quinta-feira, 10 de setembro de 2015

22 DE SETEMBRO DE 2015


O PORTEIRO DA NOITE (1973)

“O Porteiro da Noite”, da bastante irregular cineasta italiana Liliana Cavani, é, no mínimo, um projecto provocador, inquietante, resvalando por entre ambientes sórdidos, recordações malsãs, ambiguidades amorosas e equívocas personagens. Este é, todavia, estilisticamente, um dos seus filmes mais conseguidos, não tanto pela cuidada e eficaz “mise-en-scène” que tenta reconstituir, de forma naturalista, um tempo histórico, mas sim pela sua “representação” algo estilizada, jogando mais com a memória de um tempo do que com a recuperação histórica.
Áustria, 1957, assim começa. Num pequeno hotel de Viena, Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde) é o porteiro da noite. Durante a II Guerra Mundial fora oficial da polícia nazi, e tinha como passatempo preferido registar em filme os milhares de presos que chegavam diariamente a campos de concentração, como o de Dachau. Filmava a humilhação, o desespero, a nudez, a fragilidade dos corpos e dos rostos, as lágrimas e a raiva, a angústia e o progressivo desalento, a entrega a um destino de dor. Estas sequências relembram obviamente “Peeping Tom”, de Michael Powell, uma obra de 1960, que analisa o comportamento conturbado de um “serial killer” que filmava os últimos momentos de horror das suas vítimas prestes a morrer. Curiosamente, o argumento partia de uma obra escrita por um criptógrafo que trabalhou durante a II Guerra Mundial, Leo Marks. Não será, pois, por acaso que se podem cruzar influências, elas são visíveis e declaradas.
De entre os milhares de rostos que Max registou, ele isolou o de uma mulher ainda jovem, Lucia Atherton (Charlotte Rampling). Isolou-a na câmara, isolou-a para seu prazer, manipulou-a como quis, serviu-se dela, acorrentou-a, violou-a, protegeu-a, levou-a a festas de nazis, onde Lucia aceitou o papel de nazi, progressivamente apaixonou-se por essa mulher, sua escrava. A guerra acabou, dez anos depois Lucia é mulher de um maestro de orquestra americano, que vem a Viena dirigir “A Flauta Mágica”. O casal instala-se no pequeno “Hotel da Ópera” e Lucia e Max cruzam olhares surpresos quando ela vai buscar a chave do quarto e ele lha entrega. O filme começa aí, no presente, os tempos do campo de concentração são flashbacks que um e outro recordam. As memórias são obviamente de dor, mas igualmente de prazer. Da parte de um e outro. Lucia percebe-se que retirara prazer desse tempo de cativeiro, de tortura, de escravidão. Max também apreciara esses dias de prazer violentamente roubado, de criminosos orgasmos retirados a uma vítima indefesa que, todavia, também gozava com os mesmos. Em 1973 um tal tema era não só escandaloso, como politicamente muito incorrecto.


Numa entrevista concedida aquando da estreia da obra, a cineasta explicou como lhe surgiu a ideia de rodar “O Porteiro da Noite”: enquanto recolhia material para uma película anterior (“La Donna Nella Resistenza”), descobriu dois casos curiosos que aprofundou: o de uma mulher casada que passava todos os anos duas semanas de férias em Dachau, sem saber analisar ao certo o que motivava esse regresso ao campo onde estivera internada; o de uma velha prisioneira de Auschwitz que, quando saiu em liberdade, rompera todos os laços familiares, para assumir uma vida solitária e miserável. A única resposta que dera para esta atitude foi não poder perdoar aos nazis terem-lhe feito descobrir as duas faces da natureza humana. E acrescentara: “Não pense que as vítimas são sempre inocentes”.
Sobre estes dados, Cavani concluía: “Todos temos dentro de nós algum pequeno grão do nazismo. Bem escondido. Se um governo abre as portas a essa parte obscura, se lhe dá direitos de cidadania, se a legaliza, se a monopoliza, se a utiliza... então todos os crimes se tornam possíveis. Cada um assume o seu papel: de carrasco ou de vítima. Porque o regime nazi não é obra de um milhar de loucos ou de monstros. Não é resultado de um golpe de estado. Impôs-se lentamente através de um homem com quem as pessoas se foram pouco a pouco identificando, porque se reconheceram nele. Lucia tem as mesmas razões para regressar ao seu carrasco que a mulher de Dachau para aí voltar. Porque é aí que ela se sente viva. Se reconhece. A sua natureza revelou-se durante a guerra.”
Que o fascismo e o nazismo não se impuseram e sobreviveram sem o silêncio cúmplice ou mesmo a complacência de muitos, eis uma verdade dificilmente controversa. O nazismo não foi só os SS, os generais, o exército, Hitler e os seus ministros. O nazismo vingou sobretudo quando se conseguiu instalar bem no espírito dos alemães, no seu inconsciente colectivo, como um estado de espírito, quer através de uma máquina de propaganda bem montada, quer pelas condições favoráveis que foi encontrar nesse campo de incubação que era a sociedade alemã da época. Se o alemão anónimo não se sentisse bem com o seu sonho imperialista, o nazismo nunca teria sobrevivido. Sobreviveu, pois, com a cumplicidade de muitos, que aceitaram a monstruosidade, ou que aceitaram sofrer o seu papel de vítimas. Que sofreram resignados (ou excitados até) esse papel.


Aqui entramos, no entanto, abertamente na temática proposta por Cavani em “O Porteiro da Noite”, e não se pode dizer que o façamos de ânimo leve. Impõe-se a meditação: se em Dachau houve uma Lucia (ou várias) que se “descobriram” enquanto vítimas predestinadas, nesses dias de terror, milhares de outras vítimas não tiveram sequer a oportunidade de descobrir o que quer que fosse, senão a morte e o fatídico odor das câmaras de gás. Outros ainda, aos milhões, descobriram-se, isso sim, humilhados, ofendidos, violentados e torturados, sem que vislumbrassem prazer onde quer que fosse. Apenas dor. Cavani dirá que sobre esses milhares já se fizeram muitos filmes. É possível, tem razão, mas não todos os necessários, nem os suficientes para que este “O Porteiro da Noite” tenha surgido sem provocar um certo mal-estar nesses idos de 1973.
Houve quem, de uma forma algo simplista, dissesse que “O Porteiro da Noite” era uma história de amor entre um sádico e uma masoquista, tendo Dachau por cenário e recordação. Sadomasoquismo, relação de domínio e humilhação. Reduzir, porém, o nazismo a uma abstracção freudiana pode ser perigoso, esquecendo todas as outras intervenientes de índole económica, política ou social que aqui surgem relegadas para um plano demasiado subalterno.
O filme de Cavani que tem, todavia, qualidades evidentes, sendo difícil permanecer indiferente ao clima de pesadelo que ela consegue transmitir, procura ir um pouco mais longe, e creio que com algumas décadas passadas sobre a sua estreia, poderá ser melhor analisado. O que está em causa é afinal uma história de amor, desviante, que encontrou no ambiente de um campo de concentração o húmus necessário para germinar e que, anos depois, se reproduziu num outro ambiente, é certo, mas sob as mesmas condições “climáticas”. Max e Lucia são apenas um casal onde o desejo e o amor crescem num clima a que hoje se poderá chamar de “bondage”, uma variante do sadomasoquismo, um tipo de fétiche, cuja fonte de prazer deriva de práticas que comportam a dominação, a submissão, a imobilização de parceiros, o consentimento em vários tipos de tortura, física ou psicológica, envolvendo ou não a prática de sexo com penetração.
É obvio que não é só isso que “Il Portiere di Notte” assume como história. Há algo mais, e bem definido. Max é porteiro num hotel onde se refugiam vários nazis que procuram passar despercebidos das autoridades, que tentam recolher testemunhos favoráveis, que procuram fazer desaparecer documentação e ficheiros comprometedores. Há mesmo uma condessa solitária a quem Max serve gigolôs para repastos sexuais, em noites de insónia. Há conspiração, reuniões, ajustes de contas, assassinatos, mas o que torna curioso o filme é que, a determinada altura, o que mais escandaliza naquela sociedade de criminosos foragidos é a existência de um amor, mórbido é certo, mas um amor que, como todos os amores, se torna perigoso e põe em risco a sobrevivência do grupo. Por isso este “amor louco” se torna proscrito, e tem de ser anulado. Neste aspecto, de carrasco e vítima Max e Lucia passam ambos a perseguidos e vítimas de um mundo de pós-guerra, onde se continua a não poder acreditar em ninguém, nem em nada. Num mundo que procura anular a turbulência, alterar apenas alguma coisa para que tudo permaneça incólume, o amor transgressor é uma ameaça.
De resto, a obra cria um clima opressor doentio, com algumas sequências extremamente bem logradas, como é o caso da representação de “A Flauta Mágica”, ou do “travesti” de Lúcia, vestida de SS. Excelente é ainda a representação de Dirk Bogarde, bem acompanhado por Philippe Leroy e Gabriel Ferzetti. Impossível é esquecer a presença inquietante de Charlotte Rampling, no papel que mais a catapultou para a fama e mais vincadamente terá marcado a sua carreira. Entre a inocência e a perversidade, Rampling impõe uma personagem que permanece para sempre na recordação de todos e obviamente nas páginas da História do Cinema Mundial.

O PORTEIRO DA NOITE
Título original: Il Portiere di Notte ou The Night Porter
Realização: Liliana Cavani (Itália, 1974); Argumento: Barbara Alberti, Liliana Cavani, Italo Moscati, Amedeo Pagani, Barbara Alberti, Liliana Cavani; Produção: Ea De Simone, Robert Gordon Edwards; Música: Daniele Paris; Fotografia (cor): Alfio Contini: Montagem: Franco Arcalli; Direcção artística: Nedo Azzini, Jean Marie Simon; Decoração: Osvaldo Desideri; Guarda-roupa: Piero Tosi; Maquilhagem: Iole Cecchini, Iole Cecchini, Cesare Paciotti, Euclide Santoli ; Direcção de produção: Umberto Sambuco; Assistentes de Realização: Franco Cirino, Johann Freisinger, Paola Tallarigo, Mario Garriba; Departamento de arte: Maria-Teresa Barbasso; Som: Fausto Ancillai, Eugenio Rondani, Decio Trani; Companhias de produção: Ital-Noleggio Cinematografico, Lotar Film Productions; Intérpretes: Dirk Bogarde (Maximilian Theo Aldorfer), Charlotte Rampling (Lucia Atherton), Philippe Leroy (Klaus), Gabriele Ferzetti (Hans), Giuseppe Addobbati (Stumm), Isa Miranda (Condessa Stein), Nino Bignamini (Adolph), Marino Masé  Amedeo Amodio, Piero Vida, Geoffrey Copleston, Manfred Freyberger, Ugo Cardea, Hilda Gunther, Nora Ricci, Piero Mazzinghi, Kai-Siegfried Seefeld, Luigi Antonio Guerra, Crlo Mangano, Claudio Steiner, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Monroe Stahr (DVD); Classificação etária (estreia no cinema): M/ 18 anos; DVD: M/ 18 anos; Data de estreia em Portugal: 16 de Setembro de 1976. 


CHARLOTTE RAMPLING (1946 - )
Charlotte Rampling, como actriz, deu corpo a algumas das representações mais secretas, intimistas e perturbantes da figura da mulher, durante a segunda metade do século XX e a primeira década do seguinte. “Dar corpo” é uma boa síntese para o seu trabalho de actriz, pois Charlotte Rampling, para lá da expressividade da voz, da originalidade do seu talento e de uns olhos verdes misteriosos e sensuais, é uma intérprete para quem o corpo é um instrumento de ofício não negligenciável, não por maus motivos, não pelo oportunismo do seu aproveitamento, mas por muito boas razões: Charlotte Rampling faz do seu corpo matéria interpretativa, que acompanha a subtileza da voz e a voluptuosidade da emoção.
Nasceu a 5 de Fevereiro de 1946, em Sturmer, Inglaterra, filha de um coronel que chegou a comandante da NATO e era igualmente artista plástico de certos recursos, além de atleta olímpico, vencedor da medalha de ouro, em Berlim 1936, integrando a estafeta 4x400 metros. Em virtude da vida profissional do pai, Charlotte permaneceu longas temporadas em França, onde estudou na Academia “Jeanne d'Arc pour Jeunes Filles”, em Versalhes. De regresso a Inglaterra, passou pela escola de St. Hilda's, em Bushey. Iniciou a carreira como modelo, antes de se estrear, num papel insignificante, num filme de Richard Lester “The Knack...and How to Get It” (1965). Foi, todavia, no ano seguinte que, ao lado de Lynn Redgrave, se tornou notada como protagonista de “Georgy Girl” (1966), de Sílvio Narizzano, integrando-se de certa forma no movimento de um cinema que se queria retrato da realidade social inglesa e que ficou conhecido por “free cinema”. Em 1969, pela mão de Luchino Visconti, enfrenta o seu primeiro grande desafio, no papel de Elisabeth Thallman, em “Os Malditos” (La Caduta Degli Dei).
A sua carreira ganha fôlego internacional, intercalando trabalhos em Inglaterra, EUA, França e Itália. Em “Vanishing Point”, de Richard Sarafian (1971), é uma inesquecível rapariga que pede boleia na estrada. Assume-se como incestuosa em “Addio, Fratelo Crudelle”, de Guiseppe Patron Griffi, segundo peça teatral de John Ford (1971), e é Ana Bolena, em “Henry VIII and His Six Wives”, de Waris Hussein (1972). Roda, ao lado de Sean Connery, a ficção científica “Zardoz”, de John Boorman (1973), e, em 1974, é Lúcia  Atherton, em “O Porteiro da Noite” (Il Portiere di Notte), de Liliana Cavani, talvez o seu papel mais marcante. Charlotte Rampling torna-se uma actriz inabitual, expondo sem falsos pudores a nudez do seu corpo, mas sempre ao serviço de uma história que o justifica, tornando-se igualmente a actriz certa para papéis de inconfessáveis paixões. Ela era, de certa maneira, a imagem de uma perversão controlada, por vezes fria e dominadora, outras impulsiva e arrebatadora.
Segue-se, em 1975, a “remake” de “Farewell, My Lovely”, contracenando com Robert Mitchum num policial assinado por Dick Richard, partindo de um romance de Raymond Chandler. A nova versão não é tão boa quanto o original, de 1944, assinado por Edward Dmytryk, mas o trabalho dos actores compensa. “La Chair de l'Orchidée”, de Patrice Chéreau, do mesmo ano, oferece-nos outro magnífico retrato de mulher, uma rica herdeira, mantida encerrada pelo marido numa instituição psiquiátrica para assim poder manejar livremente a sua fortuna. É outro grande romance “negro”, desta feita assinado por James Hadley Chase, que ganha no grande ecrã um novo fôlego. Ainda por esta altura, no ponto mais alto da sua carreira de vedeta internacional, roda, sob as ordens do mexicano Arturo Ripstein, “Foxtrot”, contracenando com Max von Sydow e Peter O’Toole, e do norte-americano Woody Allen, “Recordações” (Stardust Memories).
Outro momento importante da sua carreira passa-o sob a direcção de Sidney Lumet, em “The Verdict” (1982), ao lado de Paul Newman, um drama passado entre advogados e barras de tribunais. Depois suporta com brio nova provocação no filme do japonês Nagisa Oshima, “Max, My Love” (1986), onde “aceita” apaixonar-se por um chimpanzé, e em França aparece num “thriller” de mistério e violência, “On Ne Meurt Que Deux Fois”, de Jacques Deary, voltando de novo aos EUA para trabalhar sob a orientação de Alan Parker, em “Angel Heart” (1987), onde se misturam práticas de “voodoo” e ambientes de crime. No final dos anos 80, e durante toda a década de 90, continua no clima do filme policial, por exemplo, em “Paris by Night”, de David Hare (1989) e “Invasion of Privacy”, de Anthony Hickox (1996), e na comédia, casos de “Time is Money”, de Paolo Barzman (1994) ou “Asphalt Tango”, de Nae Caranfil (1997). Mas são os papéis mais conturbados que melhor se encaixam na sua personalidade, como é o caso da inquietante tia Maude, em “The Wings of the Dove”, de Iain Softley, segundo obra de Henry James, onde aparece ao lado de Helena Bonham Carter (1997).
Volta a Anton Tchekov com “The Cherry Orchard”, de Mihalis Kakogiannis (1999), e inicia o novo século com um dos seus melhores trabalhos, “Sous le Sable”, de François Ozon (2000), com quem volta a trabalhar anos depois, em ”Swimming Pool”, num papel que a fará ganhar o prémio de melhor actriz do cinema europeu, atribuído pela European Film Academy, em 2003.
Na última década tem alternado pequenos e grandes papéis onde tem gravado sempre algo da sua personalidade, muito embora a sua carreira tenha oscilado entre obras essenciais e películas de puro entretenimento e vulgar comércio. Destaquem-se “The Statement”, de Norman Jewison (2003), “Immortel Ad Vitam”, de Enki Bilal (2004), “Le Chiavi di Casa”, de Gianni Amelio (2004), “Lemming”, de Dominik Moll (2005) “Vers le Sud”, de Laurent Cantet (2005), “Basic Instinct 2”, de Michael Caton-Jones (2006), “Angel”, de François Ozon (2007), ou, mais recentemente, “Desaccord Parfait”, de Antoine de Caunes, “Caotica Ana”, de Julio Medem, “Babylon A.D.”, de Mathieu Kassovitz, “The Duchess”, de Saul Dibb (todos de 2008).
Encontra-se actualmente a rodar, ou a ultimar, vários projectos, entre os quais “The Eye of the Storm”, de Fred Schepisi, “Melancholia”, de Lars von Trier. Outros títulos onde está prevista a sua colaboração: “Kill Drug”, “Angel Makers”, “Cleanskin”, “Never Let Me Go”, “Rio Sex Comedy” ou “The Mill and the Cross”. Uma actividade transbordante. Apesar desta carreira ininterrupta no cinema, Charlotte Rampling ainda encontra tempo para outras aparições, nomeadamente no teatro e na canção, um velho sonho que lhe vem da adolescência, quando ela e a irmã Sarah cantavam em dueto em cabarets, até ao dia em que o velho coronel, seu pai, as proibiu de actuarem. Mas, muitas décadas depois, em 2002, Charlotte cumpre o sonho e lança um CD, "Comme Une Femme", com Michel Rivgauche e Jean-Pierre Stora, disco que teve grande sucesso.
No teatro estreia-se tarde, só em Setembro de 2003, com “Petits Crimes Conjugaux”, de Eric-Emmanuel Schmitt, no “Theatre Eduoard VII”, em Paris. Ao lado de Bernard Giraudeau, numa encenação de Bernard Murat. Em 26 de Maio de 2004, no mesmo teatro, lê "A Queda da Casa Usher” e “A Máscara da Morte Vermelha”, duas novelas de Edgar Allan Poe. E “Notes de Lecture”, acompanhada pela “Musique Obliqúe”, com música de Jean-Sébastien Bach e André Caplet.
Ainda nesse ano, aparece entre Junho e Setembro, no “National Theatre”, em Londres, integrando o elenco de “The False Servant” de Pierre Marivaux, numa nova versão de Martin Crimp, com encenação de Jonathan Kent. Interpreta ainda, em 2007, em França, uma encenação de “A Dança da Morte”, de August Strindberg, no “Theatre Madelaine”, em Paris, ao lado de Bernard Verley. No Festival de Teatro de Almada, 2010, Charlotte Rampling apresenta "Yourcenar/Cavafy" um recital de textos e poemas, respectivamente de Marguerite Yourcenar e Konstantin Kavafy.


Filmografia

Como actriz / Cinema: 1964: The Knack … and How to Get It (Lições de Sedução), de Richard Lester; 1965: Rotten to the Core, de John Boulting; 1966: Georgy Girl, de Silvio Narizzano; Strangers, da série de TV "Five More", de John Irvin (TV); 1967: The Long Duel (Duelo sem Tréguas), de Ken Annakin; The Superlative Seven, série de TV "The Avengers", de Sidney Hayers; The Mystery of Cader Ifan, da série de TV "Sir Arthur Conan Doyle", de Peter Sasdy; The Fantasist, da série de TV "Theatre 625", de Peter Hammond; 1968: Sequestro di Persona, de Gianfranco Mingozzi; 1969: La Caduta degli dei (Os Malditos), de Luchino Visconti; Target: Harry ou What's in It for Harry?, de Roger Corman; Three, de James Salter; 1971: Vanishing Point (Corrida Contra o Destino), de Richard C. Sarafian; The Ski Bum, de Bruce D. Clark; Henry VIII and His Six Wives, de Waris Hussein; Addio fratello crudele (Adeus, Irmão Cruel), de Giuseppe Patroni Griffi; 1972: Asylum, ou House of Crazies (Lua Vermelha), de Roy Ward Baker; Corky, de Leonard Horn; Zinotchka, de Christopher Miles (TV); 1973: Giordano Bruno (Giordano Bruno), de Giuliano Montaldo; 1974: Caravan to Vaccares (Caravana para a Aventura), de Geoffrey Reeve; Zardoz (Zardoz), de John Boorman; Il Portiere di notte (O Porteiro da Noite), de Liliana Cavani; 1975: Yuppi du (Yuppi Du), de Adriano Celentano; Foxtrot (Foxtrot), de Arturo Ripstein; Farewell, My Lovely (O Último dos Duros), de Dick Richards; La Chair de l'orchidée (A Rapariga da Orquídea), de Patrice Chéreau; 1976: Sherlock Holmes in New York (Sherlock Holmes em Nova Iorque), de Boris Sagal (TV); 1977: Un Taxi Mauve ou A Purple Taxi (Um Táxi Cor de Malva), de Yves Boisset; Orca – The Killer Whale (Orca, a Fúria dos Mares), de Michael Anderson; 1980: Stardust Memories (Recordações), de Woody Allen; 1982: The Verdict (O Veredicto), de Sidney Lumet; 1983: BBC Play of the Month (TV); 1984: Viva la vie, de Claude Lelouch; 1985: On Ne Meurt Que Deux Fois (Só se Morre Duas Vezes), de Jacques Deray; 1986: Max mon amour (Max, Meu Amor), de Nagisa Ōshima; 1987: Mascara (Máscara), de Patrick Conrad; Angel Heart (Angel Heart - Nas Portas do Inferno), de Alan Parker; 1988: Paris by Night (Uma Chamada a Meio da Noite), de David Hare; 1990: Rebus, de Massimo Guglielmi; D.O.A. (Morto à Chegada), de Rocky Morto; 1992: La femme abandonnée, de Edouard Molinaro; Hammers over the anvil, de Ann Turner; 1993: Asphalt Tango, de Nae Caranfil; 1994: Murder in mind, de Robert Bierman; Time Is Money de Paolo Barzman; 1995: Radetzkymarsch, de Axel Corti, Gernot Roll; 1996: Invasion of Privacy), de Anthony Hickox; 1997: The Wings of the Dove (As Asas do Amor), de Iain Softley; 1999: The Cherry Orchard, de Michael Cacoyannis; Signs & Wonders, de Jonathan Nossiter; 1999: Great Expectations (Grandes Esperanças), de Julian Jarrold (TV); 2000: Superstition, de Kenneth Hope; Aberdeen, de Hans Petter Moland; Sous le sable (Sob a Areia), de François Ozon; 2001: The fourth angel (O Quarto Anjo), de John Irvin; 2001: Spy Game (Jogo de Espiões), de Tony Scott; 2002: Embrassez qui vous voudrez (Amor Sem Tréguas), de Michel Blanc; 2003: I’ll sleep when I’m dead (Só a Morte me Pode Parar), de Mike Hodges; Imperium: Augustus, de Roger Young; Swimming Pool (Swimming Pool), de François Ozon; The Statement (A Declaração), de Norman Jewison; 2004: Le Chiavi di Casa (As Chaves de Casa), de Gianni Amelio; Immortal – New York 2095, de Enki Bilal; 2005: Vers le Sud (Para o Sul), de Laurent Cantet; Lemming, de Dominik Moll; 2006: Désaccord parfait (Desacordo Perfeito), de Antoine de Caunes; 2006: Basic Instinct 2 (Instinto Básico, 2), de Michael Caton-Jones; 2007: Angel (Angel - Encanto e Sedução), de François Ozon; Caótica Ana (Caótica Ana), de Julio Médem; 2008: Deception (No Limite da Ilusão), de Marcel Langenegger; Sonnet, de Boris Zabotov; Babylon A.D. (Babylon A.D), de Mathieu Kassovitz; The Duchess (A Duquesa), de Saul Dibb; 2009: Le bal des actrices, de Maïwenn Le Besco; Quelque chose à te dire, de Cecile Telerman; Boogie Woogie, de Duncan Ward; La femme invisible (d'après une histoire vraie), de Agathe Teyssier; Life During Wartime (A Vida em Tempo de Guerra), de Todd Solondz; 2010: StreetDance 3D, de Max Giwa, Dania Pasquini; Never Let Me Go (Nunca Me Deixes), de Mark Romanek; Le grand restaurante, de Gérard Pullicino (TV); Rio Sex Comedy, de Jonathan Nossiter; Collection Fred Vargas (TV); 2011: Melancholia (Melancolia), de Lars von Trier; Młyn i krzyż (O Moinho e a Cruz), de Lech Majewski; 2012: I, Anna, de Barnaby Southcombe; The Eye of the Storm (O Coração da Tempestade), de Fred Schepisi; Cleanskin, de Hadi Hajaig; Ghost Recon: Alpha , de François Alaux, Hervé de Crécy; Restless, de Edward Hall; Tutto parla di te, de Alina Marazzi; 2013: Night Train to Lisbon (O Comboio Nocturno pra Lisboa), de Bille August; Jeune et Jolie (Jovem e Bela), de François Ozon; Dexter (TV); The Sea, de Stephen Brown; 2014; Le dos rouge, de Antoine Barraud; The Forbidden Room, de Guy Maddin, Evan Johnson; 2015: 45 Years, de Andrew Haigh; Broadchurch, de Chris Chibnall (TV); London Spy (TV); Händel, de Franco Battiato; The Whale, de Andrea Pallaoro; Seances, de Guy Maddin. 


15 DE SETEMBRO DE 2015



VERÃO DE 42 (1971)

O filme parte de um argumento de Herman Raucher que posteriormente o passa a romance. Estamos no Verão de 42, na ilha de Nantucket, em Cape Cod, no Noroeste da costa atlântica dos EUA. Pelo que vimos no filme, reportando-nos obviamente a 1942, esta era uma região paradisíaca, um pouco inóspita, quase isolada no mundo, com a natureza em estado puro e o oceano a banhar as praias desertas de gente, apenas povoadas por meia dúzia de veraneantes que passeavam pelas ruas da cidadezinha, e à noite iam ao cinema da terra, ver os grandes êxitos desses anos. “Now Voyager” com Bette Davis, por exemplo. Os jovens adolescentes aproveitavam este tempo de pausa na vida escolar para amadurecerem a sua vida sentimental e sexual. O que vimos no filme (e que posteriormente se pode ler no romance) foram recordações pessoais de quem escreveu, em testemunho directo. A prática normal neste tipo de obras de fundo autobiográfico é elidirem nomes próprios e disfarçarem situações e no início afirmar que “qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”. Aqui a preocupação foi outra, contrária: mantiveram-se nomes e situações com o maior rigor. O grupo de três amigos adolescentes eram realmente composto por Hermie (Gary Grimes), Oscy (Jerry Houser), e Benjie (Oliver Conant ) e foi a morte de Oscy, durante a Guerra da Coreia, que levou Herman Raucher a querer escrever este argumento como forma de homenagear o amigo desaparecido em combate. Portanto esta história de uma iniciação sentimental, esta descoberta da sexualidade, esta entrada na vida adulta deste grupo de jovens deviria impor-se pela sua autenticidade, pela sua genuinidade. É o que acontece na verdade. “Verão de 41” quase se aproxima do docudrama, ainda que se mostre sempre como ficção. Mas tudo se determina pela sua sinceridade, pelo tom vivido. São actores que interpretam os papéis, mas a credibilidade é total. O mesmo se passa com Dorothy (Jennifer O’Neil), a mulher que habita a casa de madeira em cima das dunas, casada com o militar que parte para a guerra na Europa, e que desperta primeiro a curiosidade dos adolescentes e depois impõe o deslumbramento amoroso a Hermie. Dorothy funciona admiravelmente como o objecto do desejo, o aparentemente inalcançável fruto proibido. Dorothy existiu, e Jennifer O’Neil interpreta-a não como a actriz de Hollywood que recria um papel, mas como uma mulher autêntica. Na sua fragilidade, na sua doçura imaculada, na sua beleza imperfeita, na leveza dos movimentos, na materialidade da sua existência. Ela, que é imagem mítica ara os adolescentes que a perseguem, é afinal uma presença física indesmentível. Jennifer O’Neil é perfeita nesta sua composição, este é o papel de uma vida. Diga-se ainda, por ser de inteira justiça, que os jovens que gravitam em seu redor, interpretados por Gary Grimes, Jerry Houser, Oliver Conant, Katherine Allentuck e Christopher Norris são magníficos e contribuem em muito para o sucesso da obra. 

De resto, “Verão de 42” é uma pequena obra-prima de observação, de rigor, de sensibilidade, de pudor, de bom gosto plástico, de segurança estilística, de coerência. Robert Mulligan não é cineasta de que muito se fale, injustamente. Ele é seguramente um dos maiores cineastas norte-americanos aparecidos no cinema na década de 60, vindos da televisão. Nascido em 1925, em Nova Iorque, The Bronx, e falecido aos 83 anos, em 2008, em Lyme, Connecticut, EUA, passou grande parte dos anos 50 a dirigir series para TV, onde apurou um estilo e definiu um olhar. Na longa-metragem, estreou-se ainda em 1957, com “Vencendo o Medo”, a que se seguiu um grupo de filmes interessante, onde foi criando um estilo: “A Pousada das Ilusões”, “O Grande Impostor”, “Idílio em Setembro” ou “Labirinto de Paixões”. Em 1962 atinge o auge da sua glória com “Na Sombra e no Silêncio” (To Kill a Mockingbird), segundo celebérrimo romance de Harper Lee, prosseguindo com obras extremamente estimulantes, intimistas e secretas, como “Amar Um Desconhecido”, “Errando pelo Caminho”, “O Estranho Mundo de Daisy Clover”, “O Último Degrau”, “Emboscada na Sombra”, “Em Busca da Felicidade”, culminando novamente num momento de glória, “Verão 42”. Depois, “O Outro”, “A Estrada do Amanhã”, “À Mesma Hora para o Ano Que Vem”, “Beija-me e Adeus”, “O Amor de Clara” ou “O Homem da Lua” (1991, último filme) encerram uma filmografia que não oferece um mau filme, ainda que se possa falar de ligeiras oscilações óbvias. O seu cinema foi sempre de uma delicadeza e sensibilidade extremas, mesmo quando os temas exigiam nervo e violência. “Verão de 42” é bem um exemplo acabado deste cinema que nos enovela numa teia de emoções e sentimentos inesquecíveis. Afinal como terá sido aquele verão de 42 para os três adolescentes que o povoam.
Curiosidade: estreado o filme, o escritor recebeu mais de dias centenas de cartas de Dorothys a confessarem que eram a Dorothy de que o filme falava. Uma dessas cartas era da verdadeira Dorothy que agradecia a forma como Herman Raucher e Robert Mulligan tinham recordado aquele verão de 42.


VERÃO DE 42
Título original: Summer of '42
Realização: Robert Mulligan (EUA, 1971); Argumento: Herman Raucher; Produção: Don Kranze, Richard A. Roth; Música: Michel Legrand; Fotografia (cor): Robert Surtees; Montagem: Folmar Blangsted; Casting: Alixe Gordin, Nessa Hyams, Jack Roberts; Design de produção: Albert Brenner; Decoração: Marvin March; Maquilhagem: Ken Chase, Dorothy White; Guarda-roupa: Jerry Alpe, Joanne Haas; Assistentes de realização: Mel Efros, Don Kranze, Irby Smith; Departamento de arte: Lowell Chambers, Robey Cooper, Don Miller, Arthur Orlando, Frank Repola, John J. Rutchland Jr., Lowell Thomas, Ken Walker, Alva Williams; Som: Tom Overton; Companhia de produção: Warner Bros.; Intérpretes: Jennifer O'Neill (Dorothy), Gary Grimes (Hermie), Jerry Houser (Oscy), Oliver Conant (Benjie), Katherine Allentuck (Aggie), Christopher Norris (Miriam), Lou Frizzell, Robert Mulligan (Narrador), Walter Scott, etc. Duração: 103 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros; Classificação etária (estreia no cinema): M/ 18 anos; DVD: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de Junho de 1972.


JENNIFER O'NEILL (1948 - )
Jennifer Lee O'Neill é de origem brasileira, nasceu no Rio de Janeiro, a 20 de Fevereiro de 1948, ainda que se tenha naturalizado norte-americana. O pai, Oscar O'Neill Jr., ligado à mdeciana, provinha de uma família de origem irlandesa e espanhola, e a mãe, Irene O’Neill, era inglesa. Desde criança obcecada por cavalos. Estudou na Dalton Schoolemin Manhattan, e depois na New York's Neighborhood Playhouse. Aos quinze anos era já modelo em Nova Iorque e, em 1968, estreia-se no cinema num pequeno papel em “For Love of Ivy”, que chamou a atenção de Howard Hawks, que a contratou para integrar o elenco do seu western “Rio Lobo”, em 1970, ao lado de John Wayne. No ano seguinte, em “Summer of '42”, atingiu o estrelado a consagração. Depois disso, pouco mais se poderá sublinhar da sua filmografia. Interpretou “Such Good Friends”, de Otto Preminger, “Um Caso de Urgência”, de Blake Edwards, “A Mulher de Gelo”, de Tom Gries e ainda “O Intruso”, de Luchino Visconti. Depois tem aparecido em telefilmes e séries de televisão. Mas quem a viu em “Verão de 42” não mais a esquece, apesar dela aparecer no filme apenas durante 12 minutos.
Em compensação não foi avarenta nos casamentos. Casou nove vezes com oito diferentes maridos, Dean Rossiter (1965 – 1971), Joseph Roster, escritor e publicitário (1972 - 1974), Nick De Noia, produtor e coreógrafo (1975 - 1976), Jeff Barry, cantor (1978 - 1979), John Lederer, seu agente (1979 - 1983), Richard Alan Brown, motorista (1986 - 1989), Neil L. Bonin (1992 - 1993), Richard Alan Brown (1993 - 1996) e Mervin Sidney Louque, Jr., produtor musical (1996 - presente). Actualmente vive numa fazenda em Nashville, no Tennessee. Escreveu a autobiografia “Surviving Myself”, e participou em diversas campanhas humanitárias. Mas a sua vida está repleta de dramas, tentativas de suicídio, marido que abusa da filha, drogas, assaltos violentos, depressões, etc. Recordemo-la na ilha de Nantucket, em Cape Cod, no verão de 42.

Filmografia

Como Actriz: 1968: For Love of Ivy (Um Homem para Ivy), de Daniel Mann; 1969: Futz!, de Tom O'Horgan (não creditada); Some Kind of a Nut, de Garson Kanin; 1970: Rio Lobo (Rio Lobo), de Howard Hawks; 1971: Summer of '42 (Verão de 42), de Robert Mulligan; Such Good Friends (Amantes Desconhecidos) de Otto Preminger; 1972: Glass Houses, de Alexander Singer; The Carey Treatment (Um Caso de Urgência), de Blake Edwards; 1973: Lady Ice (A Mulher de Gelo), de Tom Gries; 1975: Gente di rispetto, de Luigi Zampa; 1975: The Reincarnation of Peter Proud (O Homem que Viveu Duas Vezes), de Jack Lee Thompson; Whiffs (C.A.S.H), de Ted Post; 1976: L'Innocente (O Intruso), de Luchino Visconti; 1976: Call Girl: La vida privada de una señorita bien, de Eugenio Martín; 1977: Sette note in nero (Sete Notas Negras), de Lucio Fulci; 1978: Caravans (Caravanas), de James Fargo; 1979: Love's Savage Fury (A Fúria de Um Amor Selvagem), de Joseph Hardy (TV); 1979: A Force of One (Luta de Gigantes), de Paul Aaron; 1979: Steel (Homens de Aço); 1980: Cloud Dancer (O Bailarino das Nuvens), de Barry Brown; 1981: Scanners (Scanners), de David Cronenberg; The Other Victim, de Noel Black (TV); 1983: Bare Essence (série TV); 1984: Cover Up, de Glen A. Larson (TV); 1985: A.D. (TV); 1985: Chase (Regresso Amaldiçoado), de Rod Holcomb (TV); 1986: Perry Mason: The Case of the Shooting Star (TV); 1987: I Love N.Y., de Gianni Bozzacchi; 1988: Committed, de William A. Levey; The Red Spider (A Marca da Aranha) (TV); Glory Days (TV); 1989: Full Exposure: The Sex Tapes Scandal, de Noel Nosseck (TV); 1990: Personals (TV); 1992: Invasion of Privacy, de Kevin Meyer (TV); Perfect Family (TV); 1993: Discretion Assured, de Odorico Mendes; Love Is Like That (O Anjo Selvagem), de Jill Godman; The Cover Girl Murders (TV); 1994: Jonathan Stone: Threat of Innocence (TV); The Visual Bible: Acts, de Regardt van den Bergh; 1995: Silver Strand (Escola de Cadetes), de George Miller (TV); 1996: Poltergeist: The Legacy (TV); 1997: The Corporate Ladder (TV); The Ride, de Jeff Myres; Nash Bridges (TV); 1999: The Prince and the Surfer, Arye Gross e Gregory Gieras; 2000: On Music Row (TV); 2002: Time Changer, de Rich Christiano; 2008: Billy: The Early Years, de Robby Benson; 2012: Last Ounce of Courage, de Darrel Campbell; 2012: Doonby, de Peter M. Mackenzie.

8 DE SETEMBRO DE 2015


AS COISAS DA VIDA (1970)

Quando vi, na estreia, “As Coisas da Vida”, de Claude Sautet, recordo que o filme me impressionou muito, quer pelo retrato que oferecia da sociedade francesa do tempo, quer pela forma como a obra estava estruturada. Estávamos no dealbar dos anos 70, Sautet lançava-se numa panorâmica discreta mas incisiva sobre a média burguesia francesa, neste caso um casal, ele arquitecto, ela tradutora, bem instalados na vida, ele a despedir-se de um casamento anterior, ela a sofrer com a instabilidade momentânea, ele de poucos mas sólidos amigos, íntegro na forma de conceber o seu trabalho, o que lhe valia discussões acesas com os construtores civis e os donos dos edifícios, uma ou outra questão familiar, a voz off, sempre a voz off em pensamento, antecipando-se às acções. De resto, a narrativa é sincopada, inicia-se com um acidente de viação, ele vai a caminho de uma reunião, escreveu uma carta de despedida, que não colocou no correio, arrependido, pede à mulher para vir ter com ele, mas não destruiu a carta, e agora, o acidente, que será da carta?, tudo em off, ele estendido sobre a relva, à chuva, enquanto aguarda pela chegada de uma ambulância que o conduza ao hospital. Coisas da vida, dizem… Alguém prepara as “coisas” de uma determinada forma, mas depois o acaso, o destino, seja o que for, dispõe de maneira diferente.


Tudo isto era novidade em 1970, hoje já não o é, muita água passou nos rios, o que era uma surpresa em 70 é agora uma banalidade adquirida por um espectador mediano. Mas há que recuar no tempo e chamar a atenção precisamente para o que era novo na época em que o filme foi realizado. Claude Sautet foi saudado pelo rigor da análise, pela forma descontínua como organizava estas “coisas da vida”. Também pela maneira como dirigia os seus actores, os magníficos Romy Schneider, Michel Piccoli, Lea Massari, e todos os outros. Romy Schneider estava no auge da sua maturidade e beleza, concisa e rigorosa no registo, perspectivando uma notável carreira no cinema francês, depois da sua época Sissi e de um período internacional, dedicado a grandes superproduções. Com “A Piscina” e “As Coisas da Vida” Schneider entrega-se por completo à produção francesa, arrancando um conjunto quase ininterrupto de grandes trabalhos que a impuseram como grande actriz.
Claude Sautet vinha de policiais narrados com eficácia e inteligência, ambos com Lino Ventura, “Classe tout risques” (Contra todos os riscos, 1960) e “L'Arme à gauche” (Um Iate para a Jamaica, 1965), e preparava uma filmografia de extrema coerência que se impõe durante os anos 70 e 80: “O Estranho Caso do Inspector Max”, “César e Rosália”, “Vincent, François, Paul... et les autres” (Os Inseparáveis),  “Entre Duas Mulheres”, “Uma História Simples”, “Um Mau Filho”, “Um Homem Apaixonado”, “Alguns Dias Comigo”, terminando já nos anos 90, com “Um Coração no Inverno” e “Nelly & Monsieur Arnaud”, seu último filme. Sautet nasceu em 1924 em Montrouge, França, e viria a falecer em Paris, em 2000. Terá sido o sucesso público (e de crítica) que “As Coisas da Vida” justificaram que lhe permitiu uma carreira extremamente pessoal, virada para a análise psicológica e sociológica de pequenos grupos de pessoas, os seus dramas e aspirações, que hoje nos permitem compreender melhor um tempo e um espaço.
“Les Choses de la Vie” parte de um romance de Paul Guimard, que colaborou com Sautet e Jean-Loup Dabadie na sua adaptação ao cinema. Será de referir ainda a partitura musical de Philippe Sarde que acompanha a preceito a acção. Grupos de amigos, muito fumo, cafés, amores e desamores, frustrações e angústias, esperanças e desilusões, uma relativa tranquilidade económica e uma profunda inquietação emocional. Nem sempre é esteticamente bonito. Tal como a vida destas pessoas. Eis o cinema de Suatet. Coisas da Vida.

AS COISAS DA VIDA
Título original: Les choses de la vie
Realização: Claude Sautet (França, Itália, Suíça, 1970); Argumento: Claude Sautet, Jean-Loup Dabadie, Paul Guimard, segundo romance deste último; Produção: Jean Bolvary, Raymond Danon, Roland Girard; Música: Philippe Sarde; Fotografia (cor): Jean Boffety; Montagem: Jacqueline Thiédot; Decoração: André Piltant; Guarda-roupa: Jacques Cottin; Maquilhagem: Jean-Pierre Eychenne, Irène Servet; Direcção de Produção: Ralph Baum, Paul Dufour, Jean Guillaume; Assistentes de realização: Jean-Claude Sussfeld, Claude Vital; Departamento de arte: Jean Catala, Frédéric Tsikinsan; Som: René Longuet, Jean Nény, Alex Pront; Companhias de produção: Fida Cinematografica, Lira Films, Sonocam; Intérpretes: Michel Piccoli (Pierre Bérard), Romy Schneider (Hélène), Gérard Lartigau (Bertrand Bérard), Jean (François), Boby Lapointe, Hervé Sand, Jacques Richard, Betty Beckers, Dominique Zardi, Gabrielle Doulcet, Roger Crouzet, Henri Nassiet, Claude Confortès, Jerry Brouer, Jean Gras, Marie-Pierre Casey, Marcelle Arnold, Jean-Pierre Zola, Max Amyl, Isabelle Sadoyan, Gérard Streiff, Lea Massari (Catherine Bérard), Clément Bairam, Christian Bertola, Lucie Blome, Béatrice Boffety, M. Carmet, Henri Coutet, Raoul Delpard, Agnès Duval, Lucien Frégis, Karine Jeantet, Pierre Londiche, Luigi, Jean Piccoli, etc. Duração: 89 minutos; Distribuição em Portugal: Studio Canal /Universal (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos.

ROMY SCHNEIDER (1938 – 1982)
Romy Schneider não iniciou a carreira com a figura de Sissi, mas a verdade é que, durante grande parte da sua vida, se viu associada a este personagem e a um ciclo de filmes que para sempre a marcaram. Rosemarie Magdelena Albach-Retty, de nome de baptismo, nasceu a 23 de Setembro de 1938, em Viena, Áustria, e viria a falecer em Paris, França, a 29 de Maio de 1982. O atestado regista uma paragem cardíaca, mas nunca se aclarou devidamente as causas. Falou-se numa dose excessiva de barbitúricos.
Os pais, Wolf Albach-Retty e Magda Schneider, eram actores e sobretudo a mãe teve uma influência enorme no início da carreira de Romy, controlando-a, supervisionando-a. Estreou-se aos 15 anos no cinema, em “Entre Dois Amores”, de Hans Deppe, mas fez furor, a partir de 1955, com o ciclo de filmes dedicados a Sissi, a imperatriz: “Sissi”, de Ernst Marischka; “Sissi, die junge Kaiserin” (Sissi, a Jovem Imperatriz) e “Sissi, Schicksalsjahre einer Kaiserin” (Sissi e o Destino), todos de Ernst Marischka. Muito presa à imagem imperial que a sua beleza e juventude ajudaram a cimentar, rodou diversas outras obras nos mesmos ambientes: “Die Deutschmeister” (Parada Imperial), de Ernst Marischka; “Kitty und die große Welt” (Kitty e os 4 Grandes), de Alfred Weidenmann; “Monpti” (Monpti), de Helmut Käutner; “Scampolo” (A Miúda), de Alfred Weidenmann; “Mädchen in Uniform” (Raparigas de Uniforme), de Géza von Radványi; “Christine” (Cristina), de Pierre Gaspard-Huit ou “Katia” (Katia), de Robert Siodmak. Ao rodar “Christine”, apaixona-se por Alain Delon , o actor com quem contracenava e parte para Paris. Voltam a reunir-se em “Plein Soleil” (À Luz do Sol), de René Clément, e são considerados um casal sensação. Por essa altura surge numa série de filmes de grandes realizadores e de grande espectáculo: “O Processo”, de Orson Welles, “Os Vitoriosos”, de Carl Foreman, “O Cardeal”, de Otto Preminger, “O Assassinato de Trotsky”, de Joseph Losey, ou “Luís da Baviera”, de Luchino Visconti. Confessou um dia que “trabalhou com os maiores tiranos, Preminger, Welles, Visconti”. A partir de “A Piscina” e “As Coisas da Vida” toda a sua carreira decorre quase sempre em França, destacando-se a grande coerência e intensidade das suas fulgurantes interpretações que lhe reservaram um lugar de “eleita entre as eleitas” dos espectadores mundiais. Separada de Delon em 1964, casou com Harry Meyen, de quem teve um filho, David-Christopher. Novo divórcio em 1975. No mesmo ano, recebe o seu primeiro César como Melhor Actriz em “O Importante É Amar”, a que se segue outro, três anos depois, com “Uma História Simples”. Volta a casar com o seu secretário Daniel Biasini, de quem tem uma filha. Em 1981, sofre um rude golpe de que nunca mais se recompõe quando o filho, David Haubenstock, morre trespassado pelos varões metálicos dos limites de um jardim. Um ano depois, Romy Schneider morre Paragem cardíaca. Fica a lenda.

Filmografia

Como actriz: 1953: Wenn der weiße Flieder wieder blüht (Entre Dois Amores), de Hans Deppe; 1954: Feuerwerk (Fogo de Artifício), de Kurt Hoffmann; Mädchenjahre einer Königin (Juventude de Uma Raínha), de Ernst Marischka; 1955: Der letzte Mann (O Último dos Homens), de Harald Braun; Die Deutschmeister (Parada Imperial), de Ernst Marischka; Sissi (Sissi), de Ernst Marischka; 1956: Kitty und die große Welt (Kitty e os 4 Grandes), de Alfred Weidenmann; Sissi, die junge Kaiserin (Sissi, a Jovem Imperatriz), de Ernst Marischka; 1957: Monpti (Monpti), de Helmut Käutner; Robinson soll nicht sterben (A Ilha Encantada de Robinson), de Josef von Báky; Sissi, Schicksalsjahre einer Kaiserin (Sissi e o Destino), de Ernst Marischka;1958: Scampolo (A Miúda), de Alfred Weidenmann; Mädchen in Uniform (Raparigas de Uniforme), de Géza von Radványi; Christine (Cristina), de Pierre Gaspard-Huit; 1959: Die Halbzarte (Eva ou Diário de uma Rapariga), de Rolf Thiele; Ein Engel auf Erden (Um Anjo de Rapariga), de Géza von Radványi; Die schöne Lügnerin (A Bela Mentirosa), de Axel von Ambesser; Katia (Katia), de Robert Siodmak; Plein Soleil (À Luz do Sol), de René Clément; 1961: Boccace 70 (Boccaccio '70), episódio “Il Lavoro” de Luchino Visconti; Die Sendung der Lysistrata (TV), de Fritz Kortner; 1961: Le Combat dans l'île (O Duelo na Ilha), de Alain Cavalier; 1962: Forever My Love (versão condensada para os EUA de dois filmes sobre Sissi); Le Procès (O Processo), de Orson Welles; The Victors (Os Vitoriosos), de Carl Foreman; 1963: The Cardinal (O Cardeal), de Otto Preminger; 1964: Good Neighbor Sam (Empresta-me o Teu Marido), de David Swift; L'Enfer, de Henri-Georges Clouzot (inacabado); 1965: L'Amour à la mer, de Guy Gilles; Paris brûle-t-il ?, de René Clément (cenas não incluídas na versão final); What's new Pussycat ? (Que há de novo, gatinha?), de Clive Donner; 1966: 10:30 P.M. Summer, de Jules Dassin; La Voleuse, de Jean Chapot; Triple cross (O Maior Espião da História), de Terence; 1968: Otley (Espião por Acidente), de Dick Clement; La Piscine (A Piscina), de Jacques; 1969: My lover, my son, de John Newland; 1970: Les Choses de la vie (As Coisas da Vida), de Claude Sautet; Qui? (Quem?), de Léonard Keigel; Bloomfield (A Queda de um Ídolo), de Richard Harris; La Califfa (A Califa), de Alberto Bevilacqua; Max et les ferrailleurs (O estranho caso do Inspector Max), de Claude Sautet; 1971: The Assassination of Trotsky (O Assassinato de Trotsky), de Joseph Losey; 1972: Ludwig (Luís da Baviera), de Luchino Visconti; César et Rosalie (César e Rosália), de Claude Sautet; 1973: Le Train (O Último Comboio), de Pierre Granier-Deferre; 1973: Un amour de pluie (Um Amor Passageiro), de Jean-Claude Brialy; Le Mouton enragé (O cordeiro enfurecido), de Michel Deville; Le Trio infernal (Le trio infernal), de Francis Girod; 1974: L'important c'est d'aimer (O Importante É Amar), de Andrzej Żuławski; Les Innocents aux mains sales (Os Inocentes de Mãos Sujas), de Claude Chabrol; 1975: Le Vieux Fusil (A mulher, o amor e o ódio), de Robert Enrico; 1976: Une femme à sa fenêtre, de Pierre Granier-Deferre; Mado (Entre Duas Mulheres), de Claude Sautet; Gruppenbild mit Dame), de Aleksandar Petrovic; Tausend Lieder ohne Ton (TV); 1978: Une histoire simple (Uma História Simples), de Claude Sautet; 1979: Bloodline (Laços de Sangue), de Terence Young; Clair de femme (A Luz da Paixão), de Costa-Gavras; La mort en direct ou Death watch (A Morte em Directo), de Bertrand Tavernier; 1980: La Banquière (A Banqueira), de Francis Girod; 1981: Fantasma d'amore (Fantasma de Amor), de Dino Risi; Garde à vue (Sem Culpa Formada), de Claude Miller; 1982: La Passante du Sans-Souci (O Bar da Última Esperança), de Jacques Rouffio; 2009: L'Enfer de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea (documentário sobre o filme inacabado “L'Enfer”, de 1964). 

1 DE SETEMBRO DE 2015


OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM (1969)

Sydney Pollack foi, inquestionavelmente, um dos cineastas mais interessantes entre os revelados na década de 60, nos EUA. Filmes como “A Flor à Beira do Pântano”, “Caçadores de Escalpes”, “As Brancas Montanhas da Morte”, “Os Três Dias do Condor”, “Yakusa”, “Bobby Deerfield”, “Tootsie” ou “África Minha” testemunham bem a importância da contribuição de Pollack. “Os Cavalos Também se Abatem” data de 1969 e é outro dos seus triunfos, desta feita adaptando um excelente romance de Horace McCoy, um dos grandes escritores norte-americanos no domínio do “romance negro”. Ambientado em plena época da Grande Depressão económica nos EUA, “They Shoot Horses, Don't They?” é um documento impressionante sobre este período, desenrolando-se quase toda a obra no interior de um recinto onde decorre uma maratona de dança, verdadeiramente inumana na forma como é sustentada pelos concorrentes, na mira de atingirem uma avultada maquia, prometida a quem consiga estar mais tempo a dançar de forma ininterrupta. 1.500 dólares na altura devia ser uma importância considerável. Vários mitos da América são aqui abordados de forma lúcida e vigorosa, desde o espírito de competição até ao “struggle for life”, passando pelo sonho da abastança e da terra prometida.
Estamos na Califórnia, o Eldorado americano, para onde se dirigiam todos os que fugiam da miséria e do desemprego. Como se viu em “As Vinhas da Ira”. Não só as condições atmosféricas ajudavam, como existia ali a fábrica de sonhos que acalentava a esperança de muitos, sobretudo os mais jovens, com a expectativa de serem “descobertos”. Numa vasta tenda, com uma pista central e bancadas para o muito público que irá acorrer ao longo de dias e dias, o show vai começar. Diz-se um concurso. São cerca de centena e meia de pares que irão dançar consecutivamente, com intervalos de 10 minutos de duas em duas horas. O último par a resistir ganha a taluda. Há enfermeiras e médico que distribuirá aspirinas e pouco mais: “Pneumonia dupla é entre vocês e Deus”, anuncia o apresentador. “O relógio nunca pára.” “Se perderem o parceiro podem dançar durante 24 horas a solo, depois, se não arranjarem outro, serão desqualificados.”
Esta é “a maior maratona do mundo!”, que abre as portas da fama e da fortuna. “Sete refeições por dia” é também um bom argumento para muitos dos concorrentes. A dança inicia-se, primeiro em slow, depois mais agitado. Ao fim de 25 dias e de mais de 600 horas, já com muitos concorrentes pelo caminho, o teste de energia e resistência: uma corrida à volta da pista, extenuante, desumana, para isolar os três últimos que serão desqualificados. “Não precisam de ser o número um na estrada da vida, mas não sejam o último”. O marujo já de certa idade que concorre afirma que já “trabalhou em barcos de gado e é mais ou menos a mesma coisa”.


“Negócio, estritamente negócio”, proclama o apresentador. “Este é o tipo de acontecimento que atrai muitas pessoas. Hoje vamos ter gente de Hollywood. Fala-se em Le Roy, na altura um dos grandes cineastas de Hollywood. A determinada altura, o par que está a granjear maior simpatia entre o público é chamado à parte e fazem-lhe a proposta: “Casam-se em público e podem ganhar 200 dólares. Se não quiserem continuar casados podem divorciar-se logo no dia seguinte”.
1200 horas de dança, outra corrida à volta da pista. A maratona aproxima-se do fim. A cada nova corrida, um pequeno canhão é trazido para a pista para dar o sinal de partida. Um símbolo bélico para tornar mais real esta guerra. Como fazer dinheiro com a miséria dos outros. Como assistir à desgraça pública de alguém, para tornar mais suportável a miséria própria. As galerias estão cheias durante os dias, à noite decresce a multidão, para regressar no dia seguinte, ávida de novidades dramáticas. Há quem desista, quem tenha alucinações, quem morra na pista, quem se ofereça, quem aspire por um tiro na cabeça. Afinal, “os cavalos também se abatem”.
Retrato implacável de uma realidade cruel e violenta, na terra do espectáculo. Onde tudo é espectáculo. Onde tudo se compra e se vende. Ou quase tudo.
Actores notáveis, técnicos inspirados, todos se reúnem para fazer desta obra uma cavalgada empolgante, de ritmo vertiginoso, pela sobrevivência e a afirmação pessoal. Gig Young foi Oscar de Melhor Actor Secundário, e o filme recebeu mais oito nomeações: Jane Fonda, Melhor Actriz; Susannah York, Melhor Actriz Secundária; Harry Horner e Frank R. McKelvy, Melhor Direcção Artística; Donfeld, Melhor Guarda-roupa; Fredric Steinkamp, Melhor Montagem; James Poe e Robert E. Thompson, Melhor Argumento Adaptado; Johnny Green e Albert Woodbury, Melhor Música; e Sydney Pollack, Melhor Realizador. Outros prémios e nomeações se multiplicaram. Este é seguramente um dos mais lancinantes retratos da América da Grande Depressão, quando o presidente Herbert Hoover exclamava que “a prosperidade está ao virar da esquina”.
O filme não perdeu nenhuma actualidade e as maratonas de dança agora são transmitidas pela televisão em novos formatos. Big Brother e muitas outras “casas” e “segredos” são agora o negócio, onde tudo se vende e tudo se compra.


OS CAVALOS TAMBÉM SE ABATEM
Titulo original: They Shoot Horses, Don’t They?
Realização: Sydney Pollack (EUA, 1969); Argumento: James Poe, Robert E. Thompson, segundo romance de Horace McCoy (“They Shoot Horses, Don’t They?”); Produção: Robert Chartoff, Johnny Green, Theodore B. Sills, Irwin Winkler; Fotografia (cor): Philip H. Lathrop; Montagem: Fredric Steinkamp; Casting: Lynn Stalmaster; Design de produção: Harry Horner; Decoração: Frank R. McKelvy; Guarda-roupa: Donfeld; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, Frank McCoy; Direcção de produção: Edward Woehler; Assistentes de realização: Al Jennings, Joel Chernoff, Lynn Guthrie; Som: Norval D. Crutcher, Tom Overton, Tex Rudloff; Companhias de produção: American Broadcasting Company, Palomar Pictures; Intérpretes: Jane Fonda (Gloria Beatty), Michael Sarrazin (Robert Syverton), Susannah York (Alice LeBlanc), Gig Young (Rocky), Red Buttons (Harry ‘Sailor’ Kline), Bonnie Bedelia (Ruby), Michael Conrad (Rollo), Bruce Dern (James), Al Lewis, Robert Fields, Severn Darden, Allyn Ann McLerie, Madge Kennedy, Jacquelyn Hyde, Felice Orlandi, Art Metrano, Gail Billings, Lynn Willis, Maxine Greene, Mary Gregory, Robert Dunlap, Paul Mantee, Tim Herbert, Tom McFadden, Noble ‘Kid’ Chissel, etc. Duração: 120 minutos; Classificação etária: M/ 16 anos; Distribuição e Portugal (DVD): Cine Digital.


JANE FONDA (1937 - )
Lady Jayne Seymour Fonda é o nome de baptismo desta actriz que nasceu a 21 de Dezembro de 1937, em Nova Iorque, EUA. Os pais foram o actor Henry Fonda, um dos maiores da sua geração, e a muito conhecida Frances Seymour Brokaw, uma das presenças mais cobiçadas das festividades nova-iorquinas. Frances Seymour Brokaw suicidou-se quando Jane Fonda tinha 21 anos. Jane Fonda tem como irmão o também actor Peter Fonda e é tia de uma outra actriz, Bridget Fonda. Com esta família parecia escrita deste muito nova a carreia de Jane Fonda. Na verdade, estreia-se no teatro ao lado do pai, em 1954, numa produção teatral dirigida por Joshua Logan, "The Country Girl", no Omaha Community Theatre. Em 1958, já se encontra matriculada no Actors Studio, às ordens de Lee Strasberg. Em “Garota Apimentada” (1960) é de novo Joshua Logan que apadrinha desta feita a sua estreia no cinema, onde irá interpretar um importante conjunto de filmes, que merecerão dois Oscars da Academia de Hollywood, para “Klute” (1971) e “O Regresso dos Heróis” (1978), além de mais cinco nomeações em “Os cavalos Também Se Abatem” (1969), “Julia” (1977), “O Síndroma da China” (1979), “A Manhã Seguinte” (1986) e “A Casa do Lago” (1981).
Se a sua carreira profissional foi uma sucessão de sucessos, a sua vida emocional e as suas actividades políticas e sociais causaram profunda polémica. Foi casada com o realizador francês Roger Vadim (1965 - 1973), depois com o activista político Tom Hayden (1973 - 1990), finalmente com o produtor Ted Turner (1991 - 2001). Todos os casamentos terminaram em divórcios. Durante muitos anos dedicou-se a campanhas pelos direitos civis, pela emancipação da mulher ou contra a guerra do Vietname. Chegou a ser presa em 1970. No início da década de 80, iniciou uma nova cruzada, esta com base na aeróbica, publicando "Jane Fonda's Workout Book" e alguns vídeos que tiveram grande sucesso. Em 1995, a revista Empire publicou um inquérito sobre as “100 Sexiest Stars” e Jane Fonda aparece em 21º lugar. A mesma revista, dois anos depois, quis saber quais eram "The Top 100 Movie Stars of All Time" e Jane Fonda foi a 83ª da lista. A revista Première coloca-a, entretanto, em 32º lugar na sua lista das “Greatest Movie Stars of All Time” (2005). Escreveu uma autobiografia, "My Life So Far". Para lá de Oscars e nomeações, Jane Fonda ganhou imensas outras distinções e prémios em festivais e manifestações afins.


Filmografia
Como actriz: Cinema: 1960: Tall Story (Garota Apimentada), de Joshua Logan; 1962: Walk on the Wild Side (Restos de Um Pecado), de Edward Dmytryk; The Chapman Report (A Vida Íntima de Quatro Mulheres), de George Cukor; Period of Adjustment (A Arte de Bem Casar), de George Roy Hill; 1963: In the Cool of the Day (Ânsia de Amar), de Robert Stevens; Sunday in New York (Um Domingo em Nova Iorque), de Peter Tewksbury; 1964: Les Félins (A Jaula do Amor), de René Clément; La Ronde (A Ronda do Amor), de Roger Vadim; 1965: Cat Ballou (Mulher Felina), de Elliot Silverstein; 1966: The Chase (Perseguição Impiedosa), de Arthur Penn; La Curée (Queda no Abismo), de Roger Vadim; Any Wednesday (Livre à Quarta-Feira), de Robert Ellis Miller; 1967: Barefoot in the Park (Descalços no Parque), de Gene Saks; 1967: Hurry Sundown (O Incerto Amanhã), de Otto Preminger; 1968: Histoires extraordinaires (Histórias Extraordinárias), episódio “Metzengerstein”, de Roger Vadim; 1968: Barbarella (Barbarella), de Roger Vadim; They Shoot Horses, Don't They? (Os Cavalos Também Se Abatem), de Sydney Pollack; 1971: Klute (Klute), de Alan J. Pakula; 1972: Tout va bien (Tudo Vai Bem), de Jean-Luc Godard, Jean-Pierre Gorin; FTA, de Francine Parke; 1973: Steelyard Blues (Com Um Pé Fora da Lei), de Alan Myerson; 1973: A Doll's House (A Casa da Boneca), de Joseph Losey; 1976: The Blue Bird (O Pássaro Azul), de George Cukor; 1977: Fun with Dick and Jane (Adivinhe Quem Vem Para Roubar), de Ted Kotcheff; Julia (Julia), de Fred Zinnemann; 1978: Coming Home (O Regresso dos Heróis), de Hal Ashby; Comes a Horseman (Uma Mulher Implacável) de Alan J. Pakula; California Suite (Um Apartamento na Califórnia), de Herbert Ross; 1979: The China Syndrome (O Síndroma da China), de James Bridges; 1980: The Electric Horseman (O Cowboy Eléctrico), de Sydney Pollack; Nine to Five (Das 9 às 5), de Colin Higgins; 1981: On Golden Pond (A Casa do Lago), de Mark Rydell; Sois belle et tais-toi, de Delphine Seyrig (documentário); 1981: Rollover (A Face do Poder), de Alan J. Pakula; 1985: Agnes of God (Agnes de Deus), de Norman Jewison; 1986: The Morning After (A Manhã Seguinte), de Sidney Lumet; 1987: Leonard Part 6 ,de Paul Weiland; 1989: Old Gringo (O Velho Gringo), de Luis Puenzo; 1990: Stanley and Iris (Para Iris, com Amor), de Martin Ritt; 1994: A Century of Cinema, de Caroline Thomas (documentário); 2002: Searching for Debra Winger, de Rosanna Arquette (documentário); 2004: Tell Them Who You Are, de Mark Wexler (documentário); 2005: Monster-in-Law (Uma Sogra de Fugir),  de Robert Luketic; 2007: Georgia Rule (Regras Para Ser Feliz), de Garry Marshall; 2011: Peace, Love and Misunderstanding (Paz, Amor e Outras Confusões), de Bruce Beresford; 2012: Et si on vivait tous ensemble? (E Se Vivêssemos Todos Juntos?), de Stéphane Robelin; 2013: The Butler (O Mordomo) de Lee Daniels; 2014: Better Living Through Chemistry (Viver Melhor à Base de Químicos) de Geoff Moore e David Posamentier; This Is Where I Leave You (Sete Dias Sem Fim), de Shawn Levy; 2015: La giovinezza, de Paolo Sorrentino; Fathers and Daughters, de Gabriele Muccino; Krystal, de William H. Macy.

Televisão: 1962: A String of Beads; 1981: Lily: Sold Out; 1984: The Dollmaker, de Daniel Petrie; 2012: The Newsroom de Aaron Sorkin; 2014: Os Simpsons; 2015: Grace and Frankie; 

26 DE AGOSTO DE 2015


HELLO, DOLLY (1969)

A câmara de Gene Kelly sobe as escadarias dos "Harmonica Gardens" e vai enquadrar as costas de um velho negro que dirige uma orquestra de jazz. Os braços estendidos, os ombros já encurvados, uma pequena batuta prolongando o negro da casaca, dir-se-ia o sacerdote de uma liturgia de sons por ele comandados. A câmara de Gene Kelly aproxima-se então, com respeito, e vai com ela um grande amor e a reverência devida ao "Rei". Com ela vamos também nós, direitos às costas daquele velho negro de ralos cabelos brancos que, súbito, se volta e se descobre:
- “That's Louis, Dolly”...
- “Hello, Louis”..., responde-lhe Barbra Streisand, e nestas breves palavras, nestes gritos de amor que a memória só conhece raramente, está o mais belo momento de “Hello, Dolly”, filme.
O velho negro, de ombros encurvados já, continua naquela voz rouca de quem viveu eternidades e conhece a vida por dentro e por fora. Ele é o "Rei", ressuscitando um velho poema. Aí o temos, de corpo inteiro, desarmado, sem o velho trompete cravado nos lábios, unicamente com a sua voz rouca e o amor esgueirando-se pelo olhar. É o "Rei" que estende a mão a Barbra, e com ele regressa toda a nostalgia, toda a sumptuosidade litúrgica, toda a turbulência musical, toda a alegria incomensurável de um cortejo em New Orleans. O mais belo momento de “Hello, Dolly”. Um momento que nos obriga a ver e rever um musical. Um momento sublime que ficará por certo na história do cinema e do musical. Uma história que não é só feita de filmes. Mas de pessoas. De rostos. De vozes. Da rouquidão arrastada de um velho negro do jazz. E de uma grande vedeta com a força telúrica de uma Barbra Streisand, aqui num dos seus grandes momentos de actriz e cantora.


Com “Hello, Dolly”, datado de 1969, Gene Kelly regressava à realização cinematográfica depois de alguns anos de interregno, e regressava também ao musical: um regresso, se não em cheio, pelo menos em beleza, dado que o director, coreógrafo, bailarino e actor de tantos e tantos clássicos do género regressava sem vestígios de senilidade, sem envelhecimento formal, sem qualquer indício de quebra, de vigor ou de invenção. Antes pelo contrário: “Hello, Dolly” surgia em 1969 nos ecrãs de todo o mundo como mais um notável exercício de cinema, uma baforada de vitalidade e de ritmo num género exausto por essa altura. Um majestoso espectáculo que passava a constituir, daí em diante, uma nova referência obrigatória na história de um género de prestigiada linhagem.
Encadeado vertiginoso de canções e bailados, “Hello, Dolly” é a transposição para o cinema de um espectáculo musical de grande sucesso na Broadway - 2.844 representações no St. James Theatre, de Nova Iorque, depois da sua estreia a 16 de Janeiro de 1964. A produção do espectáculo estivera a cargo de David Merrick, com direcção e coreografia de Gower Champion. Na base do espectáculo, uma peça teatral de Thornton Wilder, "The Matchmaker", adaptada por Michael Stewart, com música e líricas de Jerry Herman.
Mas a história desta adaptação é curiosíssima. A versão original da intriga remonta a uma peça teatral inglesa, “A Day Well Spent”, de John Oxenford, estreada em Londres em 1835. Alguns anos depois, Johann Nestroy escrevia uma versão alemã, que subiria a cena em 1842, em Viena de Áustria, com o título “Einen Jux Will Er Sich Machen”. Quase um século depois, o norte-americano Thornton Wilder, segundo sugestão de Max Reinhardt, escreve uma sua primeira adaptação a que chamou “The Merchant of Yonkers”, que se estreou no teatro, com Jane Cowl como protagonista. Não satisfeito com o resultado, cerca de quinze anos depois, o mesmo Thornton Wilder volta ao tema e refaz a história que passa a chamar-se “The Matchmaker”. É na temporada de 1954-55 que a peça sobe à cena, em Londres, com Ruth Gordon na figura de Dolly Levi. A 5 de Dezembro de 1955, David Merrick estreia esta nova peça em Nova Iorque no The Theatree Guild, para 486 representações, com um cast que inclui, além de Ruth Gordon, Loring Smith, Eileen Herlie, Arthur Hill e Robert Morse. Daqui nasce, em 1958, uma versão cinematográfica, homónima, dirigida por Joseph Anthony, interpretada por Shirley Booth, Shirley MacLaine, Anthony Perkins, Paul Ford, Wallace Ford e Robert Morse. É, portanto, desta versão que o mesmo David Merrick se socorre para a criação do musical “Hello, Dolly” que, ao tempo da sua estreia em salas da Broadway, se transformou no maior sucesso musical em palco. Seria, meses depois, ultrapassado por “O Violino no Telhado”.
Mas este sucesso não seria fácil de conseguir. Antes de aparecer na Broadway, o musical rodou por algumas cidades dos EUA e as primeiras impressões foram "desastrosas". Adaptador e músico foram reescrevendo o que parecia fraco, até chegarem à versão que surgiria em palco em N. Y. O argumento de “Hello, Dolly” continuaria a ser, no entanto, tanto no palco como no ecrã, o seu calcanhar de Aquiles. Lá chegaremos...
Desse elenco original faziam parte Carol Channing, David Burns, Eileen Brennan, Charles Nelson Reilly, Sondra Lee, Jerry Dodge, Alice Playten, Igors Gavon. O espectáculo recebeu 10 Tonys (correspondentes aos Oscars, em teatro), entre os quais o de melhor produção de um musical, melhor autoria, melhor direcção, melhor música, melhor coreografia e melhor actriz. Para os críticos do “Variety”, seria o mais votado para quatro categorias, melhor direcção de um musical, melhor actriz, melhor cenografia e melhor lírica.


Houve quem considerasse que “Hello, Dolly” era um musical de um tema só, precisamente "Hello, Dolly", e que os restantes números musicais eram bastante inferiores a esse. A partitura conta, todavia, com alguns outros bons momentos, entre as principais canções: "I Put My Hand In", "It Takes a Woman", "Put on Your Sunday Clothes", "Ribbons Down My Back", "Motherhood", "Dancing", "Before the Parade Passes By", "Elegance", "It Only Takes a Moment" ou "So Long Dearie".
Voltando à adaptação cinematográfica, haverá que referir que ela foi empreendida por Ernest Lehman, com realização de Gene Kelly, música e líricas de Jerry Herman e Michael Stewart, coreografia de Michael Kidd (o mesmo desse espantoso “Sete Noivas para Sete Irmãos”), fotografia (em Todd-AO) de Harry Stradling, direcção musical de Lennie Hayton e Lionel Newman e direcção artística de John de Cuir.
Nos Oscars do ano, ganharia o de melhor filme e melhor fotografia, e seria ainda nomeado para melhor direcção musical, melhor direcção artística e melhores cenários.
O argumento é frágil e demasiado secundário para sobre ele nos determos com muita atenção. Serve unicamente de pretexto a uma "feérie" e é esta que está em causa. Pouco nos interessa saber que uma jovem viúva (que se ocupa "profissionalmente" a arranjar casamentos para outros) resolva, subitamente, preocupar-se com o seu futuro e "caçar" um milionário que diz que "o máximo a que um americano pode aspirar é ter muito dinheiro". Estamos em Nova Iorque, 1880, e tudo terá de ser visto nesta perspectiva, tanto mais que o filme reflecte um saudável e subtil sentido crítico.
Mas o que funciona como centro motor é a reconstituição de um tempo histórico, estilizado pela forma como nos é transmitido. É a América de fins do século XIX, a eufórica América que ainda se descobre a si própria, e o faz cantando e dançando, transbordante de alegria e vitalidade.
“Hello, Dolly” é, neste aspecto, uma espécie de "revista", na sua sucessão de "quadros", que se prolonga por duas horas e meia de um turbilhão de cores e sons. O rosto de uma cidade onde são visíveis as profundas desigualdades sociais, mas onde os conflitos se resolvem ainda ao ritmo de uma orquestra comandada por um improvisado, mas admirável, Louis Armstrong (cremos que na sua última aparição cinematográfica).
Haverá essencialmente que salientar a qualidade plástica das grandes sequências coreografadas: a partida de um comboio carregado de habitantes de uma pequena aldeia nos arredores de Nova Iorque, com destino à capital; a parada que fecha em apoteose a primeira parte do filme (e que constitui, só por si, um inolvidável momento de musical); ou ainda esses três quartos de hora finais, inteiramente limitados pelas paredes de um restaurante, onde se sucedem vertiginosos bailados, cada vez mais turbulentos, com um ritmo de marcação inexcedível, onde é bem visível o dedo de Michael Kidd.
Que “Hello, Dolly” não aguenta a mais rudimentar aproximação crítica ao nível do argumento, essa é uma conclusão que se impõe extrair rapidamente, para melhor saborearmos depois, sem problemas de consciência, esse impressionante espectáculo musical, onde são ainda de sublinhar o trabalho e o talento de Barbra Streisand, não só como actriz, mas sobretudo como personalidade e cantora, para lá da presença de Walter Matthau, que compõe com brilho e humor a figura de um excêntrico milionário. Outros actores: Michael Crawford, Marianne McAndrew, E.J. Peaker, Danny Lockin, Louis Armstrong, Tommy Tune e David Hurst.

HELLO, DOLLY!
Título original: Hello, Dolly!
Realização: Gene Kelly (EUA, 1969); Argumento: Ernest Lehman, segundo peça teatral de Michael Stewart, inspirada em Thornton Wilder ("The Matchmaker") e Johann Nestroy ("Einen Jux will er sich machen"); Produção: Roger Edens, Ernest Lehman; Fotografia (cor): Harry Stradling Sr.; Montagem: William Reynolds; Casting: Alixe Gordin, Joe Scully; Design de produção: John DeCuir; Direcção artística: Herman A. Blumenthal, Jack Martin Smith; Decoração: Raphael Bretton, George James Hopkins, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Irene Sharaff; Maquilhagem: Edwin Butterworth, Dick Hamilton, Edith Lindon, Daniel C. Striepeke, Verne Langdon, Sharleen Rassi; Direcção de produção: Francisco Day, George E. Swink; Assistentes de realização: Paul Helmick, Robert J. Koster, Richard Lang; Departamento de arte: Lloyd R. Apperson, Craig Binkley, Greg C. Jensen; Som: James Corcoran, Jack Solomon, Murray Spivack, Vinton Vernon, Douglas O. Williams, Terrance Emerson; Efeitos especiais: Johnny Borgese; Efeitos visuais: L.B. Abbott, Art Cruickshank, Emil Kosa Jr.; Companhias de produção: Chenault Productions, Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Barbra Streisand (Dolly Levi), Walter Matthau (Horace Vandergelder), Michael Crawford (Cornelius Hackl), Marianne McAndrew (Irene Molloy), Danny Lockin (Barnaby Tucker), E.J. Peaker (Minnie Fay), Joyce Ames (Ermengarde), Tommy Tune (Ambrose Kemper), Judy Knaiz (Gussie Granger), Louis Armstrong, David Hurst, Fritz Feld, Richard Collier, J. Pat O'Malley, David Ahdar, Will Ahern, Melanie Alexander, Ben Archibek, John Arnold, Roger Arroyo, Robert Bakanic, etc. Duração: 146 minutos; Classificação etária: M/ 6 anos; Distribuição em Portugal (DVD): Twentieth Century Fox; Data de estreia em Portugal: 16 de Dezembro de 1969.


BARBRA STREISAND (1942 - )
Ela não é apenas uma actriz conceituada, uma cantora de sucesso, mas igualmente uma produtora que sabe conduzir os negócios e uma realizadora que consegue transformar em êxitos os títulos que assina. É uma entertainer completa, canta, dança, representa, sabe lançar uma graça quando é necessário e justificar uma lágrima. Para ela, o espectáculo não tem segredos, como soe dizer-se. Barbara Joan Streisand nasceu a 24 de Abril de 1942, em Williamsburg, Brooklyn, Nova Iorque, EUA. Os pais foram Diana, uma cantora que se tornou secretária de escola, e Emanuel Streisand, descendente de judeus polacos, professor do ensino secundário. Ela estudou na Beis Yakov Jewish School em Brooklyn. Cresceu a sonhar ser actriz. Conseguiu-o e de que maneira. Começou a carreira como cantora de um nightclub off-Broadway em Nova Iorque, e estreou-se no teatro musical da Broadway em 1962, em "I Can Get It For You Wholesale", logrando logo uma nomeação para o Tony Award para Best Supporting Actress: No ano seguinte, o sucesso continuou com o primeiro álbum lançado pela Columbia Records, "The Barbara Streisand Album", que ganhou vários Grammy, incluindo "Best Album of the Year".
Ainda na Broadway, em 1964, volta a ver explodir o seu talento na composição de Fanny Brice em "Funny Girl". Quando chegou ao cinema, era uma vedeta e sua versão de “Funny Girl: Uma Rapariga Endiabrada (1968), dirigida pelo mestre William Wyler, transformou-a numa "superstar', a que se seguem outros triunfos como “Hello Dolly” (1969),“Melinda” (1970), “O Mocho e a Gatinha” (1970) ou “Que Se Passa Doutor?” (1972). Aparece no melodrama sentimental “O Nosso Amor de Ontem” (1973), de Sydney Pollack ao lado de Robert Redford, onde muitos críticos consideram que deu a sua melhor interpretação de sempre. A canção "The Way We Were" escrita para esse filme e cantada por ela tornou-se um tema memorável.
Não satisfeita com o seu trabalho como actriz, e produtora, lançou-se igualmente na realização. “Yentl” (1983), que recebeu várias nomeações para os Oscars, ganhando dois. Mas Barbara ficou sem nenhuma estatueta, o que provocou a ira dos admiradores. Voltaria com “O Príncipe das Marés” (1991), novas sete nomeações, mas a recompensa como Melhor Realização seria dada pela Directors Guild of America. A sua terceira realização seria “As Duas Faces do Espelho” (1996), um novo melodrama que voltou a emocionar as plateias. Casada com Elliott Gould (1963 - 1971), de quem tem um filho, Jason Gould, e com James Brolin (1998 - presente). Pelo meio, alguns romances que fizeram a ligação entre os dois casamentos. Democrata, não enjeita acções de cariz social e político. Foi uma apoiante de Al Gore à presidência dos EUA. É a única personalidade mundial, no universo do showbusiness que recebeu Oscar, Tony, Emmy, Grammy, Golden Globe, Cable Ace, National Endowment for the Arts, e prémio Peabody, além do American Film Institutes Lifetime Achievement Honor e o Chaplin Award, do Film Society of Lincoln Center.


Filmografia
Como Actriz: 1968: Funny Girl (Funny Girl: Uma Rapariga Endiabrada), de William Wyler; 1969: Hello, Dolly ! (Hello, Dolly !), de Gene Kelly; 1970: On a Clear Day You Can See Forever (Melinda), de Vincente Minnelli; The Owl and the Pussycat (O Mocho e a Gatinha), de Herbert Ross; 1972: Up the Sandbox (A Mulher das Mil Caras), de Irvin Kershner; What's Up, Doc? (Que Se Passa Doutor?), de Peter Bogdanovich; 1973: The Way We Were (O Nosso Amor de Ontem), de Sydney Pollack; 1974: For Pete's Sake (A Minha Mulher é Doida!), de Peter Yates; 1975: Funny Lady (Funny Lady), de Herbert Ross; 1976: A Star is Born (Nasce Uma Estrela), de Frank Pierson; 1979: The Main Event (Treinador de Saias), de Howard Zieff; 1981: All Night Long (Até de Madrugada), de Jean-Claude Tramont; 1983: Yentl (Yentl), de Barbra Streisand; 1984: Sunday Night Live (TV); 1986: Directed by William Wyler (documentário); 1987: Nuts (Louca), de Martin Ritt; 1990: Listen Up: The Lives of Quincy Jones (documentário); 1991: Prince of the Tides (O Príncipe das Marés), de Barbra Streisand; 1996: The Mirror has Two Faces (As Duas Faces do Espelho), de Barbara Streisand; 2004: Meet the Fockers (Uns Compadres do Pior), de Jay Roach; 2010: Little Fockers (Não Há Família Pior!) de Paul Weitz; 2012: The Guilt Trip (Não Há Culpa Nem Desculpa!), de Anne Fletcher

Como realizadora: 1983: Yentl; 1991: O Príncipe das Marés; 1995: Barbara: The Concert (TV (documentário); 1996: As Duas Faces do Espelho; 2001: Timeless: Live in Concert (TV, documentário); 2009: Streisand: Live in Concert (TV (documentário); 2017: Barbara Streisand (em projecto).