sábado, 12 de setembro de 2015

13 DE OUTUBRO DE 2015


ATLANTIC CITY (1979)

Louis Malle, cineasta francês que aparece inscrito no movimento da “nouvelle vague”, em fins da década de 50, inícios da seguinte, com filmes como “Ascenseur pour l'Echafaud” (57), “Os Amantes” (58), “Zazie dans le Metro” (60) “Vida Privada” (61), “Le Feu Follet” (63), confirmando-se depois com uma produção um pouco mais “internacionalizada” com “Viva Maria” (65), “O Ladrão” (66), um episódio de “Histórias Extraordinárias” (67) e outras mais pessoais, como “Calcutta” (68), “Le Soufle au Coeur” (70) ou “Lacombe Lucien” (75), emigra para os Estados Unidos onde dirige “Black Moon” 'e “Pretty Baby”, este em 1977, prometendo adoptar Hollywood como segunda pátria. Isso mesmo parece ser confirmado com “Atlantic City”, rodado em 1979, e que alcançaria o “Leão de Ouro”, do Festival de Veneza de 1980. Digamos que enquanto “Pretty Baby” era um filme europeu rodado na América, este “Atlantic City” já se aproxima muito do que se pode considerar “um filme americano realizado por um europeu”, o que não é bem a mesma coisa.    
Na verdade, Atlantic City é um filme sobre uma realidade americana, mais precisamente uma cidade em transformação, com pessoas e situações americanas, filmadas de uma forma americana. O argumento é de John Guare, e este facto terá tido a sua importância, mas no essencial foi o cinema de Louís Malle, que se adaptou a um estilo directo e linear, ao ambiente de “filme negro” e a um certo tipo de personagens que trazem uma carga simbólica que só pode entender-se inteiramente quando referenciadas à América.


O filme chama-se “Atlantic City” e cremos que a cidade é a protagonista desta história de amor e morte. Atlantic City tem uma história curiosa, que é conveniente conhecer um pouco para se compreender melhor a película de Malle. Durante os anos 20-30, foi uma estância balnear florescente, réplica americana da Côte D'Azur francesa. Mas começou igualmente por ser uma cidade conhecida, em inícios do século XX, como uma das bases do “gangsterismo” e da Mafia na Costa-Este, progredindo em associação com a venda ilegal de bebidas alcoólicas, durante o período da sua proibição. A depressão de 1929 causou um profundo abalo na sua estrutura social e grande parte da sua celebridade apagou-se com o rolar dos tempos, até fazer dela uma cidade-fantasma. Nos anos 60, a desolação era total e tudo caminhava para a ruína irremediável. A cidade deixou a humidade do Atlântico corroer-lhe as fachadas dos prédios, minar-lhe os alicerces e as suas avenidas de madeira começaram a escorregar para o esquecimento, por troca com outras cidades, então mais na moda.
Em 1978, porém, o estado de New Jersey legalizou o jogo e estabeleceu-o em Atlantic City, que ficava assim a ocupar na Costa-Este o lugar de Las Vegas na Costa-Oeste. O progresso económico, ou “uma certa forma” de progresso económico, voltaria à cidade, que renascia das cinzas, abatendo impiedosamente os velhos edifícios, símbolos de um passado que se queria enterrado e esquecido, enquanto sobre os escombros, se erguiam novas construções, modernas e arrojadas, que iriam voltar-se essencialmente para “o pequeno e o grande”, o “vermelho e o preto”, “as dúzias” e “os plenos”. Da Europa chegam os mestres croupiers, que ensinam a “arte” aos neófitos (veja-se a figura interpretada por Michel Picolli), enquanto pelos decadentes apartamentos do passado, aguardando ordem de despejo, sobrevivem velhas personagens de uma época de ouro irreversivelmente ultrapassada. É o caso de Lou (Burt Lancaster), pobre diabo envelhecido e deixado à deriva numa cidade que lhe é cada vez mais estranha, onde vive de biscates, de jogo clandestino e dos pequenos favores de uma viúva entrevada, que lhe vai pagando como pode os passeios higiénicos do seu carrocha de estimação.
O jogo foi legalizado neste ponto de New Jersey, a duas centenas de quilómetros de Nova Iorque e, com a abertura de novos e sofisticados casinos, a cidade readquiriu o movimento perdido. As velhas estruturas de um passado requintado são ainda visíveis hoje em dia por quem percorrer as suas ruas e atentar na bela arquitectura “art nouveau” que, pouco a pouco, vai sendo demolida, dando lugar a enormes blocos com as insígnias do “Play Boy”, do “Caesar Palace” ou do “Resorts”. O filme de Louis Mallle capta de tal forma essa mutação nostálgica e dramática, que nos obrigou a um desvio de duas horas e meia, de Nova Iorque a Atlantic City, numa viagem num mítico “Greyhound” que nos deixou à porta do Resorts International, só para percorrer o caminho que diariamente Burt Lancaster fizera, levando pela trela o cão de Grace. A viagem justificava-se, em grande parte, pela empatia que as imagens do filme provocavam e que demonstram como se pode instigar o desejo de pertencer a algo, dele falando. Porque “Atlantic City”, para lá de ser um filme sobre a velhice e a morte de uma cidade e de um homem, é também um filme sobre a juventude que procura um rumo e o encontra entre esses dois universos. A uma mesa de jogo. Cenário de um desejo que se transforma já em obsessão, em risco, em aposta total.


Como não podia deixar de ser, atrás dos casinos regressou a Mafia e os seus interesses, segundo regras de um jogo mais sofisticado. O lucro agora chama-se droga e nas velhas veias rejuvenescidas desta cidade ela irá desempenhar um papel relevante. Um velho “gangster” falhado será apanhado pela teia cerzida pelo dinheiro fácil da droga e, no turbilhão de uma história de amor impossível, que o faz acreditar de novo em si, acabará por cumprir na realidade o sonho que de si fizera: como herói de saga antiga tombará para sempre, nostálgico de tempos que não soube viver e desadaptado de outros, onde se não soube integrar. Um painel turístico anuncia a realidade, que tem de passar pela morte dos velhos tempos: “Atlantic City is coming back to life again. Now” (Atlantic City volta de novo à vida. Agora). É evidente que um tal tema nas mãos de Altman ou Pollack, para só nomear dois americanos que por vezes se recordam enquanto se assiste à projecção desta obra, fariam deste argumento um filme um pouco mais sugestivo. Cremos que sim. Alguns aspectos são algo esquemáticos, como por exemplo o casal de traficantes de droga que surge na cidade. Mas Louis Malle aproxima-se bastante do tom exacto e da emoção precisa em muitas sequências, e conta mesmo com uma cena de antologia: a confissão do velho Lou (já lhe ouvimos chamar “O Leopardo” de Atlantic City, e há alguma verdade na comparação) que recorda a Sally (Susan Sarandon) a forma como a espreitava pela janela e a via lavando os braços, os ombros e os seios, com sumo de um limão cortado, espremido, ao som de uma área de ópera. Voyeurismo senil, podem acusar. Melhor será pensar num desejo adormecido que a presença de Sally desperta. Estas são as amargas lágrimas de uma paixão impossível, de um desejo apenas realizável à distancia. Burt Lancaster e Susan Sarandon são aqui admiráveis e Louis Malle acrescenta um ponto precioso à sua filmografia.
Cremos que esta dolorosa confissão de amor e impotência valeria a deslocação, se algo mais não existisse. Mas existe, apesar de tudo. “Atlantic City” é um belíssimo filme, uma bela meditação sobre o crepúsculo de uma vida (de várias vidas), sobre a transformação de uma sociedade, sobre o renascer de uma cidade que “volta a estar no mapa”, depois de um longo período de lenta decadência. O que nos parece mesmo mais logrado nesta obra é precisamente esse interligar das histórias individuais com o destino de uma cidade.

ATLANTIC CITY, U.S.A.
Título original: Atlantic City
Realização: Louis Malle (EUA, 1980); Argumento: John Guare; Produção: Joseph Beaubien, Gabriel Boustiani, Denis Héroux, Justine Héroux, John Kemeny, Larry Nesis, Jean-Serge Breton; Música: Michel Legrand; Fotografia (cor): Richard Ciupka; Montagem: Suzanne Baron; Design de produção: Anne Pritchard; Decoração: Gretchen Rau; Guarda-roupa: François Barbeau; Maquilhagem: Donna Gliddon, Rita Ogden; Casting: Venetia Rickerby; Direcção de Produção: Micheline Garant, Ken Golden, Justine Héroux, Carl Zucker; Assistentes de realização: John Board, Jim Chory, John Desormeaux, Robert McCart, Patrick Burns; Departamento de arte: Jacques Chamberland, Charles Cirigliano, Wendell Dennis, Marcel Desrochers, Csaba András Kertész, Edward L. McMillan, Joe Petruccio Jr., Gretchen Rau, Raymond M. Samitz, Marie-Claude Tetrault; SoM: Jean-Claude Laureux, Jacques Maumont, Gilles Ortion; Companhias de produção: International Cinema Corporation (ICC), Selta Films, Canadian Film Development Corporation (CFDC), Cine-Neighbor, Selta Films, Famous Players Limited; Intérpretes: Burt Lancaster (Lou), Susan Sarandon (Sally), Kate Reid (Grace), Michel Piccoli (Joseph), Hollis McLaren (Chrissie), Robert Joy (Dave), Al Waxman (Alfie), Robert Goulet (Cantor); Moses Znaimer (Felix), Angus (Vinnie), Sean Sullivan (Buddy), Wallace Shawn, Harvey Atkin, Norma Dell'Agnese, Louis Del Grande, John McCurry, Eleanor Beecroft, Cec Linder, Sean McCann, Vincent Glorioso, Adèle Chatfield- Taylor, Tony Angelo, Sis Clark, Gennaro Consalvo, Lawrence McGuire, Ann Burns, Marie Burns, Jean Burns, Connie Collins, John Allmond, John J. Burns, Elias Koteas, etc. Duração: 104 minutos; Distribuição em Portugal inexistente; Cópia DVD: Spectra Nova (Brasil); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 5 de Novembro de 1981.


SUSAN SARANDON (1946 - )
Susan Sarandon é uma das actrizes norte americanas mais premiadas em todo o mundo. Na verdade, numa filmografia com mais de uma centena e meia de títulos, dispersos entre cinema e televisão, Susan consegue manter um nível de qualidade assinalável, escolhendo com critério os projectos em que embarca, muitos dos quais assinados seguramente por amigos e pertencentes, todos eles, a um pequeno círculo de personalidades ligadas ao cinema mais independente. Não quer dizer que Susan Sarandon não tenha entrado em obras abertamente comerciais e mais industrializadas, mas o seu pendor é objectivamente trabalhar com cineastas menos ligados às estruturas dos grandes estúdios, ou se o estão, senhores de um perfil que lhes permita uma certa autonomia. Susan Abigail Tomalin é o seu nome de baptismo. Nasceu em Nova Iorque a 4 de Outubro de 1946, completando presentemente 68 anos. Casada com Chris Sarandon (1968–1979) e depois com Tim Robbins (1988-2010). Foi Oscar da Academia em 1996, com “Dead Man Walking”, e obteve mais quatro nomeações, por “Atlantic City” (1980), “Thelma & Louise” (1991), “Lorenzo's Oil” (1992) e “The Client“ (1994). Oito vezes nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Actriz e só o IMDB cobre 55 prémios e mais 49 nomeações. Susan é filha de Phillip Leslie Tomalin, de ascendência irlandesa, inglesa e galesa, e de Lenora Marie Criscione, italiana da Sicília. Cresceu no interior de família católica com nove filhos. Formou-se em 1964, na Edison High School e estudou na Universidade Católica da América, em Washington DC (Artes). Foi na faculdade que conheceu Chris Sarandon, com quem se casou em setembro de 1967. Divorciaram-se em 1979, mas Susan continuou a usar o apelido. Em meados dos anos 80, manteve uma relação com o realizador italiano Franco Amurri, com quem teve uma filha, a actriz Eva Amurri, e conhecem-se ainda histórias amorosas com o actor Sean Penn e o realizador Louis Malle (com quem trabalhou em “Pretty Baby” e “Atlantic City”), além do cantor David Bowie, com quem contracenou em “The Hunger”. Desde 1988, Sarandon vive com o actor Tim Robbins, que conheceu nas filmagens de “Bull Durham”. O casal teve dois filhos: Jack Henry e Miles Guthrie. Já separados, tanto ela quanto Robbins eram personalidades ligadas a movimentos sociais e políticos. No dia 23 de Dezembro de 2009, o casal anunciou sua separação, publicada pela revista “People”.

Filmografia
Como actriz / Cinema: 1970: Joe (Joe), de John G. Avildsen; 1971: La Mortadella (Mortadela), de Mario Monicelli; Fleur bleue ou The Apprentice de Larry Kent; 1974: Lovin' Molly (Os Amores de Molly), de Sidney Lumet; The Front Page (Primeira Página), de Billy Wilder; 1975: The Great Waldo Pepper (O Grande Circo), de George Roy Hill; The Rocky Horror Picture Show (Festival Rocky de Terror) de Jim Sharman; 1976: Dragonfly (Dragonfly), de Gilbert Cates; 1977: Chechered Flag or Crash (Loucos Sobre Rodas), de Alan Gibson; 1977: The Other Side of Midnight (O Outro Lado da Meia-Noite), de Charles Jarrott; The Last of the Cowboys, de John Leone; 1978: Pretty Baby (Menina Bonita), de Louis Malle; King of the Gypsies (O Herdeiro), de Frank Pierson; 1979: Something Short of Paradise (Uma Página de Amor), de David Helpern; 1980: Atlantic City (Atlantic City), de Louis Malle; Loving Couples (Amigos e Amantes), de Jack Smight; 1982: Tempest (Tempestade), de Paul Mazursky; 1983: The Hunger (Fome de Viver), de Tony Scott; 1984: The Buddy System, de Glenn Jordan; 1985: Compromising Positions, de Frank Perry; 1987: The Witches of Eastwick (As Bruxas de Eastwick), de George Miller; 1988: Bull Durham (Jogo a Três Mãos), de Ron Shelton; Sweet Hearts Dance (Corações em Jogo), de Robert Greenwald; 1989: A Dry White Season (Assassinato Sob Custódia), de Euzhan Palcy; January Man (Agarrem Este Detective), de Pat O'Connor; 1990: White Palace (Loucos de Paixão), de Luis Mandoki; 1991: Thelma & Louise (Thelma e Louise), de Ridley Scott; 1992: Bob Roberts (Bob Roberts - Candidato ao Poder), de Tim Robbins; The Player (O Jogador), de Robert Altman; Lorenzo's Oil (Acto de Amor) de George Miller; Light Sleeper (Perigo Incerto), de Paul Schrader; 1994: The Client (O Cliente) de Joel Schumacher; Little Women (As Mulherzinhas), de Gillian Armstrong; Safe Passage (Diário de uma Morte Anunciada), de Robert Allan Ackerman; 1995: Dead Man Walking (A Última Caminhada), de Tim Robbins; 1996: The Celluloid Closet de Robert Epstein; James and the Giant Peach (James e o Pêssego Gigante Spider), de Henry Selick (voz); 1998: Twilight (A Hora Mágica) de Robert Benton; Stepmom (Lado a Lado) de Chris Columbus; Illuminata (Illuminata), de John Turturro; 1999: Cradle Will Rock (América - Anos 30), de Tim Robbins; Anywhere But Here (A Minha Mãe, Eu e a Minha Mãe), de Wayne Wang; Our Friend, Martin (Video); 2000: Joe Gould's Secret, de Stanley Tucci; Rugrats in Paris: The Movie - Rugrats II, de Stig Bergqvist (voz); 2001: Cats & Dogs (Como Cães E Gatos), de Lawrence Guterman (voz); Last Party 2000, de Rebecca Chaiklin, Donovan Leitch Jr. (documentário); 2002: Moonlight Mile (Sonhos Desfeitos), de Brad Silberling; The Banger Sisters (As Manas Rock), de Bob Dolman; 2002: Igby Goes Down (A Estranha Vida de Igby), de Burr Steers; Little Miss Spider (Curta-metragem, Narradora); 2004: Jiminy Glick in Lalawood, de Vadim Jean; Noel (Um Milagre de Natal), de Chazz Palminteri; Alfie (Alfie), de Charles Shyer; Shall We Dance? (Vamos Dançar?), de Peter Chelsom; 2005: Elizabethtown (Elizabethtown), de Cameron Crowe; Sonnet 22 (Curta-metragem, Narradora); 2005: Romance & Cigarettes (Romance & Cigarros), de John Turturro; 2006: Irresistible (Irresistível), de Ann Turner; Bernard and Doris, de Bob Balaban; 2007: Mr. Woodcock (Um Padrasto para Esquecer!), de Craig Gillespie; Emotional Arithmetic (Aritmética Emocional), de Paolo Barzman; Enchanted (Uma História de Encantar), de Kevin Lima; In the Valley of Elah (No Vale de Elah), de Paul Haggis; 2008: Speed Racer, de Andy e Lana Wachowski; Middle of Nowhere (Um Amor de Verão), de John Stockwell; 2009: The Greatest (Sem Ti), de Shana Feste; Leaves of Grass, de Tim Blake Nelson; Solitary Man (Eterno Solteirão), de Brian Koppelman e David Levien; The Lovely Bones (Visto do Céu), de Peter Jackson; One Million Strong (Curta-metragem) (voz); 2010: Peacock, de Michael Lander; Wall Street: Money Never Sleeps (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme), de Oliver Stone; La Mama: An American Nun's Life in a Mexican Prison (Vídeo, curta-metragem, narradora); 2011: Jeff Who Lives at Home (Jeff - O Solteirão), de Jay Duplass e Mark Duplass; Fight for Your Right Revisited (Curta-metragem); 2012: Arbitrage (Arbitrage - A Fraude), de Nicholas Jarecki; That's My Boy (Pai Infernal), de Sean Anders; Robô & Frank, de Jake Schreier; Cloud Atlas (Cloud Atlas), de Tom Tykwer e Andy e Lana Wachowski; The Company You Keep (Regra de Silêncio), de Robert Redford; 2013: The Big Wedding (O Grande Dia), de Justin Zackham; Snitch (Snitch - Infiltrado), de Ric Roman Waugh; Irwin and Fran, de Jordan Stone; Ping Pong Summer, de Michael Tully; The Last of Robin Hood, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland; Hell and Back de Tom Gianas e Ross Shuman; (voz); 2014: Tammy, de Ben Falcone;2014: The Calling (Perseguição Perigosa), de Jason Stone; 2015 Kid Witness, de Kevin Kaufman; Hell & Back, de Tom Gianas, Ross Shuman; Three Generations, de Gaby Dellal; Slipping Away (Curta-metragem);2016: The Death and Life of John F. Donovan, de Xavier Dolan; Mothers Day, de Paul

Televisão: 1951: Search for Tomorrow; 1970: A World Apa; 1971 Owen Marshall, Counselor at Law; 1972: Search for Tomorrow;1972-1974 Great Performances; 1973-1974 The Wide World of Mystery; 1973 Calucci's Department; The Satan Murders; F. Scott Fitzgerald and 'The Last of the Belles'; June Moon; The Rimers of Eldritch; The Whirlwind; 1982: Who Am I This Time; American Playhous; Faerie Tale Theatre; 1984: Oxbridge Blues; 1985: A.D.: Livilla; 1985: Mussolini and I; 1986: Women of Valor (Mulheres de Coragem); 1994: School of the Americas Assassins (Curta-metragem) Narrador; All-Star 25th Birthday: Stars and Street Forever!; 1995: Os Simpsons; 1997: The Need to Know, Narrador; 1998: For Love of Julian, Narrador; 1999 Goodnight Moon & Other Sleepytime Tales; Earthly Possessions) de James Lapine; 2000: Friends; 2001: Malcolm (A Vida é Injusta); 2003: Ice Bound: A Woman's Survival at the South Pole; Freedom: A History of Us; Children of Dune; 2005: The Exonerated; 2006: Rescue Me; 2007: Bernard and Doris; 2009: Serviço de Urgência (ER); 2009-2011 Saturday Night Live; 2010: You Don't Know Jack, de Barry Levinson; 2011: 30 Rock; The Miraculous Year; 2012: The Big C; 2013: Mike and I; Doll & Em; 2015: The Secret Life of Marilyn Monroe; 2016: Graves. 

6 DE OUTUBRO DE 2015


TESS (1979)

“Tess of the d'Ubervilles”, escrito em 1891, é um dos mais conhecidos romances de Thomas Hardy, poeta e romancista inglês (1840-1928), nascido em Higher Bockhampton, Dorset, e falecido em Max Gate, Dorchester. Thomas Hardy, oriundo de uma família de classe média rural (o pai era construtor civil e viveram sempre no campo), assinou um conjunto de obras que se destacam no panorama da literatura inglesa dos séculos XIX e XX, como “Longe da Multidão” Estulta (1874), “O Prefeito de Casterbridge: A Vida e a Morte de um Homem de Carácter” (1886), “The Woodlanders” (1887), “Wessex Tales” (1888), o já referido “Tess of the d'Ubervilles” (1891), “Judas, O Obscuro” (1895) ou a antologia de poemas “Wessex Poems and other Verses” (1898). Os estudiosos da sua obra, quando a ele se referem, salientam “o pessimismo radical que caracteriza os seus romances”. De certa forma combatente contra uma tradição romântica, Hardy procurou uma escrita de tonalidades realistas, onde o retrato psicológico de personagens, sobretudo femininas, e de situações sociais muito definidas mostrasse bem a repressão social e sexual de uma sociedade injusta e preconceituosa como era aquela em que vivia e de que deu testemunho. Foi por isso considerado o "último dos grandes vitorianos".
Muitos dos seus romances e contos têm sido adaptados ao cinema e à televisão, com particular destaque para “Tess”, com versões desde 1913, “Longe da Multidão” (a primeira adaptação data de 1915) ou “The Mayor of Casterbridge” (1921). Mas as obras mais importantes retiradas de livros seus terão sido "Far from the Madding Crowd”, na versão de 1968, realizada por John Schlesinger, com Julie Christie, Peter Finch e Alan Bates, e a de 2015, dirigida por Thomas Vinterberg, com Carey Mulligan, Matthias Schoenaerts e Michael Sheen; “Jude”, de Michael Winterbottom, com Christopher Eccleston, Kate Winslet e Liam Cunningham; e “Tess”, de Roman Polanski, rodado em 1979, interpretado por Nastassja Kinski, Peter Firth e Leigh Lawson, com argumento escrito pelo próprio Polanski, de colaboração com Gérard Brach, seu cúmplice de sempre, e John Brownjohn.
Este era um projecto antigo do realizador franco-polaco, que já acalentava o desejo de levar Thomas Hardy ao ecrã quando ainda vivia na América, casado com Sharon Tate. Por isso esta obra de 1979 é dedicada a Sharon. Polanski nasceu em Paris, mas aos 3 anos de idade viajou para a Polónia, onde, em 1939, viu a família ser apanhada pelos nazis e posteriormente levada para campos de concentração, com sorte diferente: a mãe foi assassinada, o pai sobreviveu. Ele viveu como vagabundo, escondido em aldeias e florestas, até que, no final da guerra, ingressou no cinema, primeiro como actor, depois como realizador de curtas-metragens e da longa “A Faca na Água”, com que se torna notado internacionalmente. Viajou pela Europa, rodou “Repulsa” e “Cul-De-Sac - O Beco”, entre 1965 e 1966, em Inglaterra. Com “Por Favor Não Me Mordam o Pescoço” ligou a Inglaterra aos EUA, onde se instalou a partir de 1968, rodando inicialmente o perturbante “A Semente do Diabo”. Por essa altura, era casado com Sharon Tate, assassinada barbaramente pelo gang Mason, em 1969. Em 1974, filma um dos seus filmes mais carismáticos, o policial “Chinatown”, mas, acusado de ter violado uma jovem, foge dos EUA e da ordem de prisão, refugiando-se na Europa, onde prossegue uma carreira internacional. “O Inquilino”, “Tess”,”Piratas”, “Frenético”, “Lua de Mel, Lua de Fel” ou “A Noite da Vingança” são títulos deste período que culmina com outro grande sucesso seu, “O Pianista”, obra bastante autobiográfica, que recorda os seus tempos de criança no gueto de Varsóvia. Seguem-se “Oliver Twist”, “O Escritor Fantasma”, “O Deus da Carnificina” e “Vénus de Vison”, o que demonstra bem o pendor literário deste cineasta. Pendor literário que se manifesta abertamente em “Tess”, cuja história e retrato social se aproxima muito de “Oliver Twist” e do universo de Charles Dickens, ainda que este último tenha vivido apenas em pleno século XIX (ao contrário de Thomas Hardy, que abrangeu as três décadas iniciais do século XX).


“Tess” passa-se numa região fictícia criada por Thomas Hardy, o Wessex, e que está presente em várias obras suas. Mas estamos na Inglaterra rural do século XIX, e tudo aponta que a região seja a de Dorset, onde o escritor nasceu. Acontece que Polanski teve dificuldades em filmar nesse cenário natural, pois as transformações que se produziram entre o fim do século XIX e a actualidade foram radicais. Por isso, com o diretor artístico Pierre Guffroy, Polanski reconstituiu as paisagens britânicas nas regiões francesas da Bretanha e Normandia, onde encontraram explorações agrícolas que se assemelhavam em muito às inglesas de então. Importaram terra de Dorset para cobrir as estradas, transplantaram árvores e arbustos para reproduzir fielmente a paisagem requerida. Mesmo os actores passaram semanas a aprender ofícios ligados à lavoura e à agricultura, para melhor se identificarem com os personagens. Depois de muitos meses de preparação, as filmagens duraram mais oito meses, para desta forma se conseguir restituir o ritmo das estações do ano.
Tess (Nastassja Kinski), uma jovem camponesa de rara beleza e elegância, descendente de uma enorme e pobre família rústica, os Durbeyfields, com um pai dado à bebida, descobre que afinal fazem parte de uma abastada família vizinha, os d'Urberville. Procurando tirar partido dessa associação, e fazendo-se valer da beleza e do discreto fascínio de Tess, esta é enviada a casa de um primo, Alec d'Urberville (Leigh Lawson), que se prende de amores por ela, a seduz e viola. Alec nem é afinal nenhum d'Urberville de gema, apenas teria comprado o título, mas a verdade é que a intriga se entrelaça em situações de miséria moral e material, acabando Tess por atravessar um calvário bem próprio da condição da mulher neste final de seculo XIX. Hoje custa a acreditar nesta história, mas muitas são as fontes que corroboram tais situações de extrema dependência e preconceito.
O filme é de uma beleza invulgar, jogando com cenários naturais verdadeiramente sufocantes, restituídos através de uma fotografia admirável de Ghislain Cloquet (falecido durante a rodagem) e Geoffrey Unsworth. A interpretação de Nastassja Kinski é magnífica, numa mistura de tenacidade e ingenuidade, de voluntarismo e de luta contra a adversidade. Mas, a seu lado, Peter Firth (Angel Clare), Leigh Lawson (Alec d'Urberville), John Collin (John Durbeyfield),  Rosemary Martin, Carolyn Pickles, Richard Pearson, David Markham, Pascale de Boysson, e restante elenco são notáveis.
O sucesso de “Tess” a nível internacional foi grande. Nos Oscars, congregou seis nomeações, vencendo em três categorias (melhor direção artística, melhor fotografia e melhor guarda-roupa), e ficando sem estatueta nas categorias de melhor filme, melhor realizador e melhor partitura musical original. Nos BAFTAS, ganhou a melhor fotografia (fora ainda nomeado para melhor direção artística e melhor guarda-roupa) e nos Cesars foi considerado melhor filme, melhor realizador e melhor fotografia. Tendo ainda sido nomeado para melhor atriz, melhor design de produção e melhor partitura musical. Venceu ainda os Globos de Ouro como melhor filme em língua não inglesa e nova estrela do ano em cinema (Nastassja Kinski). Foi ainda nomeado para melhor realizador (cinema) e melhor atriz de cinema (drama), Nastassja Kinski.


TESS
Título original: Tess
Realização: Roman Polanski (França, Inglaterra, 1979); Argumento: Gérard Brach, Roman Polanski, John Brownjohn, segund romance de Thomas Hardy ("Tess of the d'Urbervilles"); Produção: Claude Berri, Timothy Burrill, Pierre Grunstein, Jean-Pierre Rassam; Música: Philippe Sarde; Fotografia (cor): Ghislain Cloquet, Geoffrey Unsworth; Montagem: Alastair McIntyre, Tom Priestley; Casting: Mary Selway; Design de produção: Pierre Guffroy; Direcção artística: Jack Stephens;Guarda-roupa: Anthony Powell;Maquilhagem: Alain Bernard, Didier Lavergne, Paul Le Marinel, Ludovic Paris; Direcção de Produção: Alain Depardieu, Paul Maigret,Tadek Zietara; Assistentes de realização: Hercules Bellville, Thierry Chabert, Romain Goupil, Hugues de Laugardière; Departamento de arte: Marcel Laude, Pierre Lefait, Jean-Claude Sévenet; Som: Hervé de Luze, Maurice Gilbert, Louis Gimel, Peter Horrocks, Jean-Pierre Lelong, Jean Nény, Alex Pront, Robert Rietty, Jean-Pierre Ruh, David Watts; Efeitos visuais: Frederic Moreau; Companhias de produção: Renn Productions, Timothy Burrill Productions, Société Française de Production (SFP); Intérpretes: Nastassja Kinski (Tess), John Collin (John Durbeyfield), Tony Church (Parson Tringham), Brigid Erin Bates (rapariga), Jeanne Biras (rapariga), Peter Firth (Angel Clare), John (Felix Clare), Tom Chadbon (Cuthbert Clare), Rosemary Martin (Mrs. Durbeyfield), Geraldine Arzul, Stephanie Treille, Elodie Warnod, Ben Reeks,Jack Stephens, Leigh Lawson (Alec d'Urberville), Lesley Dunlop, Maryline Even, Jean-Jacques Daubin, Sylvia Coleridge, Jacob Weizbluth, Peter Benson, Jacques Mathou, Véronique Alain, Richard Pearson, Fred Bryant, John Barrett, Anne Tirard, Carolyn Pickles, Suzanna Hamilton, Caroline Embling, Josine Comellas, Arielle Dombasle, David Markham, Pascale de Boysson, Gordon Richardson, Patsy Smart, Dicken Ashworth, Jimmy Gardner, Reg Dent, John Gill, Forbes Collins, Keith Buckley, John Moore, Patsy Rowlands, Graham Weston, Lina Roxa, etc. Duração: 186 minutos; Distribuição em Portugal: LNK (DVD); Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 30 de Outubro de 1980. 
 

NASTASSJA KINSKI (1961 - )
Nastassja Aglaia Nakszynski nasceu a 24 de Janeiro de 1961, em Berlim, na RFA. (Mas existem fontes que dão como certo o ano de 1959 para o efeito). Filha do actor Klaus Kinski e de Ruth Brigitte Tocki. Infância problemática. Em 2013, a irmã de Nastassia, Pola, denunciou agressões sexuais praticadas pelo pai e a própria Nastassja declarou que ele também a tocava e a aterrorizava. Aos 14 anos, interpreta o seu primeiro filme, “Movimento em Falso”, de Wim Wenders, com quem voltaria a trabalhar, anos mais tarde, em “Paris, Texas” e “Tão Longe, Tão Perto”. Entretanto torna-se notada como modelo, estuda arte dramática em Londres e em Nova Iorque, no Actors Studio de Lee Strasberg, tendo como padrinho Roman Polanski, com quem ela havia tido uma relação. As fotos de Nastassja, tiradas por Polanski, e aparecidas na “Vogue” do Natal de 1976, provocaram grande sucesso. Ainda nos seus tempos de adolescente, em Berlim, chegou a passar alguns dias na prisão, por andar clandestinamente nos transportes públicos e ter-se recusado a fazer trabalho cívico num hospital. Entretanto, a sua carreira arranca de forma fulgurante em finais da década de 70, com um magnífico conjunto de títulos, a começar por “Tess”, de Roman Polanski (1979), “One from the Heart”, de Francis Ford Coppola (1982), “Cat People”, de Paul Schrader (1982), “Exposed”, de James Toback; “La Lune dans le caniveau”, de Jean-Jacques Beineix; “The Hotel New Hampshire, “Maria's Lovers”, de Andreï Kontchalovski, ou “Paris, Texas”, de Wim Wenders (1984). Por esta altura, Nastassja Kinski era uma grande vedeta internacional que muitos comparavam às mais míticas, Garbo ou Marlène, Ingrid Bergman ou Marilyn. Entretanto tem uma relação como o actor italiano, Vincent Spano, de que nasce um filho, Aljosha Kinski (1984). Casa-se nesse ano com o produtor Ibrahim Moussa que adopta a criança. Ambos terão um novo filho, em 1986, desta feita uma menina, Sonia Moussa. Após o divórcio, em 1992, uma ligação com Quincy Jones resulta noutra filha, Kenya, nascida em 1993. A sua carreira sofre um pouco com os sobressaltos da vida privada e igualmente com alguns insucessos. Vira-se mais para a Europa, em filmes menos interessantes, aparece mais na televisão, e ultimamente parece ter trocado a carreira de actriz pela de mãe, vivendo em Los Angeles, na Califórnia. Foi membro dos júris de Cannes (1988) e de San Sebastian (2014). É militante convicta da Cruz Vermelha Internacional, que apoia financeiramente e com acções mediáticas. Fala correntemente alemão, inglês, francês, italiano e russo.

Filmografia
Como Actriz / Cinema: 1975: Falsche Bewegung (Movimento em Falso), de Wim Wenders; 1976: To the Devil a Daughter (O Emissário do Diabo) de Peter Sykes; For Your Love Only, de Wolfgang Petersen; 1978: Leidenschaftliche Blümchen (Colégio de Jovens), de André Farwagi; Così come sei (Francesca, um Amor Impossível), de Alberto Lattuada; 1979: Tess (Tess), de Roman Polanski; 1982: One from the Heart (Do Fundo do Coração), de Francis Ford Coppola; Cat People (A Felina) de Paul Schrader; 1983: Frühlingssinfonie (Sinfonia da Primavera), de Peter Schamoni; Exposed (Revelação), de James Toback; La Lune dans le caniveau (A Lua na Valeta), de Jean-Jacques Beineix; 1984: Unfaithfully Yours (Infielmente Tua), de Howard Zieff; The Hotel New Hampshire (Hotel New Hampshire), de Tony Richardson; Paris, Texas (Paris, Texas), de Wim Wenders; Maria's Lovers (Os Amantes de Maria), de Andreï Kontchalovski; 1985: Revolution (Revolução), de Hugh Hudson; Harem (Harém), de Arthur Joffé; 1987: Maladie d'amour de Jacques Deray; 1989: Magdalene de Monica Teuber; Torrents of Spring, de Jerzy Skolimowski; 1989: In una notte di chiaro di luna (Morte Silenciosa) de Lina Wertmüller; 1990: L'Alba, de Francesco Maselli; Il Segreto, de Francesco Maselli; Il Sole anche di notte, de Paolo Taviani & Vittorio Taviani; 1991: Unizhennye i oskorblyonnye, de Andrei Eshpaj; 1992: In camera mia, de Luciano Martino; La Bionda, de Sergio Rubini; 1993: In weiter Ferne, so nah! (Tão Longe, Tão Perto), de Wim Wenders; 1994: Crackerjack (Rápido e Mortal), de Michael Mazo; Terminal Velocity (Velocidade Terminal), de Deran Sarafian; 1996: Somebody Is Waiting (Alguém Esperará por Ti), de Martin Donovan; 1997: Fathers' Day (O Dia dos Pais), de Ivan Reitman; Little Boy Blue (Um Rapaz, um Destino), de Antonio Tibaldi; One Night Stand (Cúmplice à Noite) de Mike Figgis; 1998: Ciro norte, de Erich Breuer (curta-metragem); Savior (Savior, Mercenário Americano), de Predrag Antonijevic; Your Friends & Neighbors (Amigos e Vizinhos), de Neil LaBute; Susan's Plan (P.F. Matem o meu marido), de John Landis; 1999: Playing by Heart (Entre Estranhos e Amantes), de Willard Carroll; The Lost Son, de Chris Menges; The Intruder, de David Bailey; 2000: The Magic of Marciano, de Tony Barbieri; 2000: Red Letters (Cartas Vermelhas), de Bradley Battersby; Time Share, de Sharon von Wietersheim; The Claim, de Michael Winterbottom; 2001: Cold Heart de Dennis Dimster; Town & Country (Sedução de Morte), de Peter Chelsom; An American Rhapsody (Uma Rapsódia Americana), de Éva Gárdos; Say Nothing (Não Digas Nada!), de Allan Moyle; Diary of a Sex Addict ou Le journal d'un obsédé sexuel (Diário de Um Viciado em Sexo), de Joseph Brutsman; 2001: Beyonds the City Limits) de Gigi Gaston; 2002: .com for Murder de Nico Mastorakis; 2003: Paradise Found, de Mario Andreacchio; 2004: À ton image (À Tua Imagem), de Aruna Villiers; 2006: Inland Empire (Inland Empire), de David Lynch; 2007: More Things That Happened (Vídeo); 2012: Il turno di notte lo fanno le stelle (curta-metragem); 2013: I Sugar, de Rotimi Rainwater;

Televisão: 1977: Tatort (Reifezeugnis); Notsignale; 1996: The Ring, de Armand Mastroiani; The Great War and the Shaping of the 20th Century; 1997: Les Bella Mafia; 1999: Brigade des mineurs; 2000: Quarantine; A Storm in Summer (Um Verão diferente), de Robert Wise; 2001: Washington Police; The District; Cold Heart; The Day the World Ended, de Terence Gross; Blind Terror, de Giles Walker; 2002: All Around the Town, de Paolo Barzman; 2003: Les Liaisons dangereuses, de Josée Dayan; 2004: La Femme Musketeer (A Filha do Mosqueteiro), de Steve Boyum. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

29 DE SETEMBRO DE 2015


A HISTÓRIA DE ADELE H. (1975)

"A História de Adéle H.", partindo de factos concretos e de personagens reais, nomeadamente a filha de Victor Hugo, recria uma história de "amor louco", que progride até à demência, desenvolvendo-a com a sensibilidade, o pudor e o doloroso olhar que a figura frágil e teimosa de Adele Hugo requeria, baseando-se, para tanto, numa biografia dessa mulher misteriosa e no seu diário íntimo. Os pontos de contacto com "O Menino Selvagem" do mesmo Truffaut são frequentes, não só ao nível da construção do próprio filme, que se estrutura sobre textos, como ainda no tratamento dado à figura central desta obra, que tem semelhanças indiscutíveis com "L'Entant Sauvage".
Trata-se, aliás, de dois filmes sobre personagens marginalizadas "a contre coeur", que tentam reentrar na sociedade, ainda que recusando as regras e os padrões da vida estipulados. Adéle H. persegue um amor impossível, o que ela não aceita e contraria por todas as formas ao seu alcance, num percurso de trágicas ressonâncias. Para Adéle H., o tenente Pinson funciona como ideal a atingir, como meta a alcançar. Para o conseguir, para "tocar" essa ideia que lentamente se vai fixando no seu espírito. Adéle mobiliza todo o seu ser, toda a sua vontade, todo o seu amor. O que torna esta "historia" uma aventura de limites dúbios, oscilando entre a história de amor, romântica e excessiva, e a loucura. Limites que continuamente se esbatem, reservando-se ao espectador a liberdade de uma interpretação, de um juízo que, todavia, se sabe precário e falível. O que faz o fascínio desta obra que escorrega voluptuosamente por entre os dedos, desafiando o público, propondo-lhe o conhecimento (sempre improvável) de um rosto de mulher que intransigentemente caminha para o abismo, que o reconhece e, todavia, prossegue.


De resto, "A História de Adéle H." é uma admirável viagem ao século XIX, reconstituindo com minúcia um tempo, uma ambiência, o colorido de uma época, o pulsar de uma geração, Para o que a fotografia de Nestor Almendros e a música de Maurice Jaubert se revelam auxiliares indispensáveis, bem assim como a presença absorvente de lsabelle Adjani, um olhar macerado e dorido, iluminado, porém, pela esperança nunca destruída. Um filme secreto, que nos restitui Truffaut num ponto alto da sua carreira.

A HISTÓRIA DE ADÈLE H.
Título original: L'histoire d'Adèle H.
Realização: François Truffaut (França, 1975); Argumento: François Truffaut, Jean Gruault, Suzanne Schiffman, Frances Vernor Guille, segundo “Diário”, de Adèle Hugo; Música: Maurice Jaubert, Patrice Mestral, Jacques Noureddine, François Porcile; Fotografia (cor): Néstor Almendros; Montagem: Martine Barraqué, Yann Dedet, Jean Gargonne, Michèle Neny, Muriel Zeleny; Design de produção: Jean-Pierre Kohut; Guarda-roupa: Jacqueline Guyot;  Maquilhagem: Chantal Durpoix, Thi-Loan Nguyen; Direcção de Produção: Marcel Berbert, Claude Miller, Patrick Millet, Roland Thénot; Assistentes de realização: Carl Hathwe, Suzanne Schiffman; Departamento de arte: Daniel Braunschweig; Som: Michel Laurent, Jacques Maumont, Jean-Pierre Ruh; Companhias de produção: Les Artistes Associés, Les Films du Carrosse, Les Productions Artistes Associés; Intérpretes: Isabelle Adjani (Adèle Hugo / Adèle Lewly), Bruce Robinson (Lt Albert Pinson), Sylvia Marriott (Mrs. Saunders), Joseph Blatchley (Mr. Whistler), Ivry Gitlis (Hipnotista), Louise Bourdet  (criada de Victor Hugo), Cecil De Sausmarez (Mr. Lenoir), Ruben Dorey (Mr. Saunders), Clive Gillingham (Keaton), Roger Martin  (Dr. Murdock), M. White (Coronel), Pierre Leursse, Geoffroy Crook, Chantal Durpoix, Raymond Falla, David Foote, Jacques Frejabue, Carl Hathwell, Edward J. Jackson, Aurelia Mansion, Thi-Loan Nguyen, François Truffaut (oficial), Ralph Williams, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: LNK / MGM; Classificação etária: M/ 12 anos.


ISABELLE ADJANI (1955 - )
Isabelle Adjani é seguramente uma das mais belas e talentosas actrizes francesas de sempre, e uma das mais premiadas. De uma beleza serena, mas de um temperamento tempestuoso, Adjani escolhe e é escolhida para papéis de personagens nevróticas, intensas, por vezes frágeis, por vezes perturbadas, misteriosas, sufocadas pelo peso das convenções da sociedade. Foi das actrizes francesas de mais rápida ascensão e de maior fulgor ao longo das décadas.
Isabelle Yasmine Adjani nasceu a 27 de Junho de 1955 em Paris, França, filha de Mohammed Chérif Adjani, argelino, e de Emma Augusta Schweinberger, alemã. Desde muito jovem se sentiu impelida a representar. Cresceu em Gennevilliers, estudou no colégio Paul-Lapie em Courbevoie depois no liceu Jean-Jaurès, em Reims. Aos 12 anos era actriz de teatro amador, aos 14 surge num primeiro filme, “Le Petit Bougnat”, de Bernard Toublanc-Michel. Aos 17, já a vamos encontrar na televisão francesa, mas o seu primeiro grande triunfo terá sido no teatro, no palco da Comédie Française, onde interpretou personagens criadas por Molière e Lorca. Em 1974, ganha reputação no cinema, com “La Gifle”, mas é no ano seguinte, ao interpretar o papel principal em “A História de Adele H”, de François Truffaut, onde revive a figura da filha do escritor Victor Hugo, que atinge a glória nacional e internacional. Recebeu a primeira nomeação para o Oscar de Hollywood (a segunda, anos mais tarde, seria para o seu magnífico trabalho em “Camille Claudel”). Os prémios sucedem-se: em 1981, Adjani recebe o prémio de melhor actriz do Festival de Cannes pela sua participação em “Quarteto”. No ano seguinte, recebeu o César por “Possessão”, em actuação considerada pelos críticos a melhor de sua carreira, senão a mais difícil, porque Adjani interpretava o papel de uma mulher frustrada que enlouquecia aos poucos. Em 1983, recebeu novamente o “César” por “Verão Assassino”. Em 1989, coproduziu e interpretou “Camille Claudel”, história romanceada da escultora que se relacionou com o escultor francês Auguste Rodin. O filme de Bruno Nuytten valeu-lhe um terceiro César e mais uma nomeação para o Oscar de melhor actriz, além de concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. No mesmo ano, a revista americana “People” incluiu-a entre as 50 mulheres mais bonitas do mundo. O quarto César vai surgir em 1994, com “Rainha Margot” e o quinto é-lhe atribuído em 2010, pelo filme “La Journée de la jupe”. Nunca nenhuma outra actriz conseguiu até hoje tal feito: cinco César e ainda outras nomeações. Foi considerada a melhor actriz no Festival de Cannes de 1981, e no Festival de Berlim de 1989. Ganhou o David di Donatello em 1975, o prémio do National Board of Review, de 1975 e ainda, no mesmo ano, o New York Film Critics Circle Awards. Ganhou, em 1983, o prémio de melhor actriz do Fantasporto. Adjani tem dois filhos, Barnabé, do seu casamento com Bruno Nuytten, e Gabriel-Kane, de uma tempestuosa relação com o actor britânico Daniel Day-Lewis. Teve ainda uma relação prolongada com o compositor Jean Michel Jarre.  


Filmografia
Como actriz: 1970: Le Petit Bougnat, de Bernard Toublanc-Michel; 1972: Faustine et le Bel Été (Desejo de Amar), de Nina Companéez; 1973: L'école des femmes (TV); 1974: Ariane ou Espace zéro, de Pierre-Jean de San Bartholomé; La Gifle, de Claude Pinoteau; Le secret des Flamands (TV); L'avare (TV); 1975: L'Histoire d'Adèle H. (A História de Adèle H.), de François Truffaut; Ondine (TV); 1976: Barocco (Escândalo de Primeira Página), de André Téchiné; Le Locataire (O Inquilino), de Roman Polanski; 1977: Violette et François (Violette & François), de Jacques Rouffio; 1978: Driver (O Profissional), de Walter Hill; 1979: Nosferatu, fantôme de la nuit (Nosferatu, o Fantasma da Noite), de Werner Herzog; Les Sœurs Brontë (As Irmãs Bronte), de André Téchiné; 1981: Clara et les Chics Types, de Jacques Monnet; Quartet (Os anos Loucos de Montparnasse), de James Ivory; Possession (Possessão), de Andrzej Zulawski; L'Année prochaine... si tout va bien (Um Casamento Muito Especial), de Jean-Loup Hubert; 1982: Tout feu, tout flame (A Vida É Uma Festa), de Jean-Paul Rappeneau; 1982: Antonieta, de Carlos Saura; The Last Horror Film, de David Winters (não creditada); 1983: Mortelle Randonnée, de Claude Miller; L'Été meurtrier (O Verão Assassino), de Jean Becker; 1984: Pull marine (curta-metragem); 1985: Subway (Subterrâneo), de Luc Besson; 1986: T'as de beaux escaliers, tu sais, de Agnès Varda (curta-metragem); 1987: Ishtar (Ishtar), de Elaine May; 1988: Camille Claudel (A Paixão de Camille Claudel), de Bruno Nuytten; 1989: L'Après-Octobre, de Merzak Allouache (documentário); 1990: Lung Ta: les Cavaliers du vent, de Marie-Jaoul de Poncheville (narração); 1993: Toxic Affair, de Philomène Esposito; 1994: La Reine Margot (A Raínha Margot), de Patrice Chéreau; 1996: Diabolique (Diabólica), de Jeremiah S. Chechik; 1998: Paparazzi, de Alain Berbérian; 1999: Bonne Nuit (TV); 2002: La Repentie, de Laetitia Masson; 2002: Adolphe, de Benoît Jacquot; 2003: Bon Voyage (Boa Viagem), de Jean-Paul Rappeneau; 2003: Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran, de François Dupeyron; Figaro (TV); 2009: La Journée de la jupe (O Dia da Saia), de Jean-Paul Lilienfeld (TV); 2010: Mammuth, de Benoît Delépine e Gustave de Kerver; Guibert cinéma, de Anthony Doncque (documentário - narração);Raiponce, de Nathan Greno e Byron Howard (voz); 2011: De force, de Frank Henry; Aïcha (TV); 2012: David et Madame Hansen, de Alexandre Astier; 2013: Ishkq in Paris, de Prem Son; 2014: Sous les jupes des filles, de Audrey Dana;

No teatro: Na Comédie-Française: 1973: L'École des femmes, de Molière, encenação: Jean-Paul Roussillon; L'Avare, de Molière, encenação: Jean-Paul Roussillon; Port-Royal, de Henry de Montherlant, encenação: Jean Meyer; 1974: Ondine, de Jean Giraudoux, encenação: Raymond Rouleau; La Maison de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, encenação: Robert Hossein;  (reposição no Théâtre de l'Odéon);

Fora da Comédie-Française: 1972: La Maison de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, encenação: Robert Hossein, Maison de la Culture de Reims; 1983: Mademoiselle Julie, de August Strindberg, encenação: Jean-Paul Roussillon eis Andréas Voutsinas, Théâtre Édouard VII; 2000: La Dame aux camélias, de Alexandre Dumas e René de Ceccatty, encenação: Alfredo Arias, Théâtre Marigny; 2006: La Dernière Nuit pour Marie Stuart, de Wolfgang Hildesheimer, encenação: Didier Long, Théâtre Marigny; 2014-2015: Kinship, de Carey Perloff, encenação: Dominique Borg, Théâtre de Paris. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

22 DE SETEMBRO DE 2015


O PORTEIRO DA NOITE (1973)

“O Porteiro da Noite”, da bastante irregular cineasta italiana Liliana Cavani, é, no mínimo, um projecto provocador, inquietante, resvalando por entre ambientes sórdidos, recordações malsãs, ambiguidades amorosas e equívocas personagens. Este é, todavia, estilisticamente, um dos seus filmes mais conseguidos, não tanto pela cuidada e eficaz “mise-en-scène” que tenta reconstituir, de forma naturalista, um tempo histórico, mas sim pela sua “representação” algo estilizada, jogando mais com a memória de um tempo do que com a recuperação histórica.
Áustria, 1957, assim começa. Num pequeno hotel de Viena, Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde) é o porteiro da noite. Durante a II Guerra Mundial fora oficial da polícia nazi, e tinha como passatempo preferido registar em filme os milhares de presos que chegavam diariamente a campos de concentração, como o de Dachau. Filmava a humilhação, o desespero, a nudez, a fragilidade dos corpos e dos rostos, as lágrimas e a raiva, a angústia e o progressivo desalento, a entrega a um destino de dor. Estas sequências relembram obviamente “Peeping Tom”, de Michael Powell, uma obra de 1960, que analisa o comportamento conturbado de um “serial killer” que filmava os últimos momentos de horror das suas vítimas prestes a morrer. Curiosamente, o argumento partia de uma obra escrita por um criptógrafo que trabalhou durante a II Guerra Mundial, Leo Marks. Não será, pois, por acaso que se podem cruzar influências, elas são visíveis e declaradas.
De entre os milhares de rostos que Max registou, ele isolou o de uma mulher ainda jovem, Lucia Atherton (Charlotte Rampling). Isolou-a na câmara, isolou-a para seu prazer, manipulou-a como quis, serviu-se dela, acorrentou-a, violou-a, protegeu-a, levou-a a festas de nazis, onde Lucia aceitou o papel de nazi, progressivamente apaixonou-se por essa mulher, sua escrava. A guerra acabou, dez anos depois Lucia é mulher de um maestro de orquestra americano, que vem a Viena dirigir “A Flauta Mágica”. O casal instala-se no pequeno “Hotel da Ópera” e Lucia e Max cruzam olhares surpresos quando ela vai buscar a chave do quarto e ele lha entrega. O filme começa aí, no presente, os tempos do campo de concentração são flashbacks que um e outro recordam. As memórias são obviamente de dor, mas igualmente de prazer. Da parte de um e outro. Lucia percebe-se que retirara prazer desse tempo de cativeiro, de tortura, de escravidão. Max também apreciara esses dias de prazer violentamente roubado, de criminosos orgasmos retirados a uma vítima indefesa que, todavia, também gozava com os mesmos. Em 1973 um tal tema era não só escandaloso, como politicamente muito incorrecto.


Numa entrevista concedida aquando da estreia da obra, a cineasta explicou como lhe surgiu a ideia de rodar “O Porteiro da Noite”: enquanto recolhia material para uma película anterior (“La Donna Nella Resistenza”), descobriu dois casos curiosos que aprofundou: o de uma mulher casada que passava todos os anos duas semanas de férias em Dachau, sem saber analisar ao certo o que motivava esse regresso ao campo onde estivera internada; o de uma velha prisioneira de Auschwitz que, quando saiu em liberdade, rompera todos os laços familiares, para assumir uma vida solitária e miserável. A única resposta que dera para esta atitude foi não poder perdoar aos nazis terem-lhe feito descobrir as duas faces da natureza humana. E acrescentara: “Não pense que as vítimas são sempre inocentes”.
Sobre estes dados, Cavani concluía: “Todos temos dentro de nós algum pequeno grão do nazismo. Bem escondido. Se um governo abre as portas a essa parte obscura, se lhe dá direitos de cidadania, se a legaliza, se a monopoliza, se a utiliza... então todos os crimes se tornam possíveis. Cada um assume o seu papel: de carrasco ou de vítima. Porque o regime nazi não é obra de um milhar de loucos ou de monstros. Não é resultado de um golpe de estado. Impôs-se lentamente através de um homem com quem as pessoas se foram pouco a pouco identificando, porque se reconheceram nele. Lucia tem as mesmas razões para regressar ao seu carrasco que a mulher de Dachau para aí voltar. Porque é aí que ela se sente viva. Se reconhece. A sua natureza revelou-se durante a guerra.”
Que o fascismo e o nazismo não se impuseram e sobreviveram sem o silêncio cúmplice ou mesmo a complacência de muitos, eis uma verdade dificilmente controversa. O nazismo não foi só os SS, os generais, o exército, Hitler e os seus ministros. O nazismo vingou sobretudo quando se conseguiu instalar bem no espírito dos alemães, no seu inconsciente colectivo, como um estado de espírito, quer através de uma máquina de propaganda bem montada, quer pelas condições favoráveis que foi encontrar nesse campo de incubação que era a sociedade alemã da época. Se o alemão anónimo não se sentisse bem com o seu sonho imperialista, o nazismo nunca teria sobrevivido. Sobreviveu, pois, com a cumplicidade de muitos, que aceitaram a monstruosidade, ou que aceitaram sofrer o seu papel de vítimas. Que sofreram resignados (ou excitados até) esse papel.


Aqui entramos, no entanto, abertamente na temática proposta por Cavani em “O Porteiro da Noite”, e não se pode dizer que o façamos de ânimo leve. Impõe-se a meditação: se em Dachau houve uma Lucia (ou várias) que se “descobriram” enquanto vítimas predestinadas, nesses dias de terror, milhares de outras vítimas não tiveram sequer a oportunidade de descobrir o que quer que fosse, senão a morte e o fatídico odor das câmaras de gás. Outros ainda, aos milhões, descobriram-se, isso sim, humilhados, ofendidos, violentados e torturados, sem que vislumbrassem prazer onde quer que fosse. Apenas dor. Cavani dirá que sobre esses milhares já se fizeram muitos filmes. É possível, tem razão, mas não todos os necessários, nem os suficientes para que este “O Porteiro da Noite” tenha surgido sem provocar um certo mal-estar nesses idos de 1973.
Houve quem, de uma forma algo simplista, dissesse que “O Porteiro da Noite” era uma história de amor entre um sádico e uma masoquista, tendo Dachau por cenário e recordação. Sadomasoquismo, relação de domínio e humilhação. Reduzir, porém, o nazismo a uma abstracção freudiana pode ser perigoso, esquecendo todas as outras intervenientes de índole económica, política ou social que aqui surgem relegadas para um plano demasiado subalterno.
O filme de Cavani que tem, todavia, qualidades evidentes, sendo difícil permanecer indiferente ao clima de pesadelo que ela consegue transmitir, procura ir um pouco mais longe, e creio que com algumas décadas passadas sobre a sua estreia, poderá ser melhor analisado. O que está em causa é afinal uma história de amor, desviante, que encontrou no ambiente de um campo de concentração o húmus necessário para germinar e que, anos depois, se reproduziu num outro ambiente, é certo, mas sob as mesmas condições “climáticas”. Max e Lucia são apenas um casal onde o desejo e o amor crescem num clima a que hoje se poderá chamar de “bondage”, uma variante do sadomasoquismo, um tipo de fétiche, cuja fonte de prazer deriva de práticas que comportam a dominação, a submissão, a imobilização de parceiros, o consentimento em vários tipos de tortura, física ou psicológica, envolvendo ou não a prática de sexo com penetração.
É obvio que não é só isso que “Il Portiere di Notte” assume como história. Há algo mais, e bem definido. Max é porteiro num hotel onde se refugiam vários nazis que procuram passar despercebidos das autoridades, que tentam recolher testemunhos favoráveis, que procuram fazer desaparecer documentação e ficheiros comprometedores. Há mesmo uma condessa solitária a quem Max serve gigolôs para repastos sexuais, em noites de insónia. Há conspiração, reuniões, ajustes de contas, assassinatos, mas o que torna curioso o filme é que, a determinada altura, o que mais escandaliza naquela sociedade de criminosos foragidos é a existência de um amor, mórbido é certo, mas um amor que, como todos os amores, se torna perigoso e põe em risco a sobrevivência do grupo. Por isso este “amor louco” se torna proscrito, e tem de ser anulado. Neste aspecto, de carrasco e vítima Max e Lucia passam ambos a perseguidos e vítimas de um mundo de pós-guerra, onde se continua a não poder acreditar em ninguém, nem em nada. Num mundo que procura anular a turbulência, alterar apenas alguma coisa para que tudo permaneça incólume, o amor transgressor é uma ameaça.
De resto, a obra cria um clima opressor doentio, com algumas sequências extremamente bem logradas, como é o caso da representação de “A Flauta Mágica”, ou do “travesti” de Lúcia, vestida de SS. Excelente é ainda a representação de Dirk Bogarde, bem acompanhado por Philippe Leroy e Gabriel Ferzetti. Impossível é esquecer a presença inquietante de Charlotte Rampling, no papel que mais a catapultou para a fama e mais vincadamente terá marcado a sua carreira. Entre a inocência e a perversidade, Rampling impõe uma personagem que permanece para sempre na recordação de todos e obviamente nas páginas da História do Cinema Mundial.

O PORTEIRO DA NOITE
Título original: Il Portiere di Notte ou The Night Porter
Realização: Liliana Cavani (Itália, 1974); Argumento: Barbara Alberti, Liliana Cavani, Italo Moscati, Amedeo Pagani, Barbara Alberti, Liliana Cavani; Produção: Ea De Simone, Robert Gordon Edwards; Música: Daniele Paris; Fotografia (cor): Alfio Contini: Montagem: Franco Arcalli; Direcção artística: Nedo Azzini, Jean Marie Simon; Decoração: Osvaldo Desideri; Guarda-roupa: Piero Tosi; Maquilhagem: Iole Cecchini, Iole Cecchini, Cesare Paciotti, Euclide Santoli ; Direcção de produção: Umberto Sambuco; Assistentes de Realização: Franco Cirino, Johann Freisinger, Paola Tallarigo, Mario Garriba; Departamento de arte: Maria-Teresa Barbasso; Som: Fausto Ancillai, Eugenio Rondani, Decio Trani; Companhias de produção: Ital-Noleggio Cinematografico, Lotar Film Productions; Intérpretes: Dirk Bogarde (Maximilian Theo Aldorfer), Charlotte Rampling (Lucia Atherton), Philippe Leroy (Klaus), Gabriele Ferzetti (Hans), Giuseppe Addobbati (Stumm), Isa Miranda (Condessa Stein), Nino Bignamini (Adolph), Marino Masé  Amedeo Amodio, Piero Vida, Geoffrey Copleston, Manfred Freyberger, Ugo Cardea, Hilda Gunther, Nora Ricci, Piero Mazzinghi, Kai-Siegfried Seefeld, Luigi Antonio Guerra, Crlo Mangano, Claudio Steiner, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Monroe Stahr (DVD); Classificação etária (estreia no cinema): M/ 18 anos; DVD: M/ 18 anos; Data de estreia em Portugal: 16 de Setembro de 1976. 


CHARLOTTE RAMPLING (1946 - )
Charlotte Rampling, como actriz, deu corpo a algumas das representações mais secretas, intimistas e perturbantes da figura da mulher, durante a segunda metade do século XX e a primeira década do seguinte. “Dar corpo” é uma boa síntese para o seu trabalho de actriz, pois Charlotte Rampling, para lá da expressividade da voz, da originalidade do seu talento e de uns olhos verdes misteriosos e sensuais, é uma intérprete para quem o corpo é um instrumento de ofício não negligenciável, não por maus motivos, não pelo oportunismo do seu aproveitamento, mas por muito boas razões: Charlotte Rampling faz do seu corpo matéria interpretativa, que acompanha a subtileza da voz e a voluptuosidade da emoção.
Nasceu a 5 de Fevereiro de 1946, em Sturmer, Inglaterra, filha de um coronel que chegou a comandante da NATO e era igualmente artista plástico de certos recursos, além de atleta olímpico, vencedor da medalha de ouro, em Berlim 1936, integrando a estafeta 4x400 metros. Em virtude da vida profissional do pai, Charlotte permaneceu longas temporadas em França, onde estudou na Academia “Jeanne d'Arc pour Jeunes Filles”, em Versalhes. De regresso a Inglaterra, passou pela escola de St. Hilda's, em Bushey. Iniciou a carreira como modelo, antes de se estrear, num papel insignificante, num filme de Richard Lester “The Knack...and How to Get It” (1965). Foi, todavia, no ano seguinte que, ao lado de Lynn Redgrave, se tornou notada como protagonista de “Georgy Girl” (1966), de Sílvio Narizzano, integrando-se de certa forma no movimento de um cinema que se queria retrato da realidade social inglesa e que ficou conhecido por “free cinema”. Em 1969, pela mão de Luchino Visconti, enfrenta o seu primeiro grande desafio, no papel de Elisabeth Thallman, em “Os Malditos” (La Caduta Degli Dei).
A sua carreira ganha fôlego internacional, intercalando trabalhos em Inglaterra, EUA, França e Itália. Em “Vanishing Point”, de Richard Sarafian (1971), é uma inesquecível rapariga que pede boleia na estrada. Assume-se como incestuosa em “Addio, Fratelo Crudelle”, de Guiseppe Patron Griffi, segundo peça teatral de John Ford (1971), e é Ana Bolena, em “Henry VIII and His Six Wives”, de Waris Hussein (1972). Roda, ao lado de Sean Connery, a ficção científica “Zardoz”, de John Boorman (1973), e, em 1974, é Lúcia  Atherton, em “O Porteiro da Noite” (Il Portiere di Notte), de Liliana Cavani, talvez o seu papel mais marcante. Charlotte Rampling torna-se uma actriz inabitual, expondo sem falsos pudores a nudez do seu corpo, mas sempre ao serviço de uma história que o justifica, tornando-se igualmente a actriz certa para papéis de inconfessáveis paixões. Ela era, de certa maneira, a imagem de uma perversão controlada, por vezes fria e dominadora, outras impulsiva e arrebatadora.
Segue-se, em 1975, a “remake” de “Farewell, My Lovely”, contracenando com Robert Mitchum num policial assinado por Dick Richard, partindo de um romance de Raymond Chandler. A nova versão não é tão boa quanto o original, de 1944, assinado por Edward Dmytryk, mas o trabalho dos actores compensa. “La Chair de l'Orchidée”, de Patrice Chéreau, do mesmo ano, oferece-nos outro magnífico retrato de mulher, uma rica herdeira, mantida encerrada pelo marido numa instituição psiquiátrica para assim poder manejar livremente a sua fortuna. É outro grande romance “negro”, desta feita assinado por James Hadley Chase, que ganha no grande ecrã um novo fôlego. Ainda por esta altura, no ponto mais alto da sua carreira de vedeta internacional, roda, sob as ordens do mexicano Arturo Ripstein, “Foxtrot”, contracenando com Max von Sydow e Peter O’Toole, e do norte-americano Woody Allen, “Recordações” (Stardust Memories).
Outro momento importante da sua carreira passa-o sob a direcção de Sidney Lumet, em “The Verdict” (1982), ao lado de Paul Newman, um drama passado entre advogados e barras de tribunais. Depois suporta com brio nova provocação no filme do japonês Nagisa Oshima, “Max, My Love” (1986), onde “aceita” apaixonar-se por um chimpanzé, e em França aparece num “thriller” de mistério e violência, “On Ne Meurt Que Deux Fois”, de Jacques Deary, voltando de novo aos EUA para trabalhar sob a orientação de Alan Parker, em “Angel Heart” (1987), onde se misturam práticas de “voodoo” e ambientes de crime. No final dos anos 80, e durante toda a década de 90, continua no clima do filme policial, por exemplo, em “Paris by Night”, de David Hare (1989) e “Invasion of Privacy”, de Anthony Hickox (1996), e na comédia, casos de “Time is Money”, de Paolo Barzman (1994) ou “Asphalt Tango”, de Nae Caranfil (1997). Mas são os papéis mais conturbados que melhor se encaixam na sua personalidade, como é o caso da inquietante tia Maude, em “The Wings of the Dove”, de Iain Softley, segundo obra de Henry James, onde aparece ao lado de Helena Bonham Carter (1997).
Volta a Anton Tchekov com “The Cherry Orchard”, de Mihalis Kakogiannis (1999), e inicia o novo século com um dos seus melhores trabalhos, “Sous le Sable”, de François Ozon (2000), com quem volta a trabalhar anos depois, em ”Swimming Pool”, num papel que a fará ganhar o prémio de melhor actriz do cinema europeu, atribuído pela European Film Academy, em 2003.
Na última década tem alternado pequenos e grandes papéis onde tem gravado sempre algo da sua personalidade, muito embora a sua carreira tenha oscilado entre obras essenciais e películas de puro entretenimento e vulgar comércio. Destaquem-se “The Statement”, de Norman Jewison (2003), “Immortel Ad Vitam”, de Enki Bilal (2004), “Le Chiavi di Casa”, de Gianni Amelio (2004), “Lemming”, de Dominik Moll (2005) “Vers le Sud”, de Laurent Cantet (2005), “Basic Instinct 2”, de Michael Caton-Jones (2006), “Angel”, de François Ozon (2007), ou, mais recentemente, “Desaccord Parfait”, de Antoine de Caunes, “Caotica Ana”, de Julio Medem, “Babylon A.D.”, de Mathieu Kassovitz, “The Duchess”, de Saul Dibb (todos de 2008).
Encontra-se actualmente a rodar, ou a ultimar, vários projectos, entre os quais “The Eye of the Storm”, de Fred Schepisi, “Melancholia”, de Lars von Trier. Outros títulos onde está prevista a sua colaboração: “Kill Drug”, “Angel Makers”, “Cleanskin”, “Never Let Me Go”, “Rio Sex Comedy” ou “The Mill and the Cross”. Uma actividade transbordante. Apesar desta carreira ininterrupta no cinema, Charlotte Rampling ainda encontra tempo para outras aparições, nomeadamente no teatro e na canção, um velho sonho que lhe vem da adolescência, quando ela e a irmã Sarah cantavam em dueto em cabarets, até ao dia em que o velho coronel, seu pai, as proibiu de actuarem. Mas, muitas décadas depois, em 2002, Charlotte cumpre o sonho e lança um CD, "Comme Une Femme", com Michel Rivgauche e Jean-Pierre Stora, disco que teve grande sucesso.
No teatro estreia-se tarde, só em Setembro de 2003, com “Petits Crimes Conjugaux”, de Eric-Emmanuel Schmitt, no “Theatre Eduoard VII”, em Paris. Ao lado de Bernard Giraudeau, numa encenação de Bernard Murat. Em 26 de Maio de 2004, no mesmo teatro, lê "A Queda da Casa Usher” e “A Máscara da Morte Vermelha”, duas novelas de Edgar Allan Poe. E “Notes de Lecture”, acompanhada pela “Musique Obliqúe”, com música de Jean-Sébastien Bach e André Caplet.
Ainda nesse ano, aparece entre Junho e Setembro, no “National Theatre”, em Londres, integrando o elenco de “The False Servant” de Pierre Marivaux, numa nova versão de Martin Crimp, com encenação de Jonathan Kent. Interpreta ainda, em 2007, em França, uma encenação de “A Dança da Morte”, de August Strindberg, no “Theatre Madelaine”, em Paris, ao lado de Bernard Verley. No Festival de Teatro de Almada, 2010, Charlotte Rampling apresenta "Yourcenar/Cavafy" um recital de textos e poemas, respectivamente de Marguerite Yourcenar e Konstantin Kavafy.


Filmografia

Como actriz / Cinema: 1964: The Knack … and How to Get It (Lições de Sedução), de Richard Lester; 1965: Rotten to the Core, de John Boulting; 1966: Georgy Girl, de Silvio Narizzano; Strangers, da série de TV "Five More", de John Irvin (TV); 1967: The Long Duel (Duelo sem Tréguas), de Ken Annakin; The Superlative Seven, série de TV "The Avengers", de Sidney Hayers; The Mystery of Cader Ifan, da série de TV "Sir Arthur Conan Doyle", de Peter Sasdy; The Fantasist, da série de TV "Theatre 625", de Peter Hammond; 1968: Sequestro di Persona, de Gianfranco Mingozzi; 1969: La Caduta degli dei (Os Malditos), de Luchino Visconti; Target: Harry ou What's in It for Harry?, de Roger Corman; Three, de James Salter; 1971: Vanishing Point (Corrida Contra o Destino), de Richard C. Sarafian; The Ski Bum, de Bruce D. Clark; Henry VIII and His Six Wives, de Waris Hussein; Addio fratello crudele (Adeus, Irmão Cruel), de Giuseppe Patroni Griffi; 1972: Asylum, ou House of Crazies (Lua Vermelha), de Roy Ward Baker; Corky, de Leonard Horn; Zinotchka, de Christopher Miles (TV); 1973: Giordano Bruno (Giordano Bruno), de Giuliano Montaldo; 1974: Caravan to Vaccares (Caravana para a Aventura), de Geoffrey Reeve; Zardoz (Zardoz), de John Boorman; Il Portiere di notte (O Porteiro da Noite), de Liliana Cavani; 1975: Yuppi du (Yuppi Du), de Adriano Celentano; Foxtrot (Foxtrot), de Arturo Ripstein; Farewell, My Lovely (O Último dos Duros), de Dick Richards; La Chair de l'orchidée (A Rapariga da Orquídea), de Patrice Chéreau; 1976: Sherlock Holmes in New York (Sherlock Holmes em Nova Iorque), de Boris Sagal (TV); 1977: Un Taxi Mauve ou A Purple Taxi (Um Táxi Cor de Malva), de Yves Boisset; Orca – The Killer Whale (Orca, a Fúria dos Mares), de Michael Anderson; 1980: Stardust Memories (Recordações), de Woody Allen; 1982: The Verdict (O Veredicto), de Sidney Lumet; 1983: BBC Play of the Month (TV); 1984: Viva la vie, de Claude Lelouch; 1985: On Ne Meurt Que Deux Fois (Só se Morre Duas Vezes), de Jacques Deray; 1986: Max mon amour (Max, Meu Amor), de Nagisa Ōshima; 1987: Mascara (Máscara), de Patrick Conrad; Angel Heart (Angel Heart - Nas Portas do Inferno), de Alan Parker; 1988: Paris by Night (Uma Chamada a Meio da Noite), de David Hare; 1990: Rebus, de Massimo Guglielmi; D.O.A. (Morto à Chegada), de Rocky Morto; 1992: La femme abandonnée, de Edouard Molinaro; Hammers over the anvil, de Ann Turner; 1993: Asphalt Tango, de Nae Caranfil; 1994: Murder in mind, de Robert Bierman; Time Is Money de Paolo Barzman; 1995: Radetzkymarsch, de Axel Corti, Gernot Roll; 1996: Invasion of Privacy), de Anthony Hickox; 1997: The Wings of the Dove (As Asas do Amor), de Iain Softley; 1999: The Cherry Orchard, de Michael Cacoyannis; Signs & Wonders, de Jonathan Nossiter; 1999: Great Expectations (Grandes Esperanças), de Julian Jarrold (TV); 2000: Superstition, de Kenneth Hope; Aberdeen, de Hans Petter Moland; Sous le sable (Sob a Areia), de François Ozon; 2001: The fourth angel (O Quarto Anjo), de John Irvin; 2001: Spy Game (Jogo de Espiões), de Tony Scott; 2002: Embrassez qui vous voudrez (Amor Sem Tréguas), de Michel Blanc; 2003: I’ll sleep when I’m dead (Só a Morte me Pode Parar), de Mike Hodges; Imperium: Augustus, de Roger Young; Swimming Pool (Swimming Pool), de François Ozon; The Statement (A Declaração), de Norman Jewison; 2004: Le Chiavi di Casa (As Chaves de Casa), de Gianni Amelio; Immortal – New York 2095, de Enki Bilal; 2005: Vers le Sud (Para o Sul), de Laurent Cantet; Lemming, de Dominik Moll; 2006: Désaccord parfait (Desacordo Perfeito), de Antoine de Caunes; 2006: Basic Instinct 2 (Instinto Básico, 2), de Michael Caton-Jones; 2007: Angel (Angel - Encanto e Sedução), de François Ozon; Caótica Ana (Caótica Ana), de Julio Médem; 2008: Deception (No Limite da Ilusão), de Marcel Langenegger; Sonnet, de Boris Zabotov; Babylon A.D. (Babylon A.D), de Mathieu Kassovitz; The Duchess (A Duquesa), de Saul Dibb; 2009: Le bal des actrices, de Maïwenn Le Besco; Quelque chose à te dire, de Cecile Telerman; Boogie Woogie, de Duncan Ward; La femme invisible (d'après une histoire vraie), de Agathe Teyssier; Life During Wartime (A Vida em Tempo de Guerra), de Todd Solondz; 2010: StreetDance 3D, de Max Giwa, Dania Pasquini; Never Let Me Go (Nunca Me Deixes), de Mark Romanek; Le grand restaurante, de Gérard Pullicino (TV); Rio Sex Comedy, de Jonathan Nossiter; Collection Fred Vargas (TV); 2011: Melancholia (Melancolia), de Lars von Trier; Młyn i krzyż (O Moinho e a Cruz), de Lech Majewski; 2012: I, Anna, de Barnaby Southcombe; The Eye of the Storm (O Coração da Tempestade), de Fred Schepisi; Cleanskin, de Hadi Hajaig; Ghost Recon: Alpha , de François Alaux, Hervé de Crécy; Restless, de Edward Hall; Tutto parla di te, de Alina Marazzi; 2013: Night Train to Lisbon (O Comboio Nocturno pra Lisboa), de Bille August; Jeune et Jolie (Jovem e Bela), de François Ozon; Dexter (TV); The Sea, de Stephen Brown; 2014; Le dos rouge, de Antoine Barraud; The Forbidden Room, de Guy Maddin, Evan Johnson; 2015: 45 Years, de Andrew Haigh; Broadchurch, de Chris Chibnall (TV); London Spy (TV); Händel, de Franco Battiato; The Whale, de Andrea Pallaoro; Seances, de Guy Maddin.