, de Monique Aubert (documentário); 1973: Touche pas à la femme blanche! (Não Toques na Mulher Branca), de Marco Ferreri; 1974: Fatti di gente perbène (Histórias de Gente Bem), de Mauro Bologni; Zig-Zig, de László Szabó; La Femme aux bottes rouges, de Juan Luis Buñuel; L'Agression (A Agressão), de Gérard Pirès; 1975: Hustle (A Cidade dos Anjos), de Robert Aldrich; 1975: Le Sauvage (Meu Irresistível Selvagem), de Jean-Paul Rappen; 1976: Si c'était à refaire (Voltar a viver), de Claude Lelouch; Coup de foudre, de Robert Enrico (inacabado); 1976: Anima persa (Almas Perdidas), de Dino Risi; 1977: March or die ()A Legião Estrangeira, de Dick Richards; Casotto (Domingo na Praia), de Sergio Citti; 1978: L'Argent des autres (O Dinheiro dos Outros), de Christian, de Chalonge; 1978: Écoute voir, de Hugo Santiago; Ils sont grands, ces petits, de Joël Santoni; 1979: À nous deux (Uma Aventura para Dois), de Claude Lelouch; Courage fuyons (Coragem Fujamos), de Yves Robert; 1980: Le Dernier Métro (O Último Metro), de François Truffaut; Je vous aime (Os homens Que Eu Amei), de Claude Berri; 1981: Le Choix des armes (A Escolha das Armas), de Alain Corneau; Hôtel des Amériques (O Segredo do Amor), de André Téchiné; Reporters, de Raymond Depardon (documentário); 1982: Le Choc (Fuga para a Felicidade), de Robin Davis; 1983: L'Africain (Os Largos Horizontes da Aventura), de Philippe, de Broca; The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott; 1984: Le Bon Plaisir, de Francis Girod; Fort Saganne (Forte Saganne - O Herói do Deserto), de Alain Corneau; Paroles et musique (Letra e Música), de Élie Chouraqui; 1985: Speriamo che sia femmina (Oxalá Seja Menina!), de Mario Monicelli; 1986: Le Lieu du crime (O Local do Crime), de André Téchiné; Norma Jean, dite Marilyn Monroe57, de André Romus e Marcia Lerner (Documentário, Comentário); 1987: Agent trouble, de Jean-Pierre Mocky; 1987: Drôle de endroit pour une rencontre, de François Dupeyron; 1988: Fréquence meurtre (Frequência morte), de Élisabeth Rappeneau; 1989: Frames from the edge: Helmut Newton), de Adrian Maben (documentário); 1990: La Reine blanche, de Jean-Loup Hubert; 1991: Contre l'oubli (filme colectivo) (episódio “Pour Febe Elisabeth Velasquez”), de Chantal Akerman; 1992: Indochine (Indochina), de Régis Wargnier; 1993: Ma saison préférée (A Minha Estação Preferida), de André Téchiné; Les demoiselles ont eu 25 ans, de Agnès Varda (documentário); 1994: La Partie, de échecs, de Yves Hanchar; 1995: Les Cent et Une Nuits, de Simon Cinéma, de Agnès Varda; 1995: Le Couvent (O Convento), de Manoel, de Oliveira; 1995: L'Univers, de Jacques Demy, de Agnès Varda (documentário); N'oubliez jamais (en) - clip -, de Joe Cocker; 1996: Court toujours: L'Inconnu, de Ismaël Ferroukhi (curta-metragem, TV); Généalogies, de un crime (Genealogias de um Crime), de Raoul Ruiz; Les Voleurs (Os Ladrões), de André Téchiné; 1997: Pierre and Gilles: Love Stories, de Mike Aho (curta-metragem); Sans titre, de Leos Carax (curta-metragem); 1998: Place Vendôme, de Nicole Garci; 1999: Pola X (Pola X), de Leos Carax; Belle-maman, de Gabriel Aghion; Le Vent, de la nuit, de Philippe Garrel; Est-Ouest (Vida Prometida), de Régis Wargnier; Le Temps retrouvé (O Tempo Reencontrado), de Raoul Ruiz; The Book That Wrote Itself, de Liam O'Mochain; 2000: Dancer in the Dark (Dancer in the Dark), de Lars von Trie; Von Trier's: 100 ojne, de Katia Forbert (documentário); 2001: Huit femmes (8 Mulheres), de François Ozon; The Musketeer (O Mosqueteiro), de Peter Hyams; Le Petit Poucet, de Olivier Dahan; Je rentre à la maison (Vou para casa), de Manoel, de Oliveira; Absolument fabuleux, de Gabriel Aghion; Clouds: letters to my son, de Marion Hänsel (documentário, narração); 2002: Au plus près du paradis, de Tonie Marshall;  The Kids Stays in the Picture, de Nanette Burstein (documentário); Yves Saint-Laurent, 5 avenue Marceau 75116 Paris, de David Téboul (documentário); 2003: Un film parlé (Um filme falado), de Manoel, de Oliveira; Princesse Marie, de Benoît Jacquot (TV); Les Liaisons dangereuses, de Josée Dayan (TV); Le Génie français, de Josée Dayan e David Jankoswski (TV); 2004: Les Temps qui changent (Os Tempos que Mudam), de André Téchiné; Rois et Reine (Reis e Rainha), de Arnaud Desplechin; 2005: Palais Royal! (Dondoca à Força), de Valérie Lemercier; 2006: Le Concile de pierre (O Concílio de Pedra), de Guillaume Nicloux; Le Héros, de la famille, de Thierry Klifa; Nip/Tuck, de Charles Haid (TV); 2007: Après lui, de Gaël Morel; Persepolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi (voz); Frühstrück mit einer Unbekannten, de Maria Von Heland (TV); 2008: Un conte, de Noël (Um Conto de Natal), de Arnaud Desplechin; Mes stars et moi (As Minhas Estrelas), de Lætitia Colombani; Je veux voir (Eu Quero Ver), de Khalil Joreige e Joana Hadjithomas; Figures imposées, de Julien Doré (clip); 2009: Cyprien, de David Charhon; La Fille du RER, de André Téchiné; Bancs publics (Versailles Rive-Droite), de Bruno Podalydès; Mères et filles, de Julie Lopes-Curval; Lettre à Anna, de Eric Bergkrau (documentário, narração); 2010: L'Homme qui voulait vivre sa vie (Em Busca de Uma Nova Vida), de Éric Lartigau; Potiche (Potiche - Minha Rica Mulherzinha), de François Ozon; 2011: Les Yeux, de sa mère, de Thierry Klifa; Les Bien-Aimés (Os Bem-Amados), de Christophe Honoré; 2012: Astérix et Obélix: Au service, de sa Majesté (Astérix & Obélix: Ao Serviço de Sua Majestade), de Laurent Tirard; Les Lignes, de Wellington (Linhas de Wellington), de Raoul Ruiz e Valeria Sarmiento; As Linhas de Torres Vedras, de Raoul Ruiz e Valeria Sarmiento (TV); O Theos agapaei to haviari, de Yannis Smaragdis; 2013: Elle s'en va (Ela Está de Partida), de Emmanuelle Bercot; 2014: Dans la cour, de Pierre Salvadori; L'Homme que l'on aimait trop (O Homem Demasiado Amado), de André Téchiné; Trois cœurs (3 Corações), de Benoît Jacquot; 2015: La Tête haute59, de Emmanuelle Bercot; Le Tout Nouveau Testament, de Jaco Van Dormael.

5 DE AGOSTO DE 2015


IRMA LA DOUCE (1963)

Billy Wilder é definitivamente um dos maiores realizadores que cresceram no cinema norte-americano. Nascido ainda no tempo do Império Austro-húngaro, em 1906, numa localidade que hoje pertence à Polónia, e falecido em Los Angeles em 2002, Billy Wilder parecia destinado a uma carreira de advogado em Viena, quando foi apanhado pelo jornalismo, viajando depois para Berlim. Começou a carreira no cinema como argumentista, e, tendo em conta a sua ascendência judaica, achou melhor emigrar depois de Hitler chegar ao poder. Em Hollywood, apesar de não dominar o inglês, vingou rapidamente, inicialmente a escrever argumentos com Charles Brackett. Foram autores de comédias como “Ninotchka” (1939) ou “Bola de Fogo” (1941). A carreira prosseguiu sempre com obras de reconhecida valia, como “Cinco Covas no Egipto” (1943), “Pagos a Dobrar” (1944) “Farrapo Humano” (1945), “Crepúsculo dos Deuses” (1950), “O Grande Carnaval” (1951), “O Pecado Mora ao Lado” (1955), “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), “O Apartamento” (1960) ou “Irma La Douce” (1963) todas elas com vários prémios no activo e sendo consideradas das melhores que a cinematografia mundial produziu nesse período.
Bateu-se bem em quase todos os géneros, marcando uma sólida posição de autor, mas foi na comédia que terá levado mais longe algumas das suas características, um humor cáustico, irreverente para com as instituições, moralmente cínico, algo perverso, mesmo quando o fundo é de uma invejável moralidade. Bom-vivant, isso mesmo fica testemunhado nas suas películas, onde se enfatizam os prazeres da vida. “Irma, La Douce” é um bom exemplo.
O argumento é do próprio Billy Wilder, de colaboração com I.A.L. Diamond, que adaptam uma peça teatral de Alexandre Breffort. Como em muitas outras obras de Billy Wilder, esta é uma história que vive do disfarce, de alguém a fazer-se passar por outro. A acção passa-se em Paris, num bairro popular, uma rua bem povoada de prostitutas, um café/taberna onde se encontram os chulos a jogar enquanto esperam que as raparigas lhes tragam da rua a mesada, uma pensão de grande rotação, a azáfama de todos os dias e de todas as noites, os polícias de giro que fecham os olhos e arrecadam as gorjetas no chapéu deixado sobre o banco, tudo a correr sobre rodas até ao dia em que aparece um novo polícia, Nestor Patou (Jack Lemmon), que desconhece as regras do jogo e resolve actuar segundo os regulamentos e a moral instituída. Claro que não resulta bem, será expulso da polícia e, com alguma sorte pelo seu lado, acaba por ser designado o nº 1 da associação dos chulos do bairro e terá como prémio Irma, La Douce, a prostituta preferida da zona. Mais coisa, menos coisa e muitos ciúmes pelo meio, Nestor acaba por se transformar em Lord X, que todas as semanas desce de Londres à cidade para estar com Irma e ofertar-lhe 500 francos a troco de um jogo de cartas por noite. Não interessa aprofundar mais a intriga, este início já dá para perceber que não é pelas boas práticas que se chega ao céu e há que saber viver numa sociedade onde todos traficam. Só não evolui na vida quem não se adapta às normas vigentes, que não são morais, nem justas, mas são as que há e as que melhor rendem no mercado. O ingénuo bem-intencionado é expulso desta sociedade, mas se resolve aderir aos maus costumes passa a number one.


A crítica de Billy Wilder não pode ser mais contundente, o seu humor é deliciosamente perverso, a direcção do filme desenvolve um cómico de situação e de diálogo cheio de subtendidos, mas sempre de uma elegância e subtileza de realçar. Todo o quadro de Paris boémio é magnífico de autenticidade, apesar de rodado quase sempre em estúdio, nos EUA, e a construção de personagens e de situações, deliciosa. Há um gag, um entre muitos possíveis de citar, memorável. O dono do café, sempre que há uma troca de argumentos mais violenta, vai buscar o sifão para reanimar o cliente entorpecido, lançando-lhe um jacto de água à distância. A prática torna-se de tal forma vulgar que às tantas já são os clientes a servirem-se do sifão. De resto, a engenhosa troca de Nestor por Lord X, com recurso a um elevador monta-cargas é igualmente deliciosa. Uma grande comédia que permite aos actores trabalhos condizentes. Jack Lemmon é, como sempre, brilhante, ele que foi um fiel colaborador de Wilder, e Shirley MacLaine mostra-se num dos grandes papéis da sua carreira. Aqui merecedor de mais uma nomeação para o Oscar de Melhor Actriz. Uma notável comédia de um mestre.

IRMA LA DOUCE
Título original: Irma la Douce
Realização: Billy Wilder (EUA; 1963); Argumento: Billy Wilder, I.A.L. Diamond, segundo peça de teatro de Alexandre Breffort; Produção: Edward L. Alperson, I.A.L. Diamond, Doane Harrison, Billy Wilder, Alexandre Trauner; Música: André Previn; Fotografia (cor): Joseph LaShelle; Montagem: Daniel Mandell; Casting: Lynn Stalmaster; Direcção artística: Alexandre Trauner; Decoração: Maurice Barnathan, Edward G. Boyle; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Emile LaVigne, George Masters, Alice Monte, Harry Ray, Frank Westmore; Direcção de Produção: Allen K. Wood; Assistentes de realização: Hal W. Polaire, Christian Ferry; Departamento de arte: Frank Agnone, Arden Cripe, Hub Braden, Harold Michelson; Som: Gilbert D. Marchant, Robert Marti; Efeitos especiais: Milt Rice; Companhias de produção: The Mirisch Corporation, Phalanx Productions; Intérpretes: Jack Lemmon (Nestor Patou / Lord X), Shirley MacLaine (Irma La Douce), Lou Jacobi (Moustache), Bruce Yarnell (Hippolyte), Herschel Bernardi (Insp. Lefevre), Hope Holiday (Lolita), Joan Shawlee (Amazon Annie), Grace Lee Whitney (Kiki, a cossaca), Paul Dubov (Andre), Howard McNear, Cliff Osmond, Diki Lerner, Herb Jones, Ruth Earl, Jane Earl, Tura Satana, Lou Krugman, James Brown, Bill Bixby, John Alvin, Susan Woods, Harriette Young, Sheryl Deauville, Billy Beck, Jack Sahakian, Edgar Barrier, James Caan (soldao com rádio), Don Diamond, Paul Frees, Joe Gray, Louis Jourdan (Narrador), Ralph Moratz, Moustache, Doye O'Dell, Joe Palma, Richard Peel, etc. Duração: 147 minutos; Distribuição em Portugal: MGM (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 27 de Junho de 1974.


SHIRLEY MACLAINE (1934 - ?)
Shirley MacLaine, cujo nome de baptismo é Shirley MacLean Beaty, nasceu a 24 de Abril de 1934, em Richmond, Virginia, EUA. Filha de Ira Owens Beaty, um músico de origem irlandesa, e de Kathlyn Corinne MacLean, bailarina canadiana; irmã do actor e realizador Warren Beatty; casada, desde 1954 até 1982, com o realizador e produtor Steve Parker, Shirley iniciou-se como aluna de bailado na Washington School of Ballet. Diplomada, passou a viver em Nova Iorque, onde começa a aparecer em musicais da Broadway, como no sucesso de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, "Me and Juliet" e, seguidamente, em "The Pajama Game", sendo posteriormente convidada pelo produtor Hal B. Wallis para viajar até Hollywood, onde se estreia em “O Terceiro Tiro”, de Alfred Hitchcock (1955). Surge noutros filmes, como na superprodução “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” (1956), ou no excelente “Deus Sabe Quanto Amei”, de Minnelli (1958), onde recebe a primeira nomeação para o Oscar de Melhor Actriz. Em 1960, volta a ser nomeada por “O Apartamento”, e pouco depois, terceira nomeação por “Irma la Douce” (1963). In 1969, dirigida pelo amigo Bob Fosse, interpreta um musical, “Sweet Charity - A Rapariga que Queria Ser Amada”. Estreia-se como realizadora em 1975, com um documentário, rodado na China, “ The Other Half of the Sky: A China Memoir”, que é nomeado para o Oscar da categoria. Como actriz, nova nomeação em 1977, com “A Grande Decisão”. Finalmente ganha o Oscar de Melhor Actriz com “Laços de Ternura” (1983), e arrebata o Festival de Veneza com “Madame Sousatzka, a Professora” (1988). Depois de muitos outros sucessos, regressa à realização em 1998, com uma ficção, “Bruno” (2000). Entretanto, apareceu em diversas séries de televisão e telefilmes. Em 2015 tem em pré-produção alguns trabalhos. Shirley conta com uma Estrela no Hall of Fame, de Hollywood, em 1615 Vine Street.


Filmografia:
Como Actriz / Cinema: 1955: The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro), de Alfred Hitchcock; Artists and Models (Pintores e Raparigas), de Frank Tashlin; 1956: Around the World in Eighty Days (A Volta ao Mundo em 80 Dias), de Michael Anderson; 1958: The Sheepman (O Irresistível Forasteiro), de George Marshall; The Matchmaker (Viva o Casamento), de Joseph Anthony; Hot Spell (Feitiço Ardente), de Daniel Mann; Some Came Running (Deus Sabe Quanto Amei), de Vincente Minnelli; 1959: Ask Any Girl (O Que Elas Querem é Casar), de Charles Walters; Career (Os Caminhos da Ambição), de Joseph Anthony; 1960: Can-Can (Can-Can), de Walter Lang; The Apartment (O Apartamento), de Billy Wilder; Ocean's Eleven (Os Onze de Oceano), de Lewis Milestone; 1961: All in a Night's Work (A História daquela Noite), de Joseph Anthony; Two Loves (Dois Amores), de Charles Walters; The Children's Hour (A Infame Mentira), de William Wyler; 1962: My Geisha (A Minha Gueixa), de Jack Cardiff; Two for the Seesaw (Baloiço Para Dois), de Robert Wise; 1963: Irma la douce (Irma la Douce), de Billy Wilder; 1964: What a Way to Go ! (Ela e os Seus Maridos), de J. Lee Thompson; The Yellow Rolls-Royce (O Rolls-Royce Amarelo), de Anthony Asquith; 1965: John Goldfarb, Please Come Home (Um Americano no Harém), de J. Lee Thompson; 1966: Gambit (Ladrão Roubado), de Ronald Neame; 1967: Woman Times Seven (Sete Vezes Mulher), de Vittorio de Sica; 1968: The Bliss of Mrs. Blossom (A Felicidade da Senhora Blossom), de Joseph McGrath; 1969: Sweet Charity (Sweet Charity - A Rapariga que Queria Ser Amada), de Bob Fosse; 1970: Two Mules for Sister Sara (Os Abutres Têm Fome), de Don Siegel; 1971: Desperate Characters (Um Casal Desesperado), de Frank D. Gilroy; 1972: The Possession of Joel Delaney (A Obsessão de Joel Delaney), de Waris Hussein; 1977: The Turning Point (A Grande Decisão), de Herbert Ross; 1979: Being There (Bem-Vindo Mr. Chance), de Hal Ashby; 1980: Loving Couples (Amigos e Amantes), de Jack Smight; A Change of Seasons (A Aluna e o Professor), de Richard Lang; 1983: Terms of Endearment (Laços de Ternura), de James L. Brooks; 1984: Cannonball Run II (A Corrida Mais Louca do Mundo II), de Hal Needham; 1988: Madame Sousatzka (Madame Sousatzka, a Professora), de John Schlesinger; 1989: Steel Magnolias (Flores de Aço), de Herbert Ross; 1990: Waiting for the Light, de Christopher Monger; Postcards from the Edge (Recordações de Hollywood), de Mike Nichols; 1992: Used People (Um Certo Outono), de Beeban Kidron; 1993: Wrestling Ernest Hemingway), de Randa Haines; 1994: Guarding Tess (O Agente Secreto), de Hugh Wilson; 1996: Mrs. Winterbourne (O Comboio do Destino), de Richard Benjamin; The Evening Star (Lágrimas ao Entardecer), de Robert Harling; 1997: A Smile Like Yours (Bebé por Encomenda), de Keith Samples; 2000: Bruno, de Shirley MacLaine; 2003: Carolina, de Marleen Gorris; 2005: Bewitched (Casei com uma Feiticeira), de Nora Ephron; In Her Shoes (Na Sua Pele), de Curtis Hanson; Rumor Has It (Dizem por Aí...), de Rob Reiner; 2007: Closing the Ring (O Elo do Amor), de Richard Attenborough; 2010: Valentine's Day (Dia dos Namorados), de Garry Marshall; 2011: Anyone's Son (Morre... e Deixa-me em Paz), de Danny Aiello; 2012: Bernie, de Richard Linklater; 2013: Mother Goose!; Elsa & Fred, de Michael Radford; The Locals; The Secret Life of Walter Mitty (A Vida Secreta de Walter Mitty), de Ben Stiller; 2015: Wild Oats, de Andy Tennant; Men of Granite, de Dwayne Johnson-Cochran (pré-produção); Jim Button, de Dennis Gansel (anunciado). 

Televisão: 1955: Shower of Stars (série de TV); 1958: The Sid Caesar Show (série de TV); 1971-1972: Shirley's World, de Ray Austin (série de TV); 1995: The West Side Waltz (A Valsa da Vida), de Ernest Thompson (telefilme); 1998: Stories from My Childhood (série de TV); 1999: Joan of Arc (Joana de Arc - A Donzela da Lorena), de Christian Duguay (telefilme); 2001: These Old Broads, de Matthew Diamond (telefilme); 2002: Hell on Heels: The Battle of Mary Kay, de Ed Gernon (telefilme); 2002: Salem Witch Trials, de Joseph Sargent (telefilme); 2008: Coco Chanel, de Christian Duguay (telefilme); 2008: Anne of Green Gables: A New Beginning, de Kevin Sullivan (telefilme); 2012-2013: Downton Abbey, de Julian Fellowes (série de TV); 2014: Glee (série de TV).
Como realizadora: 1975: The Other Half of the Sky: A China Memoir (documentário); 2000: Bruno.


4 DE AGOSTO DE 2015


MAMMA ROMA (1962)

Pier Paolo Pasolini, nascido em 1922, em Bolonha, e falecido em 1975, em Roma, começou por ser conhecido como poeta e romancista, antes de entrar no cinema, pela porta do argumento e da assistência de realização. Colaborou em muitas obras de vários cineastas, antes de se estrear na realização com a adaptação de um romance seu, “Accatone”, em 1961. Integrou-se assim na nova vaga de realizadores que surgiu nos anos 60, reclamando-se um pouco da tradição neorrealista, mas instilando-lhe um novo sangue. Bertolucci, Francesco Rosi, Masseli, Gillo Pontecorvo, entre muitos outros, foram alguns desses nomes que se afirmaram num cinema extremamente politizado, de crítica e denúncia de uma sociedade em crise.
“Mamma Roma” é a sua segunda longa-metragem, e uma das em que é mais visível a influência directa do neorrealismo. Depois de “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964) e de “Passarinhos e Passarões” (1966), segue-se um período em que o cineasta cruza a mitologia clássica greco-latina com uma teorização marxista, em títulos como “Rei Édipo” (1967), “Teorema” (1068), “Pocilga” ou “Medeia” (ambos de 1969), para mais tarde se notabilizar com algumas adaptações de clássicos da literatura, como, em 1971, “Decameron”, em 1972, “Os Contos de Canterbury”, em 1974, “As Mil e Uma Noites” e, finalmente, em 1975, “Salò ou Os 120 Dias de Sodoma”. Homossexual, seria assassinado em circunstâncias muito obscuras, no dia 2 de Novembro de 1975, com 53 anos, nos arredores de Roma, em Ostia. Membro do partido comunista entre 1947 e 1949, ao que consta foi expulso em função da sua homossexualidade. Esta sensação de exclusão terá marcado toda a sua vida e toda a obra. 
Voltando a “Mamma Roma”, regressamos às origens do neorrealismo, a Anna Magnani e a “Roma, Cidade Aberta”. Desta feita, não há no horizonte a II Guerra Mundial, mas Anna Magnani continua uma romana típica, papel de que ela raramente se afastou ao longo de toda a sua filmografia.


No filme de Pasolini ela é prostituta, romana, que tem um filho a crescer na província, num albergue de assistência social, mas que ela tenta trazer para junto de si para o promover, para oferecer-lhe uma vida melhor que a sua. Tal como outras fizeram antes de si, Mamma Roma troca a vida nas esquinas das avenidas suburbanas de Roma por um lugar de venda de peixe num mercado. Afasta-se do chulo que não vê com bons olhos esta decisão, mas ela reúne economias para uma casa nova num bairro dos arredores da grande metrópole. Ela agora procura a respeitabilidade que lhe permita educar o filho, que possibilite ao adolescente um bom emprego, que lhe ofereça a felicidade que ela nem sempre terá tido. Este é um sonho de todas as mães, que esta romana tenta realizar. Mas as intenções são umas, os caminhos da realidade são outros.
Para si, o seu filho Ettore (Ettore Garofolo) é o melhor filho do mundo, o mais bonito, e se, uma vez por outra, ele e se mostra insolente, ela desculpa-o. Até que se prende de amores com uma jovem muito oferecida, que o leva à pequena delinquência e, finalmente, ao hospital. Pasolini sempre foi um poeta, escreveu um texto muitas vezes citado sobre a poesia no cinema, 'Il cinema di poesia' (1965), e tinha uma teoria que o guiava na sua obra fílmica, “o cinema é uma linguagem não convencional e não simbólica.” O cinema deve portanto expressar a realidade através da realidade. “Mamma Roma” procura exemplificar essa preocupação com a realidade, e com um cinema que se afaste dos meios opulentos e dos estúdios. O seu cinema era, por estes dias, essencialmente um cinema poético e pobre.
Toda a obra decorre em cenários naturais, com um ou outro actor profissional (essencialmente Anna Magnani), sem efeitos, quase sempre com pouca luz artificial, buscando a autenticidade da realidade. Por vezes a poesia irrompe com a brutalidade do destino das pobres gentes e, neste particular, toda a sequência final de “Mamma Roma” é sublime, de cortar a respiração, e de subitamente se surpreender a respiração de um grande cineasta. Curiosamente, responde à sequência inicial, de um casamento, onde se ouvem algumas canções populares, cujos versos evocam momentos das vidas de alguns dos protagonistas. Anna Magnani, como sempre, é absolutamente magistral, por vezes excessiva e tonitruante, por vezes secreta e intimista quando é necessário.

MAMA ROMA
Título original: Mamma Roma
Realização: Pier Paolo Pasolini (Itália, 1962); Argumento: Pier Paolo Pasolini; Produção: Alfredo Bini; Fotografia (p/b):  Tonino Delli Colli; Música: Carlo Rustichelli; Montagem: Nino Baragli; Direcção artística: Flavio Mogherini; Decoração: Massimo Tavazzi; Maquilhagem: Marcello Ceccarelli, Amalia Paoletti; Direcção de Produção:  Eliseo Boschi, Fernando Franchi; Assistente de realização: Carlo Di Carlo; Som: Renato Cadueri, Leopoldo Rosi; Companhia de produção: Arco Film; Intérpretes: Anna Magnani (Mamma Roma), Ettore Garofolo (Ettore), Franco Citti (Carmine), Silvana Corsini (Bruna), Luisa Loiano (Biancofiore), Paolo Volponi (Padre), Luciano Gonini (Zacaria), Vittorio La Paglia (Pellissier), Piero Morgia (Piero), Franco Ceccarelli (Carletto), Marcello Sorrentino (Tonino), Sandro Meschino (Pasquale), Franco Tovo (Augusto), Pasquale Ferrarese (Lino), Leandro Santarelli (Begalo), Emanuele Di Bari, Antonio Spoletini, Nino Bionci, Nino Venzi, Maria Bernardini, Santino Citti, Renato Montalbano, Lamberto Maggiorani, Renato Capogna, Mario Cipriani, Renato Troiani, etc. Duração: 106 minutos; Distribuição em Portugal (DVD): Filmes Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 10 de Janeiro de 1992.


ANNA MAGNANI (1908-1973)
Youri Gagarine, o internauta soviético, quando realizou o primeiro voo espacial, em Abril de 1961, saudou “a fraternidade entre os homens, o mundo das artes e Anna Magnani”. A actriz estava no auge da sua celebridade internacional. Nasceu em Roma (obviamente!), a 7 de Março de 1908 e viria a falecer na mesma cidade, a 26 de Setembro de 1973, vítima de um cancro no pâncreas. Foi seguramente uma das maiores actrizes do seu tempo e estabeleceu uma marca que ficara para sempre: foi a primeira actriz de língua não inglesa a ganhar um Oscar de Melhor Actriz, pela sua interpretação em “A Rosa Tatuada”, de Daniel Mann (1955), filme baseado na obra de Tennessee Williams, em que ela interpretava a figura de uma viúva siciliana a viver nos EUA, num típico bairro italiano, reverenciando a memória do marido.
Filha natural, abandonada pela mãe, foi educada por uma avó, em Roma, e posteriormente num convento. A carreira artística começou-a no musichall, em cabarets e night-clubs como cantora, ingressando depois na Academia de Arte Dramática de Roma. Viajou por toda a Itália em pequenas companhias teatrais e, em 1928, estreia-se no cinema, num filme ainda mudo, onde aparece pouco e nem sequer é referida no genérico. O filme chamava-se “Scampolo” (A Migalha), de Augusto Genina. Em 1935, casa com Goffredo Alessandrini, que a incluiu no elenco de “Cavalleria”, no ano seguinte. O casamento dura até 1950. Entretanto, em 1941, atinge a notoriedade como actriz no filme “Teresa Venerdi”, de Vittorio De Sica. Em 1942, tem um filho do actor Massimo Serrato. Mas todo o seu génio é revelado em 1945, na obra de Roberto Rossellini, “Roma, Città Aperta”. Por essa altura, mantém uma relação sentimental como o realizador, que só termina com a aparição de Ingrid Bergman. Daí em diante continua a trabalhar no cinema, no teatro, na televisão, em Itália e nos EUA, onde ganha um Oscar e volta a ser nomeada, em 1958, pelo seu trabalho em “Wild Is the Wind”. A sua popularidade é imensa e em Itália é conhecida por “La Magnani” ou “Nannarella”. Trabalha sob as ordens de alguns dos maiores realizadores mundiais: Rossellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Federico Fellini, Jean Renoir, Claude Autant-Lara, Daniel Mann, George Cukor, Sidney Lumet ou Stanley Kramer. Ela é o rosto de Roma, no filme de Federico Fellini, “Roma de Fellini”. Coleccionou inúmeros prémios em Festivais italianos e internacionais e tem uma estrela no Walk of Fame, em Los Angeles, desde 1960, frente ao nº 6381 do Hollywood Boulevard.


Filmografia

Como actriz: 1928: Das Mädchen der Straße ou Scampolo (A Migalha), de Augusto Genina (não creditada); 1934: Tempo massimo de Mario Mattoli; La cieca di Sorrento, de Nunzio Malasomma; 1935: Quei due, de Gennaro Righelli; 1936: Trenta secondi d'amore, de Mario Bonnard; Cavalleria, de Goffredo Alessandrini; 1938: La Principessa Tarakanova, de Fedor Ozep e Mario Soldati; 1940: Una lampada alla finestra de Gino Talamo; 1941: La fuggitiva de Piero Ballerini; 1941: Teresa venerdì (Uma Rapariga às Direitas) de Vittorio De Sica; 1942: Finalmente soli, de Giacomo Gentilomo; La fortuna viene dal cielo, de Ákos Ráthonyi; 1943: L'avventura di Annabella (A Aventura de Annabella), de Leo Menardi; La vita è bella, de Carlo Ludovico Bragaglia; 1943: Campo de' fiori, de Mario Bonnard; Gli Assi della risata de Roberto Bianchi e Montero Guido Brignone (episódio Il mio pallone); L'ultima carrozzella, de Mario Mattoli; 1944: Il fiore sotto gli occhi, de Guido Brignone; 1945: Quartetto pazzo de Guido Salvini; 1945: Roma, città aperta (Roma, Cidade Aberta), de Roberto Rossellini; 1945: Abbasso la miseria! (Abaixo a Tristeza) de Gennaro Righelli; 1946: Un uomo retorna, de Max Neufeld; Lo sconosciuto di San Marino, de Michal Waszynski; Avanti a lui tremava tutta Roma, de Carmine Gallone; Il bandito (O Bandido), d'Alberto Lattuada; Abbasso la ricchezza! (Basta de Dinheiro!) de Gennaro Righelli; Assunta Spina de Mario Mattoli; 1947: L'onorevole Angelina (A Zaragateira), de Luigi Zampa; 1948: Molti sogni per le strade (Sonhando Pelo Caminho), de Mario Camerini; L'amore, de Roberto Rossellini; I - Una voce umana; II - Il miracolo); 1950: Vulcano (Vulcão), de William Dieterle; 1951: Bellissima (Bellisima), de Luchino Visconti; 1952: Camicie rosse, de Goffredo Alessandrini e Francesco Rosi; 1953: Carrozza d'Oro (A Comédia e a Vida), de Jean Renoir; Siamo donne (Nós, as Mulheres), de vários (episódio Anna Magnani de Luchino Visconti; 1955: Carosello del varietà, de Aldo Bonaldi e Aldo Quinti; The Rose Tattoo (A Rosa Tatuada), de Daniel Mann; 1956: I pinguini ci guardano (voz); 1957: Suor Letizia (Quando os Anjos Não Voam), de Mario Camerini; Wild is the Wind (Selvagem é o Vento), de George Cukor; 1958: Nella città dell'inferno (As Grades do Inferno), de Renato Castellani; 1959: The Fugitive Kind (O Homem na Pele da Serpente), de Sidney Lumet; 1960: Risate di gioia (O Ladrão Apaixonado), de Mario Monicelli; 1962: Mamma Roma (Mamma Roma), de Pier Paolo Pasolini; 1963: Le magot de Josefa ou Pila della Peppa, de Claude Autant-Lara; 1964: ...e la donna creò l'uomo (Coração cheio, bolsos vazios), de Camillo Mastrocinque; 1967: Made in Italy (Na Itália é assim), de Nanni Loy (episódio La famiglia); 1969: The Secret of Santa Vittoria (O Segredo de Santa Vitória), de Stanley Kramer; 1943: un incontro d'Alfredo Giannetti (TV); 1970: La sciantosa, de Alfredo Giannetti (TV); 1870 (Correva l'anno di grazia 1870) de Alfredo Giannetti; (TV); 1971: Tre donne (episódios L'automobile, de Alfredo Giannetti); 1943: Un incontro e La sciantosa (TV); 1972: Fellini Roma (Roma de Fellini), de de Federico Fellini; 1979: Io sono Anna Magnani, de Chris Vermorcken (documentário); 2000: Anna, telefilme de Giorgio Capitani.

29 DE JULHO DE 2015


JULES E JIM (1962)

François Truffaut, depois de anos como crítico de referência nos “Cahiers du Cinema”, depois de ter passado pela curta-metragem e de se ter estreado na longa, como realizador com o belíssimo “Os 400 Golpes” (1959), a que se seguiria “Disparem sobre o Pianista” (1961), lançava-se num projecto que lhe era muito caro há já algum tempo, precisamente adaptar ao cinema um romance de um quase desconhecido na época, Henri-Pierre Roché, cujo título era “Jules et Jim”. Sabe-se agora que o romance era em grande parte autobiográfico e que o autor o escreveu já muito depois dos sessenta anos de idade. Mas a história reportava ao início do século XX, quando Henri-Pierre Roché encontra em Paris um poeta e escritor alemão, Franz Hessel. Estamos em 1906 e ambos se tornam grandes amigos. Entre os dois surge Helen, uma jovem alemã ligada igualmente à literatura, por quem ambos se apaixonam. Entretanto, surge a I Guerra Mundial, os dois amigos são separados pelo conflito, cada um de um dos lados das barricadas, e, findo o conflito, reencontram-se: Helen tinha casado com Franz, mas acabará por amar Henri-Pierre. Este recordará toda a história desta invulgar “ménage à trois” no romance e igualmente em volumes de diários de memórias. No romance, Henri-Pierre Roché chamar-se-á Jim, Franz Hessel será Jules e Helen passa a ser conhecida por Catherine.
Quando era apenas crítico, Truffaut lera o livro levado pelo título, ficara deslumbrado com a escrita e o tema, pouco habitual na época, e pensou desde logo que gostaria de dele retirar um filme. Se o romance era autobiográfico, o filme também dizia muito ao realizador, que não se sentiu com coragem para se abalançar logo por este projecto. O êxito de “Os 400 Golpes” deixou-o mais tranquilo. Falou com o escritor que aceitou de bom grado o desafio (Truffaut convidara-o a escrever os diálogos, o que não aconteceu porque entretanto Roché morreu) e, um dia, ao cruzar-se com o deslumbrante charme de Jeanne Moreau, percebeu de imediato que ela seria o terceiro vértice do triângulo. Assim foi. Escrito o argumento, de colaboração com Jean Gruault, “Jules et Jim” passa a filme e rapidamente se transforma num dos maiores ícones da “nouvelle vague” e de todo o cinema francês. Por diversas razões.
Antes de mais pelo tema que se ainda hoje pode parecer amoral, na época resultou escandaloso e funcionou seguramente como um dos elementos essenciais para consolidar em imagens a rebeldia da juventude desse tempo, a sua ânsia de ultrapassar a hipocrisia dominante, em criar novos formas de convivência, novos laços sentimentais, em libertar a sexualidade e a mulher desse revelador conservadorismo predominante.


Para atingir este desígnio, Truffaut necessitava de um estilo livre, de uma narrativa que acompanhasse as propostas do próprio texto. “Jules e Jim”, filme, é tudo isso, pela liberdade com que movimenta a câmara, com que acompanha as personagens e as envolve, pela ruptura que impõe com a escrita tradicional, pela própria natureza da adaptação literária por que opta e que se afasta muito das adaptações normalizadas do cinema de então. Curiosamente, neste aspecto, há que notar que esta adaptação, sendo muito “cinematográfica”, muito ligada à imagem e ao som, nunca deixa de ter um pendor literário, com o recurso ao texto off, com a inclusão de longos diálogos retirados do romance, com a invocação de obras literárias, com o ambiente poético de que se alimenta. O filme é um grito de liberdade que tem ecoado pelos tempos.
Creio que não se pode analisar (ou mesmo acompanhar) “Jules e Jim” de uma forma puramente racional. As incongruências iriam multiplicar-se. Não é essa a intenção dos autores. “Jules e Jim” é um manifesto poético onde se entra sem preconceitos e onde nos deixamos conduzir pelas correrias do trio pelas pontes metálicas, pelas voltas de bicicleta em paisagens bucólicas, pelas ternuras dos olhares ou pelas belas palavras de uma canção emblemática cantada por Jeanne Moreau e que para sempre ficou como símbolo desta belíssima obra de amor, dedicada ao amor e à amizade (1).
Um outro aspecto a referir é o facto de nunca em “Jules et Jim” existir um olhar moralista sobre as personagens. Claro que o final trágico pode levar a supor-se uma posição contrária ao estilo de vida das três figuras centrais, mas creio que essa não é a intenção de Truffaut. Jules, Jim e Catherine vivem uma existência que se diria marginal ao pecado. Eles são a inocência e uma certa pureza que se identifica com a natureza onde a acção decorre. Não são eles que correm para a tragédia, mas  esta que se impõe com as suas regras.  
Excelentes as interpretações, com óbvio particular destaque para Jeanne Moreau, que aqui ascendia ao pedestal das divas. O filme é, todavia, um espelho de Truffaut, dos seus temas favoritos e dos seus fantasmas, que mais tarde o irá prolongar em muitas outras obras suas, como “Duas Inglesas e o Continente”, adaptado do mesmo Henri-Pierre Roché, em “Grau de Destruição”, onde irá desenvolver uma das suas obsessões, os livros queimados pelas ditaduras, já aqui anunciados com imagens de actualidades, “O Último Metro”, que relança o tema do trio amoroso, e em tantos outros.

(1) A canção chama-se “Le Tourbillon de La Vie” e terá ajudado a criar a imortalidade do compositor Georges Delerue, um dos colaboradores regulares de Truffaut. Aqui fica o poema que ilustra bem o espírito do filme:
“Elle avait des bagues à chaque doigt, / Des tas de bracelets autour des poignets, / Et puis elle chantait avec une voix /Qui, sitôt, m'enjôla.
“Elle avait des yeux, des yeux d'opale, / Qui me fascinaient, qui me fascinaient. / Y avait l'ovale de son visage pâle / De femme fatale qui m'fut fatale {2x}.
“On s'est connus, on s'est reconnus, / On s'est perdus de vue, on s'est r'perdus d'vue / On s'est retrouvés, on s'est réchauffés, / Puis on s'est séparés.
“Chacun pour soi est reparti. / Dans l'tourbillon de la vie / Je l'ai revue un soir, hàie, hàie, hàie /Ça fait déjà un fameux bail {2x}.
“Au son des banjos je l'ai reconnue. / Ce curieux sourire qui m'avait tant plu. / Sa voix si fatale, son beau visage pâle / M'émurent plus que jamais.
“Je me suis soûlé en l'écoutant. / L'alcool fait oublier le temps. / Je me suis réveillé en sentant / Des baisers sur mon front brûlant {2x}.
“On s'est connus, on s'est reconnus. / On s'est perdus de vue, on s'est r'perdus de vue / On s'est retrouvés, on s'est séparés. / Dans le tourbillon de la vie.
“On a continué à toumer / Tous les deux enlacés / Tous les deux enlacés. / Puis on s'est réchauffés.
“Chacun pour soi est reparti. / Dans l'tourbillon de la vie. / Je l'ai revue un soir ah là là / Elle est retombée dans mes bras.
“Quand on s'est connus, / Quand on s'est reconnus, / Pourquoi se perdre de vue, / Se reperdre de vue ?
“Quand on s'est retrouvés, / Quand on s'est réchauffés, / Pourquoi se séparer ? /  Alors tous deux on est repartis
“Dans le tourbillon de la vie / On à continué à tourner / Tous les deux enlaces / Tous les deux enlaces.”

JULES E JIM
Título original: Jules et Jim
Realização: François Truffaut (França, 1962); Argumento: François Truffaut, Jean Gruault, segundo romance de Henri-Pierre Roché; Produção: Marcel Berbert, François Truffaut; Música: Georges Delerue; Fotografia (p/b): Raoul Coutard; Montagem: Claudine Bouché; Design de produção: Fred Capel; Guarda-roupa: Fred Capel; Maquilhagem: Simone Knapp, Simone Knapp; Direcção de Produção: Maurice Urbain; Assistentes de realização: Robert Bober, Florence Malraux, Georges Pellegrin; Companhias de produção: Les Films du Carrosse, Sédif Productions (as S.E.D.I.F.); Intérpretes: Jeanne Moreau (Catherine), Oskar Werner (Jules), Henri Serre (Jim), Vanna Urbino (Gilberte), Serge Rezvani (Albert), Anny Nelsen (Lucie), Sabine Haudepin (Sabine), Marie Dubois (Thérèse), Michel Subor (narrador), Danielle Bassiak, Elen Bober, Pierre Fabre, Dominique Lacarrière, Bernard Largemain, Kate Noelle, Jean-Louis Richard, Michel Varesano, Christiane Wagner, etc. Duração: 105 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo; Classificação etária (na estreia): M/ 17 anos; (no DVD): M/ 16 anos.


JEANNE MOREAU (1928 - )
Com “Ascenseur pour l'Échafaud” (1957) e “Les Amants”, ambos de Louis Malle; com “Moderato Cantabile”, de Peter Brook; com “La Notte”, de Michelangelo Antonioni, ambos de 1960; com “Jules et Jim”, de François Truffaut; com “Eva”, de Joseph Losey; com “Le Procès”, de Orson Welles, todos de 1961, Jeanne Moreau construiu rapidamente uma carreira fulgurante no cinema, uma daquelas de que poucas actrizes europeias se podem orgulhar. Passou rapidamente para a situação de ícone de uma geração, de diva ou star, mas de uma constelação muito própria. Nunca a da inacessível “estrela”, não a de sex symbol, mas a de uma actriz de um profissionalismo e de uma cultura fora de vulgar, uma mulher de causas e de paixões. 
Jeanne Moreau nasceu a 23 de Janeiro de 1928, em  Paris, França, contando presentemente 87 anos. Filha de um barman francês e de uma bailarina britânica, teve formação no conservatório, com passagem pela Comédie-Française e pelo Teatro Nacional Popular (TNP), de Jean Vilar. O seu trabalho e sensibilidade foram desde logo notados e ressalvados. O cinema chamou-a de início para pequenos épapeis, mas sem surpresa atingiu o protagonismo. Foi dirigida por grandes diretores como Michelangelo Antonioni, François Truffaut, François Ozon, Joseph Losey, Louis Malle, Luis Buñuel, Theo Angelopoulos, Wim Wenders, Rainer Werner Fassbinder, Elia Kazan, André Téchiné, Bertrand Blier e Orson Welles, entre outros. Em 1960, recebeu o prémio de Melhor Actriz no Festival de Cannes pelo seu magnífico trabalho em “Moderato Cantabile”. 1962 é um ano marcante na sua carreira com o papel de Catherine no filme de François Truffaut “Jules et Jim”.  A canção que interpreta nesta obra abre-lhe ainda o campo para uma carreira como cantora, que se inicia com o álbum do filme, ao lado do guitarrista Serge Rezvani, a que se seguem outros com o mesmo Serge Rezvani em 1963 e 1967, “J'ai la mémoire qui flanche” e “Tout morose”. Em 1965, trabalha com Orson Welles em “Falstaff”. Welles considera-a uma das maiores actrizes de sempre. Foi este realizador que a encorajou a passar à realização, o que Moreau faz com “Lumière”, em 1976, e “L'Adolescente”, em 1979. Na televisão colabora com realizadores como Jean Renoir (“Le Petit Théâtre de Jean Renoir”), Jacques Doillon (“L'Arbre”) e Josée Dayan (“Balzac”, “Les Misérables”, “Les Parents terribles”, “Les Rois maudits”…).  Em 1998, recebe um Oscar honorário, pelo conjunto da sua obra, que lhe é entregue por Sharon Stone. Em 2005, conjuntamente com o  festival “Premiers plans”, Jeanne Moreau cria uma escola de cinema, “Les Ateliers d'Angers”.
Foi casada com Jean-Louis Richard (de 1949 a 1964), Teodoro Rubanis (1966 a 1977) e William Friedkin (de 1977 a 1979). Conhecem-se ainda relações com Tony Richardson (que trocou Vanessa Redgrave por ela), Pierre Cardin,  François Truffaut, Louis Malle, ou Raoul Lévy. Brigitte Bardot fala ainda de um affair com George Hamilton, durante a rodagem no México de “Viva Maria!”. Georges Moustaki também confessou ter recebido “os seus favores”.



Filmografia
Como actriz: 1949: Dernier Amour, de Jean Stelli; 1950: Meurtres ? (Crueldade), de Richard Pottier; Pigalle-Saint-Germain-des-Prés, de André Berthomieu; 1951: Avignon, bastion de Provence, de Jean Cuenet (Curta-metragem); L'Homme de ma vie, de Guy Lefranc; 1952: Il est minuit, Docteur Schweitzer, de André Hague; Dortoir des grandes (Dormitório de Raparigas), de Henri Decoin; 1953: Julietta (Julieta), de Marc Allégret; 1953: Touchez pas au grisbi (O Último Golpe), de Jacques Becker; 1954: La Reine Margot (Rainha Enamorada), de Jean Dréville; Secrets de alcôve (Segredos de Alcova) (episódio “Le billet de logement”), de Henri Decoin;  Les Intrigantes (Os Intrigantes), de Henri Decoin; 1955: Gas-oil de Gilles Grangier; Les Hommes en blanc (Nós os Médicos), de Ralph Habib; M'sieur La Caille, de André Pergament; 1956: Le Salaire du péché (O Preço do Pecado), de Denys de La Patellière; 1956: Jusqu'au dernier de Pierre Billon; 1957: Ascenseur pour l'échafaud (Fim-de-Semana no Ascensor), de Louis Malle; 1957: Les Louves ou Démoniaque, de Luis Saslavsky; Trois jours à vivre, de Gilles Grangier; L'Étrange Monsieur Steve, de Raymond; 1957: Échec au porteur, de Gilles Grangier; Le Dos au mur (Crime passional), de Édouard Molinaro; 1958: Les Amants (Os Amantes), de Louis Malle; 1959: Les Liaisons dangereuses (As Ligações Perigosas), de Roger Vadim; 1959: Les Quatre Cents Coups (Os Quatrocentos Golpes), de François Truffaut; 1959: Matisse où le talent du bonheur, de Marcel Ophuls (voz); 1960: Le Dialogue des Carmélites (Diálogo das Carmelitas), de Philippe Agostini e Raymond Leopold Bruckberger; Moderato cantabile (Recusa), de Peter Brook; Five Branded Women ou Jovenka e le altre (Jovanka e as Outras) de Martin Ritt; La Notte (A Noite), de Michelangelo Antonioni; 1961: Une femme est une femme (Uma Mulher é uma Mulher), de Jean-Luc Godar; Jules et Jim (Jules e Jim), de François Truffaut; Eva (Eva), de Joseph Losey; Le Procès ou The Trial (O Processo), de Orson Welles; 1963: La Baie des Anges (A Grande Pecadora), de Jacques Demy; The Victors (Os Vitoriosos) de Carl Foreman; Le Feu follet (Fogo Fátuo), de Louis Malle; 1964: Peau de banane (Casca de banana), de Marcel Ophüls; Mata Hari (Mata-Hari, Agente H-21), de Jean-Louis Richard; The Train (O Comboio) de John Frankenheimer; Le Journal de une femme de chambre (Diário de Uma Criada de Quarto), de Luis Buñuel; 1965: The Yellow Rolls-Royce (O Rolls-Royce Amarelo), de Anthony Asquith; Viva María! (Viva Maria!), de Louis Malle; 1966: Le Plus Vieux Métier du monde (A Mais Antiga Profissão do Mundo, de Philippe de Broca (episódio "Mademoiselle Mimi"); Mademoiselle (Mademoiselle), de Tony Richardson; Falstaff  ou Campanadas a media noche (As Badaladas da Meia-Noite), de Orson Welles; 1967: La mariée était en noir (A Noiva Estava de Luto),de François Truffaut; Great Catherine (Catarina, Imperatriz da Rússia), de Gordon Flemyng; Dead Reckoning - The Deep, Direction Toward death, de Orson Welles (inacabado); The Sailor from Gibraltar (O Marinheiro de Gibraltar), de Tony Ridardson; 1968: The Immortal Story (História Imortal), de Orson Welle; 1969: Monte Walsh (Monte Walsh, Um Homem Difícil de Morrer), de William A. Fraker; 1969: Le Corps de Diane, de Jean-Louis ; 1969: Le Petit Théâtre de Jean Renoir, de Jean Renoir (episódio "Quand l'amour meurt"); 1970: Alex in Wonderland (Alex no País das Maravilhas), de Paul Mazursky; Os Herdeiros (Os Herdeiros), de Carlos Diegues; Henri Langlois, de Roberto Guerra e Elia Hershon (curta-metragem); 1971: Comptes à rebours (O Doce Sabor da Vingança), de Roger Pigaut; The Other Side of the Wind , de Orson Welles (Inacabado); Côté cours, côté champs, de Guy Gilles (curta-metragem); 1972: Chère Louise (Amor Ilícito), de Philippe de Broca; L'Humeur vagabonde (Humor vagabundo), de Édouard Luntz; Absences répétées, de Guy Gilles; 1973: Joanna Francesa, de Carlos Diegues; Je t'aime, de Pierre Duceppe; Nathalie Granger, de Marguerite Duras; 1974: Les Valseuses (As Bailarinas), de Bertrand Blier; La chevauchée sur le lac de Constance (TV); La Race des seigneurs, de Pierre Granier-Deferre; Une légende, une vie: Citizen Welles, de Maurice Frydland (documentário); 1975: Le Jardin qui basculhe, de Guy Gilles; Hu-Man, de Jérôme Laperrousaz; Souvenirs de en France, de André Téchiné; Jean Genet, saint, martyr et poète, de Guy Gilles (TV); 1976: Lumière, de Jeanne Moreau; The Last Tycoon (O Grande Magnate), de Elia Kazan; Chroniques de France: Jeanne Moreau, de Renaud de Dancourt (documentário); Mr. Klein (Mr. Klein - Um Homem na Sombra), de Joseph Losey; 1980: Chansons souvenir, de Robert Salis (curta-metragem); 1981: AuYour ticket is not longer valid (O Fim da Viagem), de George Kaczender; Plein sud, de Luc Béraud; 1982: Mille milliards de dollars (O Poder do Dinheiro), de Henri Verneuil; La Truite (Uma Estranha Mulher), de Joseph Losey; Querelle - Ein Pakt mit dem Teufel (Querelle - Um Pacto com o diabo), de Rainer Werner Fassbinder; L'Arbre (TV); Der Bauer von Babylon, de Dieter Schidor (curta-metragem); 1983: A Salute to Lillian Gish, de Jeanne Moreau Jean-Louis Barrault, un homme de théâtre, de Muriel Balasch (documentário); Parade of Stars (TV); L'intoxe, de Guy Seligman (TV); L'Arbre, de Jacques Doillon: Camille (TV); Huis clos (BBC1); 1985: François Simon, la présence, de Ana Simon e Louis Mouchet (documentário); Vicious Circle, de de Kenneth Ives (TV); Vivement Truffaut, de Claude de Givray (documentário); 1986: Sauve-toi, Lola, de Michel Drach; Le Paltoquet, de Michel Deville; Shades of Darkness (TV) - Agatha Christie's The Last Seance, de June Wyndhazm-Davies (TV); Le tiroir secret, de Nadine Trintignant (TV) - La saisie; 1987: Le Miraculé (Seguro de Milagre), de Jean-Pierre Mocky; Remake, de Ansano Giannarelli; 1988: La Nuit de l'océan de Antoine Perset; 1989: Jour après jour de Alain Attal; Orson Welles, stories from a life in film, de Leslie Megahey (documentário); 1988: Hôtel Terminus (Klaus Barbie, His Life and Time), de Marcel Ophuls (voz); 1990: Nikita (Nikita - Dura de Matar  ), de Luc Besson; Alberto Express, de Arthur Joffé; L'ami Giono: Ennemonde - Ami Giono, de Claude Santelli (TV); La Femme fardée, de José Pinheiro; 1991: L'Amant (O Amante),  de Jean-Jacques Annaud; La Vieille qui marchait dans la mer, de Laurent Heynemann; Bis an Ende der Welt (Até ao Fim do Mundo), de Wim Wenders; To meteoro vima tou pelargou (O Passo Suspenso da Cegonha), de Theo Angelopoulos; Anna Karamazoff, de Roustam Khamdamov; The Full Wax (TV); 1992: Map of the Human Heart (Sem Fronteiras), de Vincent Ward; À demain, de Didier Martiny; Die Abwesenheit (A Ausência), de Peter Handke; Les Arpenteurs de Montmartre, de Boris Eustache; La nuit de l'océan, de Antoine Perset; Le Temps et la chambre, de Patrice Chéreau (TV); L'Architecture du chaos, de Peter Cohen (voz); 1993: Je m'appelle Victor, de Guy Jacques; A Foreign Field, de Charles Sturridge; The Summer House, de Waris Hussein; François Truffaut, portraits volés, de Serge Toubiana e Michel Pascal (documentário); Screen Two (TV) - The Clothes in the Wardrobe; Screen One (TV Series) - A Foreign Field; It's All True, de Richard Wilson, Myron Meisel, Bill Krohn (voz); 1995: Les Cent et Une Nuits de Simon Cinéma, de Agnès Varda; Al di la delle nuvole (Para Além das Nuvens), de Michelangelo Antonioni e Wim Wenders; Belle Époque, de Gavin Millar (TV); Faire un film, pour moi c'est vivre, de Erica Antonioni; I Love You, I Love You Not (Viver Sem Medo), de Billy Hopkins; L'Univers de Jacques Demy, de Agnès Varda (documentário); Katharina die Große, de Marvin J. Chomsky e John Goldsmith (TV); 1997: The proprietor (A Proprietária), de Ismail Merchant; Un amour de sorcière, de René Manzor; Ever after (Para Sempre Cinderela), de Andy Tennant; Ruby de Peter Orton (TV);1999: Balzac, de Josée Dayan (TV); 2000: Lisa, de Pierre Grimblat; Il manoscrito del principe, de Roberto Andò; Fassbinder woman - Fur mich gab's nur noch Fassbinder, de Rosa von Praunheim (documentário); 2001: Zaïde, un petit air de vengeance, de Josée Dayan (TV); 2002: Cet amour-là (Aquele Amor), de Josée Dayan; Les Miserables (Os Miseráveis), de Josée Dayan (TV); The Will to Resist de James Newton; 2002: La Petite Prairie aux bouleaux, de Marceline Loridan; 2002: Les 13 vies du chat Lelouch, de Isabelle Clarke (documentário); 2003: Les parents terribles, de Josée Dayan (TV); 2004: Akoibon, de Édouard Baer; 2005: Le Temps qui reste (O Tempo que Resta), de François Ozon; 2005: Go West, de Ahmed Imamovic; Otograph (curta-metragem); 2005 Les rois maudits, de Josée Dayan (TV);  2006: Sortie de clown, de Nabil Ben Yadir (curta-metragem); Roméo et Juliette de Yves Desgagnés; La contessa di Castiglione, de Josée Dayan (TV); 2007: Chacun son cinema (Cada Um o Seu Cinema): episódio Trois minutes, de Théo Angelopoulos; Désengagement (A Retirada), de Amos Gitai; 2008: Collection Fred Vargas (TV) - Sous les vents de Neptune, de Josée Dayan (TV); Everywhere at Once, de Holly Fisher, Peter Lindbergh; Château en Suède, de Josée Dayan (TV); 2009: Plus tard tu comprendras, de Amos Gitai; Visages, de Tsai Ming-liang; Kérity, la maison des contes, de Dominique Monfery (voz); La guerre des fils de la lumière contre les fils des ténèbres,  de Amos Gitai; Carmel, de Amos Gitai (voz); 2011: La mauvaise reencontre, de Josée Dayan (TV); Bouquet final, de Josée Dayan (TV); 2012: Gebo et l'ombre (O Gebo e a sombra), de Manoel de Oliveira; Une Estonienne à Parism de Ilmar Raag; Al Alamayn (curta-metragem); 2013: Le tourbillon de Jeanne (TV); La Collection Jeanne Moreau (5 curtas metragens para o Canal+) de Sandrine Veysset; 2015: Le Talent de mes amis, de Alex Lutz; 10% (TV).
Como realizadora: 1976: Lumière; 1979: L'Adolescente. 

Prémios: Oscar, 1998: Oscar de honra; Festival de Cannes, 1960: Melhor Actriz, em Moderato cantabile; César, 1987: nomeação por Le Paltoquet, e 1988, nomeação por Le Miraculé; 1992, César de Melhor Actriz por La vieille qui marchait dans la mer; 1995, César de honra; Prémio Molière (teatro); 1987, nomeação por Zerline; 1988: Melhor Actriz por Zerline.